A INOCNCIA E O PECADO

GRAHAM GREENE




Henry GRAHAM GREENE nasceu em Berkhamstead, no Hertfordshire, a 2de Outubro de 1904. Completados os estudos no colgio local, de que seu pai era director, passa
a frequentar a Universidade de Oxford. Em 1926 converte-se ao catolicismo, que, segundo afirma, lhe restitui a infncia perdida, sem que o afaste, porm, do seu 
mundo de contradies e abismos. Nesse mesmo ano inicia a sua actividade jornalstica como secretrio de direco do Times, onde se mantm at 1929, colaborando 
mais tarde no Spectator. Director literrio em vrios jornais e editoras, de 1935 a 1939 dedica-se  crtica de cinema. Data de 1929 o seu primeiro romance, O Outro 
Eu (The Man Within); em 1932 publica Oriente-Expresso, e em 1935 um livro de contos, The Basement Room, e uma novela de "corrente de conscincia". Navegamos no Mesmo 
Barco (England Made Me). Data desse ano uma viagem  Libria, experincia que lhe servir para a escrita de Jornada sem Mapa. Em 1938  enviado ao Mxico, como reprter, 
e de 1941 a 1943 vive na Serra Leoa, integrado nos servios secretos do Foreign Office. Entretanto, publicara Pago para Matar (1936), Brighton Rock (1938, uma das 
suas obras-mestras, aqui apresentada com o ttulo de A Inocncia e o Pecado e cuja aco se desenrola no arrabalde de uma cidade britnica), The Lawless Roads (1939, 
que documenta a vigorosa perseguio religiosa de que  testemunha por ocasio da sua ida ao Mxico), O Poder e a Glria (1940, outro dos seus romances mais notveis, 
tambm passado no Mxico). O N do Problema data de 1948, O Terceiro Homem e O dolo Cado, de 1950, O Fim da Aventura (Prmio de Literatura Catlica), de 1952, 
O Americano Tranquilo, de 1955.  vasta obra romanesca de Graham Greene acrescentam-se ainda O Nosso Agente em Havana (1959) e Os Comediantes (1966), que se desenrola 
no Haiti de Pap Doc. Mais recentemente, publicou um livro de novelas, Empresta-me o Seu Marido. (1967) e Travels with my Aunt. Foi rpido o xito alcanado pela 
produo literria de Graham Greene. Os seus romances, saturados de emoo e mistrio, e em que o autor recorre muitas vezes a intrigas de tipo policial, so o campo 
de batalha em que os protagonistas vivem o dilema do bem e do mal, para alm das aparncias, em lutas repassadas de medo e angstia. Talvez por isso mesmo as personagens 
de Greene surjam ao leitor como profundamente humanas; e ser talvez porque lhes quer profundamente que o prprio Greene se no decide a justific-las, como to-pouco 
as condena. Como crtico, Graham Greene publicou, em 1942, um volume sobre British Dramatists; da sua produo teatral fazem parte A Casa dos Vivos (The Living-room, 
1953, onde trata o tema da descoberta da graa pelo pecado), O Viveiro e O Amante Complacente (1959) e Carving a Statue (1964).

Livros do Brasil e Editorial Verbo. 1971

Traduo de
Leonel Vallandro
Composto e impresso por Gris, Impressores
Lisboa
Venda interdita na Repblica Federativa do Brasil

GRAHAM GREENE
A INOCNCIA E O PECADO

EDITORIAL VERBO

PRIMEIRA PARTE

1

No havia ainda trs horas que Hale estava em Brighton quando compreendeu que pretendiam assassin-lo. Com os dedos sujos de tinta, as unhas rodas, o jeito nervoso 
e escarninho, sentia-se logo que era ali um estranho - estranho quele sol dos primeiros dias de Vero, ao vento fresco que vinha do mar,  multido de dia feriado 
que chegava de comboio todos os cinco minutos, se escoava pela Queen's Rod, de p na plataforma dos elctricos, descia estonteada para o ar puro. A nova pintura 
prateada faiscava nos molhes, as casas de cor creme fugiam para oeste como uma plida aguarela da poca vitoriana; uma corrida de autos liliputianos, uma banda que 
tocava, jardins floridos  beira do passeio, no cu um avio que anunciava um medicamento qualquer por entre nuvens plidas que se dissipavam.
Parecera a Hale que seria muito fcil passar despercebido em Brighton, entre as cinquenta mil pessoas vindas da capital e, durante certo tempo, gozou o dia magnfico, 
tomando gins com gua tnica sempre que o seu programa o permitia. Pois que ele tinha de aderir estritamente a um programa: das dez s doze, o Aqurio e o Molhe 
do Palcio; das doze  uma, o passeio  beira-mar entre o Navio Velho e o Molhe de Oeste; voltaria ento para almoar, entre a uma e as duas horas, no restaurante 
que lhe aprouvesse, nas imediaes de Castle Square, aps o que teria de percorrer toda a avenida at o Molhe de Oeste, seguindo da para a estao, pelas ruas de 
Hove. Tais eram os limites do seu absurdo e muito anunciado itinerrio.
Anunciado em todos os placardss do Messenger: "Kolley Kibber estar hoje em Brighton." Levava no bolso um mao de cartes para distribuir em diversos locais escondidos 
ao longo do caminho. Aqueles que os encontrassem receberiam dez xelins do Messenger, mas o prmio maior estava reservado a quem se dirigisse a Hale com as palavras 
convencionadas, levando na mo um exemplar do jornal: "O senhor  Mister Kolley Kibber. Reclamo o prmio do Daily Messenger."

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O trabalho de Hale consistia em fazer estas rondas, at que um desses reivindicadores o libertasse, em todas as praias, uma por uma: ontem Southend, hoje Brighton, 
amanh...
Engoliu  pressa o seu gin tnico ao ouvir o relgio dar as onze e afastou-se de Castle Square. Kolley Kibber fazia sempre jogo honesto, usava sempre um chapu igual 
ao da fotografia publicada no Messenger, era sempre pontual. Na vspera, em Southend, ningum tinha reclamado o prmio: o jornal gostava de poupar os seus guinus 
de vez em quando, mas no muito amide. Hoje era dia em que ele devia ser reconhecido, e era tambm esse o seu desejo. Havia motivos para no se sentir muito seguro 
em Brighton, mesmo no meio daquela multido de Pentecostes.
Encostou-se s grades, prximo do Molhe do Palcio, e mostrou o rosto s pessoas que desfilavam interminavelmente  sua frente, serpeando como um fio de arame torcido, 
duas a duas, e todas com um ar de alegria comedida e resoluta. Tinham viajado de p, desde Londres, em vages atochados de passageiros, seriam obrigados a fazer 
fila para almoar e,  meia-noite, semiadormecidos, sacudidos pelos solavancos do comboio, voltariam para as ruas estreitas, os bares fechados e a fatigante caminhada 
at suas casas. Com infinito trabalho e infinita pacincia, extraam do longo feriado o seu gro de prazer; este sol, esta msica, o barulho dos autos liliputianos, 
o comboio fantasma que passava por um esqueleto de dentes arreganhados sob o passeio do Aqurio, os paus de caramelo de Brighton, os gorros de marinheiro feitos 
de papel.
Ningum prestava a menor ateno a Hale. Ningum parecia trazer consigo um exemplar do Messenger. Depositou cuidadosamente um dos cartes em cima de um cestinho 
e seguiu adiante, com as suas unhas rodas e os seus dedos sujos de tinta - sozinho. S comeou a sentir a sua solido depois do terceiro gin: antes desprezava a 
turba, mas agora sentia-se seu igual. Vinha das mesmas ruas que toda essa gente, mas o seu salrio mais elevado condenava-o a fingir que desejava outras coisas; 
entretanto, aqueles cais, aqueles cinetoscpios no cessavam de atra-lo. Queria voltar atrs, mas era obrigado a carregar o seu sorriso escarninho ao longo da praia, 
como um emblema de solido. Algures, uma mulher invisvel cantava: "Quando vim de Brighton, de comboio." Era uma

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voz rica de cerveja, uma voz que vinha de um bar. Hale entrou na sala reservada e contemplou os macios encantos da mulher atravs de dois balces e uma divisria 
de vidro.
No era velha; devia andar por volta dos quarenta e estava apenas um pouco embriagada, de uma embriaguez amvel e acomodatcia. Ao olhar para ela pensava-se em crianas 
de peito, mas, se as tivera, no deixara que elas lhe arruinassem o fsico. Cuidava-se. Via-se isto no seu bton, no ar de segurana do seu vasto corpo. Era bem 
fornida de carnes, mas no desleixada. Conservava a linha, para aqueles que apreciavam a linha.
Hale estava includo nestes. Pequeno como era, observava-a com inveja e cobia por cima dos copos vazios postos de borco na selha de chumbo, por cima das canecas 
de cerveja, por entre os ombros dos dois criados. "Canta outra, Lili", pediu um deles, e ela comeou: "Certa noite, numa rua, Lord Rothschild disse-me:..." Nunca 
ia alm de alguns versos. Gostava de se rir muito para fazer valer a voz, mas tinha uma memria inesgotvel para as baladas. Todas eram desconhecidas de Hale, que 
a observava cheio de nostalgia, com o copo nos lbios: a mulher tinha atacado uma nova cano, que devia datar do tempo da febre do ouro australiano.
- Fred - disse uma voz atrs dele. - Fred!
O gin esparranhou-se do copo de Hale para o balco. Um rapazola de cerca de dezassete anos observava-o da porta - fatiota surrada mas elegante, o pano desgastado 
pelo uso, cara faminta em que se lia uma espcie de orgulho estranho e horrvel.
- A quem est voc a chamar Fred? - perguntou Hale. - Eu no sou Fred.
- No tem importncia - replicou o Rapaz, voltando-se para a porta e continuando a observ-lo por cima do seu ombro estreito.
- Aonde  que voc vai?
- Tenho de avisar os seus amigos - declarou o Rapaz. 
Estavam ss na sala reservada, com excepo de um velho moo de recados que dormia diante de uma caneca de cerveja.
- Escute - convidou Hale -, venha tomar qualquer coisa. Sente-se aqui e tome qualquer coisa.


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- Tenho de ir andando - insistiu o Rapaz. - Voc sabe que eu no bebo, Fred.  muito esquisito, no ?
- Uma bebida s no tem importncia. Tome um refresco! 
- Tem de ser depressa - respondeu o Rapaz.
No tirava os olhos de Hale, examinando-o com ateno e assombro: tal devia ser o olhar de um caador que seguisse na selva algum animal quase fabuloso - o leo 
malhado ou o elefante ano - antes de abat-lo.
- Um sumo de grape-fruit - disse o Rapaz.
- Continua, Lili - imploravam as vozes l dentro. - Canta outra, Lili.
Pela primeira vez, o Rapaz desviou os olhos de Hale e contemplou, atravs da divisria de vidro, os grandes seios e os encantos macios da mulher.
- Um whisky duplo e um sumo de grape-fruit - pediu Hale. Levou-os para uma mesa, mas o Rapaz no o seguiu. Observava a mulher com uma expresso de furioso desagrado. 
Hale teve a impresso de que o seu dio se afrouxara momentaneamente como um par de algemas, para prender outros pulsos. Tentou gracejar: - Uma alma jovial.
- Alma! - exclamou o Rapaz. - No h motivo para falar em almas.
E tornou a assestar o seu dio sobre Hale, bebendo de um s trago o sumo de grape-fruit.
- Estou aqui apenas a trabalhar - explicou Hale. - S por um dia. Sou Kolley Kibber.
- Voc  Fred - volveu o Rapaz.
- Est bem, sou Fred. Mas tenho aqui no bolso um carto que lhe render dez xelins.
- Conheo essa histria dos cartes - replicou o outro. - Tinha a pele lisa, coberta de uma levssima penugem, e os seus olhos cinzentos eram desapiedados como os 
de um velho em quem tivessem morrido todos os sentimentos humanos. - Estivemos hoje todos a ler essa histria no jornal. - E, de repente, teve um riso espirrado, 
arreganhando os dentes, como se acabasse de perceber a inteno oculta de uma anedota suja.
- Voc pode ficar com um - atalhou Hale. - Olhe, tome este Messenger. Leia o que diz aqui. Voc pode ganhar o prmio todo. Dez guinus. Basta mandar este cupo ao 
Messenger.

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- Eles no lhe confiam o dinheiro - observou o Rapaz e, na outra sala, Lili comeou a cantar: "No meio do povo nos vimos, pensei que ele me fugisse..." - Irra! - 
bradou o Rapaz. - No h ningum que tape a boca dessa cadela?
- Vou dar-lhe a si uma nota de cinco - insistiu Hale. - No tenho mais nada comigo. S isso e um bilhete.
- No vai precisar do seu bilhete - tornou o Rapaz. "Usava o vestido de noiva e estava mais branca do que ele..."
O Rapaz levantou-se furioso e, cedendo a um pequeno acesso de dio (dio  cantiga ou ao homem?), atirou ao cho o copo vazio.
- Este senhor paga - disse ele ao homem do balco, e saiu rapidamente pela porta da sala reservada.
Foi ento que Hale compreendeu que queriam mat-lo.
Vinha florida qual noiva
Na outra vez que a encontrei.
Estava mais pensativa
Que no dia em que a deixei.
O moo de recados continuava a dormir e Hale ps-se a observar a mulher, da sala deserta. Os grandes seios esticavam o tnue e vulgar vestido de Vero e ele pensava: 
"Tenho de fugir daqui, tenho de fugir", olhando triste e desesperado para ela, como se contemplasse a prpria vida, naquela sala de bar. Mas no podia fugir; tinha 
de cumprir a sua tarefa. Eram muito exigentes no Messenger. Trabalhava para um bom jornal. Uma chamazinha de orgulho se acendeu no corao de Hale, ao pensar na 
longa odisseia do seu passado: vendedor de jornais nas esquinas, depois reprter com um salrio de trinta xelins por semana num jornalzinho de provncia, cuja tiragem 
era de dez mil exemplares, a seguir os cinco anos passados em Sheffield. "Diabos me levem - disse para consigo, com a coragem temporria de um segundo whisky - se 
me vou deixar assustar por essa malta a ponto de estragar o meu emprego!" Que poderiam fazer enquanto ele andasse no meio do povo? No teriam o topete de mat-lo 
em plena luz do dia, diante

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de testemunhas. No corria perigo entre aqueles cinquenta mil forasteiros.
- To sozinho? Venha para aqui!
S compreendeu que a mulher se dirigia a si, quando viu todos os rostos da sala pblica do bar sorrirem na sua direco. De repente ocorreu-lhe que seria muito fcil 
 turba apanh-lo, tendo, como tinha, aquele homem adormecido por nica companhia. No necessitava de sair  rua para ir  outra sala. Bastava-lhe descrever um semicrculo 
atravs do salo e do compartimento "S para senhoras".
- Que toma? - perguntou, aproximando-se da mulherona com um sentimento de ansiosa gratido. "Ela pode salvar-me a vida - pensou -, se consentir que eu no a deixe."
- Um clice de porto - disse a mulher.
- Um porto - pediu Hale.
- No bebe tambm?
- No, j bebi o suficiente. No quero ficar com sono.
- Por que no... num dia de festa? Eu pago-lhe uma cerveja.
- No gosto de cerveja. - Consultou o relgio. Era uma hora. O seu programa preocupava-o. Tinha de deixar cartes em todas as seces. Era assim que o jornal verificava 
se ele seguira  risca o itinerrio. - Venha almoar comigo - implorou  mulher.
- Vejam isto - gritou ela aos amigos. E o seu riso clido e avinhado ressoou por todas as salas. - Est a fazer-se atrevido, hem? No tenho confiana.
- No vs com ele, Lili - aconselharam-lhe os outros. -  perigoso.
- No tenho confiana - repetiu ela, piscando um olho meigo e amigo, que lembrava o de uma vaca.
Havia um meio de fazer com que ela aceitasse o convite. Hale conhecera outrora esse meio. Se ganhasse trinta xelins por semana sentir-se-ia  vontade com ela. Teria 
na ponta da lngua a expresso justa, o gracejo apropriado, para arrebat-la aos seus amigos, acamaradar com ela num snack-bar. Mas tinha perdido o hbito; no fazia 
seno repetir: "Venha almoar comigo."
- Aonde vamos, Sir Horace? Ao Navio Velho?
- Sim, onde quiser. Ao Navio Velho.

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- Escutem esta - gritou a mulher aos ocupantes de todas as salas, ao velho moo de recados que continuava a dormir na sala reservada e  meia dzia dos seus sequazes. 
- Este cavalheiro convidou-me para ir ao Navio Velho - disse, com uma voz que arremedava a da gente fina. - Amanh ser com o maior prazer, mas hoje j tenho um 
compromisso para o Co Sarnento.
Hale virou-se, desesperanado, para a porta. O Rapaz, pensou, ainda no tivera tempo de avisar os outros. Podia almoar sem perigo. A hora que se seguiria ao almoo 
era a que mais receava.
- Est a sentir-se mal disposto? - perguntou a mulher. Os olhos de Hale pousaram-se nos grandes seios. Aquela mulher era para ele como a noite, um refgio, a compreenso, 
o bom senso. Sentiu uma aguilhoada no corao, ao contempl-la. Mas no seu corpozinho cnico, sujo de tinta, o orgulho tornou a levantar a cabea, zombando dele 
com "o retorno ao ventre materno... uma me para ti... o fim de todas as responsabilidades".
- No - afirmou -, no estou mal disposto. Estou bem.
- Tem um ar esquisito - volveu ela num tom afectuoso e preocupado.
- Estou bem. Tenho fome, nada mais.
- Por que no come qualquer coisa aqui? - alvitrou a mulher. - Podes arranjar-lhe uma sanduche de presunto, no podes, Bell?
O homem que atendia o balco respondeu que sim, que podia preparar uma sanduche de presunto.
- No - respondeu Hale -, tenho de ir andando.
... Ir andando. Passeio fora, misturando-se to depressa quanto possvel  corrente humana, relanceando os olhos  direita,  esquerda e por cima de cada ombro alternadamente. 
Embora no visse uma cara conhecida em parte alguma, no se sentia aliviado. Julgara que podia perder-se sem perigo no meio da multido, mas agora o povo que o rodeava 
parecia-lhe uma floresta espessa, onde o indgena podia dispor a sua armadilha envenenada. No via para alm do homem vestido de flanela que caminhava  sua frente 
e, quando olhava para trs, encontrava uma blusa de vivo escarlate. Trs senhoras de idade

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passaram numa carruagem aberta, puxada por cavalos. O rudo macio dos cascos dissipou-se numa paz profunda. Era assim que certa gente ainda vivia.
Hale atravessou a avenida, afastando-se do passeio. Ali havia menos gente: podia andar mais depressa e ir mais longe. Estavam a tomar cocktails no terrao do Grande 
Hotel, onde uma delicada imitao de toldo vitoriano fazia tremular ao sol as suas fitas e flores. Um homem com ar de estadista aposentado, cabelos cor de prata, 
pele empoada e lunetas antiquadas, deixava correr a vida naturalmente, com dignidade,  distncia, sentado diante de um xerez. Duas judias desceram a ampla escadaria 
do Cosmopolitan, cabelos de um bronze-claro, casacos de arminho, com as cabeas muito juntas, como papagaios, trocando confidncias metlicas. "Minha querida - disse 
eu com a maior frieza -, se ainda no conheces a permanente Del Roy, s te posso dizer...", e gesticulavam uma para a outra, com as unhas pontiagudas e brilhantes, 
cacarejando. Pela primeira vez em cinco anos, Kolley Kibber estava atrasado no seu programa. Ao p da escadaria do Cosmopolitan, na sombra do enorme e excntrico 
edifcio, lembrou-se de que o bando comprara o seu jornal. No precisara de vigiar o bar: sabia onde esper-lo.
Um polcia montado subiu a avenida. O cavalo castanho, tratado com amor, pisava com delicadeza no macadame ardente, como um desses brinquedos caros que os milionrios 
compram para os filhos. Admirava-se o acabamento, o brilho fundo dos couros que lembravam o verniz de uma velha mesa de mogno, o cintilante distintivo de prata; 
no ocorreria a ningum que o brinquedo tinha uma utilidade. No ocorreu tambm a Hale enquanto via passar o polcia; no podia apelar para ele. Um homem estava 
junto ao passeio, a vender coisas expostas num tabuleiro. Tinha perdido a metade do corpo: perna, brao e ombro - e o belo cavalo, ao passar, desviou a cabea delicadamente, 
como uma velha duquesa.
- Atacadores para os sapatos - disse o homem tristemente para Hale -, fsforos. - Hale no o ouviu. - Lminas de barbear.
Hale passou e estas ltimas palavras engastaram-se-lhe firmemente no crebro: a ideia da ferida fina e da dor aguda. Era assim que tinham matado Kite.

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Vinte metros adiante avistou Cubitt, um homenzarro de cabelos cortados  escovinha e rosto sardento. Ele viu Hale mas no deu mostras de reconhec-lo, negligentemente 
encostado a um marco do correio, observando-o. Um carteiro veio recolher a correspondncia e Cubitt mudou de posio. Hale viu-o trocar um gracejo com o carteiro 
e este riu, enchendo o saco. Cubitt, porm, no voltou um s instante o rosto para o outro, com o olhar fixo na direco de Hale. Hale sabia exactamente o que ele 
ia fazer. Conhecia-o bem. Cubitt era vagaroso e tinha modos amveis. Pegaria simplesmente no brao de Hale e conduzi-lo-ia para o lugar que queria.
Mas o velho e encarniado orgulho persistia - um orgulho intelectual. Estava transido de medo, mas dizia de si para si: "No vou morrer!" Fez um gracejo oco: "No 
sou assunto para a primeira pgina." Isto era real: as duas judias a entrar num txi, a banda a tocar no Molhe do Palcio, a palavra "tablettes" desfazendo-se em 
fumo branco no cu puro e plido - e no o ruivo Cubitt  espera junto  caixa do correio. Hale tornou a dar a volta, atravessou a rua e caminhou apressadamente 
na direco do Molhe de Oeste. No fugia: tinha um plano.
Tinha, apenas, de arranjar uma rapariga, pensava ele. Devia haver centenas, nessa segunda-feira de Pentecostes,  espera de que algum as viesse convidar para um 
drink, levando-as depois a danar no Sherry e finalmente para casa, embriagadas e ternas, num compartimento de vago. Esse era o melhor meio: levar consigo, a toda 
a parte, uma testemunha. De nada serviria, ainda que o seu orgulho lho permitisse, ir para a estao. Eles sem dvida estariam  espreita e era fcil matar um homem 
solitrio numa estao de caminho de ferro; bastava formar um grupo cerrado  porta de um vago ou liquidarem-no no atropelo junto ao torniquete de passagem para 
a plataforma. Fora numa estao que o bando de Colleoni tinha matado Kite. Ao longo de todo o passeio as raparigas estavam sentadas em cadeiras de lona, pelo aluguer 
das quais se pagavam dois pence. Todas aquelas que no tinham trazido consigo os seus namorados estavam  espera de um convite. Eram empregadas de balco, de escritrio 
ou cabeleireiras - estas ltimas distinguiam-se pelas suas novas e ousadas ondulaes permanentes, pelas unhas primorosamente manicuradas. No dia anterior haviam 
ficado nos seus institutos de beleza depois de

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estes fecharem, preparando-se umas s outras at a meia-noite. Agora reclinavam-se ao sol, sonolentas e lustrosas.
Diante das cadeiras os homens passeavam aos dois e a trs, envergando pela primeira vez os seus trajos de Vero, calas gris-perle vincadas como facas e camisas 
elegantes. Pareciam no se interessar nada pelas pequenas e, entre eles, ia Hale com a sua fatiota surrada, a gravata de cordo, a camisa listada e as manchas de 
tinta nos dedos, dez anos mais velho e ansioso por arranjar uma garota. Oferecia-lhes cigarros e elas encaravam-no com um ar de duquesas, os olhos arregalados e 
frios: "Obrigada, no fumo." E, sem olhar para trs, ele sabia que Cubitt o seguia a vinte metros de distncia.
Essa conscincia fazia com que ele assumisse maneiras estranhas. No podia esconder o seu desespero. Ouvia as raparigas rir-lhe nas costas depois que se afastava, 
achando graa ao seu trajo e ao seu modo de falar. Hale era um homem de profunda humildade. S sentia orgulho da sua profisso. Diante de um espelho, detestava-se 
- as pernas ossudas, o peito estreito -, e vestia negligentemente como sinal de que no esperava despertar interesse em mulher nenhuma. Desistiu das bonitas, das 
elegantes, e olhou desesperado ao longo da fila de cadeiras, procurando uma bastante feia para aceitar com agrado as suas atenes.
"Com esta posso falar", pensou ele, e sorriu com ansiosa esperana para uma criatura gorda e cheia de manchas na pele, cujos ps mal tocavam no cho. Sentou-se ao 
lado dela, numa cadeira vazia, e olhou o mar longnquo e desprezado a lamber os pilares do Molhe Oeste.
- Um cigarro - ofereceu da a instantes.
- Com prazer - disse a rapariga; e essas palavras foram doces aos seus ouvidos como a suspenso de uma sentena.
-  agradvel estar aqui - murmurou a rapariga gorda.
- Vem da cidade?
- Venho.
- Bem - disse Hale -, no vai passar o dia inteiro sentada a, pois no?
- Ah! No sei...
- Estou a pensar em ir comer alguma coisa e ns podamos...
- "Podamos!" - volveu a rapariga -, o senhor  fresco!

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- Bem, no vai passar todo o dia a sentada?
- No digo que v, mas isso no quer dizer que v consigo.
- Venha tomar uma bebida e depois conversamos.
- Pois sim - aceitou ela, abrindo uma caixa de p e cobrindo as marcas do rosto com uma camada mais espessa.
- Ento vamos - disse Hale.
- Tem um amigo?
- Estou completamente s.
- Nesse caso, no posso - retorquiu a rapariga-,  impossvel. No posso deixar a minha amiga sozinha.
S ento Hale notou que, na cadeira seguinte, uma criatura plida e exangue aguardava sofregamente a sua resposta.
- Mas voc tem vontade de ir - implorou Hale.
- Sim, claro, mas no  possvel.
- A sua amiga no se importa, ela h-de encontrar algum.
- No, no. No posso deix-la s.
A rapariga gorda olhava firme e impassvel para o mar.
- No  verdade que no se importa?
Hale inclinou-se para a frente suplicou  imagem exangue, que guinchou em resposta um riso embaraado.
- Ela no conhece ningum - explicou a gorda.
- H-de encontrar algum.
- Achas que sim, Delia?
A rapariga gorda encostou a cabea  da sua companheira e as duas conferenciaram. Delia soltava um guincho de quando em quando.
- Ento, est bem? Vamos? - insistiu Hale.
- O senhor no poderia encontrar um amigo? - No conheo ningum aqui. Venha. Vou lev-la a almoar a qualquer parte. S quero - proferiu ele sorrindo miseramente 
- que esteja ao meu lado.
- No - replicou a rapariga gorda -, sem a minha amiga no  possvel.
- Bem, ento venham as duas.
- No seria muito divertido para Delia - ponderou a gorda.
Uma voz de rapaz interrompeu-os: "Encontrei-o de novo, Fred!" Hale ergueu o olhar para os olhos cinzentos e inumanos do adolescente.

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- Esta  boa! - ganiu a rapariga gorda. - Ele a dizer-nos que no tinha um amigo!
- No se pode acreditar no que diz o Fred - respondeu a voz.
- Agora sim, temos dois pares. Esta  a minha amiga Delia, eu chamo-me Molly.
- Muito prazer em conhecer - disse o Rapaz. - Aonde  que vamos, Fred?
- Estou cheia de fome - declarou a gorda. - Aposto que tambm tens fome, Delia?
Delia torceu-se, soltando um guincho.
- Conheo um lugar ptimo - alvitrou o Rapaz.
- Haver l sorvetes de fruta?
- De primeira - assegurou ele na sua voz sria, sem inflexo.
- Isso  que eu quero. Delia prefere os brioches.
- Vamos indo, Fred - ordenou o Rapaz.
Hale levantou-se. As mos tremiam-lhe. Isto, agora, era real: o Rapaz, a navalhada, a vida esvaindo-se com o sangue, dolorosamente; no as cadeiras de lona, as ondulaes 
permanentes, os autos liliputianos a roncar na curva do Molhe do Palcio. O cho vacilava-lhe debaixo dos ps, e s o pensamento do lugar para onde poderiam lev-lo 
enquanto estivesse inconsciente impediu que ele desfalecesse. Mesmo assim o amor-prprio, o instinto de evitar as cenas no perderam a sua fora avassaladora. O 
embarao foi mais poderoso do que o terror, impedindo que ele gritasse alto o seu medo e obrigando-o at a seguir em silncio. Se o Rapaz no tivesse tornado a falar, 
t-lo-ia feito.
-  melhor irmos andando, Fred.
- No - replicou Hale. - Eu no vou. No o conheo. No me chamo Fred. Nunca o vi mais gordo.  um atrevido.
E afastou-se rapidamente, com a cabea baixa, j sem esperana alguma (j no havia tempo), ansioso apenas de continuar a caminhar  luz do sol, at que ouviu, ao 
longe, uma voz avinhada de mulher entoar uma cano sobre noivas e ramos de flores, lrios e mortalhas - uma balada vitoriana. Avanou na direco dessa voz, como 
algum que estivesse largo tempo perdido no deserto e se dirige para o claro de uma fogueira.

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- Olha quem vem a! - exclamou ela. - O solitrio! - E Hale notou, com assombro, que ela estava sozinha no meio de uma multido de cadeiras vazias. - Eles foram 
para o salo dos cavalheiros - explicou Lili.
- Posso sentar-me? - perguntou Hale, cheio de alvio, com a voz emocionada.
- Se tem dois pence consigo... Eu no tenho. - E riu-se, com os grandes seios quase a fazerem estalar o vestido. - Algum me bifou a bolsa. Fiquei sem vintm. - 
Ele olhava para ela com espanto. - Oh! O mais engraado no  isso. O mais engraado so as cartas. O tipo vai ler todas as cartas de Tom. E se eram apaixonadas! 
Tom vai ficar fulo quando souber.
- Voc vai precisar de dinheiro - disse Hale.
- Ora, no me inquieto com isso. Algum sujeito amvel me emprestar dez xelins... quando sarem do salo.
- So seus amigos? - perguntou Hale.
- Encontrei-os no bar.
- E pensa que eles vo voltar?
- Cus! - exclamou ela -, acha ento que... - Correu o olhar ao longo do passeio, depois fitou-o em Hale e ps-se a rir de novo. - Tem razo! Levaram-me bem. Mas 
s dez xelins... e as cartas de Tom.
- Quer almoar comigo, agora? - convidou Hale.
- Comi qualquer coisa no bar. Foram eles que pagaram, de modo que sempre aproveitei um pouco os meus dez xelins.
- Venha comer mais alguma coisa.
- No, no me apetece mais nada - agradeceu ela; e encostando-se muito na cadeira de lona, com a saia repuxada at o joelho, exibindo as pernas bonitas, acrescentou 
com um ar voluptuoso: - Que dia! - e os seus olhos cintilaram, respondendo ao fulgor do mar. - No faz mal, eles ainda se vo arrepender. Eu sou teimosa quando se 
trata de defender o direito.
- Chama-se Lili? - quis saber Hale, que j no avistava o Rapaz. Este desaparecera, e Cubitt tambm. No havia ningum conhecido at onde alcanavam os seus olhos.
- Esse foi o nome que eles me deram. Eu chamo-me Ida. - O velho e vulgarizado nome grego recobrou um pouco de dignidade. - Voc parece abatido. Devia ir almoar.

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- No vou, se voc no for comigo. S desejo estar aqui ao seu lado.
- Oh! Que lindas falas! S gostava que Tom o ouvisse. Ele escreve coisas apaixonadas, mas, quando se trata de falar...
- Ele quer casar consigo? - perguntou Hale. Ida cheirava a sabonete e a vinho; uma sensao de conforto, de paz, um sereno e preguioso contentamento fsico, um 
qu de ama e de me emanavam da grande boca avinhada, dos magnficos seios e pernas, insinuando-se no pequeno crebro amargo, murcho e aterrado de Hale.
- J foi casado comigo - esclareceu Ida -, mas no sabia a sorte que tinha. Agora quer voltar. S queria que visse as cartas dele. Se no mas tivessem roubado, mostrava-lhas. 
Ele devia ter vergonha de escrever aquelas coisas - acrescentou, rindo de prazer. - Ningum diria. E era um tipo to sossegado! Por isso digo sempre que a vida  
divertida.
- E vai aceit-lo? - exclamou Hale, a olh-la do seu vale de sombras, com azedume e inveja.
- Creio que no! Conheo-o bem de mais. No teria graa nenhuma. Se eu quisesse um homem agora, poderia arranjar coisa melhor. - No se gabava. Estava apenas um 
pouco bbeda e feliz. - Podia casar com um homem rico, se quisesse.
- E de que vive actualmente?
- Vivo ao deus-dar - confessou Ida, piscando-lhe o olho e fazendo o gesto de quem empina um copo. - Como  o seu nome?
- Fred.
Disse aquilo automaticamente. Era o nome que sempre dava aos conhecimentos de ocasio. Por qualquer obscuro desejo de sigilo, ocultava o seu nome verdadeiro, que 
era Charles: desde criana amara os segredos e os esconderijos, a escurido; mas fora na escurido que encontrara Kite, o Rapaz, Cubitt, o bando inteiro.
- E como  que voc vive? - perguntou ela jovialmente. Os homens sempre gostavam de contar essas coisas, e ela gostava de ouvir. Tinha um imenso reportrio de experincias 
masculinas.
- De apostas - respondeu ele prontamente, esquecendo a sua barreira de evaso.

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- Eu tambm gosto de arriscar umas moedas de vez em quando.  capaz de me dar um palpite para as corridas de Brighton, no domingo?
- Black Boy, na corrida das quatro.
- Est a vinte por um.
Hale considerou-a com respeito.
-  pegar ou largar.
- Oh! Vou jogar nele - disse Ida. - Aceito sempre os palpites.
- No importa quem os d?
- Esse  o meu sistema. Voc estar l?
- No - respondeu Hale. - No me ser possvel ir. - Ps-lhe a mo no pulso. No queria correr mais riscos. Diria ao chefe da redaco que tinha adoecido, pediria 
a demisso, faria qualquer coisa. A vida estava ali a seu lado, no queria brincar com a morte. - Venha comigo para a estao. Vamos voltar juntos para a cidade.
- Num dia como este? Eu c, no.  a cidade que o deixa assim. Voc parece inchado. Um passeio pela praia fazia-lhe bem. Alm disso, h uma poro de coisas que 
eu quero ver. Quero ver o Aqurio, o Penhasco Negro, e ainda no estive hoje no Molhe do Palcio. H sempre novidades por l e eu vim para me divertir.
- Vamos ver essas coisas e depois...
- Quando disponho de um dia para me divertir - retorquiu Ida - quero divertir-me deveras. J lhe disse que sou teimosa.
- No me importo, contanto que fique comigo.
- Bem, voc ao menos no me pode roubar a bolsa. Mas j o aviso: eu sou gastadora. No me contento com uma argola aqui e um tiro ao alvo l adiante. Quero ver tudo.
- Daqui ao Molhe do Palcio  um estico muito grande com este sol - observou Hale. - Vamos tomar um txi.
Mas no txi no se atreveu logo com Ida. Agachado no assento, muito ossudo, no tirava os olhos da avenida: nenhum sinal de Cubitt ou do rapaz no dia claro que corria. 
Virou-se para trs com relutncia e, sentindo a proximidade dos grandes seios francos e hospitaleiros, colou a sua boca  dela, recebeu na lngua o gosto do vinho 
do Porto e viu no espelho retrovisor o velho Morris, modelo 1925, que os seguia, com a capota rota

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e a bater, o pra-choques amolgado, o pra-brisas rachado e bao. - Observou-o com os lbios nos lbios de Ida, tremendo contra ela enquanto o txi avanava devagar 
pela avenida.
- Deixe-me respirar - disse ela por fim, afastando-o com um empurro e endireitando o chapu. - Voc vai logo s do cabo! So vocs, os pequenos; que... - Sentiu 
vibrar os nervos dele debaixo da sua mo e gritou apressadamente ao motorista, pelo tubo: - No pare. Torne para trs e d a volta de novo.
Ele parecia tomado de uma febre.
- Voc est doente. No devia andar s. Que  que tem?
Ele no pde conter-se:
- Vou morrer. Estou com medo.
- Consultou um mdico?
- No adianta. Os mdicos nada podem fazer.
- Voc no devia andar s por a - repetiu Ida. - Foram eles que lhe disseram isso... os mdicos?
- Foram - respondeu Hale, tornando a colar os lbios aos dela, pois, enquanto a beijava, podia vigiar pelo espelho o velho Morris que avanava no seu encalo, aos 
solavancos pela avenida.
Ela afastou-se, mas manteve-o seguro nos seus braos.
- Esto doidos. Voc no est assim to doente sem que eu o perceba. No gosto de ver um homem ir-se abaixo dessa maneira. A vida  boa para os que no fraquejam.
- Tudo ir bem enquanto voc estiver aqui comigo - replicou ele.
- Agora sim. Seja homem. - E, baixando precipitadamente o vidro da janela para deixar entrar o ar, Ida passou o brao pelo dele e pronunciou em tom brando e atemorizado: 
- Voc estava a brincar, no estava, quando disse aquilo sobre os mdicos? No era verdade, pois no?
- No - proferiu Hale, desalentadamente -, no era verdade.
- Ora assim  que ! Quase me assustou. Linda situao a minha se voc morresse neste txi! O Tom  que ia gostar de ler a notcia nos jornais... Mas os homens so 
esquisitos comigo nessas coisas. Tm sempre dificuldades de dinheiro, do-se mal com as mulheres ou sofrem do corao... Voc no  o primeiro que me diz que vai 
morrer. Mas nunca falam de

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uma doena contagiosa... Querem aproveitar ao mximo as ltimas horas de vida, e tal e coisa. Creio que  por eu ser to grande. Esperam que os trate como filhos. 
No digo que no me tenha deixado levar da primeira vez. "Os mdicos no me do mais do que um ms", disse-me um sujeito... Foi h cinco anos. Agora, vejo-o a cada 
passo no Hennekey. "Ol, meu velho fantasma", exclamo sempre que o vejo. E ele paga-me ostras e uma cerveja.
- No, eu no estou doente - afirmou Hale. - No tem de que ter medo.
No queria tornar a rebaixar o seu orgulho at esse ponto, mesmo em troca daquele abrao calmo e natural. Passaram pelo Grande Hotel, com o velho estadista sempre 
a dormitar, depois pelo Metrpole.
- C estamos - disse Hale. - Ficas comigo, no  verdade? Ainda que eu no esteja doente?
- Claro que sim - respondeu Ida, deixando escapar um pequeno soluo, ao descer. - Gosto de ti, Fred. Gostei de ti logo que te vi. s um camarado, Fred. Que multido 
 essa a? - perguntou com jovial curiosidade, apontando para uma aglomerao de calas limpas e bem passadas, blusas vistosas, braos nus e cabeas perfumadas.
- Por cada relgio que vendo - gritava um homem no meio do grupo -, dou grtis um brinde que vale vinte vezes mais. Apenas um xelim! Por cada relgio que vendo...
- Compra-me um relgio, Fred - pediu Ida, empurrando-o com brandura. - Mas, antes, d-me trs pence. Preciso de me lavar.
Estavam no meio da rua,  entrada do Molhe do Palcio. Uma multido compacta rodeava-os, saindo e entrando pelas cancelas giratrias, olhando o aldrabo. No se 
via sinal do Morris.
- No precisas de te lavar, Ida - implorou Hale. - Ests muito bem assim.
- Tenho de me lavar. Estou a suar por todos os poros. Espera aqui. No me demoro mais de dois minutos.
- Aqui no podes lavar-te convenientemente. Vem a um hotel tomar qualquer coisa...
- No posso esperar, Fred. Sinceramente, no posso. S simptico.

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- Esto a dez xelins.  melhor dar-tos j, enquanto me lembro.
- s uma jia, Fred. No te faro falta?
- No te demores, Ida. Eu fico aqui. Aqui mesmo junto desta entrada. No demoras, no? Fico aqui - repetiu ele, pousando a mo na grade da cancela.
- Essa  boa - volveu Ida -, at pareces apaixonado!
E levou ternamente a imagem dele no esprito, enquanto descia os degraus que conduziam ao toilette das senhoras: a imagem de um homem pequeno, um tanto maltratado, 
com as unhas rodas at o sabugo (no lhe escapava nada), as manchas de tinta e a mo agarrando a grade. " um bom tipo", disse Ida com os seus botes. "Gostei do 
ar dele l no bar, embora tivesse caoado dele." E comeou de novo a cantar, docemente, na sua voz clida e avinhada: "Certa noite, numa rua, Lord Rothschild disse-me..." 
Havia muito tempo que no se dava tanta pressa por causa de um homem. No se tinham passado mais de quatro minutos quando ela, fresca, empoada e serena, voltou a 
subir os degraus para a tarde clara de Pentecostes. Mas Hale desaparecera. No estava junto da cancela, nem no meio da multido que rodeava o aldrabo. Ida misturou-se 
ao grupo para ter a certeza e encontrou-se cara a cara com o vendedor afogueado e permanentemente irritado. "O qu! No do um xelim por um relgio e mais um brinde 
grtis, que vale exactamente vinte vezes o relgio! No digo que este relgio valha muito mais do que um xelim, embora s a aparncia valha isso, mas com ele vai 
um presente grtis, vinte vezes..." Ela estendeu a nota de dez xelins e recebeu o pacotinho e o troco, pensando: "Com certeza ele foi ao toilette dos homens, vai 
voltar." E, assumindo o seu posto junto  cancela, abriu o pequeno sobrescrito que continha o relgio. "Black Boy na corrida das quatro horas; em Brighton", leu 
Ida, e pensou com orgulho e ternura: "Era o palpite dele.  um tipo entendido." Preparou-se, feliz e paciente, para esperar por ele. Era teimosa. Ao longe, na cidade, 
um relgio bateu a uma e meia.

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2

O Rapaz pagou trs pence e entrou. Passou, com movimentos rgidos, pelas quatro filas de cadeiras de lona, onde o povo esperava que a orquestra comeasse a tocar. 
Visto pelas costas parecia mais novo, com a sua fatiota escura comprada feita, um pouco folgada nas ancas, mas quem o olhasse de frente di-lo-ia mais velho: os olhos 
cor de ardsia tinham uns toques da aniquiladora eternidade de onde ele viera e para onde ia. A orquestra comeou a tocar; ele sentia a msica como uma vibrao 
no ventre: os violinos gemiam-lhe nas entranhas. Continuou a andar sem olhar para o lado.
No Palcio do Prazer passou por entre os cinetoscpios, os caa-nqueis e os jogos de malha, dirigindo-se para uma barreira de tiro ao alvo. As bonecas enfileiradas 
nas prateleiras olhavam para baixo com vtrea inocncia, como Virgens num repositrio de igreja. O Rapaz observou-as: caracis de cabelo castanho, ris azuis e faces 
pintadas. "Ave, Maria... na hora da nossa morte", pensou ele.
- Meia dzia de cartuchos - pediu.
- Ah!  voc? - perguntou o proprietrio da barraca, considerando-o com antipatia e inquietao.
- Sim, sou eu. Tem horas, Bill?
- Horas? H um relgio  entrada, no h?
- Marca um quarto para as duas. No pensei que fosse to tarde.
- Aquele relgio est sempre certo - acentuou o homem, caminhando para o balco de tiro com a pistola na mo. - Est sempre certo, percebes? No serve de testemunha 
para libis falsos. Um quarto para as duas  a hora certa.
- Est bem, Bill. Um quarto para as duas. Eu s queria saber. D c essa pistola.
Ergueu-a; a sua mo estava firme como uma rocha. Meteu seis balas no centro do alvo.
- Tenho direito a um prmio.
- Podes levar o raio do prmio e pr-te a andar - disse Bill. - Que  que tu queres? Chocolate?
- No como chocolate.
- Um mao de Players?

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- No fumo.
- Ento s te resta escolher uma boneca ou uma jarra de vidro.
- Uma boneca serve. Vou levar aquela, l de cima, de cabelo castanho.
- Deste em pai de famlia? - perguntou o homem. Mas o Rapaz no respondeu, passando rigidamente pelas outras tendas, com o cheiro da plvora nos dedos, segurando 
a Me de Deus pelos cabelos. A gua banhava os pilares da extremidade do molhe, gua de um verde-garrafa mosqueada de algas, e o vento salgado ardia-lhe nos lbios. 
Subiu a escada de mo que levava ao terrao onde se servia ch e correu os olhos em redor de si. Quase todas as mesas estavam ocupadas. Entrou no abrigo envidraado 
e, dando a volta, passou  longa e estreita sala de ch que dava para o Ocidente, empoleirada a cinquenta ps acima da mar, que baixava pouco a pouco. Havia uma 
mesa livre e ele sentou-se. Podia avistar dali toda a sala e a plida avenida, do outro lado da gua.
- Espero - explicou  criada que o atendeu. - Convidei uns amigos. - A janela estava aberta e ele ouvia as ondas rasas bater de encontro ao molhe e a msica da orquestra, 
distante e triste, levada pelo vento na direco da praia. - Esto atrasados. Que horas so? - perguntou. Com os dedos, puxava distraidamente os cabelos da boneca, 
arrancando a l castanha.
- Dez para as duas, mais ou menos - respondeu a rapariga.
- Todos os relgios deste molhe esto adiantados.
- Oh! No.  a hora de Londres exacta.
- Tome esta boneca - ofereceu o Rapaz. - No me serve para nada. Ganhei-a numa dessas barracas de tiro. No me serve para nada.
-  a srio? - perguntou a rapariga.
- Claro. Fique com ela. Ponha-a na parede do seu quarto e reze.
Atirou-lhe a boneca, observando a porta com impacincia. Dominava rigidamente todos os nervos. O nico sinal de nervosismo era um leve tique na face, sob a tnue 
penugem, no lugar onde costuma formar-se uma covinha. Esse tique acentuou-se quando apareceu Cubitt acompanhado de Dallow,

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homem forte e musculoso, de nariz quebrado, com uma expresso de brutal simplicidade.
- Ento? - exclamou o Rapaz.
- Tudo bem - volveu Cubitt.
- Onde est o Spicer?
- Vem a - respondeu Dallow. - Foi s lavar-se ao toilette.
- Devia ter vindo direito para aqui - bradou o Rapaz. - Vocs esto atrasados. Eu disse um quarto para as duas em ponto.
- No te irrites tanto - protestou Cubitt. - No precisaste fazer nada seno vir direito para aqui.
- Tive de me arranjar - respondeu o Rapaz. Fez um sinal  criada: - Peixe com batatinhas fritas para quatro e um bule de ch. Ainda vem mais um.
- Spicer no vai querer peixe com batatas - observou Dallow. - No tem apetite.
- Convm que ele tenha apetite - replicou o Rapaz e, apoiando o rosto nas mos, observou Spicer que se aproximava muito plido atravs da sala de ch e sentiu a 
raiva roer-lhe as entranhas como as ondas roam os pilares l em baixo. - So cinco para as duas - volveu ele. - No  verdade que so cinco para as duas? - gritou 
 criada.
- Demorou mais do que pensvamos - disse Spicer, deixando-se cair na cadeira, escuro, plido, com a pele cheia de marcas. Olhou enojado para a posta de peixe pardacenta, 
ainda a chiar, que a criada colocou diante dele. - No tenho fome. No posso comer isso. Por quem me tomam vocs?
Todos trs, sem tocar no peixe, encaravam o Rapaz como crianas diante daqueles olhos sem idade.
O Rapaz deitou molho de anchovas nas suas batatas fritas.
- Come - ordenou ele. - Vamos, come. Dallow, de sbito, arreganhou os dentes.
- Ele no tem apetite - interveio, atulhando a boca de peixe. Todos falavam baixo, e as suas palavras perdiam-se para as pessoas que os cercavam no barulho dos pratos 
e das vozes, do constante marulhar das ondas. Cubitt seguiu o exemplo do companheiro, debicando o seu peixe; s Spicer  

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no queria comer. Estava ali na sua cadeira, obstinado, grisalho e enjoado.
- D-me uma bebida, Pinkie - pediu ele. - No posso engolir isto.
- No senhor, hoje no bebes - replicou o Rapaz. - Vamos, come.
Spicer levou um bocado de peixe aos lbios.
- Se comer, vou sentir vmitos - avisou ele.
- Vomita, ento. Vomita, se quiseres. No tens coragem para vomitar. - E, dirigindo-se a Dallow: - A coisa correu bem?
- Uma beleza - declarou Dallow. - Eu e Cubitt demos-lhe cabo do canastro. Demos os cartes ao Spicer.
- Distribuste-os como eu disse? - perguntou o Rapaz a este.
- Claro que sim.
- Por toda a avenida?
- Lgico. No sei por que ests to preocupado com os cartes.
- A compreenso no  o teu forte. So um libi, no vs? - Baixou a voz e cochichou por cima do peixe: - Provam que ele seguiu o programa. Mostram que ele morreu 
depois das duas. - E, tornando a alar a voz: - Escutem. Ouvem aquilo?
Muito longe, na cidade, soou o carrilho de um relgio, seguido de duas badaladas.
- Imagina se j o encontraram - ponderou Spicer.
- Pior para ns, ento - respondeu o Rapaz. - E aquela tipa com quem ele estava?
- No tem importncia.  uma pega, nada mais. Ele deu-lhe uma nota de meia libra, que eu vi.
- Tu cuidas de tudo - disse Dallow com admirao. Encheu uma chvena de ch preto e serviu-se de cinco cubos de acar.
- Eu cuido da parte que me toca - sublinhou o Rapaz. - Onde puseste os cartes? - perguntou a Spicer.
- Deixei um deles no Snow.
- Como, no Snow?
- Ele tinha de comer, ou no? Era o que o jomal dizia. Tu mandaste-me seguir o programa do jornal. Parecia esquisito

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que o homem no comesse e ele deixava sempre um carto nos lugares em que comia.
- Parecia mais esquisito ainda - atalhou o Rapaz - se a criada desconfiasse da tua cara e o encontrasse logo que saste. Onde foi que puseste esse carto?
- Debaixo da toalha da mesa.  o que ele sempre faz. Ho-de ter-se sentado muitos outros fregueses quela mesa depois de mim. A criada no pode saber que no foi 
ele. No creio que encontre o carto antes da noite, quando tirar a toalha. Talvez seja outra criada.
- Vai l buscar esse carto - disse o Rapaz. - No quero correr riscos.
- Eu  que no volto l. - A voz de Spicer alteou-se um pouco e, mais uma vez, todos os outros encararam o Rapaz em silncio.
- Vai tu, Cubitt - retorquiu este. - Talvez seja prefervel que ele no aparea l de novo.
- Eu, no - disse Cubitt. - E se eles j encontraram o carto e me virem a procur-lo?  melhor arriscarmo-nos e deix-lo onde est - insistiu, num sussurro.
- Fala com naturalidade, fala com naturalidade! - recomendou o Rapaz. 
A criada aproximava-se da mesa.
- Os senhores querem mais alguma coisa?
- Sim - declarou o Rapaz -, vamos tomar um gelado.
- No mandes vir isso, Pinkie! - protestou Dallow, quando ela se afastou. - Ns no queremos gelados, no somos um bando de maricas, Pinkie.
- Se no queres gelado, Dallow, vai buscar esse carto ao Snow. Tu s teso, no s?
- Pensei que j tnhamos acabado com essa histria - respondeu Dallow. - J fiz bastante. Sou teso, tu bem sabes, mas cortei-as como um capado... Se eles o encontraram 
antes do tempo, seria loucura ir ao Snow.
- No fales to alto. Se ningum mais quer ir, eu vou - afirmou o Rapaz. - Eu vou. No as corto. Mas, s vezes, sinto-me enjoado de trabalhar com uma malta como 
vocs e at me parece que era melhor estar sozinho. - A tarde ia avanando por sobre o mar. - O Kite era fixe - disse ele -, mas Kite j morreu. Em que mesa te sentaste? 
- perguntou a Spicer.

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- Logo  entrada,  direita da porta. Uma mesa para uma pessoa s, com flores.
- Que flores?
- Sei l que flores! Umas amarelas.
- No vs, Pinkie - aconselhou Dallow. -  melhor no te meteres nisso. Nunca se sabe o que pode acontecer.
Mas o Rapaz j estava de p, avanando rigidamente pela sala comprida e estreita, empoleirada sobre o mar. Era impossvel saber se ele tinha medo; o seu rosto impassvel, 
ao mesmo tempo moo e velho, no dizia nada.
No Snow, a hora da afluncia tinha passado e as mesas estavam livres. O rdio transmitia um programa de msica enfadonha que um organista de cinema tocava - uma 
grande vox humana vibrava por sobre o deserto de toalhas usadas, cobertas de manchas e de migalhas: a boca mole do mundo a lamentar a vida. A criada tirava as toalhas 
das mesas assim que estas ficavam desocupadas e preparava-as para o ch. Ningum prestou a menor ateno ao Rapaz; as empregadas voltavam as costas quando ele olhava 
para elas. Enfiou a mo debaixo da toalha e no encontrou nada. De repente, a pequena chama de clera maldosa tornou a acender-se-lhe no crebro e ele bateu com 
o saleiro na mesa, to violentamente que a base rachou. Uma criada afastou-se do grupo palrador e dirigiu-se para ele, olhos frios e interesseiros, cabelos de um 
louro cinzento.
- Que h-de ser? - perguntou ela, registando com um olhar para a fatiota surrada, a cara juvenil.
- Quero comer.
- Chegou muito tarde para o almoo.
- No quero almoo, quero um ch com biscoitos.
- Quer fazer o favor de passar para uma das mesas que esto postas para o ch?
- No - disse o Rapaz -, prefiro esta.
Ela tornou a afastar-se, com um ar de superioridade e de reprovao, e ele gritou-lhe:
- Vai atender-me?
- A criada que serve essa mesa no se demora - disse ela, voltando para junto das suas colegas que conversavam junto  porta de servio. O Rapaz mudou a posio 
da cadeira, o nervo da sua face retesou-se e ele tornou a pr a mo debaixo

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da toalha: era um gesto insignificante, mas que podia lev-lo  forca, se fosse observado. Os seus dedos no sentiram nada, porm, e ele pensou em Spicer, furioso: 
"Um dia ele faz uma asneira que nos trama a todos.  melhor trabalharmos sem ele."
- Era ch que o senhor queria? - O Rapaz ergueu vivamente os olhos, com a mo debaixo da toalha: "uma dessas raparigas que se arrastam por a - pensou - como se 
tivessem medo dos seus prprios passos"; uma rapariga magra e plida, mais nova do que ele.
- J pedi - respondeu.
Ela desculpou-se com servilismo:
- Houve um tal movimento! Alm disso,  o meu primeiro dia. Foi este o nico instante que arranjei para descansar. O senhor perdeu alguma coisa?
Ele retirou a mo, observando-a com olhos perigosos e insensveis. Tornou a ter aquele tique na face. Eram as pequenas coisas que traam a gente. No podia encontrar 
uma razo explicativa para ter a mo debaixo da toalha.
- Vou ter de mudar de novo a toalha para o ch, de modo que, se o senhor perdeu alguma coisa... - prosseguiu ela, prestvel.
Num abrir e fechar de olhos tirou da mesa a pimenta, o sal, a mostarda, o talher, o molho e as flores amarelas, juntou os cantos da toalha e levantou-a de uma s 
vez, com migalhas e tudo.
- No h a nada. - Ele olhou para a mesa nua e disse: - Eu no tinha perdido nada.
A criada comeou a pr uma toalha limpa para o ch. Parecia descobrir nele algo de simptico que a fazia conversar, algo de comum, talvez - a mocidade, as roupas 
usadas e uma espcie de ignorncia dos usos e costumes daquele caf elegante. J parecia ter esquecido a sua mo de explorador. Mas no iria lembrar-se, se algum 
lhe fizesse perguntas? Ele desprezava os seus modos calmos, a sua palidez, o desejo de agradar: seria ela tambm observadora, lembrar-se-ia das coisas?...
- No adivinha - volveu ela - o que eu encontrei aqui h dez minutos, quando mudei a toalha.
- Muda sempre a toalha? - perguntou o Rapaz.
- Ah! No - respondeu a rapariga, pondo a mesa para o ch -, mas um fregus entornou um copo e, quando fui mudar

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a toalha, estava a um carto de Kolley Kibber, que vale dez xelins. Foi uma surpresa - acrescentou ela, demorando-se ainda com a bandeja, cheia de gratido - e 
as outras no gostaram.  o segundo dia em que trabalho aqui, sabe? Dizem que fui uma tola em no falar ao homem e reclamar o prmio. 
- Por que no o fez?
- Porque no me veio  cabea. Ele no se parecia nada com a fotografia.
- Quem sabe se o carto no estava a desde esta manh?
- Oh! No! - retorquiu ela. - No seria possvel. Foi o primeiro homem que ocupou esta mesa.
- Bem, no faz diferena. Voc ficou com o carto.
- Pois fiquei. S no me parece muito certo, sabe, isso de o homem ser to diferente do retrato. Eu bem podia ter ganho o prmio. Queria que visse como corri para 
a porta quando encontrei o carto: no fiquei a dormir!
- E viu o homem? 
Ela abanou a cabea.
- Com certeza - comentou o Rapaz - no tinha olhado bem para ele. De contrrio, t-lo-ia reconhecido.
- Olho sempre bem para as pessoas... para os fregueses, quero dizer.  que sou nova, compreende? Tenho um certo medo. No quero fazer nada que desagrade. Oh! - exclamou 
aterrada -, como, por exemplo, ficar aqui a conversar, sem lhe trazer o seu ch!
- No faz mal - atalhou o Rapaz, dirigindo-lhe um sorriso rgido; no sabia usar naturalmente os msculos do riso. - Voc  o tipo de pequena de que eu gosto... 
- as palavras no eram apropriadas; ele corrigiu-as: - ... quero dizer, gosto das raparigas afveis. Algumas das outras, aqui, chegam a gelar a gente.
- A mim tambm elas gelam.
-  que voc  sensvel como eu. - E acrescentou abruptamente: - Com certeza no reconheceria o jornalista, se tornasse a encontr-lo. Ele ainda pode andar por a.
- Reconhecia, pois! Tenho boa memria para fisionomias. 
O Rapaz sentiu o tique na face.
- Vejo que ns dois temos qualquer coisa de comum. Devamos encontrar-nos uma noite destas. Como  o seu nome?
- Rosa.

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Ele ps uma moeda em cima da mesa e levantou-se.
- Mas o seu ch?
- Passei o tempo a conversar e tinha um encontro s duas em ponto.
- Ah! Desculpe, sim? O senhor devia ter-me feito calar.
- No faz mal. Gostei da conversa. Em todo o caso, ainda so duas e dez pelo seu relgio. Quando  que sai do servio  noite?
- No fechamos antes das dez e meia, a no ser aos domingos.
- Hei-de aparecer por aqui - prometeu o Eapaz. - Voc e eu temos bastantes coisas em comum.

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3

Ida Arnold atravessou o Strand a toda a pressa. No podia perder tempo a esperar pelas mudanas de luzes e no tinha confiana nos sinais Belisha. Avanou por entre 
os radiadores dos autocarros: os motoristas accionavam os traves e arregalavam os olhos furiosos para ela, que lhes correspondia arreganhando os dentes. Estava 
sempre um pouco corada quando o relgio batia as onze e ela chegava ao Hennekey, como se viesse de alguma aventura que lhe tivesse dado melhor opinio de si mesma. 
No fora, contudo, a primeira a chegar.
- Ol, meu velho fantasma! - disse ela, e o homem magro e sombrio, vestido de preto e de chapu de coco na cabea, que estava sentado diante de um barril de vinho, 
respondeu:
- Ora, deixa-te disso, Ida, deixa-te disso.
- Ests de luto por ti mesmo? - perguntou Ida, arranjando melhor o chapu na cabea, diante de um espelho com um anncio de whisky Cavalo Branco. No aparentava 
nem um dia mais do que quarenta anos.
- A minha mulher morreu. Tomas uma Guiness, Ida?
- Sim, aceito uma Guiness. Nem sabia que tinhas mulher...
- Ns no sabemos muito da vida um do outro, Ida. Eu nem sei como tu vives, nem quantos maridos tiveste!
- Oh! S houve um: Tom.
- No, na tua vida houve mais de um Tom.
- Tu  que deves saber - volveu Ida.
- Traga um clice de rubi! - pediu o homem sombrio. - Estava justamente a pensar quando tu entraste, Ida: por que no nos juntamos de novo?
- Tu e Tom querem sempre recomear. Por que no tratam de segurar uma mulher enquanto a tm?
- Com o dinheirinho que eu tenho e o teu...
- Gosto de comear coisas novas - declarou Ida - e no de largar o novo para voltar ao velho.
- Mas tu tens bom corao, Ida.
- -Isso  o que tu dizes - respondeu Ida. E das escuras profundezas da sua cerveja a bondade piscou-lhe o olho, um

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pouco astuta, um pouco terrena, a divertir-se. - Tu nunca arriscas dinheiro nas corridas? - perguntou.
- No acredito em apostas.  um jogo para os trouxas.
- Isso mesmo. Um jogo para os trouxas. A gente nunca sabe se vai ganhar ou perder. Gosto disso - volveu Ida apaixonadamente, olhando o seu magro e plido companheiro, 
do outro lado do barril, mais corada do que nunca, mais nova, mais amvel. - Black Boy - disse ela docemente.
- Hem, que  isso? - exclamou vivamente o fantasma, lanando um olhar ao seu rosto reflectido no espelho com o anncio do cavalo branco.
-  o nome de um cavalo, nada mais. Um tipo deu-me este palpite em Brighton. Ser possvel que eu torne a encontr-lo nas corridas? Perdeu-se no sei como. Gostei 
dele. Dizia as coisas mais imprevistas. Por sinal que lhe fiquei a dever dinheiro.
- Leste a notcia sobre o tal Kolley Kibber, em Brighton, no outro dia?
- Foi encontrado morto, no foi? Vi um placard.
- Fizeram um inqurito judicial.
- Matou-se?
- Nada disso. Foi do corao. Foi o corao que deu cabo dele. Mas o jornal pagou o prmio ao homem que o encontrou. Dez guinus - disse o fantasma - por descobrir 
um cadver.
- Estendeu com amargura o jornal em cima do barril de vinho. - Tragam mais um rubi.
- Como! - exclamou Ida. - Esse  o retrato do homem que o encontrou? O velhaco! Por isso  que no o vi mais! No admira que ele no quisesse o dinheiro.
- No, no, esse no  ele - afirmou o fantasma. - Esse  o Kolley Kibber.
Tirou um pequeno palito de um embrulho de papel e comeou a esgravatar os dentes.
- Oh! - proferiu Ida. Foi como se recebesse uma pancada. - Ento, no era fita dele. Estava doente mesmo!
- Lembrou-se de como a mo tremia no txi e como ele implorava que o no deixasse, como se soubesse que ia morrer antes de Ida voltar. - Era um gentleman - concluiu 
com doura.
Devia ter cado junto  cancela, logo que Ida voltara as costas, e ela tinha descido ao toilette ignorando tudo. Sentiu

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que as lgrimas lhe subiam aos olhos, ali no Hennekey, e reviu mentalmente aqueles degraus brancos e polidos que conduziam ao toilette, como se eles fossem as cenas 
lentas de uma tragdia.
- Bem, bem - disse o fantasma com melancolia -, todos temos de morrer.
- Sim - tornou Ida -, mas ele tinha to pouca vontade de morrer como eu. - Ps-se a ler e logo em seguida exclamou: - Por que seria que ele foi to longe com aquele 
calor? - Porque Hale no tinha cado junto  cancela. Tornara a trilhar todo o caminho por onde tinham vindo, sentara-se debaixo de um abrigo...
- Tinha o seu trabalho...
- Ele no me falou em trabalho. S me disse: "Fico aqui. Fico aqui mesmo, junto desta cancela. Ande depressa, Ida. Eu espero-a aqui mesmo."
E, ao repetir as palavras dele, sentiu que, uma hora ou duas mais tarde, quando tudo se tivesse esclarecido, precisaria de chorar um pouco a morte daquele aterrado 
e apaixonado magricela que se chamava...
- Como! - exclamou. - Que  que eles querem dizer com isto? L aqui.
- Que tem isso? - perguntou o homem.
- Essas bruxas! Por que foram contar semelhante mentira?
- Que mentira? Toma mais uma Guiness. Para que te preocupas com isso?
- Pois sim - disse Ida. Mas, depois de tomar um longo sorvo, voltou  leitura do jornal. Tinha o seu instinto e o seu instinto dizia-lhe que havia algo de esquisito, 
algo que no lhe cheirava bem. - Essas garotas que ele convidou para almoar dizem que um homem se aproximou delas e lhe chamou Fred e que ele respondeu que no 
era Fred e no conhecia o homem.
- Que tem isso? Olha, Ida, vamos ao cinema.
- Mas ele era Fred. Ele disse-me que se chamava Fred.
- Era Charles. Est escrito a. Charles Hale.
- Isso no quer dizer nada. Um homem usa sempre um nome diferente para os estranhos. Queres dizer-me, por acaso, que o teu verdadeiro nome  Clarence? Alm disso, 
um homem

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no pode inventar um nome diferente para cada mulher. Era uma confuso. Tu bem sabes que sempre ds o nome de Clarence. H poucas coisas que eu no saiba a respeito 
dos homens.
- Isso no quer dizer nada. Podes ler como a coisa aconteceu. Elas apenas se referiram ao incidente. Ningum deu importncia  coisa.
- Ningum deu importncia a nada - respondeu Ida com tristeza. -  como diz aqui. No houve ningum que se preocupasse com o que aconteceu. "O juiz indagou se estava 
presente algum parente do falecido e as testemunhas da Polcia declararam que s tinham podido descobrir um primo em segundo grau, residente em Middlesborough." 
Uma criatura to solitria! Ningum estava l para fazer perguntas.
- Eu sei o que  a solido, Ida - disse o homem sombrio. - H j um ms que vivo sozinho.
Ela no deu ateno. Tinha voltado a Brighton, na segunda-feira de Pentecostes. Pensava que, enquanto ela esperava junto  cancela, ele devia estar a morrer, caminhando 
pelo passeio na direco de Hove, a morrer, e o drama barato contido nesta ideia enternecia-lhe o corao para com ele. Ida era do povo, chorava ao ver David Copperfield 
no cinema; quando bebia, todas as baladas que sua me costumava cantar outrora lhe vinham com facilidade aos lbios, e o seu corao simples comovia-se com a palavra 
"tragdia".
- O primo em segundo grau de Middlesborough fez-se representar por um advogado. Que quer dizer isto?
- Acho que esse Kolley Kibber no deixou testamento e ele vai receber todo o dinheiro que houver. No gostaria que se falasse em suicdio, por causa do seguro de 
vida.
- Ele no perguntou nada.
- No havia necessidade. Ningum insinuou que o homem se tivesse matado.
- Talvez tenha mesmo - disse Ida. - Havia nele qualquer coisa de esquisito. Eu gostaria de lhes ter feito umas perguntas.
- A respeito de qu? A coisa  bastante clara.
Um homem de knickerbockers e gravata listrada aproximou-se do balco.
- Ol, Ida.

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- Ol, Harry - respondeu ela tristemente, com os olhos fitos no jornal.
- Queres uma bebida?
- J tenho uma, obrigada.
- Termina essa e toma outra.
- No, no quero mais, obrigada. Se eu estivesse l...
- Que  que isso adiantava? - disse o homem sombrio.
- Podia ter feito perguntas.
- Perguntas, perguntas! - volveu ele com irritao. - Ests sempre a fazer perguntas. Sobre qu  que eu no percebo.
- Pois se ele disse que no era Fred.
- No era Fred, era Charles.
- Isso no  natural.
Quanto mais pensava no assunto, mais desejava ter estado l: era como uma pontada no corao saber que ningum se mostrara interessado durante o inqurito, que o 
primo em segundo grau tinha ficado em Middlesborough, o advogado no fizera perguntas e o prprio jornal em que Fred trabalhava no lhe dedicara mais de meia coluna. 
Na primeira pgina vinha outra fotografia: o novo Kolley Kibber, que estaria em
Bournemouth no dia seguinte. "Bem podiam ter esperado uma semana em sinal de respeito", pensou ela.
- Gostaria de lhes ter perguntado por que motivo ele me deixou plantada ali, para ir caminhar pelo passeio, com aquele sol.
- Tinha o seu servio a fazer. Precisava de distribuir aqueles cartes.
- Por que me disse, ento, que ia esperar?
- Ah! - respondeu o homem sombrio. - Seria preciso perguntar-lhe isso a ele.
E, ao ouvir estas palavras, ela tinha a impresso de que ele estava realmente a tentar responder-lhe, a responder-lhe com os seus prprios hierglifos, na dor obscura, 
falando aos nervos de Ida, do nico modo por que um fantasma pode falar. Ida acreditava em fantasmas.
- Ele diria muita coisa, se pudesse - tornou Ida. Pegou de novo no jornal e leu devagar. - Fez o seu trabalho at ao fim - observou com ternura.
Gostava dos homens que cumprem as suas obrigaes. Havia nisso uma espcie de vitalidade. Fred havia deixado

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os seus cartes ao longo de todo o passeio - debaixo de um bote, num cesto de papis, num baldezinho de criana -, e esses cartes tinham sido devolvidos  redaco. 
J lhe restavam poucos, quando Mr. Alfred Jefferson, de profisso chefe de escritrio, em Clapham", o tinha encontrado.
- Se ele se matou - disse Ida (era ela o nico advogado a representar o morto) -, cumpriu primeiro a sua obrigao.
- Mas no se matou - objectou Clarence. - Basta ler o que diz a. Os mdicos abriram-no e dizem que ele morreu de morte natural.
-  esquisito. Ele deixou um carto no restaurante. Sei que estava com fome: a todo o instante falava em comer. Mas que seria que o fez ir embora assim sozinho e 
deixar-me  espera? Parece coisa de louco.
- Acho que ele mudou de ideias a teu respeito, Ida.
- Isso no me agrada. Parece-me esquisito. Quem me dera ter l estado! Havia de fazer umas perguntas.
- E se fssemos agora ao cinema, Ida?
- No estou com disposio para ir ao cinema. No  todos os dias que a gente perde um amigo. E tu tambm no devias pensar em ir ao cinema, depois de perderes a 
tua mulher h to pouco tempo.
- J faz um ms que ela morreu - disse Clarence. - No se pode esperar que uma pessoa fique de luto a vida inteira.
- Um ms no  muito tempo - comentou Ida tristemente, meditando, com os olhos no jornal. "Um dia - dizia consigo - ser ele que morre; e aposto que ningum pensa 
nele, alm de mim: uma desconhecida a quem convidou para uma bebida e uns carinhos", e o pattico fcil da situao tocou-lhe de novo no corao terno e popular. 
No teria mais pensado naquilo se houvesse outros parentes alm do primo em segundo grau, de Middlesborough, se ele no estivesse to sozinho, alm de morto. Mas 
havia ali, realmente, algo que no lhe cheirava bem, embora no pudesse precisar nada, a no ser aquele "Fred" - e todo o mundo responderia a mesma coisa: "Ele no 
era Fred. Basta ler o jornal. Era Charles Hale."
- No devias preocupar-te com essa histria, Ida. No tens nada com isso.
- Eu sei. Eu no tenho nada com isso - disse ela. Mas ningum mais tinha, respondeu-lhe o corao. A  que estava

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o mal: ningum, a no ser ela, para fazer perguntas. Conhecia uma mulher que tinha visto o marido depois de morto, diante do rdio, a tentar mover o boto de sintonizao; 
ela fez o que ele queria, a viso desapareceu, e acto contnuo a mulher ouviu um locutor dizer, na emissora regional dos Middlands: "Aviso de temporal na Mancha." 
A mulher estava a pensar em fazer uma excurso no domingo a Calais. Isso mostrava que a gente no deve troar das histrias de fantasmas. E, se Fred queria revelar 
alguma coisa a algum, no seria ao seu primo em segundo grau de Middlesborough que se dirigiria: por que no a ela mesma? Deixara-a  espera junto  cancela durante 
quase meia hora: talvez quisesse dizer-lhe o motivo. - Era um gentleman - disse Ida em voz alta. E ps o chapu de banda com um gesto atrevido e resoluto, alisou 
os cabelos e levantou-se do seu banco diante do barril de vinho. - Tenho de ir andando. Adeusinho, Clarence.
- Aonde  vais?   Nunca te vi com tanta pressa, Ida, queixou-se ele amargamente, por sobre a cerveja.
Ida ps o dedo no jornal.
- Algum deve aparecer l, ainda que os primos segundos no apaream.
- A ele no lhe interessa saber quem o vai enterrar.
- Isso  que ningum sabe - respondeu Ida, lembrando-se do   fantasma junto ao rdio. -  uma prova de respeito. Depois... eu gosto de enterros.
Mas ele no ia ser enterrado no arrabalde novo e florido em que havia morado. No havia ali enterros anti-higinicos. Duas torres de tijolo nu, como as de um palcio 
municipal da Escandinvia, arcarias com pequenas placas ao longo das paredes, semelhantes s placas comemorativas da guerra nas escolas, uma fria e nua capela secular, 
capaz de ser adaptada com discrio e rapidez a qualquer credo; nada de cemitrios, flores de cera, modestos vasos de flores silvestres a fenecer. Ida chegou um 
pouco tarde. Hesitando um momento diante da porta, no receio de que a casa estivesse cheia de amigos de Fred, pareceu-lhe que algum tinha sintonizado o Programa 
Nacional. Conhecia aquela voz culta e inexpressiva, mas, quando abriu a porta, no foi uma mquina e sim um homem que ela avistou em p, de batina preta, a falar 
em "Cu". No havia ali ningum, a no ser uma proprietria de casa de hspedes,

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uma criada que tinha deixado l fora o carrinho de criana, e dois homens a cochichar com impacincia.
- A nossa crena no Cu - prosseguiu o pastor - no  modificada pela nossa descrena no velho inferno medieval. Ns cremos - disse ele, lanando um rpido olhar 
ao longo do liso e polido plano inclinado, em direco  porta de estilo Arte Nova, atravs da qual o esquife seria lanado s chamas -, ns cremos que este nosso 
irmo j est unificado com o Uno. - Martelava as palavras, como pequenos paraleleppedos de manteiga, com a sua marca particular. - Alcanou a unidade. Ignoramos 
o que seja esse Uno com quem (ou com que) ele est agora unificado. No conservamos as velhas crenas medievais em mares refulgentes e coroas de ouro. A verdade 
 beleza, e para ns, gerao amante da verdade, h uma beleza maior na certeza de que o nosso irmo se acha neste momento reabsorvido no esprito universal.
Tocou num pequeno boto, os batentes da porta Arte Nova abriram-se, as chamas crepitaram, e o atade deslizou com suavidade para dentro do mar de fogo. Os batentes 
tornaram a cerrar-se, a ama-seca levantou-se e tomou o caminho da porta, e o pastor sorriu docemente por trs do plano inclinado, como um prestidigitador que acaba 
de fazer sair sem dificuldade, de dentro de um chapu, o seu noningentsimo quadragsimo coelho.
Estava terminado. Ida espremeu dificilmente uma ltima lgrima num leno perfumado com Californian Poppy. Gostava de funerais, mas com horror, como outras pessoas 
gostam de histrias de fantasmas. O espectculo da morte causava-lhe um choque: a vida era to importante! No era religiosa. No acreditava no Cu nem no Inferno, 
s em fantasmas, pranchetas, mesas que estalam e vozinhas ineptas e queixosas que falam de dentro de flores. Os papistas podiam tratar a morte com frivolidade: a 
vida no era, talvez, to importante para eles como o que vem depois; mas, para Ida, a morte era o fim de todas as coisas. Estar unificado com o Uno no significava 
coisa alguma, em comparao com um copo de Gumess num dia de sol. Acreditava em fantasmas, mas no se podia chamar vida eterna a essa tnue e transparente existncia: 
o ranger de uma tbua, um pedao de ectoplasma num armrio de vidro na sede da Sociedade de Investigaes Psquicas, uma voz que

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Ela ouvira, certa vez, numa sesso, dizendo: "Tudo  esplndido no plano superior. H flores por toda a parte."
"Flores!", pensava Ida com desdm. Isso no era a vida. A vida era a luz do Sol a refulgir nos vares de lato da cama, um clice de vinho do Porto rubro, o pulo 
que d o corao da gente quando o cavalo em que apostmos atinge a meta e os discos sobem um aps o outro. A vida era os pobres lbios de Fred colados aos seus, 
no txi, vibrando com a trepidao do motor ao longo da avenida. De que valia morrer para depois vir dizer tolices sobre flores? Fred no queria flores, ele queria... 
e a gostosa tristeza que Ida sentira no Hennekey voltou mais uma vez. Considerava a vida com profunda seriedade: estava disposta a causar as maiores infelicidades 
a algum para defender a nica coisa em que acreditava. Perder o amigo... - "os coraes partidos sempre se curam", dizia ela; ficar aleijado ou cego - "uma pessoa 
deve considerar-se feliz por estar viva", comentava. Havia uma espcie de impiedade perigosa no seu optimismo, quer estivesse a rir no Hennekey quer a derramar lgrimas 
num enterro ou num casamento.
Saiu do crematrio e viu desprender-se das altas torres os derradeiros vestgios de Fred, num tnue fumo procedente dos fornos. As pessoas que passavam pela florida 
rua suburbana levantavam os olhos e notavam o fumo; os fornos crematrios tinham tido bastante que fazer naquele dia. Fred desceu e pousou, cinza impalpvel, sobre 
as flores vermelhas: tornou-se parte do fumo que infesta Londres. E Ida chorou.
Mas, enquanto chorava, uma resoluo se formava nela: foi crescendo durante todo o caminho at a linha do elctrico que a conduziria ao seu territrio familiar: 
os bares, os anncios luminosos e os teatros de variedades. O que faz o homem so os lugares em que vive, e o crebro de Ida funcionava com a simplicidade e a regularidade 
de um sinal luminoso: o copo eternamente inclinado, a roda que nunca cessava de gritar, a simples pergunta a acender-se e a apagar-se: "Voc usa Forhams para as 
gengivas?" "Eu faria o mesmo por Tom", pensou ela, "por Clarence, esse velho fantasma mentiroso do Hennekey, por Harry.  o menos que se pode fazer por algum ... 
fazer perguntas em inquritos, perguntar coisas em audincias". Algum fizera a infelicidade de Fred e esse algum tinha de

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arrepender-se. Olho por olho. Quem acreditava em Deus podia deixar a vingana por conta dele, mas no era possvel confiar no Uno, no esprito universal. A vingana 
pertencia a Ida, do mesmo modo que a recompensa pertencia a Ida, a boca macia e sfrega nos txis, o clido aperto de mo nos cinemas, a nica recompensa que existia. 
E tanto a vingana como a recompensa eram divertidas.
O elctrico tilintava e espalhava fascas, correndo pelo Embankment. Se fora uma mulher que tinha tornado Fred infeliz, dir-lhe-ia o que pensava. Se Fred se tinha 
matado, ela o descobriria, os jornais publicariam a notcia e algum sofreria. Ida ia comear pelo princpio e levar a sua obra at o fim. Era uma mulher pertinaz.
A primeira etapa (durante o servio fnebre ela conservara o jornal na mo) era Molly Pink, "de profisso secretria particular", empregada da firma Carter & Galloway.
Ida subiu da estao de Charing Cross para a claridade ardente e ventosa do Strand; numa sala superior do edifcio Stanley Gibbons, um homem de comprido bigode grisalho, 
 Eduardo VII, estava sentado atrs de uma janela, examinando um selo com uma lente; um carroo carregado de barris passou com um sonoro rudo. Os repuxos brincavam 
em Trafalgar Square, flor fresca e translcida a desabrochar e cair nos lagos encardidos e fuliginosos. "Isto vai custar dinheiro", repetia Ida de si para si, "a 
gente sempre tem despesas quando quer descobrir a verdade". E avanou vagarosamente por St. Martin's Lane, a fazer clculos, enquanto por baixo da melancolia e da 
resoluo o sangue lhe pulsava clere nas veias, ao compasso do estribilho: "isto  viver,  emocionante,  divertido". Em Seven Dials os negros paravam diante das 
portas dos bares, muito ajanotados, gravatas com as velhas cores escolares. Ida reconheceu um deles e parou para trocar algumas palavras. - Como vo os negcios, 
Joe? - Os grandes dentes brancos acenderam-se como uma srie de luzes na escurido, por cima da vistosa camisa listada.
- ptimos, Ida, ptimos!
- E a febre dos fenos?
- Medonha, Ida, medonha!
- Adeusinho, Joe.
- Adeusinho, Ida.

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Era preciso andar um quarto de hora para ir dali ao escritrio de Carter & Galloway, que ficava no ltimo andar de um alto edifcio das cercanias de Gray's Inn. 
Ida precisava de economizar: no quis sequer tomar um autocarro e quando chegou ao poeirento e antiquado edifcio descobriu que este no possua elevador. Os longos 
lanos de escada de pedra fatigavam Ida. Tivera um dia muito activo e s tinha comido um bolinho na estao. Sentou-se num peitoril de janela e tirou os sapatos. 
Ardiam-lhe os ps e ps-se a esfregar os dedos. Um velho vinha descendo a escada. Usava bigode comprido e tinha um ar debochado, olhando de soslaio. Vestia casaco 
de xadrez, colete amarelo, chapu de coco cinzento na cabea. Tirou o chapu.
- Deseja alguma coisa, minha senhora? - perguntou, baixando sobre Ida os olhos ramelados. - Posso ajud-la?
- No permito que ningum me coce os dedos dos ps - respondeu Ida.
- Ah! Ah! Uma pessoa original, como eu as aprecio. Sobe ou desce?
- Subo.
- Carter & Galloway. Boa firma. Diga que vai da minha parte.
- Como  o seu nome?
- Moyne. Charlie Moyne. Creio que j a encontrei aqui.
- Nunca.
- Em alguma outra parte. Nunca esqueo um belo tipo de mulher. Diga que vai da parte de Moyne. Ho-de fazer-lhe condies especiais.
- Por que no pem elevador nesta casa?
- Gente antiquada. Eu tambm sou. Devo t-la encontrado em Epsom.
-  possvel.
- Conheo logo uma mulher desportiva. Convid-la-ia para partilhar comigo uma garrafa de champanhe no bar da esquina, se esses miserveis no me tivessem arrancado 
a ltima nota de cinco que eu trazia no bolso. Estava com vontade de ir apostar duas libras, mas tenho de ir a casa primeiro. Vai ver que a cotao sobe nesse meio 
tempo. No poderia obsequiar-me, por acaso? Duas libras, Charlie Moyne.

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Os olhos injectados de sangue observavam-na sem esperana, um pouco distantes e despreocupados. Os botes do colete amarelo moviam-se sob as pancadas violentas do 
velho corao.
- Tome - disse Ida. - Pode levar uma libra. Agora ponha-se a andar.
- Muita gentileza sua. D-me o seu carto. Hoje  noite mando-lhe um cheque pelo correio.
- No tenho carto.
- Eu tambm me esqueci de trazer os meus. No faz mal. Charlie Moyne, ao cuidado de Carter & Galloway. Todos me conhecem aqui.
- Est bem - disse Ida. - At  vista. Vou subir.
- Apoie-se no meu brao. - Ajudou-a a levantar-se - Diga-lhes que Moyne a mandou. Condies especiais. - Na curva da escada, virou-se para trs. Ele metia a nota 
de uma libra no bolso do colete, alisando o bigode, ainda dourado nas pontas como os dedos de um fumador, pondo o chapu de coco de banda. "Pobre velhote, quando 
 que ele esperava conseguir esse dinheiro!", pensou Ida, vendo-o descer a escada com o seu velho desespero janota.
Havia apenas duas portas no ltimo patamar. Ela abriu a que tinha o letreiro "Informaes" e deu de rosto com uma rapariga que era indubitavelmente Molly Pink. Num 
pequeno compartimento, pouco maior que um depsito de utenslios de limpeza, Molly estava sentada diante de um bico de gs, a chupar um rebuado. Ida foi acolhida 
por um silvo da chaleira que aquecia sobre o bico de gs. O rosto intumescido da rapariga, com a pele cheia de marcas, encarou-a com os olhos arregalados, sem dizer 
palavra.
- Desculpe - disse Ida.
- Os patres saram.
- Vim para falar consigo.
A boca abriu-se um pouco, o rebuado moveu-se na ponta da lngua, a chaleira sibilou.
- Comigo?
- Sim. Tome cuidado, a chaleira vai deitar por fora. A senhora  Molly Pink, no ?
- Quer uma chvena? - O compartimento tinha as paredes forradas de arquivos, do soalho at o tecto. Uma janelinha revelava, atravs do p acumulado durante muitos 
anos, um

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outro edifcio com a mesma disposio de janelas, e tambm encardido de p, a encarar o seu parceiro como um reflexo. Uma mosca morta pendia numa teia de aranha.
- No gosto de ch - disse Ida.
- Ainda bem, porque eu s tenho uma chvena! - riu a rapariga, enchendo um espesso bule castanho de bico rachado.
- Um amigo meu chamado Moyne... - comeou Ida.
- Ah!, esse! - exclamou Molly. - Acabmos de p-lo na rua. - Um exemplar da revista Woman and Beauty estava aberto diante dela, encostado  mquina de escrever, 
e os olhos de Molly fugiam constantemente para a revista.
- P-lo na rua?
- Na rua. Veio falar com os patres.
- Falou com eles?
- Os patres saram. Quer um rebuado?
- Isso engorda - disse Ida.
- Para compensar, no como nada de manh.
Por cima da cabea de Molly, Ida podia ler os rtulos dos arquivos: "Aluguis de 1-6, Mud Lane", "Aluguis da Vila Wainage, Balham", "Aluguis de..." Rodeava-as 
o orgulho da posse, da propriedade...
- Vim aqui - explicou Ida - porque a senhora falou com um amigo meu.
- Sente-se. Essa  a cadeira dos clientes. O meu trabalho  conversar com eles. Mister Moyne no  um amigo.
- No se trata de Moyne. Um homem chamado Hale. 
- No quero saber mais dessa histria. Queria que a senhora visse a fria dos patres. Tive de pedir um dia de folga por causa do inqurito. No outro dia fizeram-me 
sair mais tarde.
- S quero saber o que aconteceu.
- O que aconteceu! Os patres so medonhos quando se zangam.
- Eu refiro-me a Fred... a Hale.
- No era, a bem dizer, meu conhecido.
- Aquele homem que, segundo a senhora disse, veio falar...
- No era um homem, era apenas um rapaz. Ele conhecia Mister Hale.
- Mas o jornal disse...
- Sim, Mister Hale disse que o no conhecia. Foi s o que lhes contei, porque no me perguntaram nada. S quiseram saber se eu tinha notado qualquer coisa de estranho 
nos modos dele. De estranho, propriamente, no havia nada. Ele estava apenas com medo. Vemos muita gente assim neste escritrio.
- Mas no lhes disse isso?
- Isso no tem nada de extraordinrio. Percebi logo o que havia. Ele devia dinheiro ao rapaz. Ns vemos muita gente assim. Como Charlie Moyne, por exemplo.
- Ento ele estava assustado? Pobre Fred!
- "Eu no sou Fred", disse ele, no tom mais desabrido. Mas eu compreendi tudo. A minha amiga tambm.
- Como era o rapaz?
- Ora, um rapaz como os outros.
- Alto?
- No muito.
- Louro?
- No me lembro bem.
- Que idade tinha?
- Mais ou menos a minha, acho eu.
- E qual  a sua?
- Dezoito - disse Molly, encarando-a com ar de desafio por cima da chaleira fumegante, por cima da mquina de escrever, e chupando um rebuado.
- Ele pediu dinheiro?
- No teve tempo para isso.
- A senhora no reparou em mais nada?
- Ele estava ansioso por que eu o acompanhasse. Mas eu no podia deixar a minha amiga sozinha.
- Muito obrigada - disse Ida. - Sempre soube alguma coisa.
- A senhora  detective?
- No, era apenas amiga dele.
Havia, realmente, algo de suspeito: estava agora convencida disso. Lembrou-se mais uma vez de como ele estava assustado no txi. E, descendo o Holborn sob o sol 
da tardinha, rumo a sua casa, que ficava atrs de Russel Square, tornou a pensar no gesto de Hale quando lhe entregara a nota de dez xelins, antes de ela descer 
para o lavatrio das senhoras. Era um verdadeiro gentleman. Talvez fossem os seus ltimos xelins e

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aquela gente, aquele garoto, a persegui-lo com exigncia de dinheiro! Quem sabe se ele no era outra criatura falida como Charlie Moyne? E, agora que a lembrana 
da sua fisionomia comeava a ficar indistinta, ela emprestava-lhe instintivamente alguns traos de Moyne - pelo menos os olhos injectados. Gentleman desportivos, 
mos abertas, verdadeiros gentlemen... Os cantos despegados dos anncios comerciais pendiam no hall do Imperial, o sol iluminava horizontalmente os pltanos e uma 
sineta badalava sem cessar, chamando para o ch, numa penso de Coram Street.
"Vou experimentar a prancheta", pensou Ida, "e ficarei a saber".
Ao entrar viu um postal na mesa do vestbulo, com uma fotografia do Molhe de Brighton. "Se eu fosse supersticiosa", pensou ela, "se eu fosse supersticiosa...". Virou 
o postal. Era apenas de Phil Corkery, convidando-a a ir at l. Recebia esses postais todos os anos, de Eastbourne, Hastings, e uma vez de Aberystwith. Nunca ia, 
porm. Phil Corkery no era pessoa a quem desejasse encorajar. Sossegado de mais. No era o que ela chamava um homem.
Dirigiu-se para a escada da cave e chamou o velho Crowe. Necessitava de vinte dedos para movimentar a prancheta e sabia que isso daria prazer ao velho.
- Velho Crowe! - gritou, espreitando o fundo dos degraus de pedra. - Velho Crowe!
- Que , Ida?
- Vou trabalhar com a prancheta.
Sem esperar por ela, subiu para o seu quarto-sala de estar, a fim de preparar-se. O quarto dava para leste e o Sol j tinha desaparecido. Estava frio e escuro. Ida 
acendeu o gs e correu as velhas cortinas de veludo escarlate para esconder o cu cinzento e as chamins. Alisou a cama-div e aproximou duas cadeiras da mesa. A 
sua vida contemplava-a de dentro de um armrio de vidro - uma boa vida: louas compradas nas praias, uma fotografia de Tom, um Edgar Wallace, uma Netta Syrett proveniente 
de um ferro-velho, algumas msicas, The Good Companions, o retrato de sua me, mais louas, alguns animais articulados, feitos de madeira e elstico, bibelots com 
que a tinham presenteado vrias pessoas, Sorrell and Son, e a prancheta.

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Tirou-a do armrio com jeito e fechou-o  chave. Aquele pedao oval de madeira chata e polida, munido de rodas pequeninas, parecia-se com algum insecto sado de 
um armrio, numa cozinha de subsolo. Na verdade, fora o velho Crowe quem a fizera. Era ele que batia agora suavemente  porta; introduziu-se de lado pela fresta 
estreita, com os seus cabelos brancos, a cara cinzenta, os olhos mopes como os desses pneis que trabalham nas minas, pestanejando para o globo nu do candeeiro 
de leitura. Ida cobriu a luz com uma mantilha de renda cor-de-rosa, obscurecendo-a para ele.
- Tem alguma coisa a perguntar, Ida? - disse o velho Crowe, estremecendo de leve, atemorizado e fascinado. Ida afiou um lpis e inseriu-o na proa da prancheta.
- Sente-se, velho Crowe. Que fez durante todo o dia?
- Houve um enterro no 27. Um daqueles estudantes indianos.
- Eu tambm estive num enterro. O seu foi bom?
- J no h bons enterros hoje em dia. J no se vem plumas.
Ida deu um pequeno impulso  prancheta, que deslizou lateralmente sobre a mesa polida, parecendo-se mais do que nunca com um escaravelho.
- O lpis est muito comprido - disse o velho Crowe. 
Sentado com as mos apertadas entre os joelhos, inclinava-se para a frente a fim de observar a prancheta. Ida ajustou melhor o lpis, empurrando-o um pouco mais 
para cima.
- Passado ou futuro? - perguntou o velho Crowe, arfando um pouco.
- Hoje quero entrar em comunicao - respondeu Ida.
- Morto ou vivo?
- Morto. Vi queimarem-no esta tarde. No crematrio. Ande, Crowe, ponha os dedos em cima. -  melhor tirar os anis. O ouro atrapalha.
Ida tirou os anis dos dedos e pousou as pontas destes na prancheta, que fugiu dela, rangendo sobre a folha de papel almao. - Ande, velho Crowe.
O velho teve uma risadinha.
- Isto  pecado - disse, encostando os dedos ossudos bem na beira da prancheta e tamborilando com eles nervosamente. - Que  que voc vai perguntar, Ida?

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- Est a, Fred? - perguntou Ida.
A prancheta fugiu, rangendo sob os dedos de ambos, traando longas linhas no papel, ora num sentido ora noutro.
- Ela tem vontade prpria - observou Ida.
- Silncio! - fez o velho Crowe.
A prancheta empinou-se um pouco na roda traseira e parou.
- Podamos olhar agora - disse Ida. Afastou para o lado a prancheta e os dois consideraram juntos os traos enredados.
- Isto aqui pode ser um Y.
- -Tambm pode ser um N.
- Seja como for, h a qualquer coisa. Vamos experimentar de novo. - Pousou os dedos firmemente na prancheta:
- Que te aconteceu, Fred? - E imediatamente a prancheta deslizou. Toda a sua vontade indomvel estava concentrada nos dedos: no se deixaria lograr dessa vez. No 
outro lado da mesinha, o velho Crowe franzia a cara cinzenta num esforo de concentrao.
- Est a escrever... Letras de verdade! - exclamou Ida triunfante e, ao afrouxar por um instante a presso dos dedos, sentiu a prancheta deslizar firmemente, como 
se levasse uma misso prpria.
- Silncio! - disse o velho Crowe. Mas a prancheta empinou-se e parou. Afastaram-na e leram uma palavra inconfundvel em letras grandes e finas, porm no uma palavra 
conhecida: "SUKILL." - Parece um nome.
- Deve significar alguma coisa - tornou Ida. - Tudo que a prancheta escreve tem uma significao. Vamos experimentar outra vez. - E novamente o pequeno besouro de 
madeira abalou, traando o seu rasto tortuoso. A lmpada ardia com a luz vermelha sob a mantilha e o velho Crowe assobiava entre dentes. - Vejamos agora - disse 
Ida, erguendo a prancheta. Uma longa palavra irregular atravessava diagonalmente a folha de papel: "FRESUICILLEYE."
- Bem - disse o velho Crowe -,  uma palavra que enche a boca. Mas da no se aproveita nada, Ida.
-  o que voc pensa - respondeu Ida. - Ora, mais claro no podia ser! "Fre" representa Fred, "suici"  suicdio, e depois vem "eye", olho.  o que eu sempre digo: 
olho por olho, dente por dente.
- Mas... e esses dois LL?

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- Ainda no sei, mas vou fix-los. - Reclinou-se na cadeira, com uma sensao de fora e triunfo. - Eu no sou supersticiosa, mas isto aqui no se pode sofismar. 
A prancheta sabe!
- Ela sabe - confirmou o velho Crowe, chupando os dentes.
- Mais uma tentativa? - A prancheta deslizou, rangeu e parou abruptamente. Ali estava o nome, traado com toda a clareza: "PHIL."
- Bem, bem - disse Ida, corando um pouco. - Quer um biscoito doce?
- Obrigado, Ida, obrigado.
Ida tirou uma lata da gaveta do armrio e passou-a ao velho Crowe.
- Eles arrastaram-no ao suicdio - disse ela, contente. - Eu sabia que havia qualquer coisa de suspeito. Veja esse "EYE". Ele aponta-me o que devo fazer. - E, demorando 
o olhar na palavra "PHIL": - Vou fazer com que essa gente se arrependa amargamente de ter nascido. - Tomou o flego com volpia e estirou as pernas monumentais. 
- O justo e o injusto, eis no que eu acredito. - E, afundando-se um pouco mais, com um suspiro de saciedade feliz, disse ainda: - Vai ser emocionante, vai ser divertido, 
vai ser um bocado de vida, velho Crowe - enunciando o mais alto termo de louvor que podia aplicar a uma coisa, enquanto o velho chupava os dentes e a luz rosada 
piscava sobre Warwick Deeping.

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SEGUNDA PARTE

De p, com as costas voltadas para Spicer, o Rapaz contemplava as guas negras do mar. Estavam sozinhos na extremidade do molhe; quela hora e com aquele tempo, 
toda a gente se encontrava no salo de concertos. O relmpago acendia-se e tornava a apagar-se no horizonte e a chuva caa.
- Onde estiveste? - perguntou o Rapaz. - A andar por a.
- Estiveste l?
- Queria ver se tudo estava em ordem, se no tinhas esquecido nada.
O Rapaz falou devagar, debruando-se sobre o parapeito e recebendo no rosto a chuva  indecisa:
- Quando se mata uma pessoa, li que s vezes se tem de matar outra para arranjar as coisas. - A palavra matar no lhe despertava maior emoo que "caixa", "colarinho", 
"girafa".
- Spicer - disse ele - trata de no ir l.
A imaginao continuava adormecida. Nisso consistia a sua fora. Era incapaz de ver com os olhos dos outros, de sentir com os seus nervos. S a msica o perturbava, 
as cordas de tripa a vibrarem-lhe no corao; era como os nervos a perderem a frescura, como a chegada da velhice, a experincia alheia a bombardear-lhe o crebro.
- Onde est o resto do bando?
- No Sam, a beber.
- Por que no foste beber tambm?
- No tenho sede, Pinkie. Precisava de ar fresco. Esta trovoada deixa a gente esquisita.
- Por que no param esse maldito barulho a dentro?
- disse o Rapaz.
- No vais ao Sam?
- Tenho um trabalho a fazer.
- Tudo vai bem, no , Pinkie? 
Aquele veredicto ps um ponto final nessa histria, hem? Ningum perguntou nada.
- Preciso de ter a certeza - disse o Rapaz.

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- O bando no vai em mais mortes.
- Quem disse que vai haver mais mortes? - O relmpago flamejou, mostrando o seu casaco justo e surrado, o tufo de cabelos macios na nuca. - Tenho uma entrevista, 
nada mais. Toma cuidado com o que dizes, Spicer. No tens medo, pois no?
- No, no tenho medo. Conheces-me mal, Pinkie. S no quero outra morte. Esse veredicto deixou-nos abalados. Que querem eles dizer com aquilo? Ns matmo-lo mesmo, 
no  verdade, Pinkie?
- Temos de continuar a ter muito cuidado, nada mais.
- Mas que queriam dizer com aquilo? No tenho confiana nesses mdicos.  bom de mais.
- Temos de andar com cautela.
- Que  isso que tens no bolso, Pinkie?
- No estou armado. Ests a imaginar coisas... - Um relgio, na cidade, bateu onze horas. Trs das badaladas perderam-se no trovo que ribombou sobre a Mancha. - 
 melhor ires andando - disse o Rapaz. - Ela j est atrasada.
- Tens a uma navalha, Pinkie.
- No preciso de navalha para tratar com uma tipa. Se tens curiosidade em saber,  um frasco.
- Mas tu no bebes, Pinkie!
- Ningum quereria beber isto. - Que , Pinkie?
- Vitrolo. Mete mais medo a uma mulher do que uma faca. - Virou as costas ao mar, com impacincia, e tornou a queixar-se: - Essa msica!... - Ela gemia-lhe dentro 
da cabea, na noite abafada e elctrica. Era a sensao mais parecida com a tristeza que ele conhecia, assim como o ligeiro toque de prazer sensual e secreto que 
sentiu ao tocar com os dedos no frasco de vitrolo, vendo aproximar-se Rosa que passava apressadamente junto ao salo de concertos, era o sentimento mais parecido 
com a paixo de que era capaz.
- Some-te - disse a Spicer. - Ela vem a.
- Oh! - exclamou Rosa -, atrasei-me. Vim a correr at aqui. Julguei que ia pensar...
- Eu esperava - disse o Rapaz.
- Tivemos uma noite medonha l no caf. Tudo me saiu s avessas. Quebrei dois pratos. Depois, o creme estava azedo.

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- Contou tudo aquilo de um flego. - Quem era esse seu amigo? - perguntou, espreitando a escurido.
- No interessa.
- Pareceu-me que... No pude distinguir bem...
- No interessa - repetiu o Rapaz.
- Que vamos fazer?
- Bem, pensei que seria bom conversarmos aqui um pouco e, depois, irmos a qualquer parte. Que tal o Sherry? Para mim  indiferente.
- O Sherry seria esplndido - disse Rosa.
- J recebeu o prmio daquele carto? - Sim, recebi-o hoje de manh.
- Ningum lhe fez perguntas?
- No. Mas no  horrvel o homem ter morrido assim? - Viu a fotografia dele?
Rosa aproximou-se do parapeito e levantou plidamente os olhos, fitando o Rapaz.
- Mas no era ele! Isso  o que eu no compreendo.
- As pessoas parecem diferentes nas fotografias.
- Eu tenho boa memria para fisionomias. No era ele. Deve ser alguma aldrabice. No se pode confiar nos jornais.
- Escute. - Pinkie f-la dar a volta ao canto do molhe, para que ambos ficassem mais afastados da msica, mais a ss com o relmpago no horizonte e a trovoada que 
se aproximava. - Gosto de si - disse o Rapaz com um sorriso pouco convincente que lhe abriu a boca em V - e quero avis-la. Ouvi falar muito desse tal Hale. Ele 
andava envolvido em certas coisas.
- Que espcie de coisas? - sussurrou Rosa.
- Deixe l isso. Eu s queria preveni-la para seu bem. J recebeu o seu prmio... Se eu fosse voc, esqueceria isso, esqueceria por completo o sujeito que deixou 
o carto. Est morto, no  verdade? Voc recebeu o dinheiro.  quanto basta.
- Como quiser - disse Rosa.
- Pode chamar-me Pinkie, se quiser.  o nome que os amigos me do.
- Pinkie - repetiu Rosa, timidamente, enquanto o trovo estalava no alto.
- Leu nos jornais o caso de Peggy Baron, no leu?

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- No, Pinkie.
- Veio em todos os jornais.
- Eu no lia jornais antes de me empregar No tnhamos dinheiro em casa para os comprar.
- Meteu-se com um bando e depois vieram fazer-lhe Perguntas.  perigoso.
- Eu no gostaria de me envolver com um bando assim - disse Rosa.
- Estragaram-lhe a fachada. Perdeu um olho. Atiraram-lhe vitrolo  cara.
Rosa cochichou: "Vitrolo? Que  vitrolo?", e relmpago mostrou um esteio de madeira alcatroada, uma onda a quebrar-se e o rosto plido, ossudo e aterrado da rapariga. 
- Nunca viu vitrolo? - disse o Rapaz arreganhando os dentes no escuro. Mostrou-lhe o frasquinho. -  Isto  vitrolo. - Tirou a rolha e deitou um pouco numa das 
pranchas do molhe: o lquido silvou como um jacto de vapor. - Queima - disse o Rapaz. - Cheire.
E meteu-lhe o frasco debaixo do nariz.
Ela olhou-o cheia de horror, retendo a respirao:
- No seria capaz, Pinkie...
- Estava a brincar consigo - mentiu ele com facilidade. Isto no  vitrolo,  apenas lcool. S queria Preveni-la. Ns dois vamos ser amigos. No quero ter uma 
amiga com a pele queimada. Mas diga-me, se algum lhe fizer perguntas.  Quem quer que seja, lembre-se bem. Telefone imediatamente para o Frank. Seis, seis, seis. 
Um nmero que no se esqece.
Tomou-lhe o brao e conduziu-a da extremidade deserta do molhe por trs do salo de concertos iluminado com a msica evolando-se para o lado da terra, a beliscar-lhes 
as entranhas. 
Pinkie - disse ela -, eu no gosto de me intrometer.  No me meto na vida de ningum. Nunca fui intrometida. Juro por Deus.
- s uma boa pequena.
- Voc sabe muita coisa, Pinkie - volveu Rosa com horror e admirao.
E, de repente, ao ouvir a velha msica romntica que a orquestra tocava "Encanto dos meus olhos, adorvel nos meus braos, s o prprio cu" -, uma 
gota de peonha, feita de clera e de dio, destilou-se dos lbios do rapaz:

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-  preciso saber de muita coisa para se poder viver neste mundo. Vem da, vamos ao Sherry.
Depois de deixarem o molhe, tiveram de correr. Os txis salpicavam-nos com gua. As lmpadas coloridas, ao longo da praia de Hove, reluziam como poas de petrleo 
atravs da chuva. Sacudiram a gua no soalho do Sherry e Rosa viu a enorme bicha  espera, na escada que conduzia s galerias.
- Est cheio - disse ela, desapontada.
- Vamos para o salo - respondeu o Rapaz, pagando os trs xelins com a indiferena de um frequentador habitual. E avanou por entre as mesinhas, os judeus, as taxi-girls 
com os seus cabelos louros e metlicos, as suas bolsinhas pretas, enquanto as luzes coloridas dos projectores coruscavam: verde, cor-de-rosa, azul.
- Isto aqui  maravilhoso - murmurou Rosa. - Lembra-me... - E, enquanto se encaminhavam para a mesa, ela enumerou todas as recordaes que lhe traziam aquelas luzes, 
a msica, a multido que tentava danar a rumba. Tinha um repositrio imenso de lembranas triviais e, quando no vivia no futuro, vivia no passado. Quanto ao presente, 
atravessava-o o mais depressa que podia, fugindo de umas coisas para outras, de modo que tinha sempre a voz um pouco ofegante, o corao a pulsar forte numa evaso 
ou numa expectativa. - Eu meti o prato debaixo do avental e ela disse: "Rosa, que  que escondeste a?" - E um momento depois voltava os olhos grandes e ingnuos 
para o Rapaz com um olhar da mais profunda admirao, da mais respeitosa esperana.
- Que vais tomar? - perguntou o Rapaz.
Ela no conhecia sequer o nome duma bebida. Na Nelson Place, de onde havia surgido como uma toupeira para a luz meridiana do restaurante de Snow e do Molhe do Palcio, 
jamais tinha conhecido um rapaz com bastante dinheiro para lhe oferecer uma bebida. Teve vontade de dizer "cerveja", mas nunca tivera ensejo de verificar se gostava 
de cerveja. Um sorvete de dois pence comprado no triciclo da Sorvetaria Everest era o maior luxo que conhecia. Olhava desamparada para o Rapaz, que lhe perguntou 
em voz dura:
- Que queres? Eu no conheo o teu gosto.
- Um sorvete - disse ela, desapontada. 
No podia faz-lo esperar.

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- Que espcie de sorvete?
- Um sorvete vulgar.
Durante todos aqueles anos passados no seu bairro pobre, a Everest nunca lhe oferecera uma escolha.
- Baunilha? - sugeriu o criado.
Ela aquiesceu. Supunha que era esse o que sempre tinha comprado e, de facto, era - apenas um pouco maior. Salvo essa diferena, era como se estivesse a chup-lo 
entre duas bolachas, ao lado da carrocinha.
- s uma pequena submissa - disse o Rapaz. - Quantos anos tens?
- Tenho dezassete - respondeu ela em tom de desafio. 
Havia uma lei segundo a qual um homem no podia sair com uma pequena antes de ela fazer dezassete anos.
- Eu tenho dezassete tambm - disse o Rapaz. 
E os olhos que nunca tinham sido novos fixaram-se com desprezo nos olhos que apenas tinham comeado a aprender alguma coisa. - Danas? - perguntou ele.
E ela respondeu humildemente:
- No tenho danado muito.
- No faz mal. Eu no sou homem para danar, - Observou o movimento vagaroso dos animais de duas costas: "Prazer - pensou -, chamam a isto prazer." Foi abalado por 
uma sensao de isolamento, de incompreenso horrvel. A pista foi desocupada para o ltimo nmero de variedades daquela noite. A luz de um projector iluminou um 
crculo no soalho, um canonetista de smoking, um microfone sobre uma comprida haste mvel de cor preta. Segurava-o com ternura, como se fosse uma mulher, balanando-o 
suavemente para c e para l, cortejando-o com os lbios, enquanto o alto-falante debaixo da galeria ecoava roucamente o seu murmrio por todo o salo, como um ditador 
a anunciar uma vitria, como a notcia oficial ao cabo de uma longa censura. - Isto mexe c por dentro - disse o Rapaz, abandonando-se  enorme sugesto sonora.

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A msica fala, fala do nosso amor.
O pardal que brinca na rua fala, fala do nosso amor.
Os txis buzinando,
O mocho  noite piando,
Activa abelha zumbindo
Falam do nosso amor.
A msica fala, fala do nosso amor.
O vento d'oeste em nossos passeios fala, fala do nosso amor.
O rouxinol gorjeando,
A broca nas pedras zoando,
O patro telefonando,
A campainha tinindo
Falam do nosso amor.
O Rapaz fitava a luz do projector: msica, amor, mocho, rouxinol, todas essas palavras se agitavam no seu crebro como poesia. Uma das suas mos acariciava o frasco 
de vitrolo dentro do bolso, a outra tocava no pulso de Rosa. A voz inumana comeou a assobiar do alto da galeria e o Rapaz ficou silencioso. Desta vez era ele que 
estava a ser prevenido; a vida segurava o frasco de vitrolo, avisando: "Vou estragar-te a fachada." Falava-lhe pela voz da msica e, quando o Rapaz protestou que 
ele, ao menos, nunca se envolveria nessas coisas, a msica tinha a sua rplica pronta: "Nem sempre se pode evitar. Essas coisas acontecem."
Os ces que guardam as casas falam do nosso amor.
A multido perfilava-se atrs das mesas, a seis de fundo (no havia espao suficiente para tantos na pista de dana). O silncio era profundo. Era como o hino nacional 
no Dia do Armistcio, depois que o rei deps a coroa, quando todas as cabeas se descobrem e as tropas parecem petrificadas. Era uma imitao de amor, uma imitao 
de msica, uma imitao de verdade que eles escutavam.
Gracie Fields chalaceando Os gangsters disparando
Falam do nosso amor.

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A msica continuava a vibrar sob as lanternas chinesas e a luz rsea do projector destacava o judeu a segurar o microfone mais prximo do peito engomado da camisa.
- J te apaixonaste alguma vez? - perguntou o Rapaz em tom spero e inquieto.
- J - disse Rosa.
Ele replicou com uma sbita peonha na voz:
-  natural. Ests muito crua. No sabes o que as pessoas fazem. - A msica parou e, no meio do silncio, ele riu alto. - s inocente. - Algumas pessoas voltaram-se 
para olhar para eles. Uma rapariga espirrou uma risadinha. Os dedos dele beliscaram-lhe o pulso. - Ests muito crua - repetiu. Estava a atiar em si prprio uma 
raivazinha sensual, como fazia com os rapazes molenges na escola oficial. - No sabes nada - disse ele, com desprezo. - Ah! - protestou ela. - Sei muita coisa. 
O Rapaz arreganhou os dentes para Rosa.
- Nada de nada - insistiu, beliscando-lhe a pele do pulso at que as suas unhas quase se encontraram. - Gostavas de mim para teu namorado? Vamos ficar sempre juntos?
- Oh!, seria delicioso - disse ela. Lgrimas de orgulho e de dor picavam-lhe o interior das plpebras. - Se lhe agrada fazer isso, continue.
O Rapaz soltou-a.
- No sejas piegas. Por que havia de me agradar? Pensas que s muito sabida - queixou-se ele. Ficou sentado, a clera como um tio aceso na barriga, enquanto a 
msica recomeava. Todos os seus divertimentos dos tempos passados, com pregos e lascas de madeira; os golpes que aprendera a dar depois, com uma lmina de barbear; 
que graa teriam essas coisas se os outros no gritassem? - Vamo-nos embora - disse, furioso. - No suporto isto. - E Rosa comeou obedientemente a arruinar a bolsa, 
guardando a caixa de p Woolworth e o leno. - Que  isso? - perguntou o Rapaz, ouvindo qualquer coisa fazer rudo dentro da bolsa. Ela mostrou-lhe a extremidade 
de um rosrio.
- s catlica?
- Sou.
- Eu tambm. - Tomou-lhe o brao e empurrou-a para fora, para a rua escura e gotejante. Levantou a gola do casaco e largou a correr, enquanto o relmpago coruscava 
e o trovo

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sacudia o ar. Correram de porta em porta, at se verem de novo na avenida, debaixo de um dos abrigos de vidro desertos. Tinham-no todo para si na noite ruidosa e 
abafada. - At fui menino de coro, em tempos - confiou o Rapaz. E, de sbito, comeou a cantar docemente com a sua voz estragada de rapaz: "Agnus Dei qui tollis 
peccata mundi, dona nobis pacem." Nessa voz agitava-se todo um mundo perdido: o canto iluminado sob o rgo, o odor de incenso e de sobrepelizes recm-lavadas e 
a msica - no importava qual fosse - Agnus Dei, "encanto dos meus olhos, adorvel nos meus braos", "o pardal que brinca na rua", credo in unum Dominum - qualquer 
msica o agitava, falando-lhe de coisas que ele no compreendia.
- Vais  missa? - perguntou.
- s vezes. Depende do trabalho. Muitas semanas no dormiria o suficiente, se fosse  missa todos os domingos.
- Que me interessa o que tu fazes? - proferiu o Rapaz com aspereza. - Eu no vou  missa.
- Mas cr, no  verdade? - implorou Rosa. - Acha que  verdade?
- Claro que  verdade! - disse o Rapaz. - Que mais poderia haver? - continuou desdenhosamente. -  a nica coisa que est certa! Esses ateus no sabem nada. Est 
claro que existe o Inferno. Chamas e maldio - disse, com os olhos postos na gua escura e inquieta, nos relmpagos e nas luzes que se apagavam acima dos negros 
esteios do Molhe do Palcio -, tormentos.
- E o Cu tambm - disse Rosa com ansiedade, enquanto a chuva caa interminavelmente.
- Ah!, pode ser, pode ser...
Molhado at aos ossos, as calas coladas s pernas finas, o Rapaz subiu a longa escada sem passadeira que levava ao seu quarto na penso de Frank. Ao agarrar o corrimo, 
este vacilou e, quando entrou no quarto, encontrou ali o bando a fumar, sentado na sua cama de lato, e disse, furioso:
- Quando  que vo consertar aquele corrimo?  perigoso! Qualquer dia algum cai da escada. - A janela estava aberta, a cortina no fora corrida, e o ltimo relmpago 
coriscou sobre os tectos cinzentos que se estendiam at o mar.

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O Rapaz dirigiu-se para a sua cama e limpou as migalhas do cachorro quente que Cubitt estivera a comer. - Que  isto, uma reunio?
- H sarilho com as quotas, Pinkie - disse Cubitt. - No recebemos duas delas. Brewer e Tate. Dizem que depois da morte de Kite... - Vamos marc-los, Pinkie? - perguntou 
Dallow. Spicer estava junto da janela, olhando a trovoada. No dizia nada, continuando a contemplar as chamas e os abismos do cu.
- Pergunta ao Spicer. Ele anda muito pensativo ultimamente.
Todos se viraram para Spicer, que aconselhou:
- Talvez devssemos sossegar uns tempos. Vocs sabem que muitos dos rapazes saram, quando Kite foi morto.
- Continua - pediu o Rapaz. - Ouam o que ele diz.  o que se chama um filsofo.
- Bem - volveu Spicer, encolerizado -, neste bando todos tm o direito de dizer o que pensam, ou no? Os que saram, saram porque no compreendiam que um garoto 
pudesse dirigir o grupo.
O Rapaz estava sentado na cama, observando-o, com as mos metidas nos bolsos molhados. Teve um estremecimento. 
- Sempre fui contra mortes - afirmou Spicer. - Pouco me importa que o saibam.
- Azedo e medroso - disse o Rapaz.
Spicer veio para o meio do quarto.
- Escuta, Pinkie. Precisas de ser razovel. - E apelou para todos eles: - Sejam razoveis.
- H uma certa verdade no que ele diz - acudiu Cubitt repentinamente. - Tivemos sorte desta vez. No devemos chamar a ateno.  melhor deixar o Brewer e o Tate 
em paz, por enquanto.
O Rapaz levantou-se. Algumas migalhas tinham-se pegado  roupa hmida.
- Ests pronto, Dallow - disse ele, arreganhando os dentes como um grande co amigo.
- Aonde vais, Pinkie? - perguntou Spicer.
- Vou falar com o Brewer. 
Cubitt interveio:

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- Procedes como se tivssemos matado Hale h um ano e no na semana passada. Temos de andar com cautela.
- Esse assunto j est liquidado - disse o Rapaz. - Vocs ouviram a sentena. Morte natural - acrescentou, olhando a tempestade que morria l fora.
- Esqueces-te daquela rapariga do Snow. Ela pode levar-nos  forca.
- Estou a ocupar-me dela. No falar.
- Vais casar com ela, no? - disse Cubitt. E Dallow soltou uma risada.
O Rapaz tirou as mos dos bolsos, com os punhos cerrados, os ns dos dedos brancos.
- Quem te disse que eu ia casar com ela?
- Spicer - respondeu Cubitt.
Spicer bateu em retirada diante do Rapaz.
- Escuta, Pinkie. Eu s disse que o casamento era uma garantia. Uma mulher casada no pode depor...
- No tenho necessidade de casar com uma sujetinha qualquer para me garantir. E como  que nos vamos garantir contra ti, Spicer? - Passou a lngua entre os dentes, 
lambendo as bordas dos lbios secos e rachados. - Se for preciso dar-te um golpe...
- Foi uma brincadeira - disse Cubitt. - No deves levar isso a srio. No tens sentido de humor, Pinkie.
- Vocs acham graa a isso, hem? Eu... casar... com aquela pirosa! Aah! Aah! - regougou para os outros. - Pois sim! Vamos, Dallow.
- Esperem que amanhea - disse Cubitt. - Esperem que venham os outros.
- Ests a cort-las tambm?
- Sabes que isso no  verdade, Pinkie. Mas ns devemos ter calma.
- Ests comigo, Dallow? - perguntou o Rapaz.
- Estou contigo, Pinkie.
- Ento, vamos andando. - Dirigiu-se para o lavatrio e abriu a portinhola onde guardava o bacio. Tacteou no fundo, atrs deste, e tirou uma lmina pequenina, semelhante 
s lminas com que as mulheres se depilam, mas embotada numa das bordas e montada em adesivo. Fixou-a sob a longa unha

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do polegar, a nica que no estava roda at o sabugo, e enfiou a luva.
- Voltaremos com a quota daqui a meia hora - disse ele.
E desceu rapidamente a escada de Frank,  frente de Dallow. O frio da roupa encharcada havia-lhe penetrado sob a pele. Surgiu na avenida da praia um passo adiante 
de Dallow, com as feies convulsas de febre, os ombros estreitos crispados num arrepio. Virou a cabea para trs e disse ao companheiro: - Vamos  casa do Brewer. 
Uma lio ser bastante.
- Tu  que mandas, Pinkie - respondeu Dallow, seguindo-lhe na peugada.
A chuva tinha parado. A mar estava baixa e a borda rasa do mar raspava a areia muito longe, nos confins da praia. Um relgio bateu meia-noite. Dallow ps-se a rir 
de repente.
- Que bicho te mordeu, Dallow?
- Estava a pensar. Tu s um gajo e pras, Pinkie. Kite fez bem em te aceitar no bando. Vais direito ao fim, Pinkie.
- Tu s dos fixes - respondeu o Rapaz, com os olhos fixos na frente, o rosto contorcido pela febre.
Passaram diante do Cosmopolitan, com as luzes acesas aqui e ali em toda a alta fachada, at os torrees que se desenhavam contra o cu nublado e mvel. Dobraram 
para o Old Steyne. Brewer tinha uma casa prximo s linhas do elctrico da estrada de Lewes, quase sob o viaduto do caminho de ferro.
- Ele j se deitou - disse Dallow.
Pinkie tocou a campainha, sem tirar o dedo do boto.
Casas de comrcio baixas, fechadas com postigos, estendiam-se dos dois lados; um elctrico vazio passou, com o letreiro "Vai recolher", retinindo a campainha e danando 
nos trilhos pela rua deserta, com o condutor a dormir num dos assentos, o tejadilho brilhante de gua da chuva. Pinkie conservava o dedo no boto da campainha.
- Que foi que levou Spicer a inventar essa histria de eu casar com ela? - perguntou ele.
- Acho que isso taparia a boca da rapariga.
- No  ela que me faz perder o sono - disse o Rapaz, sempre a carregar o boto.
Uma luz acendeu-se no andar de cima, uma janela rangeu, uma voz gritou:
- Quem ?

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- Sou eu, Pinkie.
- Que queres? Porque no vens de manh?
- Quero falar contigo, Brewer.
- No temos nenhum assunto to urgente, que no possa esperar, Pinkie.
-  melhor abrires a porta, Brewer. Queres que eu chame a malta?
- A velhota est muito doente, Pinkie. No quero encrencas. Est a dormir. H trs noites que no dormia.
- Isto vai acord-la - disse o Rapaz, com o dedo no boto da campainha.
Um comboio de mercadorias passou devagar no viaduto, espalhando fumo na estrada de Lewes.
- Pra com isso, Pinkie, eu vou abrir a porta.
Pinkie esperou, arrepiado, a mo enluvada no fundo do bolso hmido. Brewer abriu a porta: era um homem corpulento, de meia idade, metido num pijama branco e sujo. 
Faltava o boto de baixo e o casaco abria-se diante da barriga saliente e do umbigo fundo.
- Entra, Pinkie, e anda devagar. A velha est mal. Ando muito apoquentado.
- Foi por isso que no pagaste a quota, Brewer?
O Rapaz correu os olhos com desprezo pelo vestbulo estreito - o cunhete de munies convertido em bengaleiro, a cabea de veado roda de traa com um chapu de 
coco pendurado num dos galhos, o capacete de ao usado como vaso para cultivar um p de avenca. Kite devia ter arranjado gente de mais dinheiro. Brewer era um agente 
de apostas recm-estabelecido com casa prpria. Pouco tempo atrs, ainda exercia a profisso pelas esquinas e pelos bares. Um caloteiro. Era intil tentar arrancar-lhe 
mais de dez por cento das suas apostas.
- Venham c para dentro que  mais confortvel - disse Brewer. - Aqui est quentinho. Que noite fria!
Mesmo de pijama, conservava os seus modos joviais de encomenda. Era como uma legenda numa cautela de apostas: "A Velha Firma. V. Ex.a pode confiar em Bill Brewer." 
Acendeu o fogo de gs, deu a volta ao comutador de uma lmpada de coluna com um quebraluz de seda vermelha e franja de borlas. A luz reflectiu-se numa caixa de 
biscoitos de casquinha, numa fotografia de casamento emoldurada.

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- Tomam um gole de whisky? - convidou Brewer.
- Sabes que eu no bebo - recusou o Rapaz.
- O Ted aceita - disse Brewer.
- Aceito um gole - agradeceu Dallow. Arreganhou os dentes e acrescentou: - C vai.
- Viemos cobrar a quota, Brewer - disse o Rapaz.
O homem de pijama esguichou soda para o seu copo. Voltado de costas, observou Pinkie no espelho colocado acima do aparador at encontrar os olhos do outro.
- Ando preocupado, Pinkie. Desde que liquidaram o Kite. 
- E da? - perguntou o Rapaz.
-  o seguinte: eu disse c comigo: se o bando de Kite no  capaz de proteger nem sequer... - Interrompeu-se de repente e ps-se  escuta. - Aquilo teria sido a 
velha? - Um rudo de tosse, muito fraco, vinha do quarto de cima. - Ela acordou - disse Brewer. - Tenho de ir v-la.
- Fica aqui - ordenou o Rapaz. - E fala.
- Mas  preciso vir-la.
- Quando tivermos terminado, podes ir.
A tosse continuava: era como um motor que tentasse comear a trabalhar e falhasse. - Sejam humanos! - pediu Brewer, desesperado. - Ela no sabe onde eu estou. No 
demoro mais de um minuto.
- No precisas de ficar mais de um minuto aqui - disse Pinkie. - S queremos o que  nosso. Vinte libras.
- No tenho esse dinheiro em casa. Palavra que no tenho.
- Pior para ti.
O Rapaz tirou a luva da mo direita.
- Acontece o seguinte, Pinkie: eu paguei tudo ontem ao Colleoni.
- Que diabo  que o Colleoni tem a ver com isso? 
Brewer continuou a falar rpida e desesperadamente, escutando a tosse interminvel l em cima:
- S razovel, Pinkie. Eu no posso pagar aos dois. Davam cabo de mim, se eu no tivesse pago ao Colleoni.
- Ele est em Brighton?
- Est hospedado no Cosmopolitan.
- E o Tate? Tambm pagou ao Colleoni?

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- Tambm, Pinkie. Ele est a explorar o negcio em grande escala.
"Em grande escala": era uma acusao, uma aluso  cama de lato no Frank, s migalhas no colcho.
- Achas que eu estou liquidado? - perguntou o Rapaz.
- Aceita o meu conselho, Pinkie, e liga-te ao Colleoni.
O Rapaz levou subitamente a mo atrs e deu um corte na face de Brewer com a lmina pregada na unha. Um fio de sangue apareceu ao longo do osso da ma do rosto.
- No! No! - exclamou Brewer, recuando at o aparador e derrubando a lata de biscoitos. - Eu estou bem coberto. Tomem cuidado. Eu estou bem coberto.
O Rapaz riu-se. Dallow tornou a encher o seu copo com o whisky de Brewer.
- Olha a cara dele - disse o Rapaz. - Est bem coberto. - Dallow esguichou um dedo de soda no whisky.
- Queres mais? - perguntou o Rapaz. - Isso foi s para te mostrar quem  que te cobre.
- Eu no posso pagar aos dois, Pinkie. Pelo amor de Deus, chega-te para l.
- Ns viemos buscar as vinte libras, Brewer.
- Colleoni vai dar cabo de mim, Pinkie.
- No tenhas medo. Ns protegemos-te.
A mulher continuou a tossir l em cima, depois soltou um dbil grito, semelhante ao de uma criana adormecida.
- Ela est a chamar-me - disse Brewer.
- Vinte libras.
- No guardo aqui o dinheiro. Deixa-me ir busc-lo.
- Vai com ele, Dallow. Eu espero. - O Rapaz sentou-se numa cadeira de encosto vertical e fixou o olhar na rua srdida l fora, nas latas do lixo dispostas ao longo 
do passeio, na vasta sombra do viaduto. Mantinha-se perfeitamente imvel na cadeira, com os seus olhos cinzentos e velhos que no deixavam adivinhar nada.
Colleoni estava a explorar o negcio em grande escala, e ele sabia que no podia confiar num s homem do seu bando - excepto, talvez, Dallow. Mas isso no importava. 
Quem no confia em ningum no pode errar. Na rua, um gato rodeou cautelosamente uma lata, parou de repente, agachou-se e, na semiescurido, os seus olhos de gata 
fixaram-se nos do Rapaz.

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Nenhum dos dois se movia. Observaram-se mutuamente at que Dallow voltou. 
- Tenho o dinheiro, Pinkie - disse Dallow. O Rapaz voltou a cabea e arreganhou os dentes para ele. De sbito o seu rosto convulsionou-se; espirrou duas vezes, com 
violncia. No andar de cima a velha parou de tossir. - Ele no se h-de esquecer desta visita - acrescentou ansiosamente: - Devias tomar um gole de whisky, Pinkie. 
Constipaste-te.
- Estou bem - respondeu o Rapaz, levantando-se. - No vamos esperar para nos despedirmos.
Precedeu o outro pelo meio da rua vazia, entre as duas linhas de elctricos. De repente, perguntou-lhe:
- Achas que eu estou liquidado, Dallow?
- Tu? Ainda nem comeaste! - Caminharam algum tempo em silncio, com a gua das goteiras a pingar na calada. Por fim, Dallow falou. - Ests preocupado com o Colleoni?
- No!
- Tu vales uma dzia de Colleonis. O Cosmopolitan - exclamou o outro, cuspindo.
- Kite quis explorar o negcio das mquinas automticas. Pagou caro. Agora Colleoni pensa que o terreno est desimpedido e comea a estender o negcio tambm.
- Devia ter aprendido com o exemplo de Hale.
- Hale teve morte natural. 
Dallow riu:
- Vai dizer isso ao Spicer. - Dobraram a esquina do Royal Albion e sentiram de novo a presena do mar. A mar tinha virado: um movimento, um cachoar de ondas nas 
trevas. De sbito, o Rapaz lanou a Dallow um olhar de esguelha (podia confiar em Dallow) e aquela cara feia, de nariz quebrado, transmitiu-lhe uma sensao de triunfo, 
de camaradagem e de superioridade. A mesma coisa sente o aluno fisicamente fraco, mas astuto, que conquista a fidelidade cega do mais possante aluno da escola. - 
Seu trouxa... - disse ele, beliscando o brao de Dallow num gesto que era quase de afeio.
Ainda havia uma luz acesa na penso de Frank e Spicer estava  espera no vestbulo.
- Houve alguma coisa? - perguntou ele ansiosamente. O seu rosto plido cobrira-se de manchas vermelhas em redor da boca e do nariz.

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- Que  que tu esperavas? - disse o Rapaz, subindo a escada. - Trouxemos a massa.
Spicer seguiu-o at ao quarto.
- Telefonaram para ti logo que saste.
- Quem era?
- Uma pequena chamada Rosa.
O Rapaz sentou-se na cama, desatando o atacador do sapato.
- Que queria ela?
- Disse que, enquanto andava a passear contigo, algum tinha ido procur-la.
O Rapaz imobilizou-se com o sapato na mo. - Pinkie, essa  a tal garota? A do Snow?
- Naturalmente que .
- Fui eu que atendi ao telefone, Pinkie.
- Ela conheceu-te a voz?
- Como posso saber, Pinkie?
- Quem foi que a procurou?
- Ela no sabia. Disse que te avisasse, porque tu querias estar informado. Imagina, Pinkie, se os xuis j descobriram essa garota!
- Os xuis no so assim to espertos. Talvez seja um dos homens de Colleoni,  procura do Fred. - Tirou o outro sapato. - No precisas de ter medo, Spicer.
- Era uma mulher, Pinkie.
- No estou preocupado. Fred morreu de morte natural. Esse foi o veredicto. Podes ficar sossegado. H outras coisas em que pensar agora. - Colocou os sapatos debaixo 
da cama, um ao lado do outro, tirou o casaco, pendurou-o numa das bolas de lato, tirou as calas e deitou-se em camisa e cuecas. - Acho, Spicer, que devias fazer 
umas frias. Andas com um ar abatido. No me agrada que te vejam assim. - Cerrou os olhos. - Vai-te embora, Spicer, e no te rales.
- Se essa pequena chegasse a descobrir quem deixou o carto...
- Nunca h-de saber. Apaga a luz e pe-te a andar.
O quarto ficou s escuras e a Lua acendeu-se como uma lmpada l fora, deslizando sobre os telhados, projectando sombras de nuvens no planalto ondulado das dunas, 
iluminando

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os alvos pavilhes desertos do campo de corridas sobranceiro ao Whitehawk Bottom, como se fossem os monlitos de Stonehenge, refulgindo sobre a mar enchente que 
vinha de Boulogne lamber os pilares do Molhe do Palcio. Alumiava o toucador, a porta aberta onde se achava o bacio, as bolas de lato dos ps da cama e a extremidade 
desta.

69

2

O Rapaz estava deitado na cama. Uma xcara de caf esfriava no toucador e a cama estava polvilhada de migalhas de bolos. O Rapaz molhou na lngua a ponta de um lpis-tinta, 
sujou os cantos dos lbios de roxo, escreveu: "Remeto-o  minha carta anterior" e concluiu afinal: "Pel'A Proteco dos Apostadores." O sobrescrito, endereado a 
"Mr. R. Tate", estava sobre o toucador, com um canto sujo de caf. Quando acabou de escrever, tornou a recostar a cabea no travesseiro e cerrou os olhos. Adormeceu 
logo: era como uma persiana que cai, a presso de um bulbo que pe fim  exposio de uma chapa fotogrfica. No tinha sonhos. O seu sono era simples funo fisiolgica. 
Quando Dallow abriu a porta, ele acordou imediatamente.
- Ento? - disse, continuando deitado e sem se mexer, completamente vestido entre as migalhas de bolos.
- Judy trouxe uma carta para ti, Pinkie. - O Rapaz pegou nela. -  uma carta elegante, Pinkie. Cheira.
O Rapaz levou ao nariz o sobrescrito cor de malva. Cheirava a pastilhas para o mau hlito.
- No podes deixar essa tipa sossegada? Se o Frank vem a saber...
- Quem te escrever uma carta to elegante, Pinkie?
- O Colleoni. Quer que eu v conversar com ele ao Cosmopolitan.
- Ao Cosmopolitan! - repetiu Dallow com nojo. - Tu no vais, hem?
- Claro que vou.
- No  stio onde te sintas  vontade.
- Elegante - replicou o Rapaz -, como esse papel de carta carssimo. Ele pensa que me mete medo.
- Talvez seja bom no nos metermos com o Tate.
- Leva esse casaco ao Bill. Diz-lhe que lhe d uma limpeza rpida e uma passadela. Escova esses sapatos. - Puxou-os de debaixo da cama com o p e sentou-se. - Ele 
pensa que vai ganhar a partida. - Avistou o seu rosto no espelho inclinado do toucador, mas desviou vivamente o olhar daquelas faces lisas

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nunca barbeadas, dos cabelos macios, dos olhos de velho: aquilo no o interessava. Era orgulhoso de mais para se inquietar com as aparncias.
Assim, algumas horas mais tarde, sentia-se perfeitamente  vontade enquanto esperava Colleoni no grande salo sob as luzes altas: rapazes chegavam continuamente, 
vestindo enormes casacos de motorista, acompanhados de criaturinhas delicadamente pintadas que retiniam como cristais caros, quando tocadas, mas davam a impresso 
de ser duras e afiadas como lata. Atravessavam o salo sem olhar para ningum, rpidas como tinham vindo pela estrada de Brighton nos carros de corrida, e iam instalar-se 
nos altos tamboretes do bar americano. Uma mulher corpulenta, com uma pele de raposa branca, saiu do elevador, encarou o Rapaz, tornou a entrar no elevador e subiu 
pesadamente. Uma pequena judia farejou-o de longe, como uma cadela, e ps-se a falar dele com outra pequena judia sentada num canap. Mr. Colleoni surgiu do escritrio 
Lus XVI e atravessou o enorme e espesso tapete, na ponta dos ps calados de verniz.
Era um judeu pequeno, com um belo ventrezinho redondo; usava colete assertoado e os seus olhos luziam como uvas passas. Tinha o cabelo ralo e grisalho. As duas cadelinhas 
do canap pararam de conversar  sua passagem e concentraram-se. Ele emitia um leve retinir de moedas ao caminhar; era esse o nico som que se ouvia.
- Desejava falar comigo?
- O senhor  que me chamou. Recebi a sua carta.
- Mas o senhor, sem dvida, no  Mister P. Brown? - volveu Mr. Colleoni, fazendo um gesto desnorteado com as mos. - Imaginava-o muito mais velho - explicou.
- O senhor mandou-me chamar - disse o Rapaz.
Os olhinhos de uva passa mediram-no de alto a baixo: a fatiota limpa com uma esponja molhada, os ombros estreitos, os sapatos pretos, baratos.
- Julguei que Mister Kite...
- Kite morreu. O senhor bem sabe.
- No sabia - replicou Mr. Colleoni. -  claro que isso modifica a situao.
- Pode falar comigo - disse o Rapaz.

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Mr. Colleoni sorriu.
- No acho que seja necessrio.
- Ser melhor para si - acentuou o Rapaz. Um riso musical veio do bar americano, acompanhado pelo entrechocar de pedaos de gelo. Um groom saiu da sala Lus XVI, 
chamando: "Sir Joseph Montagu, Sir Joseph Montagu!", e passou ao boudoir Pompadour. A mancha de humidade, acima do bolso do peito do Rapaz, onde o ferro de engomar 
de Frank se esquecera de passar, ia secando pouco a pouco no ar quente do Cosmo-politan.
Mr. Colleoni estendeu a mo e deu-lhe umas rpidas palmadinhas no brao.
- Venha comigo. - E foi  frente para mostrar o caminho, passando nas pontas dos sapatos de verniz diante do canap onde as judias cochichavam, diante duma mesinha 
onde um homem dizia "Eu disse-lhes que dez mil era o meu limite" a um velho sentado, com os olhos fechados, diante do seu ch, que esfriava. Mr. Colleoni olhou por 
cima do ombro, dizendo suavemente: - O servio aqui j no  to bom como noutros tempos.
Lanou um olhar ao interior da sala Lus XVI. Uma mulher de vestido cor de malva, com um disparatado turbante na cabea, escrevia uma carta no meio de uma vasta 
confuso de bugigangas chinesas. Mr. Colleoni conduziu Pinkie s grades douradas do ascensor.
- Nmero quinze - disse ele. Subiram anglicamente para a paz. - Um charuto? - ofereceu Mr. Colleoni.
- No fumo - disse o Rapaz. 
Um ltimo guincho de alegria veio de baixo, do bar americano, a ltima slaba pronunciada pelo groom ao sair do boudoir Pompadour: "gu", antes que a porta do elevador 
tornasse a fechar-se e eles se encontrassem no corredor alcatifado,  prova de som. Mr. Colleoni parou e acendeu o charuto. - Deixe-me ver esse isqueiro - pediu 
o Rapaz.
Os olhinhos astutos de Mr. Colleoni brilhavam inexpressivos  claridade da luz indirecta. Estendeu o isqueiro. O Rapaz virou-o entre os dedos e procurou a marca 
do contraste.
- Ouro legtimo - disse.
- Gosto das coisas boas - afirmou Mr. Colleoni, abrindo uma porta que estava fechada  chave. - Sente-se. - As poltronas,

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majestosas, forradas de veludo vermelho, com coroas bordadas a fios de ouro e prata, faziam frente s amplas janelas que davam para o mar e s varandas de ferro 
forjado. - Bebe alguma coisa? - No bebo.
- Bem - perguntou Mr. Colleoni -, quem foi que o mandou aqui?
- Ningum me mandou.
- Quero dizer: quem est a dirigir o seu bando, uma vez que morreu Kite?
- Sou eu quem o dirige - respondeu o Rapaz.
Mr. Colleoni conteve polidamente um sorriso, dando pancadinhas com o isqueiro de ouro na unha do polegar.
- Que aconteceu ao Kite?
- O senhor conhece essa histria - respondeu o Rapaz, demorando o olhar nas coroas napolenicas, no fio de prata. - Certamente no h-de querer ouvir os pormenores. 
No teria acontecido, se no nos tivessem atraioado. Um jornalista pensou que podia tramar-nos.
- Que jornalista  esse?
- O senhor devia ler os inquritos judiciais - disse o Rapaz, contemplando, atravs da janela, a plida abbada do cu, contra a qual se avolumavam algumas nuvens 
ligeiras.
Mr. Colleoni olhou para a cinza do seu charuto: tinha meia polegada de comprimento. Instalou-se melhor na poltrona e cruzou, cheio de satisfao, as perninhas ndias.
- Quanto a Kite, no digo nada - ripostou o Rapaz. - Pisou o risco.
- Quer dizer que o senhor no est interessado em mquinas automticas?
- Quero dizer que pisar o risco  perigoso.
Um suave odor de almscar espalhou-se pela sala, proveniente do leno de bolso de Mr. Colleoni.
- O senhor  que necessitaria de proteco - insinuou o Rapaz.
- Tenho toda a proteco de que necessito. - Fechou os olhos; estava bem instalado, aconchegado no hotel luxuoso, sentia-se em casa. O Rapaz estava sentado na borda 
da cadeira, porque no gostava de conforto durante as horas de trabalho; era ele que parecia um estranho nesta sala, no Mr. Colleoni.

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- Est a perder o seu tempo, meu rapaz. Os senhores no me podem fazer mal algum. - E, rindo com doura: - Em todo o caso, se quiser um emprego, venha procurar-me. 
Gosto de gente empreendedora. Creio que encontraria um lugar para si. O mundo precisa de gente nova, com energia. - A mo que segurava o charuto moveu-se expansivamente, 
configurando o mundo tal como Mr. Colleoni o concebia: muitos relgios elctricos controlados por Greenwich, botes de campainha numa secretria, uma boa suite de 
primeiro andar, exames de contas, relatrios de agentes, pratarias, talheres, cristais.
- Ver-nos-emos nas corridas - disse o Rapaz.
- Ser um pouco difcil. H cerca de... deixe-me ver... vinte anos que no piso um hipdromo. - Os mundos de ambos, parecia ele insinuar, enquanto revolvia entre 
os dedos o seu isqueiro de ouro, no tinham um s ponto de contacto: o week-end no Cosmopolitan, o dictafone porttil junto  secretria no tinham a menor relao 
com as navalhadas que tinham liquidado Kite numa plataforma de estao, com a mo suja que fazia sinais ao apostador do alto do palanque, com o calor e a poeira 
que envolviam o recinto das apostas de meia coroa, com o cheiro de cerveja engarrafada.
- Sou apenas um homem de negcios - explicou brandamente Mr. Colleoni. - No preciso de assistir s corridas. Alm disso, nada que os senhores possam tentar contra 
os meus homens me afectar. Tenho agora dois no hospital. No tem importncia. Recebem o melhor tratamento possvel. Flores, uvas... Posso pagar tudo isso. No preciso 
preocupar-me. Sou um homem de negcios - prosseguiu, expansivo e bem humorado. - Gosto do senhor.  um jovem que promete. A est por que lhe falo como um pai. O 
senhor no pode arruinar um negcio como o meu.
- Mas podia arruin-lo a si.
- No compensava. O senhor no disporia de libi nenhum. As suas testemunhas  que teriam medo. Eu sou um homem de negcios. - Os olhos de uva passa pestanejaram 
diante do raio de sol que entrou oblquo, iluminando uma jarra de flores e pousando no tapete. - Napoleo III costumava hospedar-se neste quarto - lembrou Mr. Colleoni 
- em companhia de Eugenia.

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- Quem era ela?
- Oh! - respondeu Mr. Colleoni vagamente - uma dessas estrangeiras... - Tirou uma flor, enfiou-a na lapela e os olhinhos negros tomaram uma expresso um tanto cmica, 
uma sugesto de serralho.
- Vou indo - disse o Rapaz. Levantou-se e tomou o caminho da porta.
- Compreende-me, no  verdade? - atalhou Mr. Colleoni, sem se mexer. Com a mo completamente imvel, conservava suspensa a cinza do charuto, que atingira um comprimento 
considervel. - Brewer queixou-se. No volte a fazer isso. E Tate... no brinque com Tate. - A sua velha cara semtica revelava poucas emoes alm de um leve divertimento, 
uma suave cordialidade; mas, de repente, sentado naquela opulenta sala vitoriana, com o isqueiro de ouro no bolso e a charuteira no regao, assumiu a aparncia de 
um homem que fosse dono do mundo inteiro, de todo o mundo visvel, das caixas registadoras, dos polcias e das prostitutas, do Parlamento e das leis que dizem: "Isto 
 lcito, aquilo no ."
- Compreendo muito bem - disse o Rapaz. - O senhor acha o nosso bando muito insignificante.
- Dou trabalho a muita gente - tornou Mr. Colleoni.
O Rapaz fechou a porta. Um cordo desatado do sapato foi a bater no soalho pelo corredor fora. O vasto salo estava quase vazio: um homem de knickerbockers esperava 
uma rapariga. Todo o mundo visvel pertencia a Mr. Colleoni. O lugar onde o ferro de engomar no tinha passado estava ainda um pouco hmido sobre o peito do Rapaz.
Algum lhe tocou no brao. Olhou para trs e reconheceu o homem de chapu de coco. Fez um sinal com a cabea, precavidamente.
- Bom dia.
- Disseram-me em casa de Frank que voc tinha vindo aqui - explicou o homem.
O corao do Rapaz parou um instante de bater. Ocorreu-lhe, quase pela primeira vez, que a lei podia enforc-lo, atir-lo para uma cova aberta num ptio de priso 
e sepult-lo em cal, pondo um ponto final no grande futuro...
- Veio-me buscar?
- Isso mesmo.

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Ele pensou: Rosa, a garota, algum a perguntar coisas. Acendeu-se um claro na sua memria: lembrou-se de quando ela o apanhara com a mo debaixo da toalha da mesa, 
tacteando  procura de alguma coisa. Arreganhou os dentes num sorriso sem graa e disse:
- Ainda bem que no mandaram os Quatro Grandes!
- Quer ter a bondade de vir at  esquadra?
- Tem um mandado de priso a?
- Foi apenas o Brewer, que se queixou de que voc o agrediu. Deixou-lhe uma cicatriz.
O rapaz ps-se a rir:
- Brewer! Eu! No seria capaz de lhe tocar.
- Vamos at l falar com o inspector?
- Claro!
Saram para a avenida. Um fotgrafo viu-os aproximar pela calada e tirou o obturador da mquina. O Rapaz ps as mos diante do rosto e passou.
- Vocs deviam acabar com isto. Seria bonito, se pusessem um postal em exposio no molhe, com ns dois a caminhar para a esquadra.
- Uma vez apanharam um assassino na capital por meio de um desses instantneos.
- Eu li a histria - disse o Rapaz. E mergulhou em silncio.
"Isto  obra de Colleoni - pensou ele. - Est a dar-se ares; foi ele quem instigou o Brewer."
- A mulher de Brewer est bastante mal, segundo dizem - observou o polcia com brandura.
- Ah!, sim? No sei de nada.
- J tem o seu libi preparado, imagino?
- Como posso saber? No sei em que ocasio ele diz que o agredi. Um sujeito no pode ter um libi para cada minuto do dia.
- Voc sabe-a toda - sublinhou o polcia -, mas no precisa de ficar nervoso. O inspector quer ter uma conversa amigvel consigo, nada mais.
Conduziu-o  sala das denncias. Um homem de rosto fatigado e envelhecido estava sentado atrs de uma escrivaninha.
- Sente-se, Brown.
Abriu uma cigarreira e estendeu-lha por cima da mesa.

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- No fumo - disse o Rapaz. Sentou-se e comeou a observar o inspector, de olho vivo. - No me vai acusar?
- No h acusao. Brewer mudou de ideias. - O inspector fez uma pausa, com o ar mais cansado que nunca. - Pelo menos desta vez, vamos falar franco. Ns dois conhecemo-nos 
melhor do que queremos fazer crer. No me meto entre voc e Brewer. Tenho mais que fazer do que evitar discusses entre vocs. Mas voc sabe to bem como eu que 
Brewer no viria queixar-se, se no tivesse sido instigado por algum.
- No h dvida de que o senhor tem ideias interessantes - replicou o Rapaz.
- Instigado por algum que no receia o seu bando.
- Os xuis no deixam escapar nada - - tornou o Rapaz com uma careta escarninha.
- As corridas comeam na semana que vem e eu no quero lutas entre vocs, aqui em Brighton. No me interessa que se retalhem uns aos outros discretamente; no dou 
cinco ris pelas vossas miserveis peles; mas, quando dois bandos entram em luta, podem sair feridos cidados teis.
- Quem?
- Pessoas honestas e inocentes. Gente pobre que vai arriscar um xelim nos cavalos. Empregados de comrcio, mulheres a dias, varredores. Gente que por forma alguma 
eu desejaria ver morta por se envolver consigo... ou com Colleoni.
- Aonde quer chegar? - perguntou o Rapaz.
- Ao seguinte; voc no est  altura da posio que assumiu, Brown. No pode fazer frente a Colleoni. Se houver luta, eu cairei sem piedade em cima de vocs - mas 
ser Colleoni quem se sair bem da enrascada. Voc no encontrar testemunhas que deponham a seu favor, contra ele. Oua o meu conselho; desaparea de Brighton.
- Bonito! - exclamou o Rapaz. - Um xui a fazer o jogo de Colleoni!
- isto  uma conversa particular entre ns. Estou a ser humano, por uma vez. Pouco me importa que voc seja retalhado ou Colleoni seja retalhado, mas farei o que 
puder para impedir que sofram pessoas inocentes.
- Pensa que estou liquidado? - perguntou o Rapaz. 
Arreganhou os dentes, perturbado, desviando o olhar, relanceando-o pelas paredes cobertas de avisos. Licenas para ces. Licenas

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para porte de armas. Afogados. Uma cara morta se lhe deparou aos olhos, fitando-o da parede, plida como cera, os cabelos desgrenhados, uma cicatriz junto  boca 
- Pensa que Colleoni saber manter a paz melhor que eu?
Do lugar onde estava podia ler a descrio: "um relgio de nquel, colete de pano cinzento, camisa de riscas azuis, camisola de aertex, ceroulas de aertex".
- Ento?
-  um conselho valioso - disse o Rapaz, arreganhando os dentes para a escrivaninha polida, o mao de Players, um pesa-papis de cristal. - Terei de pensar no assunto. 
Sou muito novo para me aposentar.
- Se quer a minha opinio, acho que voc  muito novo para dirigir um bando.
- Ento Brewer no fez acusao alguma?
- No  que ele tenha medo. Fui eu que o dissuadi. Queria pr tudo em pratos limpos consigo.
- Bem - atalhou o Rapaz, levantando-se -, talvez nos tornemos a ver, talvez no.
Arreganhou mais uma vez os dentes, atravessando a sala das denncias, mas as mas do seu rosto tinham-se coberto de um vivo rubor. Levava a peonha nas veias, embora 
exibisse aquele riso estico. Fora insultado. Ia mostrar a todos com quem estavam metidos. Julgavam que, por ele ter apenas dezassete anos... Aprumou os ombros estreitos 
ao lembrar-se de que j havia matado o seu homem, e esses xuis, que se julgavam muito espertos, no tinham argcia suficiente para o descobrir. Arrastava aps si 
as nuvens da sua glria: uma criana rodeada pelas chamas do Inferno. Estava pronto para outras mortes.

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TERCEIRA PARTE

Ida Arnold sentou-se na cama da penso. No primeiro instante estranhou o quarto. Doa-lhe a cabea em consequncia das libaes da noite anterior, no Sherry. Pouco 
a pouco, foi-se recordando de tudo, enquanto fitava o espesso jarro colocado no cho, a bacia de gua escura em que fizera uma abluo sumria, as rosas muito vivas 
do papel da parede, uma fotografia de casamento: Phil Corkery, todo trmulo diante da porta de entrada, beijocando-lhe os lbios e abalando pela avenida fora como 
se no pudesse esperar outra coisa, enquanto a mar baixava. Correu os olhos pelo quarto: no parecia to atraente  luz matinal como quando o tinha alugado, mas 
" como se a gente estivesse em casa - pensou ela com satisfao-,  como eu gosto".
O sol brilhava. Brighton nunca estivera to agradvel. O corredor diante da sua porta, cheio de areia, rangia sob os ps. Sentiu essa areia na sola dos sapatos at 
chegar ao vestbulo, onde havia um balde, duas ps e uma comprida alga pendurada ao lado da porta,  guisa de barmetro. Viam-se sapatos de praia por todos os lados 
e uma voz queixosa de criana vinha da sala de jantar, repetindo e tornando a repetir: "No quero brincar na areia, quero ir ao cinema, no quero brincar na areia."
Combinara encontrar-se com Phil Corkery no Snow,  uma hora. Antes disso, tinha certas coisas a fazer. Precisava de reduzir as despesas, no beber tantas cervejas. 
A vida no era barata em Brighton e ela no aceitaria dinheiro de Corkery: tinha conscincia, tinha o seu cdigo de moral e, quando aceitava dinheiro, dava alguma 
coisa em troca. Black Boy era a soluo: a primeira coisa que faria era tratar disso, antes que a cotao subisse. O nervo da guerra... Tomou o caminho de Kemp Town, 
onde ficava a casa do nico agente de apostas que conhecia, o velho Jim Tate - o "Honesto Jim" do recinto das apostas pequenas.
- A vem Ida! Sente-se, Mistress Turner - berrou Jim, enganando-se no nome, assim que ela entrou no escritrio. Estendeu-lhe a caixa de Gold Flake: - Fume um.
Era um pouco maior que o comum da humanidade. A voz, em consequncia de vinte anos passados nas corridas, tornara-se incapaz de assumir um tom que no fosse enrgico 
e rude. Era um homem que era preciso olhar com um binculo ao contrrio para se poder aceit-lo como a pessoa simptica e saudvel que ele pretendia ser. Ao falar-lhe 
de perto, distinguiam-se-lhe as grossas veias azuis da testa, o branco dos olhos raiado de vermelho.
- Ento, Mistress Turner... Ida... Qual  o seu palpite?
- Black Boy.
- Black Boy - repetiu Jim Tate. - Est a dez por um.
- Doze.
- A cotao baixou. Nesta semana tem-se apostado muito em Black Boy. Ningum lhe dar dez por um, a no ser o seu velho amigo.
- Est bem - disse Ida. - Ponha vinte libras no meu nome. E olhe l, o meu nome no  Turner.  Arnold.
- Vinte librinhas. Uma aposta e tanto, Mistress Seja-l-quem-for. - Molhou o polegar na lngua e comeou a contar as notas. No meio da operao, parou, imobilizou-se 
como um enorme sapo debruado sobre a sua escrivaninha,  escuta. Rudos de toda a sorte penetravam pela janela aberta: passos na calada, vozes, msica ao longe, 
tinir de campainhas, o contnuo sussurro da Mancha. Ele estava completamente imvel, com metade das notas na mo. Parecia inquieto. A campainha do telefone retiniu. 
Deixou-a tocar durante dois segundos, com os olhos raiados postos em Ida, depois pegou no auscultador. - Al, al! Fala Jim Tate.
Era um aparelho de tipo antigo. Apertou o auscultador de encontro ao ouvido e ficou a escutar, enquanto uma voz baixa zumbia qual abelha.
Segurando o auscultador com uma das mos, Jim Tate juntou as notas com a outra, encheu uma cautela.
- Est muito bem, Mister Colleoni - disse ele com voz rouca. E colocou o auscultador no gancho.
- O senhor escreveu Black Dog - observou Ida.
Jim Tate encarou-a. Custou-lhe um pouco a compreender.

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- Black Dog! - exclamou, com um riso discordante e falso. - Em que estava eu a pensar! Black Dog, essa  boa...
- Co preto (1) significa preocupao.

Nota 1: Black Dog: co preto.

- Bem - bradou ele com jovialidade pouco convincente -, todos ns temos as nossas preocupaes.
O telefone tornou a retinir. Ao ver a expresso de Jim Tate, dir-se-ia que o aparelho era capaz de mord-lo.
- O senhor est ocupado - disse Ida. - Vou andando. 
Ao chegar  rua, olhou para todos os lados, a ver se descobria alguma causa para a inquietao de Jim Tate. Nada notou, porm: nada mais do que Brighton a tratar 
da sua vida, num dia maravilhoso.
Ida entrou num bar e tomou um clice de vinho do Porto. O vinho desceu-lhe pela garganta, suave, clido e espesso. Pediu outro.
- Quem  Mister Colleoni? - perguntou ao barman.
- No sabe quem  Mister Colleoni?
- A primeira vez que ouvi falar nele foi ainda h pouco.
-  o sucessor de Kite - informou o homem.
- Quem  Kite?
- Quem era! No leu nos jornais como deram cabo dele em Saint Pancras?
- No.
- No creio que fosse intencional - disse o dono do bar. - S queriam marc-lo, mas uma navalha errou o alvo.
- Toma alguma coisa?
- Obrigado. Vou tomar um gin.
-  sua sade.
-  sua.
- Eu ignorava essas coisas todas - confessou Ida, olhando o relgio por cima do ombro.
No tinha nada que fazer at  uma hora: bem podia tomar mais um clice e ficar ali a dar um pouco  lngua.
- D-me mais um porto. Quando foi que tudo isso aconteceu?
- Ora, antes do Pentecostes.
Esta palavra passara a despertar-lhe o interesse todas as vezes que a ouvia. Significava muitas coisas para ela: uma

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nota sebenta de dez xelins, os degraus que desciam para o toilette das senhoras. Tragdia em letras maisculas.
- E os amigos de Kite? - perguntou.
- No tm nenhum futuro depois da morte dele. O bando ficou sem chefe. Imagine que esto sob as ordens de um garoto de dezassete anos! Que  que um mido desses 
vai poder fazer contra Colleoni? - Debruou-se sobre o balco e cochichou: - Ele anavalhou Brewer a noite passada.
- Quem? Colleoni? 
- No, o garoto.
- No sei quem  Brewer - disse Ida -, mas parece que as coisas esto animadas.
- Espere pelo comeo das corridas. Ento  que as coisas estaro animadas de verdade. Colleoni quer o monoplio. Olhe pela janela, depressa! L vai ele!
Ida foi at  janela e olhou a rua. Tambm desta vez viu a Brighton sua conhecida. No havia notado nenhuma diferena, mesmo no dia em que Fred morrera: duas raparigas 
em pijama de praia, dando-se o brao, os autocarros passando a caminho de Rottingdean, um homem a vender jornais, uma mulher com uma cesta de compras, um rapazola 
de fatiota surrada, um vapor de excurso a largar do molhe, que se alongava luminoso e transparente como um camaro ao sol.
- No vejo ningum - disse Ida.
- J se foi.
- Quem, Colleoni?
- No, o garoto.
- Ah!, aquele rapazinho! - exclamou ela, voltando para junto do balco e acabando de tomar o seu vinho do Porto.
- Deve andar bem ralado. - Um garoto como aquele no devia meter-se nessas coisas. Se ele fosse meu filho, tirava-lhe a cisma a chicote. - Com estas palavras, disps-se 
a afast-lo da memria, a voltar a ateno para outras coisas, como uma grande draga de ao que girasse sobre o seu eixo, quando se lembrou de sbito: um rosto num 
bar, visto por cima do ombro de Fred, o rudo de um copo que se quebrava: "Este cavalheiro paga." Tinha uma memria fantstica. - O senhor viu alguma vez um tal 
Kolley Kibber? - perguntou.
- Nunca tive essa sorte - respondeu o homem do bar.

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- Morreu de um modo esquisito. Deve ter dado muito que falar.
- Que me conste, no. No era de Brighton. Ningum o conhecia por aqui. Um estranho.
Um estranho: a palavra nada significava para ela. No havia lugar no Mundo onde se sentisse estranha. Imprimiu um movimento circular ao resto do porto barato no 
seu clice e disse, sem se dirigir a ningum em particular:
- A vida  bela. - No havia nada a que se sentisse estranha: o espelho com o anncio por trs do barman reflectia-lhe a prpria imagem; as garotas da praia passavam 
pela avenida soltando risadinhas; o gongo soava no vapor, prestes a partir para Boulogne: a vida era bela. Somente aquelas trevas em que se movia o Rapaz, vindo 
do Frank, dirigindo-se para o Frank, lhe eram estranhas: no tinha piedade para com aquilo que no compreendia. - Vou andando - disse ela.
Ainda no era uma hora, mas queria fazer algumas perguntas antes que chegasse Mr. Corkery. Perguntou  primeira criada que encontrou:
- Voc  que  a felizarda?
- Que me conste, no - respondeu friamente a criada.
- Refiro-me  pequena que encontrou o carto... o carto de Kolley Kibber.
- Ah! Foi aquela - esclareceu a outra, indicando uma das suas colegas com o queixo bicudo, empoado, desdenhoso.
Ida mudou de mesa.
- Espero um amigo - disse ela -, mas vou aproveitar o tempo, fazendo a minha escolha. A empada est boa?
- Tem muito bom aspecto. 
- Bem tostadinha por cima?
- Uma maravilha!
- Como se chama?
- Rosa.
- Como?! Ou muito me engano, ou foi voc a felizarda que achou um carto?
- Elas disseram-lhe isso? - volveu Rosa. - Ainda no me perdoaram. No acham justo que eu tivesse tido tanta sorte no meu primeiro dia.
- No seu primeiro dia? Foi sorte, de facto. No esquecer to cedo esse dia.

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- No - disse Rosa. - Hei-de lembrar-me sempre.
- No lhe quero roubar tempo com conversas.
- At lhe agradeo! Faa de conta que est a pedir alguma coisa. No h ningum mais para servir e estou a cair de cansao com estas bandejas.
- O emprego no lhe agrada?
- Oh!, no digo isso - respondeu Rosa prontamente. - O emprego  bom. No desejaria outro por coisa alguma deste mundo. No queria trabalhar num hotel, nem mesmo 
no Chess-man, ainda que me pagassem o dobro. Esta  uma casa elegante - disse Rosa, correndo o olhar pelo deserto de mesas pintadas de azul, os narcisos, os guardanapos 
de papel, os frascos de molho ingls.
-  c da terra?
- Sempre vivi aqui... toda a minha vida - respondeu Rosa -, na Nelson Place. O emprego para mim  muito bom porque dormimos na casa. No meu quarto somos s trs, 
e temos dois espelhos.
- Quantos anos tem?
Rosa curvou-se sobre a mesa, com gratido.
- Dezasseis. Mas a eles digo-lhes que tenho dezassete. Se soubessem, achariam que no tenho idade bastante. Mandavam-me... - hesitou um bom momento diante da palavra 
para casa.
- Deve ter ficado muito contente quando encontrou o carto.
- Se fiquei!
- No me poder trazer um copo de stout (1)?

Nota 1: Cerveja preta, forte.

- Temos de mandar buscar fora. Se a senhora me der o dinheiro...
Ida abriu a bolsa.
- Sem dvida, nunca mais esquecer o homenzinho.
- Oh! Ele no era assim to... - comeou Rosa; mas de sbito calou-se, contemplando pela janela do Snow o molhe, do outro lado da avenida.
- No era o qu - perguntou Ida. - Que  que ia dizer? 
- No me lembro.
- S lhe perguntei se poderia esquecer o homenzinho.

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- J no me lembro - disse Rosa. - Vou buscar a sua bebida. Custa assim tanto um copo de stout? - perguntou, apanhando as duas moedas de xelim.
- Uma delas  para si. Sou curiosa. No posso resistir  tentao de fazer perguntas.  o meu feitio. Diga-me, que aspecto era o dele?
- No sei. No me posso recordar. No tenho boa memria para fisionomias.
- Realmente no deve ter, de contrrio teria reclamado o prmio grande. Com certeza viu o retrato dele no jornal.
- Eu sei. Sou muito pateta para essas coisas.
E ali estava, plida e decidida, ofegante e com uma vaga sensao de culpa.
- Assim teria ganho dez libras, em vez de dez xelins.
- Vou buscar a sua bebida.
- Talvez seja melhor eu esperar. O cavalheiro que me convidou para almoar pode pagar. - Ida tornou a pegar nas moedas, e os olhos de Rosa acompanharam-lhe a mo, 
da mesa at a bolsa. - Vintm poupado, vintm ganho - disse Ida com brandura, fixando os traos do rosto ossudo, a boca grande, os olhos afastados de mais, a palidez, 
o corpo de adolescente e, de sbito, tornou a fazer ouvir a sua voz jovial, chamando: - Phil Corkery, Phil Corkery! -, e acenando com a mo.
Mr. Corkery usava um blazer, com um distintivo e um colarinho gomado por baixo. Tinha o ar de quem necessitava de alimento, como se andasse consumido por paixes 
que nunca tivera a coragem de exprimir.
- Anime-se, Phil! Que  que voc vai comer?
- Um bife e rins - disse Mr. Corkery em tom sombrio.
- Menina, queremos uma bebida.
- Temos de mandar buscar fora.
- Bem, nesse caso traga duas garrafas grandes de cerveja. 
Quando Rosa voltou, Ida apresentou-a a Mr. Corkery. - Esta  a felizarda que encontrou o carto de Kolley Kibber.
Rosa tentou afastar-se, mas Ida deteve-a, segurando-a firmemente pela manga do vestido de algodo preto.
- Ele comeu muito? - perguntou.
- No me lembro de nada, palavra que no me lembro.

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Os rostos dos dois fregueses, um tanto avermelhados pelo clido sol de Vero, eram como dois sinais de perigo.
- Tinha o ar de quem vai morrer? - perguntou Ida.
- Como posso saber?
- Sem dvida, falou com ele?
- No falei. Estava com pressa. Tudo que fiz foi trazer-lhe uma Bass (1) e um cachorro quente, e nunca mais tornei a v-lo. - Arrancou a manga da mo de Ida e afastou-se.

Nota 1: Marca de cerveja.

- Com esta, voc no conseguir grande coisa - observou Mr. Corkery.
- Ora, no! Mais do que eu esperava.
- Que novidades h?
- O que essa pequena disse.
- No adiantou grande coisa.
- Pelo contrrio, disse bastante. Desde o comeo tive a impresso de que havia qualquer coisa de suspeito nessa histria. Ora repare: ele disse-me, no txi, que 
ia morrer e, no primeiro momento, acreditei. Fiquei estarrecida e, ento, ele disse-me que estava apenas a brincar.
- Mas o facto  que estava moribundo.
- No era a isso que ela se referia. Eu tenho os meus instintos.
- Seja como for - acentuou Mr. Corkery -, existem provas de que ele teve morte natural. No vejo nenhuma razo para se preocupar com o assunto. Est um lindo dia, 
Ida. Vamos para o Brighton Belle conversar sobre isto. Os bares de bordo nunca fecham. Afinal de contas, se o homem se matou, isso  l com ele.
- Se ele se matou,  que foi obrigado a faz-lo - disse Ida. - Depois de ouvir esta pequena, estou convencida de que no foi ele quem deixou o carto aqui.
- Santo Deus! Que  que voc quer dizer? No devia falar assim.  perigoso. - Engoliu em seco, nervoso e o pomo-de-ado subiu e desceu sob a pele do seu pescoo 
magro.
-  verdade que  perigoso - retrucou Ida, vendo o corpo esguio da adolescente passar por ela, no seu vestido de algodo, preto, e ouvindo o tilintar do copo levado 
na bandeja por mos trmulas -, mas para quem? Isso  outra questo.

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- Vamos sair para o sol. No est muito quente aqui. -Mr. Corkery no tinha colete nem gravata: tremia um pouco com a sua camisa aberta e o blazer.
- Preciso de pensar - disse Ida.
- No seu lugar, eu no me envolveria nessas questes, Ida. Ele no lhe era nada.
- No era nada a ningum, a  que est o mal - volveu Ida. Rebuscou as profundezas do seu esprito, o piano das recordaes, dos instintos e das esperanas, e tirou 
de l a nica filosofia pela qual se guiava. - Gosto de lealdade - disse ela. Sentiu-se mais aliviada depois de pronunciar estas palavras e acrescentou com terrvel 
jovialidade: - Olho por olho, Phil. Voc est comigo?
O pomo-de-ado mexeu-se. Uma corrente de ar, da qual todo o calor solar fora eliminado, irrompeu pela porta giratria e Mr. Corkery sentiu-a no peito ossudo. - No 
sei o que lhe deu essa ideia, Ida, mas sou um defensor da lei e da ordem. Estou consigo. - A sua prpria audcia subiu-lhe  cabea. Pousou a mo no joelho dela. 
- Por voc eu seria capaz de tudo, Ida. 
- Em vista do que ela me disse, s temos uma coisa a fazer.
- Que ?
- Ir  Polcia.
Ida irrompeu pela esquadra dentro, rindo-se para este e abanando a mo para aquele. Nunca os vira mais gordos. Estava alegre e decidida, e trazia Phil consigo.
- Quero falar com o inspector - disse ao sargento instalado diante de uma escrivaninha.
- Est ocupado, minha senhora. Sobre que assunto queria falar?
- Posso esperar - murmurou Ida, sentando-se no meio dos guardas. - Sente-se, Phil. - Arreganhou os dentes para eles com descarada confiana. - Os bares s abrem 
s seis. Phil e eu no temos nada que fazer at essa hora.
- A que respeito queria falar com o inspector?
- Suicdio - afirmou ela -, bem nas barbas dos senhores, e dizem que foi morte natural.

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O sargento encarou-a e Ida aguentou-lhe o olhar. Os seus olhos grandes e claros (uns goles a mais, de vez em quando, no tinham nenhum efeito sobre eles), os seus 
olhos nada diziam, no traam segredos. A camaradagem, o bom humor, a jovialidade desciam como uma cortina de ao diante de uma vitrina. Apenas se podiam adivinhar 
as mercadorias que estavam l dentro; as velhas mercadorias, slidas e autnticas, justia, olho por olho, a lei e a ordem, a pena capital, uma escapadela de vez 
em quando, nada de feio, nada de tenebroso, nada de que se pudesse ter vergonha, nada de misterioso.
- No est a brincar comigo?
- A ocasio no  para isso, sargento.
O graduado tomou por uma porta e fechou-a atrs de si. Ida acomodou-se melhor no banco, ficou  vontade.
- Isto aqui est um pouco abafado, rapazes. Que tal se abrissem mais uma janela? - e eles foram abri-la obedientemente.
O sargento chamou-a da porta.
- Pode entrar - disse.
- Venha, Phil - convidou Ida; e levou-o consigo ao pequenino e atravancado gabinete que cheirava a madeira envernizada e a cola de peixe.
- Ento deseja dar parte de um suicdio, Mistress...? - disse o inspector. Tinha um ar cansado, envelhecido e tmido. Tentara fazer desaparecer uma lata de caramelos 
de fruta atrs de um telefone e de um caderno manuscrito.
- Arnold, Ida Arnold. Pensei que talvez o assunto lhe dissesse respeito, senhor inspector - disse ela com pesado sarcasmo.
-  o seu marido?
- No, apenas um amigo. Eu s queria trazer uma testemunha.
- E qual  a pessoa em quem est interessada, Mistress Arnold?
- Chamava-se Hale, Fred Hale. Queira desculpar, Charles Hale.
- No ignoramos nada a respeito de Hale, Mistress Arnold. Morreu de modo perfeitamente natural.
- Oh! No, os senhores ignoram vrias coisas. No sabem que ele estava comigo duas horas antes de ser encontrado.
- A senhora no compareceu ao inqurito?
- S soube que se tratava dele depois de ver o retrato nos jornais.
- E por que julga que a morte no foi natural?
- Oua-me. Ele andava comigo e estava com medo de alguma coisa. Estivemos no Molhe do Palcio. Precisei de me lavar e passar uma escova pela roupa, mas ele no queria 
que eu o deixasse. Afastei-me durante uns cinco minutos e, quando voltei, ele tinha desaparecido. Para onde foi? Os senhores dizem que ele almoou no Snow e depois 
desceu o molhe at ao abrigo, em Hove. Talvez pense que ele me largou de mo, simplesmente, mas quem almoou e deixou aquele carto no Snow no foi Fred... quero 
dizer, Hale. Acabo de falar com a criada. Hale no gostava de Bass... Achava essa cerveja intragvel... mas o homem que esteve no Snow mandou comprar uma garrafa.
- Isso no quer dizer nada - volveu o inspector. - Estava calor e ele sentia-se indisposto. Estava cansado de todas as coisas que tinha de fazer. No me admiraria 
que usasse de um subterfgio, mandando algum em seu lugar ao Snow.
- A rapariga no quer dizer nada a respeito dele. Sabe, mas no quer dizer.
-  fcil explicar isso, Mistress Arnold. O homem pode ter deixado o carto sob a condio de que ela no revelasse nada.
- No  isso. Ela est com medo. Algum a assustou. Talvez a mesma pessoa que arrastou Fred... H outras coisas, alm disso.
- Lamento muito, Mistress Arnold, mas  pura perda de tempo querer levantar questes em torno deste caso. Como sabe, houve autpsia. O relatrio mdico demonstra 
sem sombra de dvida que ele morreu naturalmente. Sofria do corao. Aquilo a que os mdicos chamam trombose ou coronria. Eu diria simplesmente que foi o calor, 
a multido, o excesso de exerccio... e o corao fraco.
- Eu no poderia ver o relatrio?
- Isso no  muito regulamentar.
-  que eu era amiga dele, percebe? - volveu Ida com brandura. - Gostaria de ter a certeza.
- Bem, como  para tranquiliz-la, vou abrir uma excepo. Tenho-o aqui em cima da escrivaninha.
Ida leu cuidadosamente o relatrio.

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- Este mdico entende do seu ofcio?
-  um dos melhores que temos.
- Parece claro, no  verdade? - disse Ida. Ps-se a ler de novo, desde o princpio. - So muito minuciosos... Eu no poderia conhec-lo melhor, se fosse casada 
com ele. Cicatriz de operao ao apndice, mamilos supranumerrios (sei l o que  isso), sofria de gases... eu tambm sofro, quando passo um feriado fora. Chega 
a ser falta de respeito, no acha? Ele no ficaria satisfeito com isso - ponderou, cheia de fcil bondade, com os olhos no relatrio. - Varizes. Pobre Fred! Que 
quer dizer isto sobre o fgado?
- Bebia muito, nada mais.
- No admira, pobre Fred! Ento, tinha unhas encravadas nos ps? No creio que seja decente saber isso.
- Era grande amiga dele?
- Conhecemo-nos naquele dia. Mas gostei dele. Era um verdadeiro gentleman. Se eu no estivesse um pouco alegre, nada teria acontecido. - Enfunou o peito. - Na minha 
companhia no lhe poderia acontecer nada de mal.
- J terminou a leitura do relatrio, Mistress Arnold?
- Este seu mdico diz tudo, hem? Contuses, no-sei-o-qu superficiais nos braos. Que pensa disto, senhor inspector?
- Nada. O feriado, a multido, empurres de todos os lados...
- Ora, deixe-se disso, deixe-se disso! - A lngua de Ida soltou-se. - Seja humano! O senhor j foi passar um feriado fora? Onde viu uma multido assim? Brighton, 
afinal de contas,  bastante grande. No  um elevador de metropolitano. Eu estava aqui e sei o que digo.
- A senhora est a fantasiar coisas, Mistress Arnold - replicou o inspector com obstinao.
- Ento a Polcia no quer mexer nem um dedo? No vo interrogar aquela criada do Snow?
- O caso est arquivado, Mistress Arnold. E, ainda que se tratasse de suicdio, para que abrir velhas feridas?
- Algum o arrastou... Talvez no tenha sido suicdio... Talvez...
- Como eu lhe disse, Mistress Arnold, o caso est arquivado.

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-  o que o senhor pensa - retorquiu Ida, pondo-se de p e chamando Phil com um gesto de cabea. - Arquivado o qu! Havemos de nos tornar a ver. - J na porta, virou-se 
para olhar o velho sentado atrs da escrivaninha e ameaou-o com a sua implacvel vitalidade. - Ou talvez no. Posso resolver isto  minha moda. No preciso da sua 
Polcia. - Os guardas, na sala de espera, remexeram-se inquietos; algum deixou cair uma lata de graxa. - Tenho os meus amigos.
Os seus amigos andavam por toda a parte, ao ar claro e cintilante de Brighton. Seguiam obedientemente as suas mulheres s peixarias, levavam para a praia os baldezinhos 
dos filhos, rondavam os bares  espera da hora de abrir, pagavam um penny para espreitar Uma Noite de Amor no cinetoscpio do molhe. Bastava apelar para um deles, 
pois Ida Arnold defendia a causa justa. Era jovial e cheia de sade, podia emborcar um copo como o melhor de entre eles. Gostava da pndega, os seus grandes seios 
exibiam francamente a sua carnalidade pelo Old Steyne fora, mas bastava olh-la para compreender que se podia ter confiana nela. No iria contar coisas  esposa 
de ningum, no lembraria a um homem, na manh seguinte, o que ele desejava esquecer. Era honesta, tinha bom corao, pertencia  grande classe mdia, respeitadora 
das leis, buscava os mesmos divertimentos, cultivava as mesmas supersties (a prancheta a raspar a madeira envernizada de uma mesa aqui e alm, o sal atirado por 
cima do ombro), no tinha afeies mais profundas que os seus iguais.
- As despesas esto a subir - disse Ida. - No faz mal. Tudo entrar nos eixos depois das corridas.
- Tem um palpite? - perguntou Mr. Corkery. - Tudo a seu tempo. Continue a ser bonzinho e no h nada que no possa acontecer.
- Mas voc no continua com a mesma ideia, depois do que o mdico escreveu? - insinuou ele, sondando-a.
- Nunca dei importncia aos mdicos.
- Mas porqu?
- Temos de descobrir.
- E como?
- D-me tempo. Ainda no comecei.
O mar estendia-se, como uma alegre piscina comum num quarteiro residencial, at  extremidade da rua. - Da cor dos

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seus olhos - comentou Mr. Corkery, pensativamente, com um toque de nostalgia.
- No poderamos dar agora uma volta ao molhe, Ida?
- Sim. O molhe. Vamos ao Molhe do Palcio, Phil. - Quando l chegaram, porm, no quis transpor a cancela. Postou-se ali como um aldrabo, de frente para o Aqurio 
e o toilette das senhoras. -  aqui que eu comeo. Foi aqui que ele esperou por mim, Phil. - E, com um olhar que abrangia as luzes verdes e vermelhas, o denso trfego 
do seu campo de batalha, ps-se a arquitectar os seus planos, arregimentando as tropas, enquanto, a cinco metros de distncia, Spicer tambm aguardava o aparecimento 
do inimigo. Apenas uma ligeira dvida perturbava o optimismo de Ida. - Esse cavalo tem de ganhar, Phil. De contrrio, no me poderei aguentar.

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2

Spicer andava desassossegado. No tinha nada que fazer. Quando comeassem as corridas sentir-se-ia melhor, no pensaria tanto em Hale. O que o desconcertava era 
o resultado da autpsia: "Morte provocada por causas naturais", quando ele tinha visto com seus prprios olhos o Rapaz... Aquilo era suspeito, encobria alguma cilada. 
Dizia com os seus botes que poderia fazer frente a um inqurito policial, mas o que no suportava era aquela incerteza, a falsa garantia daquele veredicto. Havia 
ali um ardil qualquer e, durante o longo dia de Vero, Spicer vagueou perturbado,  espera de uma surpresa desagradvel: a esquadra da Polcia, o lugar onde tinham 
feito a coisa, o prprio restaurante Snow eram includos no seu passeio. Queria certificar-se de que os polcias no estavam a fazer nada (conhecia todos os agentes 
secretos da fora pblica de Brighton), de que ningum estava a fazer perguntas ou a rondar locais onde no tivesse motivos para estar. Sabia que aquilo tudo vinha 
dos nervos: "Vou sossegar quando comearem as corridas", dizia de si para si como um homem que tem todo o corpo envenenado e julga que  bastante arrancar um dente 
para que tudo volte  normalidade.
Avanava cautelosamente pela avenida, vindo dos lados de Hove, do abrigo envidraado em que haviam deixado o cadver de Hale, plido, com os olhos injectados, as 
pontas dos dedos amarelas de nicotina. Tinha um calo no p esquerdo e coxeava um pouco, arrastando o sapato de um castanho-alaranjado e vivo. Tinham-lhe aparecido 
exantemas ao redor da boca, e isso tambm era causado pela morte de Hale. O medo desarranjava-lhe os intestinos, fazendo surgir aquelas manchas: era sempre assim.
Atravessou a rua cautelosamente, a coxear, quando estava perto do Snow: ali estava outro ponto vulnervel. O sol incidia nas grandes vitrinas, cujo reflexo o cegava. 
Suava um pouco. Uma voz disse: "Olha quem est aqui: o Spicer!" Enquanto atravessava, conservava os olhos fixos no Snow e no tinha reparado no homem que estava 
perto dele, no passeio, encostado  grade verde sob a qual se estendia a praia de cascalho. Voltou vivamente a cara suada.

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- Que fazes por aqui, Crab?
-  um prazer estar de volta - disse Crab, um rapaz de fatiota cor de malva, cintura estreita e ombros que lembravam um cabide de casaco.
- Corremos-te daqui para fora uma vez, Crab. Pensei que no te mostrasses mais em Brighton. Ests mudado. - Os cabelos do rapaz eram de cor de cenoura, salvo nas 
razes, e o seu nariz tornara-se recto, com cicatrizes aos lados. Outrora era judeu, mas, graas aos bons ofcios de um cabeleireiro e de um cirurgio, mudara de 
raa. - Tinhas medo de ser descoberto por ns, se no transformasses a fachada?
- Ora Spicer! Eu, ter medo do vosso bando! Qualquer dia destes estars a tratar-me por sir. Sou o brao direito de Colleoni.
- Sempre ouvi dizer que ele era canhoto. Espera que Pinkie saiba que voltaste. Crab riu-se.
- Pinkie est na esquadra - disse.
A esquadra: Spicer deixou cair o queixo e abalou, arrastando na calada o sapato cor de laranja, com o calo a dar-lhe picadas. Ouviu Crab rir-lhe nas costas, sentiu 
nas narinas um cheiro de peixe morto: estava doente. A esquadra, a esquadra: era como um abcesso a injectar veneno nos nervos. Ao entrar na casa de Frank no encontrou 
ningum. Subiu a escada, torturado, fazendo estalar os degraus, evitando o corrimo podre, e deteve-se  porta do quarto de Pinkie. A porta estava aberta, o vazio 
reflectia-se no espelho de bscula. Nenhum bilhete, migalhas pelo cho; era como o quarto de algum que tivesse sido chamado inesperadamente.
Spicer parou junto  cmoda: nenhum pedao de papel nas gavetas, com uma mensagem tranquilizadora; nenhum aviso. Olhou para cima e para baixo, sentindo em todo o 
corpo e no prprio crebro as picadas do calo e, de repente, deparou com o seu rosto no espelho: os grossos cabelos pretos a branquear nas razes, os exantemas na 
face, os olhos injectados; e sentiu-se como se estivesse a ver em primeiro plano uma perfeita cara de delator.
Afastou-se do toucador. Migalhas de bolo esfarinhavam-se-lhe debaixo dos ps. Disse para consigo que no era homem

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para revelar coisas  Polcia. Pinkie, Cubitt e Dallow eram seus camaradas. No os trairia... embora no fosse ele quem tinha matado o homem. Desde o comeo fora 
contra aquilo; apenas tinha distribudo os cartes; apenas sabia. Deteve-se no alto da escada, olhando o vestbulo l em baixo, por cima do corrimo vacilante. Preferia 
matar-se a dar  lngua, disse ele, num sussurro, ao patamar vazio; na realidade, porm, sabia que no teria essa coragem. Era melhor dar s de vila-diogo: e pensou 
com nostalgia em Nottingham, numa taberna que conhecia e outrora esperara comprar, quando tivesse juntado o seu p-de-meia. Era uma boa terra, Nottingham, o ar saudvel, 
sem este sal que ardia nos lbios secos, e as pequenas acessveis. Se pudesse ir-se embora... Mas os outros no o deixariam: ele sabia de mais. Estava ligado ao 
bando para sempre. Ficou a olhar o pequenino vestbulo l em baixo, a passadeira de oleado, o telefone de tipo antigo sobre uma prateleira, junto  porta.
Enquanto olhava, o telefone comeou a tocar. Observou-o com temor e desconfiana. J no podia suportar ms notcias. Aonde teriam ido os outros? Teriam fugido, 
sem avis-lo? Nem sequer Frank se achava na cave, onde se sentia um cheiro a queimado, como se ele tivesse deixado o ferro aceso. A campainha do telefone no deixava 
de tocar. "Que toquem", pensou. Ho-de cansar-se. "Por que  que eu hei-de fazer todo o trabalho nesta pocilga?", e a campainha sempre a tocar. O indivduo, fosse 
l quem fosse, no se cansava facilmente. Veio at ao topo da escada e dirigiu uma careta quele objecto preto que enchia de barulho a casa silenciosa. - O diabo 
- disse ele em voz alta, como se ensaiasse um discurso para Pinkie e os outros -  que estou a tornar-me muito velho para este jogo. Preciso de me aposentar. - A 
nica resposta era aquele retinir teimoso.
- No h ningum a para atender esse maldito aparelho? - gritou para o fundo da escada. - Sou eu que tenho de fazer todo o trabalho, hem! - e viu-se a si mesmo 
deixando cair um carto num baldezinho de criana, introduzindo um carto por baixo de um bote virado de borco - cartes que podiam t-lo levado  forca. Desceu 
repentinamente a escada, a correr, com uma espcie de fria simulada, e pegou no auscultador.

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- Que , que ? - berrou ao aparelho. - Quem diabo est a falar?
-  da casa de Frank? - perguntou uma voz. Spicer j a conhecia. Era a pequena do Snow. Baixou o auscultador, tomado de pnico, e esperou. Uma voz dbil de boneca 
chegou at ele do orifcio: - Por favor, quero falar com Pinkie. - Tinha a impresso de que o simples acto de ouvir j o traa. Tornou a escutar, e a voz repetiu 
com desesperada ansiedade: -  da casa de Frank?
Afastando a boca do aparelho, enroscando a lngua, entortando os lbios e dando  voz uma inflexo roufenha, Spicer respondeu:
- Pinkie no est em casa. Que deseja?
- Preciso de falar com ele.
- Estou a dizer-lhe que ele no est.
- Quem fala da? - perguntou de repente a jovem num tom assustado.
- Isso  o que eu quero saber. Quem  a senhora?
- Sou uma amiga de Pinkie. Tenho de encontr-lo.  urgente.
- No posso fazer nada.
- Por favor! O senhor tem de encontrar o Pinkie. Ele mandou-me avis-lo... se, por acaso...
A voz apagou-se.
Spicer gritou ao telefone:
- Al! Onde est? Se por acaso o qu? - No houve resposta. Apertando o auscultador contra o ouvido, escutou o silncio que zumbia nos fios. Ps-se a bater no descanso. 
- Faa o favor de ligar de novo. Al! Al! Faa o favor de ligar de novo. - E, de sbito, a voz tornou a falar, como se algum houvesse pousado uma agulha num disco, 
no lugar certo: - Est l? Por favor, est l?
- Claro que estou. Que foi que o Pinkie lhe disse?
- Tenho de encontrar o Pinkie. Ele disse que queria saber.  uma mulher. Esteve aqui com um homem.
- Como, uma mulher? Que quer dizer com isso?
- A fazer perguntas - respondeu a voz.
Spicer pousou o auscultador: tudo mais que Rosa tinha para dizer morreu estrangulado nos fios. Encontrar Pinkie? De que servia encontrar Pinkie? Os outros j o tinham 
encontrado.

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E Cubitt e Dallow tambm se tinham raspado sem o avisar. Se ele os trasse, no faria mais que pagar-lhes na mesma moeda. Mas no o faria. No era um delator, como 
eles julgavam. Haviam de pensar que ele iria tra-los. Nem sequer reconheciam... Uma gotinha lastimosa brotou dos condutos secos e envelhecidos, picando-lhe as plpebras.
"Tenho de reflectir - repetia ele consigo - tenho de reflectir." Abriu a porta da rua e saiu. Nem se deu ao trabalho de ir buscar o chapu. Os seus cabelos rareavam 
no alto da cabea, secos e quebradios sobre a caspa. Andava rapidamente, sem destino certo, mas em Brighton todos os caminhos levam  praia. "Estou muito velho 
para este jogo, preciso de me ir embora daqui." Nottingham: queria estar s; desceu os degraus de pedra para a praia. As pequenas lojas que faziam face ao mar, sob 
a avenida, comeavam a fechar as portas. Caminhava  beira do asfalto, enterrando os ps no cascalho. "No vou dar  lngua - observou mentalmente para a onda que 
avanava sobre a areia e tornava a retirar-se -, mas no foi minha a culpa. Nunca quis matar Fred." Penetrou na sombra do molhe e um fotgrafo barato, com uma mquina-caixote, 
tirou-lhe um instantneo no momento em que a sombra comeava a cobri-lo e meteu-lhe um papelucho na mo. Spicer no deu por nada. Os pilares de ferro desciam pelo 
cascalho hmido e sombrio, sustentando acima da sua cabea a pista de automveis, as barracas de tiro ao alvo e os cinetoscpios, modelos, mecnicos, "o Robot lhe 
dir a sua sorte". Uma gaivota esvoaou na sua direco, entre os pilares, como um pssaro assustado, surpreendido numa catedral, depois disparou para a luz do Sol, 
deixando a escura nave de ferro. "Eu no seria capaz de dar  lngua - disse Spicer -, a no ser que me visse obrigado..." Tropeou numa bota velha e segurou-se 
s pedras para no cair: conservavam toda a frialdade do mar e nunca tinham sido aquecidas pelo sol debaixo daqueles pilares.
"Essa mulher - pensou ele -, como  que ela pode saber? Porque anda a fazer perguntas? Eu no queria que matassem Hale; no seria justo que me enforcassem com os 
outros; eu disse-lhes que no o fizessem." Saiu para a luz do Sol e subiu os degraus, voltando  avenida. "Ser por aqui que os xuis - pensou - se descobrirem alguma 
coisa... reconstituem sempre o crime." Assumiu o seu posto entre a cancela do molhe

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e o toilette das senhoras. No havia muita gente por ali: poderia identificar os polcias com bastante facilidade... se eles viessem. Alm ficava o Royal Albion: 
Spicer abarcava com os olhos toda a Grande Parada at Old Steyne. As plidas cpulas azuis do Pavilho flutuavam por cima das rvores poeirentas. Dali, ele podia 
avistar quem quer que, naquela tarde quente e deserta de meados da semana, descesse as escadas do Aqurio - o convs branco pronto para a dana - demandando a pequena 
arcaria coberta onde as lojinhas baratas se perfilavam entre o mar e a muralha de pedra, vendendo caramelo de Brighton.

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3

O veneno ardia nas veias do Rapaz. Fora insultado. Tinha de provar a algum que era um homem. Entrou de carranca fechada no restaurante de Snow, a aparncia juvenil, 
a fatiota gasta, o ar pouco inspirador de confiana, e as criadas voltaram-lhe unanimemente as costas. Deteve-se, procurando uma mesa com os olhos (a casa estava 
cheia) e ningum o atendeu. Pareciam duvidar de que ele tivesse dinheiro para pagar o jantar. Pensou em Colleoni atravessando as enormes salas, nas coroas bordadas 
nas costas das cadeiras.
- Ningum me atende? - gritou de sbito, e o nervo repuxou-lhe a face.
Todos os rostos que o cercavam se voltaram, depois ficaram de novo quietos como guas paradas. Todos desviaram os olhos, ignorando-o. De sbito, uma sensao de 
cansao o invadiu. Teve a impresso de haver percorrido muitas milhas para, no final, ser assim ignorado.
- No h nenhuma mesa - disse uma voz. Ainda eram to estranhos um ao outro que ele s reconheceu essa voz quando ela acrescentou: - Pinkie. - Virou-se e deparou 
com Rosa vestida para sair, com um mesquinho chapu de palha preto que lhe dava ao rosto a aparncia que teria ao cabo de vinte anos de trabalhos e filhos.
- Elas tm de me atender - insistiu o Rapaz. - Quem pensam elas que so?
- No h mesa.
Todos, agora, o observavam, com ar de reprovao. - Vem c fora, Pinkie.
- Por que te enfarpelaste toda?
-  a minha tarde de folga. Vem c fora.
Ele seguiu-a at a rua e, agarrando-lhe subitamente o pulso, deixou que a peonha lhe subisse aos lbios:
- Era capaz de te quebrar o brao.
- Que foi que eu fiz, Pinkie?
- No h mesa! No gostam de me servir aqui, no sou fino. Hei-de mostrar a essa gente... um dia...
- Qu?

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Mas o pensamento do Rapaz vacilou diante da magnitude das suas prprias ambies.
- Deixa estar... ho-de ver...
- Recebeste o recado, Pinkie?
- Que recado?
- Telefonei para o Frank. Disse-lhe que te avisasse.
- Disseste a quem?
- No sei. - E acrescentou com naturalidade: - Acho que foi ao homem que deixou o carto.
Ele tornou a agarr-la pelo pulso, dizendo:
- O homem que deixou o carto est morto. Tu leste nos jornais.
Mas, desta vez, Rosa no mostrou nenhum sinal de temor. Ele tinha sido bom de mais. A rapariga no fez caso do aviso.
- Ele encontrou-te? - perguntou ela.
E o Rapaz pensou, de si para si: " preciso meter-lhe medo de novo."
- Ningum me encontrou - respondeu. Empurrou-a para a frente com um gesto rude: - Vamos andar. Eu levo-te a dar um passeio.
- Eu ia para casa...
- Mas no vais. Vens comigo. Preciso de exerccio - disse ele, olhando para os seus sapatos bicudos que nunca tinham andado mais que o comprimento da avenida.
- Aonde  que ns vamos, Pinkie?
- A qualquer parte... para o campo.  para onde se vai num dia como este. - Tentou imaginar, por um momento, onde ficava o campo. O campo de corridas, a era o campo. 
Viu ento aproximar-se um autocarro com o letreiro "Peacehaven" e fez sinal com a mo. - A tens, isto  o campo. Poderemos conversar l. Temos de pr certas coisas 
em pratos limpos.
- Pensei que amos andar.
- Isto  andar - retrucou ele com rudeza, fazendo-a subir os degraus do autocarro. - Ests muito verde ainda. No sabes nada. Pensavas que as pessoas andavam a p? 
So uma poro de milhas daqui at l.
- Ento dar um passeio quer dizer tomar um autocarro?
- Ou um carro. Eu levava-te de carro, mas a malta saiu nele.
- Tens um carro?

100

- No poderia passar sem carro - disse o Rapaz, enquanto o autocarro subia a ladeira de Rottingdean: construes de tijolo vermelho atrs de um muro, um vasto parque, 
uma rapariga com um stick de hquei a olhar qualquer coisa no cu, no meio da relva bem tratada e cara. A peonha recolheu s glndulas de onde tinha sado: era 
admirado, ningum o insultava. Mas quando olhou para aquela que o admirava, as glndulas tornaram a destilar a peonha. - Tira esse chapu. Ficas horrvel com ele.
Rosa obedeceu. O seu cabelo de rato pousava, liso, sobre o pequeno crnio. Ele observou-a com desagrado. Era com aquilo que a malta tinha insinuado que ele ia casar. 
Observava-a com a sua virgindade azeda, como quem observa um remdio que lhe oferecem mas que jamais consentir em tomar, preferindo a morte, prpria ou alheia. 
A poeira esbranquiada revoluteava em redor das janelas do autocarro.
- Disseste-me que telefonasse - disse Rosa -, e como...
- Aqui no. Espera para quando estivermos ss.
A cabea do motorista elevou-se pouco a pouco contra uma nesga de cu vazio; algumas penas brancas voaram no vento para trs, na direco do azul; estavam no alto 
das dunas e viraram para leste. Com os sapatos hmidos colocados lado a lado, as mos nos bolsos, o Rapaz sentia a vibrao do motor atravs das solas finas.
-  delicioso estar aqui... no campo, contigo - disse Rosa. Pequenos bungaiows alcatroados, de telhado de zinco, desfilavam para trs, jardins plantados na greda, 
secos canteiros de flores como emblemas saxes talhados nas dunas, cartazes dizendo "Pare o seu carro aqui", "Ch Mazawattee", "Objectos genunos de arte antiga" 
e, a centenas de ps l em baixo, o mar verde-plido lambia o flanco escalavrado e andrajoso da Inglaterra. A prpria Peacehaven ia decaindo entre as ondulaes 
das dunas; ruas ainda por terminar e j transformadas em terrenos cobertos de relva. Desceram a p por entre os bungalows at a beira do penhasco. No havia ningum 
por ali. Um dos bungalows tinha vidros quebrados nas janelas, noutro as persianas estavam descidas, em sinal de luto. - Fico tonta quando olho para baixo - disse 
Rosa. O armazm j havia cerrado as portas; o comrcio tinha fechado cedo nesse dia e no se serviam bebidas no hotel. Uma fieira de tabuletas com a

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inscrio "Aluga-se" estendia-se ao longo do carreiro de calcrio da rua inacabada. O Rapaz via por cima do ombro dela o despenhadeiro com o seu fundo de cascalho. 
- Tenho a impresso de que vou cair - disse Rosa, afastando-se do mar. Ele deixou que ela se afastasse: era desnecessrio agir antes do tempo. Talvez nunca se visse 
na contingncia de tragar o remdio.
- Agora diz-me quem telefonou, a quem e porqu.
- Fui eu que te telefonei, a ti, e ele atendeu.
- Ele?
- O homem que deixou o carto naquele dia em que tu apareceste. Lembras-te? Andavas a procurar qualquer coisa.
Ele lembrava-se muito bem: a mo debaixo da toalha, o rosto inocente e estpido que, julgava ele, esqueceria facilmente.
- Tens muito boa memria - observou, franzindo o sobrolho.
- No poderia esquecer aquele dia - respondeu Rosa abruptamente.
- Mas tambm te esqueces de muita coisa. Eu disse-te h pouco que o homem que atendeu o telefone no era esse. Esse morreu.
- Afinal, isso no tem importncia. O que importa  que algum esteve l a fazer perguntas.
- Sobre o carto? 
- Sim.
- Um homem?
- Uma mulher. Uma mulherona que est sempre a rir-se. Queria que ouvisses aquele riso. Como se ela no tivesse a menor preocupao neste mundo. Desconfiei dela. 
No  da nossa laia.
- A nossa laia! - Ele tornou a franzir o sobrolho para as ondas rasas e crespas, ante a insinuao de que ambos tivessem alguma coisa em comum, e falou com aspereza: 
- Que  que ela queria?
- Queria saber tudo. Como era o homem que deixou o carto.
- E que foi que lhe disseste?
- No disse coisa nenhuma, Pinkie.

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O Rapaz esgravatou com a ponta do sapato na grama mirrada e seca e deu um pontap numa lata vazia de corned-beef, fazendo-a voar com estrondo.
-  s em ti que eu penso. Que  que eu tenho com isso? A mim, pessoalmente, isso no interessa. Mas no quero ver-te comprometida em coisas que podem ser perigosas. 
- Olhou vivamente para ela, de soslaio. - No pareces assustada. O que estou a dizer-te  muito srio.
- No tenho medo nenhum, Pinkie... contigo a meu lado. Ele enterrou as unhas nas palmas das mos, de vexame.
Rosa lembrava-se de tudo que devia esquecer e esquecia aquilo de que se devia lembrar: o frasco de vitrolo. No havia dvida de que lhe metera medo aquela vez, 
mas, de ento para c, mostrara-se amvel de mais: Rosa pensava que ele gostava realmente dela. E esta! O que estava a fazer, sem dvida alguma, era o que se chamava 
"sair com uma pequena". Tornou a pensar na pilhria de Spicer. Olhou para os cabelos de rato, o corpo ossudo, o vestido velho, e estremeceu involuntariamente. "Sbado 
- pensou -, hoje  sbado", lembrando-se do quarto na sua casa, do apavorante exerccio semanal dos pais, que ele observava da sua cama. Era isso que esperavam da 
gente: todas as raparigas com quem se saa tinham os olhos na cama. A sua virgindade intumesceu-se nele como o sexo. Era assim que nos julgavam: no pela coragem 
de matar um homem, de chefiar um bando, de triunfar sobre Colleoni.
- Por que ficamos aqui? Vamos voltar - disse ele.
- Chegmos agora mesmo. Fiquemos mais um pouco, Pinkie. Eu gosto do campo.
- J viste tudo. No se pode fazer nada no campo. O bar est fechado.
- Podemos ficar sentados aqui. De qualquer modo, temos de esperar o autocarro. s engraado! Estars com medo de alguma coisa?
Ele teve um riso estranho, sentando-se com um movimento desajeitado diante do bungalow que tinha as vidraas quebradas:
- Eu, com medo? Essa  boa!
Recostou-se na rocha, com o colete desabotoado, a gravata estreita e poda a destacar as riscas de cor viva contra o fundo de calcrio branco.

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- Isto  melhor do que ir para casa - murmurou Rosa.
- Onde  a tua casa?
- Em Nelson Place. Conheces?
- J passei por l - disse o Rapaz em tom negligente.
Mas seria capaz de traar a planta da praa com a exactido de um topgrafo:  esquina, o quartel do Exrcito de Salvao com as suas paredes riscadas e as ameias; 
a casa dele mais adiante, em Paradise Piece; os prdios davam a impresso de terem sofrido intenso bombardeio. As janelas sem vidros e as goteiras desprendidas a 
bater ao vento, uma armao de cama de ferro a acumular ferrugem no meio de um jardim, o cho revolto e devastado em frente, onde haviam demolido algumas casas para 
construir edifcios-modelo que, afinal, nunca se concretizaram.
Estavam estendidos lado a lado na margem da greda, com uma geografia em comum, e um pouco de dio misturou-se ao desprezo que ele sentia. Julgava ter fugido para 
sempre e ali estava o seu lar de volta, ao lado dele, impondo os seus direitos.
- Ela  que nunca viveu l - disse Rosa subitamente.
- Quem?
- Aquela mulher que veio fazer perguntas. Nenhuma preocupao na vida.
- Bem - proferiu ele. - Nem todos podem ter nascido em
Nelson Place.
- Mas tu no nasceste l... ou perto?
- Eu? Claro que no. Que  que tu pensas?
- Pensei... que talvez fosses de l. Tambm s catlico. Todos somos catlicos em Nelson Place. Acreditas em certas coisas, como o Inferno. Mas aquela mulher... 
v-se mesmo que no acredita em nada. - E acrescentou com amargura: - V-se que a vida para ela  s uma festa.
Ele defendeu-se da ideia de ter qualquer relao com Paradise Piece:
- No me preocupo com a religio. O Inferno... est l. No h necessidade de pensar nisso... antes da hora da morte. - Pode-se morrer de repente.
O Rapaz cerrou os olhos sob a abbada refulgente e vazia, e uma recordao veio  tona, formulando-se imperfeitamente em palavras:

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- Sabes o que eles dizem: "Entre o estribo e o cho, algo buscou e algo encontrou."
- Misericrdia.
- Isso mesmo: misericrdia.
- Mas seria horrvel - disse Rosa devagar - se no nos dessem tempo. - Voltou o rosto para ele, encostando-o  greda, e acrescentou, como se ele pudesse ajud-la: 
-  o que eu peo sempre nas minhas oraes; que no venha a morrer de repente. E tu, que  que pedes?
- Eu no rezo - respondeu ele.
Mas, enquanto dizia isto, estava a implorar a algum ou a alguma coisa que no lhe fosse preciso levar avante as suas relaes com ela nem tornar a envolver-se com 
aquele pedao de terra miservel e dinamitado a que ambos davam o nome de casa.
- Ests zangado por alguma coisa? - perguntou Rosa.
- Um homem, s vezes, quer sossego - disse ele, rigidamente estendido no cho de greda, sem se trair. Uma persiana bateu no silncio e as ondas sussurraram l em 
baixo: dois namorados em passeio, eis o que eles eram. E a lembrana do luxo de Colleoni, das poltronas do Cosmopolitan com as suas coroas bordadas, veio aferro-lo. 
- Perdeste a lngua? Vamos, fala, dize alguma coisa.
- Tu querias sossego - replicou ela, com uma clera repentina que o colheu de surpresa. No a julgava capaz disso. - Se no te sirvo,  melhor que me deixes em paz. 
No te pedi para virmos passear. - Estava sentada, com as mos entrelaadas a prender os joelhos, e as mas do rosto ardiam-lhe. A clera era como um toque de rouge 
nas faces magras de Rosa. - Se no sou bastante fina... com esse teu carro e tudo mais...
- Quem disse?...
- Oh! Eu no sou assim to estpida! Bem te vi olhar para mim. O meu chapu...
De sbito ocorreu-lhe que ela bem podia levantar-se e ir-se embora, voltar para o Snow com o seu segredo, para revel-lo ao primeiro desconhecido que a interrogasse 
com jeito. Tinha de apazigu-la, eram dois namorados em passeio, devia fazer as coisas que se esperavam dele. Estendeu com repugnncia a mo, que pousou como um 
sapo frio no joelho dela.

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- Entendeste-me mal. s um amor de pequena. Ando preocupado, nada mais. Aborrecimentos com os negcios. Ns dois fomos feitos um para o outro.
Viu o rubor desaparecer das faces, Rosa voltar-se para ele com um cego desejo de ser enganada, viu os lbios  espera. Ergueu apressadamente a mo dela e encostou 
os dedos  sua boca: tudo era prefervel aos lbios. Os dedos eram speros e tinham um leve gosto a sabo.
- Desculpa, Pinkie - disse ela. - Tu s muito bonzinho para mim.
Ele teve um riso nervoso.
- Ns dois... - Mas ouviu o buzinar de um autocarro, com a alegria de um sitiado que ouve as cornetas de socorro. - A est o autocarro. Vamos indo. No. acho graa 
ao campo. Sou um pssaro de cidade. Tu tambm...
Rosa ergueu-se, ele vislumbrou-lhe por um momento a pele da coxa acima da meia de seda artificial e uma picada de desejo o perturbou como uma doena. Era isso o 
que acabava por acontecer a um homem: o quarto abafado, as crianas que no dormem, os movimentos das noites de sbado, vindos da outra cama. No haveria fuga possvel, 
em parte alguma e para ningum? Valia a pena exterminar o mundo inteiro...
- Em todo o caso, isto  uma beleza - sussurrou ela, contemplando os sulcos da estrada, entre as tabuletas que anunciavam bungalows para alugar, e o Rapaz tornou 
a rir-se dos nomes bonitos que a humanidade dava a um acto porco; amor, beleza... Todo o seu orgulho se enroscava como uma mola de relgio em redor do pensamento 
de que ele, ao menos, no se deixaria enganar, de que ele no se renderia ao casamento e  criao de filhos, de que ia elevar-se  posio de Colleoni e mais alto 
ainda... Ele sabia tudo, tinha observado todos os pormenores do acto sexual e ningum podia engan-lo com palavras maviosas. No havia naquilo nada de emocionante, 
nenhum lucro ou recompensa em troca do que se perdia. Mas quando Rosa tornou a voltar-se para ele, na expectativa de um beijo, Pinkie sentiu, apesar de tudo, uma 
aterradora ignorncia. Os seus lbios no acertaram com os dela e recuaram. Nunca tinha beijado uma mulher.
- Desculpa-me - disse ela -, sou estpida. Nunca tive... 
E, repentinamente, calou-se para observar uma gaivota que

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levantou voo de um dos jardins ressequidos e frechou para baixo, sobre a borda do penhasco, em direco ao mar.
No autocarro, Pinkie no lhe falou, mal-humorado e inquieto, com as mos metidas nos bolsos, os ps bem juntos, sem saber por que razo tinha vindo to longe com 
ela para voltar sem ter resolvido nada, com o segredo, a lembrana ainda engastada no crebro de Rosa. A paisagem desenrolou-se no sentido contrrio: ch Mazawattee, 
negociantes de antiguidades, estalagem, a relva fina desaparecendo com o primeiro asfalto.
Os pescadores, no molhe, atiravam os seus anzis  gua. Uma ariazinha triste esfarelava-se na tarde soalheira e ventosa. Foram pelo lado do sol, passando diante 
de Uma Noite de Amor, S para Homens, A Dana do Leque.
- Os negcios vo mal? - perguntou Rosa.
- H sempre preocupaes.
- Quem me dera poder ajudar-te, fazer alguma coisa! - Ele continuou a andar, sem dizer nada. Ela estendeu a mo para a sua figura esguia e rgida, vendo a face macia, 
o tufo de cabelos louros na nuca. - s to novo ainda, Pinkie, para teres preocupaes! - Enfiou-lhe a mo no brao. - Ambos somos muito novos, Pinkie - e sentiu-lhe 
o corpo rigidamente afastado.
Um fotgrafo props: "Um instantneo dos dois, com o mar ao fundo", retirando o obturador da cmara. O Rapaz tapou a cara com as mos, continuando a caminhar.
- No gostas de ser fotografado, Pinkie? Iam pr os nossos retratos na exposio, para que todos vissem. No custava nada.
- No me preocupo com o que as coisas custam - afirmou o Rapaz, sacudindo os bolsos para mostrar o dinheiro que tinha.
- Podiam expor-nos ali - disse Rosa, parando diante do quiosque do fotgrafo, ante os retratos das belas banhistas, dos comediantes famosos e dos casais annimos 
- perto de... - e exclamou, cheia de surpresa: - Olha! Ali est ele!
O Rapaz estava a olhar, por sobre a beira do molhe, o mar verde que sugava os pilares e os babujava como uma boca hmida. Voltou-se, contrafeito, e viu Spicer exposto 
na vitrina do fotgrafo, aos olhos de todo o mundo, passando

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da luz do sol para a sombra debaixo do molhe, a caminhar com pressa, o ar preocupado e perseguido, figura cmica de que podiam rir os estranhos, dizendo: "Aquele 
vai arreliado! Foi apanhado de surpresa!"
- O homem que deixou o carto - disse Rosa. - Disseste que ele tinha morrido. Pois sim, que morreu! Mas, de facto, chega a parecer - acrescentou, rindo divertida 
diante daquela pressa estampada a preto e branco - que ele tem medo de morrer, se no andar bem ligeiro.
- Um retrato antigo - disse o Rapaz.
- Qual nada!  aqui que eles pem as fotografias tiradas no prprio dia para a gente comprar.
- Sabes muita coisa.
- No se pode deixar de reparar - atalhou Rosa. -  cmico! O homem todo preocupado, a andar com aquelas grandes passadas... nem reparou no fotgrafo.
- Espera aqui - disse Pinkie.
O interior do quiosque estava escuro, em contraste com a luz do sol. Um homem de bigode ralo e de culos de aros de ao classificava montes de fotografias.
- Quero um retrato que est na vitrina - disse o Rapaz.
- O talo, por favor - respondeu o homem, estendendo os dedos amarelos, que cheiravam levemente a hipossulfito.
- No tenho talo.
- Sem talo no pode levar a fotografia - respondeu o homem, erguendo um negativo diante da lmpada.
- Que direito tem o senhor de expor fotografias sem pedir licena? D-me aquele retrato. - Mas os culos de aros de ao encararam-no desinteressados: um garoto impertinente. 
- Traga o talo e poder levar o retrato. Agora ponha-se a andar. Estou ocupado. - Atrs dele enfileiravam-se instantneos emoldurados de Eduardo VII (como prncipe 
de Gales) com um bon de capito de navio sobre um fundo de cinetoscpios, amarelecidos pelos anos e pela aco da luz sobre o fixador ordinrio; de Vesta Tilley 
assinando autgrafos; de Henry Irning todo atabafado contra os ventos da Mancha: a histria de uma nao. Lily Langtry usava penas de avestruz, Mrs. Pankhurst uma 
saia travada, e Miss Inglaterra de 1923 um fato de banho. No era grande consolo saber que Spicer se encontrava na companhia dos imortais.

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- Spicer! - chamou o Rapaz. - Spicer! - Subiu do pequeno e escuro vestbulo da casa de Frank para o patamar, deixando no oleado uns vestgios esbranquiados do campo 
e das dunas. - Spicer! - Sentiu tremer sob a sua mo o corrimo quebrado. Abriu a porta do quarto de Spicer: l estava ele estendido de borco na cama, a dormir. 
A janela estava fechada, um insecto zumbia no ar viciado e sentia-se um cheiro de whisky proveniente da cama. Pinkie deteve-se a olhar aqueles cabelos grisalhos. 
No sentiu compaixo: faltava-lhe idade para isso. Virou Spicer de costas; a pele em torno da boca estava inflamada. - Spicer!
O outro abriu os olhos. Durante alguns instantes no conseguiu enxergar nada na penumbra do quarto.
- Quero falar contigo, Spicer. 
Spicer sentou-se.
- Meu Deus, Pinkie, como estou contente por te ver.
- Sempre vs com prazer os camaradas, hem, Spicer?
- Encontrei Crab. Disse que tu estavas na esquadra.
- Crab?
- Ento no estiveste l?
- Fui l para uma conversa amigvel... a respeito de Brewer.
- Ah! Ento no foi...
- A respeito de Brewer. - O Rapaz ps subitamente a mo no pulso do outro. - Ests com os nervos escangalhados, Spicer. Precisas de umas frias. - Farejou com desprezo 
o ar impregnado de lcool. - Bebes de mais. - Foi at a janela e abriu-a bruscamente sobre a paisagem de muro cinzento. Um insecto de pernas compridas zumbiu de 
encontro  vidraa e o Rapaz apanhou-o. O bicho ps-se a vibrar na palma da mo, como uma pequenina mola de relgio. Comeou a arrancar-lhe as pernas e as asas, 
uma a uma. - Bem me quer, mal me quer - disse ele. - Fui passear com a minha pequena, Spicer.
- A do Snow?
O Rapaz virou na palma da mo o corpo mutilado e soprou-o para cima da cama de Spicer.

109

- Tu sabes de quem estou a falar. Recebeste um recado para mim, Spicer. Por que no me deste esse recado?
- No pude encontrar-te, Pinkie. Palavra que no pude. Em todo o caso, no era assim to importante. Uma intrometida qualquer a fazer perguntas.
- Mas sempre ficaste assustado - disse o Rapaz, sentando-se na dura cadeira de pinho diante do espelho, com as mos sobre os joelhos, a observar Spicer. O nervo 
da sua face vibrava.
- Ora, no fiquei nada assustado.
- Foste direito para l, como um louco.
- Para l? Que queres dizer?
- Para ti s h um "l", Spicer. Passas o dia a pensar naquele lugar e de noite sonhas com ele. Ests velho de mais para esta vida.
- Esta vida? - repetiu Spicer, fitando-o da cama com os olhos arregalados.
- Este negcio,  o que eu quero dizer. Est claro, tu ficas nervoso e depois comeas a fazer imprudncias. Primeiro deixaste aquele carto no Snow, agora deixas 
que exponham a tua fotografia no molhe para todos verem. Para a Rosa ver!
- Palavra de honra, Pinkie, que eu no sabia!
- No olhas por onde andas.
- Ela  de confiana. Est pelo beicinho por ti, Pinkie.
- Eu no entendo nada de mulheres. Deixo isso por conta de vocs: tu, Cubitt e os outros. S sei o que vocs me dizem, e vocs tm-me dito uma poro de vezes que 
ainda est para nascer uma mulher em quem se possa ter confiana.
- Isso  conversa.
- Queres dizer que sou um mido e vocs contam-me histrias da carochinha. Mas o caso  que eu comecei a acreditar nelas, Spicer. No me parece seguro que tu vivas 
na mesma cidade com a Rosa. Para no falar nessa outra gua que anda a fazer perguntas. Tens de desaparecer, Spicer.
- Que queres dizer com isso? Desaparecer? - Spicer ps-se a remexer no interior do casaco e o Rapaz observou-o com as mos espalmadas nos joelhos. - No serias capaz 
de me fazer nada - disse ele, rebuscando no bolso.
- Essa  boa. Que  que ests a pensar? Quero dizer que precisas de umas frias, de passar uns tempos fora.

110

Spicer tirou a mo do bolso e estendeu ao Rapaz um relgio de prata.
- Podes confiar em mim, Pinkie. Olha o que os rapazes me deram. L a dedicatria: "Dez anos de amizade. Dos companheiros do Estdio." Eu no traio os amigos. Isto 
foi h quinze anos, Pinkie! Vinte e cinco anos de corridas. Ainda tu no eras nascido quando eu comecei.
- Ests a precisar de frias, foi s o que eu disse.
- Farei umas frias com prazer - prometeu Spicer -, mas no quero que penses que sou medroso. Vou hoje mesmo. Fao a mala e embarco esta noite. Ficarei at muito 
satisfeito por sair daqui.
- No - disse o Rapaz, fitando os seus sapatos. - No h assim tanta pressa. - Levantou um p. A sola tinha um buraco do tamanho de uma moeda de xelim. Tornou a 
pensar nas poltronas de Colleoni, no Cosmopolitan, com as suas coroas bordadas a ouro e prata. - Vou precisar de ti nas corridas. - Sorriu para Spicer, do outro 
lado do quarto. - Um companheiro em quem posso confiar.
- Em mim podes ter toda a confiana, Pinkie. - Os dedos de Spicer afagaram o relgio de prata. - De que ests a rir? Tenho a cara suja, por acaso?
- Estava a pensar nas corridas. So muito importantes para mim. - O Rapaz levantou-se e voltou as costas para a luz acinzentada, a parede da casa de hspedes, a 
vidraa, suja de fuligem, contemplando Spicer com uma espcie de curiosidade. - E para onde vais, Spicer? - perguntou ele. Estava firmemente resolvido e, pela segunda 
vez em poucas semanas, contemplava um moribundo. No podia deixar de sentir certa curiosidade. Era bem possvel, at, que o velho Spicer no estivesse destinado 
s chamas. Tinha sido um tipo leal, no tinha mais pecados s costas que o comum dos homens, era bem possvel que ele escorregasse por entre as grades para... mas 
o Rapaz era incapaz de imaginar qualquer eternidade que no fosse de sofrimento. Franziu um pouco a testa, sob o esforo: um mar refulgente, uma coroa de ouro, o 
velho Spicer.
- Nottingham - disse este. - Um camarada meu  proprietrio da ncora Azul na Union Street. Licena para bebidas.

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Ambiente distinto. Servem almoos. Ele disse-me muitas vezes: "Spicer, por que no fazes sociedade comigo? Podemos transformar isto num hotel com mais algumas libras 
na gaveta." Se no fosse por ti e pelos rapazes - acrescentou Spicer - eu nem teria vontade de voltar. No se me dava de ficar l para o resto da vida.
- Bem - disse o Rapaz -, vou andando. Pelo menos, estamos entendidos, agora. - Spicer tornou a recostar-se no travesseiro e levantou o p que tinha o calo dorido. 
Havia um buraco na meia de l e o dedo grande aparecia, com a pele dura calcinada pelos anos. - Dorme bem.
Desceu a escada. A porta da rua dava para leste e o vestbulo estava s escuras. Acendeu uma luz junto ao telefone e tornou a apag-la, no sabia porqu. Pediu ligao 
para o Cosmopolitan. Quando o P. B. X. do hotel respondeu, ele pde distinguir ao longe a msica de dana que vinha do terrao das palmeiras (chs danantes, trs 
xelins), atrs da saleta Lus XVI.
- Quero falar com Mister Colleoni, - "O rouxinol gorjeando, a campainha retinindo..." O fio da msica foi abruptamente cortado e uma voz semtica soou na linha.
-  Mister Colleoni?
Ouviu o tilintar de um copo, o rudo do gelo num shaker.
- Aqui  Mister P. Brown. Estive a reflectir, Mister Colleoni. - Um autocarro passou na rua, com as luzes plidas no fim cinzento do dia. O Rapaz colou a boca ao 
aparelho e disse: - Ele no quer ser razovel, Mister Colleoni. - A voz respondeu num ronrom satisfeito. O Rapaz explicou devagar, cuidadosamente:- Desejo-lhe boa 
viagem e dou-lhe uma palmada nas costas. - Interrompeu-se e perguntou em tom spero: - Que foi que disse, Mister Colleoni? No, apenas me pareceu que o senhor estava 
a rir-se. Al! Al! - Tornou a pr o auscultador no descanso, violentamente, e voltou-se para a escada com uma sensao de ansiedade. O isqueiro de ouro, o colete 
cinzento assertoado, a ideia de uma organizao rica e prspera dominaram-no por instantes; a cama de lato l em cima, o frasquinho de tinta roxa sobre o toucador, 
as migalhas de pozinho de cachorro quente. A sua esperteza de aluno de internato sofreu um esmorecimento momentneo. Mas depois de acender a luz

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sentiu-se em casa. Subiu a escada cantarolando baixinho: "O rouxinol gorjeando, a campainha retinindo." Como os seus pensamentos comeassem a girar mais perto do 
centro escuro, perigoso e sinistro, a melodia mudou: "Agnus dei qui tollis peccata mundi..." Avanava rgido, o casaco a escorrer dos ombros estreitos, mas, quando 
abriu a porta do quarto - "... dona nobis pacem" -, o seu rosto plido encarou-o indistintamente, cheio de orgulho, do espelho por cima do jarro, da saboneteira, 
da bacia de gua suja.

113

QUARTA PARTE

1

Estava um belo dia para as corridas. Uma onda de povo desceu em Brighton, vinda pelo primeiro comboio. Era como uma repetio da segunda-feira de Pentecostes, com 
a diferena de que, desta vez, cada qual poupava o seu dinheiro em vez de gast-lo. Iam apinhados nas plataformas dos elctricos que desciam para o Aqurio, moviam-se 
em massa pela praia, num sentido e noutro, qual absurda migrao de insectos. Pelas onze horas tornara-se impossvel conseguir um lugar nos autocarros que se dirigiam 
para o campo de corridas. Um negro de vistosa gravata listrada sentara-se num banco do jardim do Pavilho, a fumar um charuto. Algumas crianas brincavam ao pau 
queimado de banco para banco, e ele chamou-as com um grito jovial, estendendo o brao que segurava o charuto, ufano e precavido, os grandes dentes a alvejar como 
um anncio. Os meninos pararam de brincar e encararam-no, recuando devagar. O negro tornou a gritar-lhes na lngua deles, palavras vazias, informes, infantis: os 
meninos consideraram-no com inquietao e recuaram ainda mais. Pacientemente, encaixou de novo o charuto nos lbios grossos e continuou a fumar. Uma banda de msica 
surgiu na rua, atravessando o Old Steyne, uma charanga de cegos a tocar cornetas e tambores, avanando uns atrs dos outros pela sarjeta, procurando com a borda 
dos sapatos o contacto do passeio. Ouvia-se a msica de bem longe, persistente no meio do burburinho do povo, das descargas dos automveis, do arfar dos autocarros 
que subiam a ladeira, rumo ao campo de corridas. Tocava com garbo, marchando como um regimento. O transeunte levantava os olhos, esperando ver a pele de tigre, a 
rotao vertiginosa das baquetas, e deparava com aqueles olhos plidos e vazios, como os olhos dos pneis que trabalham nas minas, a passar pela sarjeta.
No vasto campo de desportos do liceu feminino, sobre o mar, um bando solene de rapariguinhas saa para o hquei: robustas guarda-redes, couraadas como tatus, capitoas 
a discutir tctica com as suas tenentes, as mais pequenas a correr no dia Maravilhoso.

114

Para alm do relvado aristocrtico, atravs do grande porto de ferro batido, podiam avistar o desfile plebeu, aqueles que no tinham conseguido lugar nos autocarros, 
galgando a encosta, levantando poeira, comendo bolinhos que levavam em sacos de papel. Os autocarros seguiam o caminho mais longo, dando a volta por Kemp Town, mas 
pela ladeira ngreme subiam os txis apinhados (nove pence a corrida), um Packard que se destinava ao recinto dos scios, velhos Morris, altos e estranhos veculos 
que conduziam famlias inteiras, ainda em servio ao cabo de vinte anos. Era como se a estrada inteira galgasse a encosta como uma escada rolante de metropolitano, 
na luz poeirenta do sol, com uma multido rangente, confusa e vociferante de automveis a mover-se com ela. As raparigas mais novas lanaram-se em correrias, como 
pneis, atravs do relvado, sentindo a excitao que ia l fora, como se aquele fosse um dia em que a vida, para muitos, atingia uma espcie de clmax. A cotao 
de Black Boy subira, nada mais podia restituir o sabor  vida depois daquela temerria aposta de cinco libras em Merry Monarch. Um modelo escarlate de corridas, 
carro pequenino e janota que levava consigo a toda a parte a atmosfera de inmeras estalagens de beira da estrada, de pequenas reunidas em torno de piscinas de natao, 
de encontros furtivos nas azinhagas da Estrada Real do Norte, insinuava-se com incrvel destreza pelo meio do trfego. Foi colhido por um raio de sol e o reflexo 
foi cintilar ao longe, nas janelas do refeitrio do liceu. Ia cheio at as bordas: uma mulher sentada no colo de um homem, outro homem a viajar no estribo do veculo, 
que danava e buzinava, mergulhado na confuso e safando-se, ao mesmo tempo que subia para as dunas. A mulher cantava uma balada tradicional sobre noivas e bouquets, 
qualquer coisa que iria bem com ostras regadas a cerveja e o velho Leicester Lounge, qualquer coisa que parecia deslocada no vistoso carro de corrida. No alto da 
encosta o vento soprou para trs as palavras da cano e estas chegaram at um velho Morris que lhes seguia na esteira, avanando a quarenta milhas por hora, aos 
solavancos, perdendo terreno na estrada poeirenta, com a capota rota, o pra-choques amolgado e o pra-brisas bao.
As palavras chegaram aos ouvidos do Rapaz por entre o chape-chape da velha capota. Ia ao lado do Spicer, que guiava o carro. Noivas e bouquets: pensou em Rosa, com 
repugnncia

115

e mau humor. No conseguia tirar da ideia a insinuao de Spicer. Era como uma fora invisvel a trabalhar contra ele: a estupidez de Spicer, a fotografia no molhe, 
aquela mulher (quem diabo seria?) a fazer perguntas... Se casasse com Rosa, naturalmente, no seria seno por alguns dias: apenas como ltimo recurso para tapar-lhe 
a boca e ganhar tempo. No desejava essa espcie de relaes com ningum: o pensamento da cama de casal, da intimidade, dava-lhe nuseas como a ideia da velhice. 
Encolheu-se no canto, fugindo do meio do assento, onde a vibrao mais forte inquietava a sua amarga virgindade. Casar era como ter excremento nas mos.
- Onde esto Dallow e Cubitt? - perguntou Spicer.
- No quis que eles viessem hoje connosco. Temos de tratar de um negcio, e  melhor que o bando fique ao largo. - Como um garoto cruel que esconde o compasso atrs 
das costas, Pinkie pousou a mo no brao de Spicer com falsa afeio. - A ti posso contar. Vou-me reconciliar com Colleoni. No confio neles. So muito violentos. 
Ns dois saberemos resolver o assunto com jeito.
- Eu sou um homem de paz - disse Spicer. - Sempre fui. 
O Rapaz arreganhou os dentes, atravs do pra-brisas quebrado, para o longo e desordenado desfile de automveis.
- Pois  justamente isso que eu vou fazer.
- Uma paz que dure - disse Spicer.
- Esta paz no ser desfeita por ningum - tornou o Rapaz. 
As palavras distantes da cano morreram no p e no sol claro: uma ltima noiva, um ltimo bouquet e uma palavra que se parecia com "coroa". - Como  que a gente 
faz para casar? - perguntou o Rapaz, contrafeito. - Quando se tem de casar depressa?
- Para ti no  fcil. H a questo da idade... - Accionou as velhas mudanas para subir uma derradeira encosta, em direco ao recinto branco, no solo calcrio, 
onde estavam as carroas dos ciganos. - Preciso de pensar.
- Ento pensa depressa. No esqueas que te vais pr a andar esta noite.
-  verdade - disse Spicer. 
A proximidade da partida punha-o numa disposio sentimental. - No comboio das oito e dez. Queria que visses aquele bar. Serias recebido como uma pessoa da casa. 
Nottingham  uma linda cidade. Vai ser ptimo

116

descansar l uns tempos. O ar  maravilhoso e em parte alguma servem melhor cerveja do que na ncora Azul. - Arreganhou os dentes. - Esqueci-me de que no bebes.
- Diverte-te por l.
- Sempre teremos prazer em receber a tua visita, Pinkie.
- Entraram no recinto e desceram do carro. O Rapaz enfiou o brao no de Spicer. Era delicioso andar pelo lado de fora do muro branco e banhado de sol, diante dos 
camies com os seus altifalantes, com um homem que acreditava no regresso, rumo  mais deliciosa de todas as sensaes: infligir sofrimento. - s um grande camarada, 
Spicer - disse o Rapaz, dando-lhe um aperto no brao. 
E Spicer comeou a descrever-lhe a ncora Azul numa voz baixa, amiga e confiante. - A casa no depende de firma alguma e tem boa reputao. Sempre pensei em fazer 
sociedade com esse meu amigo quando tivesse juntado dinheiro suficiente. Ele ainda quer que eu v. Estive para ir quando mataram o Kite.
- Assustas-te facilmente, hem? - disse o Rapaz. 
Os altifalantes dos camies indicavam-lhes o cavalo em que deviam arriscar o seu dinheiro, alguns ciganinhos perseguiam um coelho entre gritos, sobre o cho de greda 
espezinhado. Entraram no tnel que passava por debaixo da pista e saram de novo para a luz, pisando a relva curta e cinzenta que descia em declive para o mar, por 
entre os bungalows. Velhas cautelas de apostas apodreciam na greda: "Barker oferece-lhe as cotaes mais vantajosas", uma fisionomia satisfeita de no conformista, 
impressa em amarelo: "No se preocupe, que eu pago", e velhos bilhetes de entrada para o relvado entre os arbustos mirrados. Atravessaram a cerca de arame do recinto 
da meia-coroa.
- Toma um copo de cerveja, Spicer - ofereceu o Rapaz, empurrando-o suavemente.
- Que amabilidade, Pinkie! Aceito.
E, enquanto ele bebia junto aos cavaletes de madeira, o Rapaz considerou a fila dos agentes de apostas que ali estavam: o Barker, o Macpherson, o George Beale (a 
velha Firma) e o Bob Tavell de Clapton, todas aquelas caras conhecidas, cheias de intrujice e falso bom-humor. As duas primeiras corridas j se tinham realizado 
e havia longas filas diante dos marcadores. O sol alumiava o pavilho branco no outro lado da pista e alguns cavalos passaram a trote largo, rumo ao poste

117

de partida. "Ali vai o General Burgoyne; est inquieto", disse um homem, dirigindo-se para a barraca de Bob Tavell, a fim de cobrir a sua aposta. Os agentes apagavam 
e alteravam as cotaes, enquanto os cavalos passavam com os cascos a pisar maciamente a pista, como luvas de boxe.
- Vais arriscar? - perguntou Spicer, terminando de beber a sua cerveja e soprando na direco dos agentes um hlito gasoso e um cheiro a malte.
- Eu nunca aposto - replicou o Rapaz.
-  a minha ltima chance na velha Brighton. Sou capaz de jogar um par de libras. Mais no. Estou a poupar os meus cobres para Nottingham.
- Vai - aconselhou o Rapaz -, diverte-te enquanto podes. Dirigiram-se para a barraca de Brewer: havia ali mais gente.
- Est a fazer negcio - disse Spicer. - Viste Merry Monarch? Subiu de cotao. - E, enquanto ele dizia isto, todos os agentes apagaram a cotao de dezasseis por 
um. - Est a dez, agora - disse Spicer.
- Diverte-te enquanto ests aqui - repetiu o Rapaz.
- Acho que vou jogar com a Velha Firma. - Spicer libertou o brao e dirigiu-se para a barraca de Tate. O Rapaz sorriu. Aquilo era to fcil como descascar ervilhas. 
- Memento Mori - disse Spicer, voltando com a cautela na mo. - Nome esquisito para um cavalo. Cinco por um segundo ou terceiro. Que quer dizer Memento Mori?
-  estrangeiro - disse o Rapaz. - Black Boy est a baixar.
- Eu devia ter apostado nele tambm. Est l uma mulher que diz que jogou vinte e cinco libras em Black Boy. Acho uma loucura. Mas imagina se ele ganha! Meu Deus, 
o que eu no faria com duzentas e cinquenta libras! Entrava logo de sociedade para a ncora Azul. Vocs  que no me viam mais aqui - afirmou ele, olhando o cu 
refulgente, a poeira que pairava sobre o prado, as cautelas rasgadas e a relva curta que se estendia para o mar escuro e preguioso para alm do penhasco.
- Black Boy no ganha - disse o Rapaz. - Quem foi que jogou vinte e cinco libras?
- Uma mulher que estava l no bar. Porque no apostas uma nota de cinco em Black Boy? S desta vez, para festejar...

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- Festejar o qu? - perguntou vivamente o Rapaz.
- Tinha-me esquecido. Ando to contente com as minhas frias, que me parece que todo o mundo tem alguma coisa para festejar.
- Se eu quisesse festejar, no seria a apostar em Black Boy. No te lembras? Era o favorito de Fred. Dizia ele que o cavalo ainda havia de ganhar em Derby. No acredito 
que um animal desses traga sorte. - Mas no pde resistir  tentao de observ-lo, enquanto passava a trote largo junto  cerca: um pouco vivo e inquieto de mais. 
Um homem encarrapitado no alto do palanque da meia-coroa bateu no tecto de madeira, telegrafando uma mensagem a Bob Tavell de Clapton, e um judeu pequenino, que 
estudava com um binculo o recinto de dez xelins, ps-se a gesticular de repente para chamar a ateno da Velha Firma. - A est - exclamou o Rapaz. - Que foi que 
eu te disse? Black Boy baixou de novo.
- Cem por oito, Black Boy, cem por oito - gritou o representante de George Beale, e algum anunciou: "Largaram!" Pessoas saram da barraca de bebidas, caminhando 
para a cerca com copos de cerveja e bolinhos de passas na mo. Barker, Macpherson, Bob Tavell, todos eles apagaram as cotaes dos seus quadros negros, mas a Velha 
Firma continuou no jogo at o fim: "Cem por seis, Black Boy", enquanto o judeu fazia passes manicos do alto do palanque. Os cavalos passaram num magote, com um 
rudo semelhante ao da madeira quando se racha, e desapareceram. "General Burgoyne", disse algum, e um outro proclamou: "Mary Monarch." Os bebedores de cerveja 
voltaram para as mesas armadas sobre cavaletes e tomaram mais um copo, enquanto os agentes organizavam o quadro dos novos corredores, comeando a marcar algumas 
cotaes a giz.
- A tens, que foi que eu te disse? - exclamou o Rapaz. - Fred nunca entendeu de cavalos. Essa maluca deitou fora vinte e cinco libras. No est nos seus dias de 
sorte. Ora, onde...
Mas o silncio e inaco que se seguem ao fim de uma corrida, antes que os resultados sejam proclamados, tm qualquer coisa de assustador. As bichas esperavam diante 
dos marcadores; tudo se imobilizara de sbito no campo de corridas, aguardando um sinal para recomear: no meio do silncio pde ouvir-se um cavalo que relinchava, 
vindo da pesagem.

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Um sentimento de inquietao apossou-se do Rapaz naquela serenidade banhada de sol. A falsa maturidade impregnada de azedume, a experincia concentrada e limitada 
de bairro pobre abandonaram-no. Arrependeu-se de no ter trazido Cubitt e Dallow consigo. Tinha demasiadas coisas em que pensar, para um rapaz de dezassete anos. 
No se tratava apenas de Spicer. Na segunda-feira de Pentecostes ele dera o incio a alguma coisa que no tinha fim. A morte no era um fim; o incensrio balanou, 
o padre ergueu a hstia e o altifalante entoou os nomes dos vencedores: Black Boy. Memento Mori. General Buigoyne.
- Caramba! - gritou Spicer. - Ganhei! Memento Mori em segundo! - E, lembrando-se das palavras do Rapaz: - Ela tambm ganhou. Vinte e cinco libras. Que bolada! Que 
me dizes agora de Black Boy?
Pinkie ficou silencioso. "O cavalo de Fred - dizia consigo. - Se eu fosse um desses idiotas que tocam na madeira, atiram sal, no passam debaixo das escadas, talvez 
ficasse com medo de..."
Spicer puxava-lhe pela manga:
- Ganhei, Pinkie! Uma fanfa de dez. Que me dizes agora a isto?
... Levar a cabo aquilo que planeara com cuidado. Algures no recinto, ouviu um riso, um riso feminino, sonoro e confiante, talvez da mulher que apostara vinte e 
cinco libras no cavalo de Fred. Virou-se para Spicer com uma raiva secreta, a crueldade a enrijar-lhe o corpo como a luxria.
- Sim - aconselhou, passando o brao em volta dos ombros do outro -,  melhor ires receber agora.
Dirigiram-se juntos para a barraca de Tate. Um rapaz com o cabelo reluzente de leo, em p sobre um degrau de madeira, pagava aos contemplados. Tate fora at o recinto 
de dez xelins, mas ambos conheciam Samuel. Spicer gritou-lhe jovialmente ao aproximar-se:
- Vamos l, Sammy, venham esses cobres!
Samuel observou os dois que vinham pela relva rala e enfezada, dando-se o brao como velhos amigos. Meia dzia de homens reuniram-se e fizeram roda,  espera. O 
ltimo credor sumiu-se. Eles esperavam em silncio. Um homem baixote,

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que segurava um livro de contas, ps a ponta da lngua para fora e lambeu uma feridinha do lbio.
- Ests com sorte, Spicer - disse o Rapaz, apertando-lhe o brao. - Aproveita bem essas dez libras.
- Como, j te vais despedir?
- No espero pela corrida das quatro e meia. No nos veremos mais.
- E Colleoni? Ns dois no amos?...
Os cavalos passaram em direco ao poste de partida. A multido avanou para o marcador, deixando-lhes o caminho desimpedido. Um inculcador, sem chapu, ainda os 
deteve:
- Um palpite para a prxima corrida. Um xelim apenas. J acertei hoje em dois.
Os dedos apareciam-lhe pelos buracos dos sapatos.
- V vender os seus palpites para outro lado - disse o Rapaz.
Spicer no gostava de despedidas: era um sentimental. Mudou de posio o p que tinha o calo.
- Repara! - exclamou ele, olhando para a vedao. - Os de Tate ainda no escreveram as cotaes.
- Tate sempre foi vagaroso. Para pagar tambm.  melhor ires buscar o teu dinheiro.
Ia-o empurrando pelo cotovelo.
- No h novidade, hem? - perguntou Spicer, observando o grupo de homens  espera. Estes tinham o olhar fixo na sua direco, sem, contudo, o encararem.
- Bem, chegou o momento de te dizer adeus - volveu o Rapaz.
- Lembra-te do endereo: ncora Azul, Union Street. Manda-me notcias. Por mim, acho que no terei nenhuma para te dar.
O Rapaz levantou a mo para bater nas costas de Spicer, mas deixou-a cair novamente. O grupo de judeus esperava, em formao cerrada.
- Talvez... - disse o Rapaz. 
Olhou em redor: no havia fim para aquilo que ele comeara. Um mpeto de crueldade se lhe acendeu no ventre. Tornou a levantar a mo e deu uma palmadinha nas costas 
de Spicer. - Desejo-te felicidades - pronunciou, numa voz aguda e rachada de adolescente, e bateu-lhe mais uma vez nas costas.

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Os judeus cercaram-nos, num movimento de conjunto. Ouviu Spicer gritar: "Pinkie!" e viu-o cair. Uma bota forrada de grossos pregos ergueu-se e ele sentiu a dor escorrer 
como sangue pelo seu prprio pescoo abaixo.
A surpresa, a princpio, foi pior do que a dor (uma picada de urtiga doa tanto como aquilo).
- Seus idiotas, a coisa no  comigo,  com ele! - gritou o Rapaz e, ao virar-se, viu-se rodeado de caras semticas por todos os lados. Arreganhavam os dentes para 
ele: cada qual tinha a sua navalha na mo. O Rapaz lembrou-se, ento, pela primeira vez, da risada de Colleoni ao telefone. A multido dispersara-se ao primeiro 
sinal de perigo. Ouviu Spicer gritar: "Pinkie! Pelo amor de Deus!" Uma luta obscura atingia a culminncia fora das suas vistas. Tinha outras coisas de que cuidar: 
as compridas navalhas em que incidiam os raios oblquos do Sol, vindos dos lados de Shoreham por cima das colinas. Levou a mo ao bolso, procurando a sua lmina, 
e o homem que estava mais prximo inclinou-se para a frente e retalhou-lhe os ns dos dedos. Conheceu ento a dor e encheu-se de horror e assombro, como se um dos 
petizes que costumava torturar na escola se lhe tivesse antecipado, cravando-lhe a ponta do compasso.
Os outros no faziam meno de chegar mais perto e dar cabo dele. O Rapaz gritou-lhes, soluando:
- Colleoni vai-me pagar isto!
Chamou duas vezes por Spicer, antes de se lembrar que Spicer no lhe podia responder. O bando estava a divertir-se, como ele sempre fizera at ento. Um dos homens 
inclinou-se para lhe cortar o rosto e, como ele erguesse a mo para o defender, tornaram a retalhar-lhe os ns dos dedos. Ps-se a chorar, enquanto a corrida das 
quatro e meia se desenrolava atrs da cerca, num rufar de cascos.
Ento, algum gritou do palanque: "Olha os xuis!", e todos se moveram como um s homem, avanando rapidamente sobre ele. Algum lhe deu um pontap na coxa e o Rapaz, 
que segurava uma lmina na mo, cortou-se at o osso. Dispersaram-se, ento, ao ver os polcias a correr pela pista, um tanto vagarosos por causa das botas pesadas, 
e o Rapaz rompeu pelo meio deles. Alguns seguiram-no, atravessando a cancela de arame e contornando a colina em direco s casas e ao

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mar. Chorava enquanto corria, coxeando de uma perna em consequncia do pontap que recebera, e at tentou rezar. Um homem podia salvar-se entre o estribo e o cho, 
mas com a condio de arrepender-se, e ele no tinha tempo para sentir o menor remorso, enquanto descia precipitadamente a encosta barrenta. Corria desajeitadamente, 
aos tropees, com o rosto e as duas mos a escorrerem sangue.
Apenas dois homens continuavam a segui-lo. Faziam-no por simples divertimento, afugentando-o como se afugenta um gato. Alcanou as primeiras casas no sop da colina, 
mas no havia ningum por ali. As corridas tinham esvaziado todas as casas: nada mais que o pavimento irregular, pequenos relvados, portas de vidro fosco e um cortador 
de grama abandonado num caminho de cascalho. Tinha agora na mo a sua lmina de barbear, mas nunca a usara contra um inimigo armado. Precisava ocultar-se, mas ia 
deixando um rasto de sangue pela estrada.
Os dois homens estavam esbaforidos: tinham gasto o flego em risadas e os pulmes do Rapaz eram mais jovens. Foi ganhando distncia; envolveu a mo num leno e atirou 
a cabea para trs, a fim de que o sangue lhe corresse pela roupa. Dobrou uma esquina e meteu-se numa garagem vazia, antes que eles aparecessem. Ficou ali dentro, 
no escuro, com a navalha na mo, procurando arrepender-se. Quis pensar em Spicer e em Fred, mas o seu pensamento no ia alm da esquina onde os seus perseguidores 
podiam aparecer. Descobriu que no tinha energia para arrepender-se.
E quando, aps muito tempo, o perigo pareceu ter passado e o longo crepsculo comeou a envolv-lo, no foi na eternidade que ele pensou, mas na sua prpria humilhao. 
Tinha chorado, implorado, fugido: Cubitt e Dallow seriam informados daquilo. Que seria feito, ento, do bando de Kite? Procurou pensar em Spicer, mas o mundo mantinha-o 
prisioneiro. No conseguia pr as ideias em ordem. Como os joelhos lhe vacilassem, encostou-se  parede da garagem, levando a lmina  frente, e espreitou a esquina. 
Algumas pessoas passavam; compassos de msica apenas perceptveis, vindos do Molhe do Palcio, perfuraram-lhe o crebro como um abcesso; acenderam-se as luzes na 
rua burguesa, polida e rida.
A garagem nunca fora utilizada como tal. Convertera-se numa espcie de oficina de jardineiro: pequenos rebentos verdes

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emergiam, como lagartas, de caixas rasas cheias de terra; uma p, um cortador de grama enferrujado, todas as velharias para as quais o proprietrio no encontrara 
espao na pequenina vivenda: um velho cavalo de balouo, um carrinho de criana convertido em carrinho de mo, um monte de discos antigos - Alexander's Rag Time 
Band, Pack Up Your Troubles, If You Were the Only Girl -, tudo isto estava ali junto com as colheres de pedreiro, o que restava do pavimento irregular, uma boneca 
com um nico olho de vidro e o vestido manchado de mofo. Ele tomou nota de tudo com alguns rpidos relances de olhos, a lmina sempre em guarda, o sangue a coagular-se 
no pescoo e a gotejar da mo, de onde o leno tinha escorregado. Fosse l quem fosse o proprietrio da casa, iria acrescentar s suas posses aquela manchazinha 
a secar no cho de cimento.
Fosse ele quem fosse, muito havia andado antes de vir estabelecer-se ali. O carrinho de criana estava coberto de rtulos, vestgios de inmeras viagens de comboio: 
Doncaster, Lichfield, Clacton (provavelmente umas frias no Vero), Ipswhich, Northampton; mal arrancados, cada qual para ceder lugar ao seguinte, eles deixavam 
um rastro inconfundvel. E aquela pequena vivenda ao p do campo de corridas representava a sua meta final. No havia dvida de que aquilo era o fim, a casa hipotecada 
na vrzea; como a marca de detritos deixada pela mar alta numa praia, aquele lixo empilhara-se ali e no iria mais longe.
O Rapaz odiou-o. Era uma criatura sem nome, sem fisionomia, mas o Rapaz odiou-o a ele,  boneca, ao carrinho de criana, ao cavalo de balouo quebrado. Os rebentos 
na caixa de terra irritavam-no como a ignorncia. Estava com fome, fraco e com os nervos abalados. Tinha conhecido a dor e o medo.
Essa hora em que o crepsculo baixava era, por certo, o momento mais propcio para se reconciliar com a sua conscincia. Mas entre o estribo e o cho no havia tempo: 
no se podia romper num instante o hbito de pensar, nem mesmo moribundo: ele lembrou-se de Kite, depois de ter sido ferido em St. Pancras, a agonizar na sala de 
espera enquanto um carregador deitava p de carvo no fogo apagado: Kite no cessava de falar dos midos no se sabia de quem.
Mas Spicer... Os pensamentos do Rapaz voltavam inevitavelmente para este, com uma espcie de alvio: "Deram cabo

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de Spicer." Era impossvel arrepender-se de uma coisa que o libertava do perigo. A tal mulher intrometida ficava agora sem testemunhas - excepto Rosa, e ele sabia 
o que fazer com Rosa. Quando a sua segurana fosse completa, poderia pensar em fazer a paz consigo, em voltar para casa - e sentiu um langor no corao, uma leve 
nostalgia do pequenino e escuro confessionrio, da voz do padre e dos fiis  espera, sob a imagem, diante das luzes que ardem nas lmpadas rseas, que os libertassem 
das penas eternas. Antes desse dia, as penas eternas pouco significavam para ele: agora significavam golpes de navalha prolongados ao infinito.
Esgueirou-se para fora da garagem. A rua nova e em bruto, aberta na greda, estava deserta, com excepo dum casal muito aconchegado, junto a uma vedao de madeira, 
longe do candeeiro de iluminao pblica. Ao v-lo, sentiu nojo e um mpeto de crueldade. Passou pelos dois, a coxear, a mo cortada a esconder a navalha, com a 
sua cruel virgindade que exigia outra espcie de satisfao que no a deles, breve, animal e costumeira.
Levava um destino certo. No queria voltar  casa de Frank naquele estado, com a roupa suja de teias de aranha, os golpes da derrota na mo e na face. Danava-se 
ao ar livre no convs branco acima do Aqurio. Desceu para a praia, onde estava mais s, com algas secas deixadas pelas tormentas do ltimo Inverno a estalar sob 
os ps. Ouvia a msica: The One I love. "Embrulhem isso em celofane - pensou -, em papel de estanho." Uma traa que se ferira de encontro a uma das lmpadas arrastava-se 
sobre um pedao de madeira deixado pela mar: esmagou-a debaixo do sapato sujo de barro. "Um dia... um dia..." Avanava a coxear pela areia, escondendo a mo ensanguentada, 
como um jovem ditador. Era chefe do bando de Kite, aquilo no passava de uma derrota temporria. Quando estivesse em segurana, confessar-se-ia para apagar tudo. 
A Lua amarela brilhava oblqua sobre Hove, sobre a exactido matemtica de Regency Square, e ele devaneava, a coxear na areia seca, diante das barracas fechadas: 
"darei uma imagem  igreja".
 altura do Molhe do Palcio subiu para o passeio e atravessou dolorosamente a avenida. O restaurante Snow tinha todas as luzes acesas. Um rdio tocava. Conservou-se 
na rua at que

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viu Rosa servir uma mesa junto  janela: foi ento colar o rosto aos vidros. Ela viu-o imediatamente: a ateno de Pinkie retiniu-lhe sem demora no crebro como 
se ele tivesse marcado o nmero num telefone automtico. O Rapaz tirou a mo do bolso, mas o ferimento do rosto era preocupao bastante para ela. Rosa procurou 
dizer-lhe qualquer coisa atravs do vidro. Pinkie no a entendia: era como se estivesse a ouvir uma lngua estrangeira. A rapariga teve de repetir trs vezes: "Vai 
pelas traseiras", antes que ele conseguisse ler-lhe o movimento dos lbios. A dor na perna tornara-se mais forte. Circundou o edifcio arrastando-a, e, ao dar a 
volta, viu passar um automvel - um Lancia, com o motorista fardado e Mr. Colleoni, de smoking e colete branco, recostado, a desmanchar-se em sorrisos para uma velha 
senhora vestida de seda vermelha que ia a seu lado. Talvez nem fosse Mr. Colleoni (o Lancia passara to depressa e to suavemente), mas qualquer judeu rico, de meia 
idade, que voltava para o Cosmopolitan, depois de um concerto no Pavilho.
Inclinou-se e olhou pela fenda da caixa do correio da porta das traseiras: Rosa aproximava-se pelo corredor, com os punhos cerrados e uma expresso de clera no 
rosto. O Rapaz perdeu um pouco da sua confiana: "Ela reparou no meu estado", pensou. Sabia que as raparigas sempre olham para os sapatos, para o casaco de um homem: 
"Se ela me manda embora, atiro-lhe este frasco de vitrolo..." Porm, ao abrir a porta, Rosa mostrou-se to bronca e dedicada como sempre.
- Quem te fez isso? - murmurou. - Se eu os apanhasse!
- No faz mal - respondeu o Rapaz. E alardeou: - Deixa-os por minha conta.
- Como ficou a tua cara!
Ele lembrou-se, com repugnncia, de ter ouvido muitas vezes que as mulheres apreciavam as cicatrizes, considerando-as como um sinal de virilidade, de grande potncia.
- H por a um lugar onde eu me possa lavar?
- Vem, mas no faas barulho - disse ela. - A adega  por aqui.
E conduziu-o para um pequeno cubculo por onde passavam os canos de aquecimento e onde havia algumas garrafas.
- No vir ningum aqui? - perguntou ele.

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- Nunca pedem vinho. No temos licena. Isso  o que sobrou quando comprmos o restaurante. A gerente bebe-o como tnico. - Sempre que se referia ao estabelecimento, 
dizia "ns" com um leve sentimento de vaidade. - Senta-te. Vou buscar gua. Tenho de apagar a luz, seno vo reparar.
Mas a lua alumiava suficientemente o cubculo para que ele pudesse ver. Conseguiu at ler os rtulos das garrafas: vinhos Imprio, vinhos brancos da Austrlia e 
borgonha de classe.
Ela no demorou a voltar, mas assim que apareceu comeou a desculpar-se humildemente:
- Um fregus pediu a conta e a cozinheira estava a olhar. - Trouxera consigo uma forma de pudim com gua quente e trs lenos. - No tenho mais nada - disse, rasgando-os 
-, a lavadeira ainda no trouxe a roupa. - E acrescentou com firmeza, enquanto limpava o golpe comprido e pouco profundo, como um risco vertical de alfinete no pescoo 
dele: - Se eu os apanhasse...
- No converses tanto - disse o Rapaz, estendendo a mo retalhada. O sangue comeava a coagular. Ela ligou-a atabalhoadamente. - Algum esteve c de novo a fazer 
perguntas?
- O homem com quem a mulher andava. - Um xui?
- No me parece. Disse que se chama Phil.
- Pelo que vejo, tu  que andaste a fazer perguntas.
- Todos eles se abrem com a gente.
- No entendo isso - observou o Rapaz. - Se no so da Polcia, que  que querem? - Estendeu a mo ilesa e beliscou-a no brao. - Tu no lhe contas nada, hem?
- Nada - respondeu Rosa, contemplando-o no escuro com devoo. - Tiveste medo?
- No podem provar nada contra mim.
- No; quando te fizeram isso? - volveu ela, tocando-lhe na mo.
- Medo! Ora, claro que no - mentiu o Rapaz.
- Por que te fizeram isso?
- J te disse que no me perguntes nada. - Levantou-se, pouco firme, na perna magoada. - Limpa-me o casaco, no posso sair assim. Preciso de andar decentemente vestido.

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Encostou-se s garrafas de borgonha enquanto ela lhe limpava a roupa com a palma da mo. O luar cobria de sombras o cubculo, as garrafas, os ombros estreitos, o 
rosto adolescente com a cicatriz.
Sentia pouca disposio para voltar  rua,  casa de Frank e s interminveis conferncias com Cubitt e Dallow sobre a prxima medida a tomar. A vida era uma srie 
de complicados exerccios de tctica, to complicados como a disposio das tropas em Waterloo, meditados numa cama de lato entre as migalhas de cachorro quente. 
As roupas precisavam de ser passadas a toda a hora, Cubitt e Dallow discutiam ou ento Dallow metia-se com a mulher de Frank, o velho telefone debaixo da escada 
no parava de tocar e Judy, que fumava muito, trazia continuamente contas de extraordinrios que atirava para a cama pedindo uma gorjeta, uma gorjeta, uma gorjeta... 
Como era possvel elaborar um plano estratgico mais vasto em tais condies? Sentiu uma nostalgia repentina daquele cubculo escuro, do silncio, da luz plida 
a incidir nas garrafas de borgonha. Ficar algum tempo s...
No estava s, porm. Rosa ps a mo na sua e perguntou, receosa:
- Eles no esto  tua espera l fora, no? 
O Rapaz fugiu-lhe com o corpo e alardeou:
- No esto  espera em parte nenhuma. Levaram mais do que deram. No esperavam encontrar-me pela frente, pensavam que era s o pobre Spicer.
- O pobre Spicer?
- O pobre Spicer morreu. - Enquanto ele pronunciava estas palavras, ouviu-se, atravs do corredor, uma risada sonora no restaurante, uma risada de mulher, cheia 
de cerveja e camaradagem.-Ela voltou - disse o Rapaz.
-  ela, . - Era um riso que se tinha ouvido numa centena de lugares: riso de olhos secos sem cuidados nem preocupaes, vendo sempre o lado jovial das coisas, 
quando o vapor largava do cais e outras pessoas choravam; saudando o gracejo picante no music-hall; ao p de uma cama de doente e num compartimento apinhado do caminho 
de ferro do Sul; quando o cavalo contrrio ganhava, riso de bom desportista. - Ela mete-me medo - cochichou Rosa. - No sei o que quer essa mulher.

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O Rapaz puxou-a para si: tctica, tctica... Nunca tinha tempo para estratgia. Na luz cinzenta da noite, viu-lhe o rosto alar-se para ele,  espera de um beijo. 
Hesitou, com um sentimento de repulsa: mas a tctica, a tctica... Tinha vontade de esmurr-la, faz-la gritar, mas beijou-a desastradamente, sem lhe acertar com 
os lbios. Afastou os seus, crispados, e disse:
- Escuta.
- Tu no tiveste muitas namoradas, pois no? - perguntou ela.
- Claro que tive; mas escuta...
- s o meu primeiro. Que bom assim!
Ouvindo-a dizer isto, ele comeou de novo a odi-la. Nem mesmo teria de que se gabar: o primeiro... No a tinha roubado a ningum, no tinha rival, ningum mais 
se interessaria por ela. Cubitt e Dallow no lhe concederiam sequer um olhar: o seu cabelo natural e incaracterstico, a sua simplicidade, a roupa barata que ele 
sentia sob a sua mo. Teve-lhe dio como tivera a Spicer, e isso tornou-o circunspecto; apertou-lhe desajeitadamente os seios com as palmas das mos, simulando com 
frio oportunismo a paixo de um outro, e pensou: "No seria to mau se ela estivesse mais enfeitada, com um pouco de rouge e de pintura nas plpebras. Mas isto... 
a criatura mais vulgar, mais ignorante, mais sem experincia em toda Brighton... ter-me a mim debaixo do seu poder!..."
- Meu Deus - murmurou ela -, como tu s bom para mim, Pinkie! Amo-te.
- Tu no serias capaz de me trair... a ela? 
Algum chamou Rosa do corredor; uma porta bateu.
- Tenho de ir - volveu ela. - Que  que tu queres dizer? Trair-te!?
- Isso mesmo que eu disse. Dar  lngua. Dizer-lhe quem foi que deixou o carto. Que no foi a pessoa que sabes.
- Nunca direi isso. - Um autocarro passou pela West Street: a luz penetrou pela janelinha gradeada, batendo em cheio no rosto plido e decidido de Rosa: era como 
uma criana que pe os dedos em cruz e formula o seu juramento mais sagrado. - Pouco me importa o que tu fizeste - asseverou ela suavemente, como se negasse interesse 
por uma vidraa quebrada ou por uma palavra suja traada a giz em porta alheia.

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Ele emudeceu, e uma intuio da astcia contida naquela simplicidade, da longa experincia daqueles dezasseis anos, das profundezas possveis da sua fidelidade, 
tocou-o como costumava toc-lo a msica barata, enquanto a luz iluminava uma face, depois outra e por fim a parede, e as mudanas do autocarro gemiam, l fora.
- Que queres dizer com isso? Eu no fiz nada. 
- No sei - replicou ela -, nem me importo.
- Rosa! - gritou uma voz. - Rosa!
-  ela, tenho a certeza de que  ela - disse Rosa. - Vem perguntar coisas. Macia como veludo. Que  que ela sabe a respeito de ns? - Chegou-se mais para ele. - 
Eu tambm fiz uma coisa, uma vez. Um pecado mortal. Quando tinha doze anos. Mas essa mulher... ela nem sabe o que  um pecado mortal.
- Rosa! Onde est voc? Rosa!
A sombra do seu rosto de dezasseis anos deslocou-se na claridade da lua que inundava a parede.
- Justo e injusto.  no que ela fala. Eu ouvi-a conversar na mesa. Justo e injusto. Como se ela soubesse! - sussurrou com desprezo: - Oh! Ela no h-de arder. No 
arderia nem que quisesse. - Era como se falasse de uma bicha-de-rabear, molhada. - Molly Carthew ardeu. Era um encanto de rapariga. Matou-se. Desespero... Isso  
pecado mortal. No tem perdo. A no ser... Que foi que tu disseste sobre o estribo?
Ele explicou-lhe, contrafeito:
- O estribo e o cho. No d resultado.
- O que tu fizeste - insistiu ela - confessaste-o depois? 
O Rapaz respondeu evasivamente, vulto escuro e obstinado, a descansar nas garrafas de vinho australiano a mo envolta na ligadura:
- H anos que no vou  missa.
- No me importo - repetiu Rosa. - Prefiro arder contigo a ser igual a ela.
A sua voz imatura hesitou ao pronunciar as palavras:
- Ela  ignorante.
- Rosa! - A porta do esconderijo abriu-se. A gerente, de uniforme verde-cinza, a caneta pendurada de um boto no peito, trouxe consigo a luz, as vozes, o rdio e 
os risos, dissipando a escura teologia em que estavam absortos os dois. - Menina, que  que voc est aqui a fazer? E quem  essa outra?

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- acrescentou, espreitando o vulto esguio na sombra. Mas quando ele veio para a luz a mulher emendou: - Esse rapaz. - Os olhos correram-lhe ao longo das garrafas, 
contando-as. - Voc no pode trazer amigos para c.
- Eu j me vou embora - disse o Rapaz.
Ela observou-o com desconfiana e desagrado: as teias de aranha no haviam desaparecido de todo.
- Se voc no fosse to novo, eu chamava a Polcia. 
Ele respondeu com o nico dito espirituoso que teve na sua vida.
- No me faltaria um libi.
- Quanto a voc - ameaou a gerente, virando-se para Rosa -, depois conversaremos. - Acompanhou com os olhos o Rapaz que saa do cubculo e proferiu, revoltada: 
- Vocs dois so novos de mais para essas coisas.
Novos de mais: eis a dificuldade. Spicer no a tinha resolvido antes de morrer. Novo de mais para tapar-lhe a boca com um casamento, novo de mais para impedir que 
a Polcia a levasse ao banco das testemunhas, se a coisa chegasse a tanto. Prestar depoimento... dizer que fora Spicer, e no Hale, quem tinha deixado o carto e 
que ele prprio tinha vindo procur-lo debaixo da toalha. Ela lembrava-se at dessa particularidade. A morte de Spicer aumentaria as suspeitas. Tinha de lhe tapar 
a boca, fosse como fosse: precisava de sossego.
Subiu devagar a escada para o seu quarto-sala-de-estar na casa de Frank. Tinha a impresso de estar a perder o domnio da situao - o telefone tocava sem cessar 
-, e, ao perder esse domnio, comeava a compreender todas as coisas que a sua pouca idade no lhe permitira conhecer ainda. Cubitt saiu de um quarto do andar trreo 
com um pedao de ma a entulhar-lhe as bochechas e com um canivete quebrado na mo.
- No - disse ele -, Spicer no est. Ainda no voltou. 
O Rapaz gritou-lhe do primeiro patamar da escada:
- Quem quer falar com Spicer?
- Ela desligou.
- Ela, quem?
- No sei. Uma amiga dele. Anda maluco por uma pequena que encontrou na Dama de Copas. Mas afinal onde est o Spicer, Pinkie?
- Morreu. Os homens de Colleoni deram cabo dele.

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- Deus do Cu! - exclamou Cubitt, fechando o canivete e cuspindo o pedao da ma. - Eu bem disse que no devamos meter-nos com o Brewer! Que  que vamos fazer?
- Vem c. Onde est o Dallow?
- Saiu.
O Rapaz precedeu-o, entranto no quarto-sala de estar e acendendo a nica lmpada. Pensou no quarto de Colleoni no Cosmopolitan: mas era preciso comear em alguma 
parte.
- Vocs estiveram de novo a comer em cima da minha cama - disse ele.
- No fui eu, Pinkie. Foi Dallow. Que  isso, Pinkie? Tambm te cortaram?
O Rapaz tornou a mentir:
- Paguei-lhes na mesma moeda. - Mas mentir era uma fraqueza. No estava acostumado a mentir. - No precisamos de nos preocupar com Spicer. Era medroso.  bom que 
tenha morrido. A rapariga do Snow viu-o quando ele deixou o carto. Depois de ele estar enterrado, ningum ir identific-lo. Podamos at mandar incinerar o corpo.
- - Pensas, ento, que os xuis...?
- No tenho medo dos xuis. H outros, que andam por a a bisbilhotar.
- Eles no podem desmentir o que os mdicos disseram.
- Tu sabes que ns o matmos e os mdicos sabem que ele teve morte natural. Explica isto: eu no sei. - Sentou-se na cama e varreu com a mo as migalhas deixadas 
por Dallow. - Estamos mais seguros sem o Spicer.
- Talvez tenhas razo, Pinkie. Mas que foi que levou Colleoni...
- Ficou com medo, creio eu, de que ns cortssemos Tate no campo. Quero que chamem Mister Prewitt. Preciso de que ele me arranje uma coisa.  o nico advogado em 
quem podemos confiar, por aqui... Se  que podemos confiar nele.
- Que foi que houve, Pinkie?  coisa sria?
O Rapaz recostou a cabea na cabeceira da cama de lato.
- Talvez tenha mesmo de casar.
Cubitt estoirou subitamente numa gargalhada, a grande boca escancarada a mostrar os dentes cariados. Atrs dele o estore da janela estava meio descido, tapando o 
cu nocturno e deixando ver as chamins escuras e flicas a fumegar palidamente

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ao luar. O Rapaz ficou silencioso, observando Cubitt e ouvindo-lhe o riso como se fosse o desprezo do mundo. Quando Cubitt parou de rir, ele disse:
- Anda, vai telefonar a Mister Prewitt. Diz-lhe que venha c. - Tinha os olhos, fitos nas costas do outro, contemplando a borla do cordo do estore que batia docemente 
na vidraa, as chamins e o comeo da noite de Vero.
- Ele no vem aqui.
- Tem de vir. Eu  que no posso sair assim - apalpou os golpes do pescoo. - Preciso de arranjar as coisas.
- Seu malandro... - disse Cubitt. - Tu s novo para a brincadeira. - A brincadeira: o pensamento do Rapaz voltou com curiosidade e averso ao rostozinho vulgar e 
acessvel, s garrafas em que batiam os raios de luar,  palavra "arder", "arder", tantas vezes repetida. Que queriam dizer com a "brincadeira"? Ele conhecia tudo 
em teoria, nada na prtica; s tinha experincia das volpias alheias, daqueles desconhecidos que deixavam os seus desejos registados nas paredes dos urinis pblicos. 
Conhecia os movimentos, mas nunca fizera a brincadeira. "Talvez no seja preciso chegar a tanto", pensou. - Mas manda chamar Mister Prewitt. Ele  que sabe.
Mr. Prewitt sabia. Tinha-se a certeza disso, mal se olhava para ele. No era estranho a nenhuma chicana, subterfgio, clusula contraditria, palavra ambgua. A 
sua cara amarela e escanhoada de cinquento tinha rugas profundas que se diriam as marcas deixadas por decises judiciais. Trazia uma pasta de couro castanho e usava 
calas listradas que pareciam demasiado novas em confronto com o resto da sua pessoa. Entrou no quarto com um ar de falsa jovialidade, modos insinuantes de advogado 
que interroga uma testemunha; tinha sapatos grandes e polidos, que reflectiam a luz. Tudo nele, desde o seu fraque at a sua vivacidade, era novinho em folha, excepto 
ele prprio, que tinha envelhecido nos tribunais com muitas vitrias mais nocivas que derrotas. Adquirira o hbito de no escutar nada: inmeras repreenses dos 
juzes tinham-lhe ensinado isso. Tinha modos splices e discretos, simpatizantes; e era tenaz como ningum.
O Rapaz, que continuava sentado na cama, cumprimentou-o sem se levantar:

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- Boa noite, Mister Prewitt - e Mr. Prewitt sorriu com simpatia, deps a pasta no cho e sentou-se na cadeira ao lado do toucador.
- Est uma noite maravilhosa. Ai, ai, ai, voc esteve numa batalha. - A expresso de simpatia no lhe assentava bem; tinha-se a impresso de que era possvel despeg-la 
dos seus olhos como uma etiqueta colada pelo leiloeiro num antigo instrumento de slex.
- No  sobre isso que lhe quero falar - disse o Rapaz. - No se assuste. S desejo uma informao.
- No h complicaes, espero...
- So as complicaes que eu quero evitar. Se eu pretendesse casar, que seria preciso fazer?
- Esperar alguns anos - respondeu prontamente Mr. Prewitt, como quem declara um trunfo numa partida de bridge.
- No; na semana que vem.
- A dificuldade - observou Mr. Prewitt em tom pensativo -  que voc  menor.
- Foi por isso mesmo que o chamei.
- Tem havido casos de pessoas que do uma idade falsa. No estou a sugerir isso, note bem. Que idade tem a pequena?
- Dezasseis.
- Tem a certeza? Porque, se ela no tem dezasseis, o casamento no seria legal, nem que fosse casada na Catedral de Canturia pelo prprio arcebispo.
- Quanto a isso, no h dvida - disse o Rapaz. - Mas se ns dermos uma idade falsa, ficamos casados de verdade?... legalmente?...
- To casados quanto possvel.
- A Polcia no poderia obrigar a pequena...?
- A depor contra voc? S com o consentimento dela. Est claro que seria uma infraco  lei. Podiam met-lo a voc, na cadeia. Alm disso... h outras dificuldades. 
- Mr. Prewitt recostou-se no toucador, com o cabelo grisalho e correctamente penteado a roar no jarro, e considerou o Rapaz.
- O senhor sabe que eu pago - disse este.
- Antes de mais,  preciso lembrar-se de que isso leva algum tempo.
-  preciso que no demore muito.
- Quer casar pela Igreja?

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- Claro que no. Este casamento no vai ser um casamento de verdade.
- Como no?!
- No  como quando o padre declara a gente casada.
- Os seus sentimentos religiosos ficam-lhe muito bem - disse Mr. Prewitt. - Ento, segundo depreendo, ser um casamento civil. Podia-se arranjar uma licena... quinze 
dias de residncia... voc est habilitado para isso... e um dia para os preges. Se fosse s isso, voc poderia casar depois de amanh... no seu bairro. Mas agora 
surge outra dificuldade. Um casamento de menor no  fcil.
- V dizendo. Eu pago.
- No basta dizer que tm vinte e um anos. Ningum acreditaria nisso. Mas, se voc dissesse que tem dezoito, poderia casar, desde que seus pais ou tutor dessem consentimento. 
Seus pais esto vivos?
- No.
- Quem  o seu tutor?
- No entendo o que quer dizer. 
Mr. Prewitt disse, pensativamente:
- Podamos arranjar um tutor.  bastante arriscado - Seria prefervel dizer que voc perdeu o contacto com ele. Foi para a frica do Sul e abandonou-o. Podamos 
tirar da razes muito plausveis - acrescentou Mr. Prewitt com suavidade. - Atirado ao mundo em tenra idade, voc abriu caminho corajosamente... - Os seus olhos 
corriam de uma maaneta da cama para a outra. - Pediramos ao funcionrio que fosse discreto.
- No imaginava que fosse to difcil - disse o Rapaz.
- Talvez eu possa arranjar isso de outro modo.
- Havendo tempo, tudo se pode arranjar - Mr. Prewitt mostrou, num sorriso paternal, os dentes incrustados de trtaro. - D as suas ordens, e eu fao esse casamento. 
Pode confiar em mim. - Levantou-se; as suas calas listradas eram como as de um convidado num casamento, alugadas no Moss para a ocasio; quando atravessou o quarto, 
sorrindo com os dentes amarelos, dir-se-ia que se dispunha a beijar a noiva.
- Se fizer o favor de me dar agora um guinu pela consulta... Tenho uma ou duas compras a fazer... para a esposa..
- O senhor  casado? - perguntou o Rapaz com sbita vivacidade. Nunca lhe ocorrera que Prewitt... Contemplou

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aquele sorriso, aqueles dentes amarelos, aquela cara enrugada e gasta, como se possivelmente pudesse aprender ali...
- No ano que vem festejo as minhas bodas de prata - disse Mr. Prewitt.
Vinte e cinco anos na brincadeira. Cubitt mostrou a cabea  porta e disse:
- Vou dar uma volta. - E arreganhando os dentes:
- Como vai o casamento?
- Progredindo - respondeu Mr. Prewitt -, progredindo.
- Deu uma palmadinha na sua pasta, como se o fizesse no rosto gorducho de um beb prometedor. - Ainda veremos o nosso jovem amigo amarrado.
"S at que passe a tormenta", pensou o Rapaz, reclinando-se no travesseiro encardido, descansando um sapato no edredo cor de malva. No seria um casamento de verdade, 
apenas um expediente para tapar-lhe a boca durante algum tempo...
- At logo - disse Cubitt, soltando uma risadinha abafada ao p da cama. Rosa, o rostinho plebeu e dedicado, o gosto adocicado da pele humana, a emoo no quartinho 
escuro junto ao lote de garrafas de borgonha; estendido na cama quis ainda protestar: "J, no" e "com essa, no". Se aquilo tinha de acontecer um dia, se ele tinha 
de acompanhar os outros naquela brincadeira bestial, que fosse para quando estivesse velho, sem mais nada a ganhar e com algum que os outros homens pudessem invejar-lhe. 
No com uma criatura ainda verde, simples e to ignorante como ele prprio.
- Basta que d as suas ordens - disse Mr. Prewitt. - Arranjaremos isso. - Cubitt havia sado.
O Rapaz disse:
- A, no toucador, est uma libra.
- No vejo nada - respondeu ansiosamente Mr. Prewitt, mudando a posio de uma escova de dentes.
- Na saboneteira... debaixo da tampa. Dallow mostrou a cabea  porta.
- Boa noite - disse a Mr. Prewitt. E ao Rapaz: - Que houve com Spicer?
- Foi o Colleoni. Deram cabo dele no campo. Quase deram cabo de mim tambm - e Pinkie levou a mo envolta na ligadura ao golpe do pescoo.

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- Mas Spicer est no quarto dele! Ouvi l barulho, ainda agora.
- Ouviste? - exclamou o Rapaz. -  imaginao tua. - Sentiu medo pela segunda vez naquele dia. Uma lmpada mortia alumiava o corredor e a escada; as paredes eram 
irregularmente pintadas de cor de nogueira. Ele sentiu contrair-se-lhe a pele do rosto como se algo de repulsivo o tivesse tocado. Queria perguntar se era possvel 
sentir esse Spicer de outro modo que no fosse pelo ouvido, se ele era perceptvel tambm  vista e ao tacto. Levanitou-se. Cumpria fazer frente quilo, fosse l 
o que fosse. Passou diante de Dallow, sem dizer palavra. A porta do quarto de Spcer balouava-se numa corrente de ar. No podia ver l para dentro. Era um quarto 
pequenino: todos eles tinham recebido quartos pequeninos, excepto Kite, cujo quarto ele herdara. Era por esse motivo que servia de sala de reunio para todos. No 
de Spicer s havia lugar para ele... e Spicer. Distinguiu pequenos rangidos de couro atrs da porta que balouava. As palavras dona nobis pacem vieram-lhe novamente 
ao esprito. Pela segunda vez, sentiu uma leve nostalgia como de alguma coisa que tivesse perdido ou enjeitado.
Desceu pelo corredor e entrou no quarto de Spicer. A sua primeira sensao, ao v-lo curvado a apertar as correias da sua mala, foi de alvio: era, indubitavelmente, 
o Spicer vivo a quem se podia tocar, meter medo e dar ordens. Uma longa tira de adesivo tapava a face do outro: o Rapaz contemplou-a da porta com um sentimento nascente 
de crueldade. Teve vontade de aproximar-se para arrancar o emplastro e ver a ferida abrir-se. Spicer alou os olhos, largou a mala no cho e recuou inquieto para 
a parede.
- Pensei... receei...'. que os homens de Colleoni tivessem dado cabo de ti - disse. O seu temor traa-o. O Rapaz no respondeu nada, observando-o da porta. Como 
se pedisse desculpa de estar vivo, Spicer explicou: - Consegui escapar... - As suas palavras murcharam como uma linha de algas, na borda do silncio, da indiferena 
e da resoluo do Rapaz.
Da outra extremidade do corredor veio a voz de Mr. Prewitt:
- Na saboneteira. Ele disse que estava na saboneteira - e um som de loia ruidosamente remexida.

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- No darei descanso a essa pequena enquanto no conseguir alguma coisa.
Ida levantou-se pesadamente e atravessou o restaurante, como um navio de guerra que vai entrar em aco, um navio de guerra a combater do lado da justia numa luta 
para acabar com todas as guerras, as bandeiras de sinalizao a proclamar que todos cumpriro o seu dever. Os seus grandes seios, que nunca tinham amamentado um 
filho, sentiam uma compaixo inexorvel. Rosa fugiu ao avist-la, mas Ida avanou implacvelmente para a porta de servio. Tudo, agora, estava em marcha: ela havia 
comeado a fazer as perguntas que desejava fazer quando lera no Hennekey a notcia sobre o inqurito, e estava a obter as respostas. Fred tambm ifizera o seu papel, 
indicando o cavalo vitorioso, de modo que ela agora possua no s amigos mas tambm fundos: duzentas libras, uma infinita capacidade de corrupo.
- Boa noite, Rosa - disse, estacando  porta da cozinha, bloqueando-a. Rosa pousou a bandeja e virou-se para ela com todo o temor, a obstinao e a incompreenso 
de um animal bravio que no quer reconhecer a bondade.
- A senhora de novo! Estou ocupada. No posso falar consigo.
- Mas a gerente deu-me licena, minha querida...
- No podemos conversar aqui.
- Onde podemos conversar, ento?
- No meu quarto, se me deixar passar.
Rosa subiu diante dela a escada que, nas traseiras do restaurante, conduzia a um pequeno patamar revestido de oleado.
- So bem tratadas aqui, hem? - disse Ida. - Eu tambm j morei num caf. Foi antes de conhecer o Tom ... Tom  o meu marido - explicou paciente, gentil e implacvelmente 
para as costas de Rosa. - No se estava to bem como aqui. Flores no patamar! - exclamou com prazer, diante do ramalhete murcho sobre uma mesa de pinho. E comeou 
a arrancar algumas ptalas, quando uma porta bateu.
Rosa fechara-se no quarto e, quando ela deu uma pancadinha leve na porta, ouviu um sussurro obstinado:

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- V-se embora. No quero falar consigo.
- O assunto  srio. Muito srio. - Um pouco da cerveja que Ida bebera subiu-lhe  garganta; levou a mo  boca e disse maquinalmente: "Perdo", arrotando para a 
porta fechada.
- No posso ajud-la. No sei nada.
- Deixe-me entrar, minha querida, e eu lhe explicarei. No posso pr-me aos gritos no patamar.
- Por que havia de se interessar por mim? - No quero que os inocentes sofram.
- Como se a senhora soubesse quem  inocente! - acusou-a l de dentro a voz suave.
- Abra a porta, minha flor. - Comeava a perder a pacincia, mas apenas um pouco: a sua pacincia era quase to grande como a sua boa vontade. Experimentou o puxador 
e empurrou: sabia que as criadas no podiam ter chaves. Mas uma cadeira tinha sido entalada debaixo do puxador. - No me escapar assim - disse ela, irritada.
Aplicou o seu peso contra a porta; a cadeira estalou, deslocou-se, e uma frincha da porta abriu-se.
- Tem de me ouvir - insistiu Ida.
Quando se trata de salvar uma pessoa que est para se afogar, dizem os entendidos que no se deve hesitar em atordoar a vtima. Enfiou a mo na frincha, afastou 
a cadeira, abriu a porta e entrou. Trs camas de ferro, uma cmoda, duas cadeiras e um par de espelhos baratos: viu tudo num relance, inclusive Rosa colada  parede, 
no canto mais afastado, observando a porta, aterrada, com os seus olhos simultaneamente inocentes e cheios de experincia, como se no houvesse nada que no pudesse 
acontecer.
- Vamos, no se faa tola. Eu sou sua amiga. S quero salv-la daquele rapaz. Est apaixonada por ele, no  verdade? Mas voc no compreende... ele  mau. - Sentou-se 
na cama e prosseguiu com implacvel brandura.
Rosa murmurou:
- A senhora no sabe nada.
- Tenho provas.
- No me refiro a isso - replicou a rapariga.
- Ele no gosta de si. Oua-me: eu sou humana. Pode crer que gostei de um rapaz ou dois no meu tempo. Que tem isso?  natural.  to natural como respirar. Mas no 
se

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deve perder a cabea. No h nenhum que merea isso, e ele muito menos.  ruim traste. No sou nenhuma puritana, repare. Cometi os mesmos pecadilhos em rapariga... 
 natural. Olhe - acrescentou, estendendo para a rapariga a palma ndia e protectora -, est escrito na minha mo: o cinto-de-vnus. Mas sempre fui pelo direito. 
Voc  nova. Ainda ter quantos rapazes quiser. Pode divertir-se  farta... se no deixar que eles lhe ponham a mo no cachao.  to natural como respirar. No 
v ficar com a ideia de que eu sou contra o Amor. Pelo contrrio. Eu, Ida Arnold! D vontade de rir. - A cerveja subiu-lhe de novo  garganta e ela levou a mo  
boca. - Perdo. Como v, damo-nos perfeitamente quando estamos juntas. Nunca tive um filho e afeioei-me a si. Voc  um amor de rapariga. - Subitamente, bradou: 
- Saia-me dessa parede e proceda como uma pessoa sensata! Ele no gosta de si.
- Que me importa! - murmurou obstinadamente a voz da criana.
- Que quer dizer com isso?
- Eu gosto dele.
- A sua atitude  mrbida. Se eu fosse sua me, dava-lhe uma boa sova. Que diriam os seus pais se soubessem?
- No se importavam.
- E como pensa voc que isto vai terminar?
- No sei.
- Voc  muito nova. Romntica,  o que  - acentuou Ida. - Eu tambm j fui assim. Isso passa com o tempo. S precisa de um pouco de experincia. - Os olhos de 
Nelson Place fitavam-na sem compreender: enxotado para a sua toca, o animalzinho espreitava c fora o mundo alegre e luminoso; dentro da toca havia o assassnio, 
a unio dos sexos, a pobreza extrema, a fidelidade e o amor e temor de Deus; mas o animalzinho no tinha bastante conhecimento para negar que s no mundo ensoalhado 
e franco, l fora, existia aquilo que os outros chamavam experincia.

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O Rapaz olhava do alto da escada o corpo estendido no cho, l em baixo, como o de Prometeu.
- Deus do Cu - disse Mr. Prewitt. - Como aconteceu isto?
- H muito que esta escada estava a precisar de conserto - respondeu o Rapaz. - Falei nisso a Frank, mas no h nada que decida esse safado a gastar dinheiro. - 
Ps a mo ligada no corrimo e empurrou-o at que ele cedeu. A madeira podre caiu de travs sobre o corpo de Spicer, guia estendida, tingida de nogueira e reclinada 
sobre os rins.
- Mas isso aconteceu depois de ele ter cado! - protestou Mr. Prewitt, cuja voz forense tremia.
- O senhor enganou-se - disse o Rapaz. - Estava aqui no corredor e viu-o apoiar a mala no corrimo. No devia ter feito isso. A mala era muito pesada.
- Santo Deus, voc no me pode envolver numa coisa dessas! Eu no vi nada. Estava com Dallow no quarto, a mexer na saboneteira.
- Os dois viram - teimou o Rapaz. -  uma ptima coisa termos aqui um advogado respeitvel como o senhor. A sua palavra resolver tudo.
- Eu negarei! - disse Mr. Prewitt. - Vou-me embora. Jurarei que nunca estive aqui.
- Fique onde est. No queremos outro acidente em casa. Dallow, vai telefonar  Polcia... Chama um mdico tambm:  mais decente...
- Voc pode prender-me aqui - protestou Mr. Prewitt -, mas no me pode obrigar a dizer...
- S quero que o senhor diga o que quiser dizer. Mas no seria bom - no  verdade? - que eu fosse preso pela morte de Spicer e o senhor se encontrasse aqui... a 
rebuscar na saboneteira, hem? Seria o suficiente para arruinar a vida de certos advogados.
Mr. Prewitt olhou para o corpo estendido ao fundo da escada.
- Tratem de erguer esse cadver e colocar a madeira debaixo dele. A Polcia nunca mais acabaria de fazer perguntas,

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se o encontrasse desse modo. - Voltou para o quarto e sentou-se na cama, apoiando a cabea nas mos. - Di-me a cabea - disse. - Devia estar em casa. - Ningum 
lhe prestou ateno. A porta do quarto de Spicer balouava-se com rudo na corrente de ar. - Tenho uma dor de cabea de rachar - repetiu Mr. Prewitt.
Dallow veio a arrastar a mala pelo corredor: o cordo do pijama de Spicer saa dela como um fio de pasta dentfrica.
- Aonde  que ele ia? - perguntou Dallow.
- Para a ncora Azul, na Union Street, em Nottingham - disse o Rapaz. -  melhor telegrafar para l. Talvez queiram mandar flores.
- Tenham cuidado com as impresses digitais - implorou Mr. Prewitt do lavatrio, sem erguer a cabea dorida; mas os passos do Rapaz na escada fizeram com que ele 
a levantasse.
- Aonde  que voc vai? - perguntou vivamente.
O Rapaz olhou-o da volta da escada.
- Vou sair - respondeu.
- Voc no pode sair agora!
- Eu no estava aqui. S o senhor e Dallow estavam  minha espera.
- Voc vai ser visto.
- O risco  seu. Eu tenho que fazer...
- No me diga - gritou Mr. Prewitt precipitadamente, mas dominou-se: - No me diga - repetiu em voz baixa - que coisas...
- Temos de combinar esse casamento - retorquiu o Rapaz em tom sombrio.
Considerou Mr. Prewitt um instante (a esposa, vinte e cinco anos de brincadeira), como quem queria fazer uma pergunta, quase como se estivesse disposto a pedir conselhos 
a um homem muito mais velho que ele, como se esperasse encontrar um pouco de sabedoria humana naquele velho e tenebroso crebro jurdico.
-  bom que seja o mais cedo possvel - prosseguiu o
Rapaz em voz branda e triste.
Observou ainda por alguns momentos o rosto de Mr. Prewitt, procurando algum reflexo da sabedoria que a brincadeira lhe devia ter incutido em vinte e cinco anos; 
no via, porm, seno uma cara assustada, entaipada como uma casa de

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comrcio durante um motim de rua. Desceu a escada para o poo escuro em que tinha cado o corpo de Spicer. J tomara a sua deciso: bastava-lhe ir direito ao fim. 
Sentia o seu sangue, impulsionado pelo corao, a dar indiferentemente a volta pelas artrias, como o comboio da linha circular interna. Cada estao era mais uma 
etapa a aproxim-lo da segurana, depois vinha a seguinte que o afastava desta, at que se dava a volta e a segurana tornava a aproximar-se como Notting Hill, para 
recuar novamente. A prostituta quarentona, na praia de Hove, nem se deu ao trabalho de olh-lo quando ele a alcanou, vindo de trs: como comboios elctricos a correr 
na mesma linha, no houve coliso. Ambos tinham o mesmo fim em vista, se  que se pode falar em fim em relao com esse crculo. Diante do bar de Norfolk, dois pequenos 
carros escarlates de corrida estacionavam junto ao passeio, um ao lado do outro, como duas camas dum casal. A conscincia do Rapaz no se apercebeu deles, mas a 
sua imagem penetrou-lhe automaticamente no crebro, provocando a secreo da inveja.
O restaurante de Snow estava quase vazio. Ele sentou-se  mesa onde Spicer se havia sentado um dia, mas no foi Rosa quem o serviu. Uma rapariga desconhecida veio 
atend-lo.
- A Rosa no est? - perguntou ele desajeitadamente.
- Est ocupada.
- No podia falar com ela?
- Est a conversar com algum, l no quarto. O senhor no pode ir l. Tem de esperar.
O Rapaz ps uma moeda de dois xelins e meio em cima da mesa.
- Onde ?
A rapariga hesitou:
- A gerente vai fazer escarcu.
- Onde est a gerente?
- Saiu.
O Rapaz ps outra meia coroa em cima da mesa.
- Pela porta de servio - indicou a criada -, depois suba direito pela escada. Mas est uma mulher com ela...
Ele ouviu a voz da mulher antes de alcanar o alto da escada. Dizia ela:
"Eu s lhe quero falar para o seu bem."

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Mas Pinkie teve de apurar o ouvido para apanhar a resposta de Rosa.
- Deixe-me em paz! Por que no me deixa em paz?
- Isto  do interesse de toda a pessoa que pense com acerto.
O Rapaz tinha chegado ao alto da escada e via agora o interior do quarto, se bem que as amplas costas, o grande vestido solto e as ancas quadradas da mulher quase 
lhe tapassem a viso de Rosa, colada  parede numa atitude de teimoso desafio. Pequena e ossuda no seu vestido de algodo preto com o avental branco, os olhos vermelhos 
mas sem lgrimas, alarmada e decidida, mantinha a sua coragem com uma espcie de disparidade cmica, como o homenzinho do chapu de coco que a gerncia manda enfrentar 
o brutamontes, numa feira.
-  melhor que me deixe em paz - rogou ela.
Era Nelson Place e Manor Street que estavam ali no quarto das criadas e, por um momento, ele no sentiu antagonismo, mas sim uma leve nostalgia. Sentiu que ela fazia 
parte da sua vida, como um quarto ou uma cadeira: era qualquer coisa que o contemplava. "Tem mais genica que Spicer", pensou. O que havia nele de pior necessitava 
de Rosa: no podia dispensar a bondade.
- Por que est a aborrecer a minha pequena? - perguntou em voz branda.
E esta reivindicao soou estranhamente suave aos seus prprios ouvidos, como um refinamento de crueldade. Afinal de contas, embora tivesse aspirado a coisa melhor, 
tinha este consolo: Rosa no poderia descer mais baixo que ele. Enfrentou a mulher com um sorriso afectado nos lbios quando ela se voltou. "Entre o estribo e o 
cho": conhecia j a falsidade desse consolo. Se tivesse conquistado alguma criatura alegre e descarada como as que tinha visto no Cosmopolitan, o seu triunfo no 
seria to grande afinal de contas. Sorriu com afectao para as duas; a nostalgia fora enxotada por uma onda de sensualidade triste. Descobrira que ela era boa e 
ele estava condenado: eram feitos um para o outro.
- Deixe essa menina em paz - bradou a mulher. - Eu sei quem voc . - Era como se estivesse em pas estranho: a tpica inglesa no estrangeiro. No tinha sequer um 
guia de conversao.

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Estava to distante de ambos quanto estava do Inferno... ou do Cu. O bem e o mal viviam juntos na mesma terra, falavam a mesma lngua, reuniam-se como velhos amigos, 
sentindo-se completados um pelo outro, apertando-se as mos ao p-da cama de ferro. - Quer fazer o que  justo, no  verdade, Rosa? - implorou.
Rosa tornou a murmurar:
- Deixe-nos em paz.
- Voc  uma boa rapariga, Rosa. No queira nada com ele.
- A senhora no sabe coisa alguma.
De momento, ela nada mais podia fazer seno amea-los da porta.
- Isto no fica assim. Eu tenho amigos. 
O rapaz viu-a retirar-se, cheio de assombro. - Que diabo de mulher  essa? 
- No sei - disse Rosa. - Nunca a tinha visto. - Uma lembrana acenou-lhe e passou: havia de voltar.
- Que queria ela?
- No sei.
- Tu s boa rapariga. Rosa - disse ele, apertando-lhe o pulso ossudo entre os dedos.
Ela abanou a cabea:
- Sou m. - E implorou-lhe: - Eu quero ser m, se ela  boa e tu...
- Nunca deixars de ser boa. Alguns poderiam no gostar de ti por causa disso, mas eu no me importo.
- Farei tudo por ti. Diz-me o que devo fazer. No quero ser como essa mulher.
- No  o que a gente faz,  o que a gente pensa - disse o Rapaz. E, fanfarronando: - Est na massa do sangue. Talvez, quando me baptizaram, a gua benta no tenha 
pegado. No berrei para afugentar o diabo.
- Ela  boa? - perguntou Rosa, desamparada, a pedir instruo.
- Ela? - Pinkie riu. - Ela, simplesmente, no  coisa nenhuma.
- No podemos ficar aqui. Quem me dera que pudssemos! - Rosa olhou em volta de si para a gravura manchada que representava a vitria de Van Tromp, as trs camas 
pintadas de

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preto, os dois espelhos, a cmoda, os plidos festes de flores cor de malva no papel da parede, como se ali gozasse de uma segurana que nunca lhe seria possvel 
ter l fora, na ventosa noite de Vero. -  um belo quarto. - Desejava partilh-lo com ele at que se tornasse um lar para os dois. - No gostarias de deixar esta 
casa?
- O Snow? Oh!, no,  uma casa muito boa. Eu no gostaria de trabalhar noutra parte.
- Quero dizer, para casar comigo. 
- Ainda no temos idade.
- Isso pode-se arranjar. H certos meios. - Soltou-lhe o pulso e assumiu um ar de indiferena. - Se tu quisesses. Por mim...
- Oh! - exclamou ela. - Quero, sim, mas no nos deixam. 
Ele explicou com desembarao:
- No poderia ser na igreja, pelo menos no comeo. H certas dificuldades. Tens medo?
- Eu no. Mas achas que eles consentem? 
- O meu advogado pode conseguir isso. 
- Tu tens advogado?
- Claro que sim.
- Pareces to importante, ao dizer isso... Como um homem de idade...
- Um homem no pode passar sem advogado nesta vida.
Ela disse:
- No era num lugar assim que eu sempre pensei que isto acontecesse.
- Acontecesse o qu?
- Ser pedida em casamento. Pensei que seria num cinema, ou, talvez, uma noite, na praia. Mas aqui  melhor - disse, volvendo os olhos da vitria de Van Tromp para 
os dois espelhos.
Afastou-se da parede e ergueu o rosto para ele. O Rapaz sabia o que lhe cumpria fazer; considerou-lhe, com uma ligeira sensao de nusea, a boca sem pintura. Noite 
de sbado s onze horas, o exerccio primitivo. Apertou contra os lbios dela os seus lbios duros e puritanos e sentiu de novo o gosto adocicado da pele humana. 
Teria preferido um gosto de p-de-arroz de Coty, de bton  prova de beijo ou de qualquer outro composto qumico. Cerrou os olhos e, quando tornou

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a abri-los, viu-a esperando, como uma cega, por uma nova esmola. Ficou chocado ao notar que ela no se apercebera da sua repulsa.
- Sabes o que isto significa? - perguntou Rosa. 
- Isto o qu?
- Significa que eu nunca te trairei, nunca, nunca, nunca! Pertencia-lhe como um quarto ou uma cadeira: contrafeito, com um vago sentimento de vergonha, o Rapaz esboou 
um sorriso para aquele rosto cego e desnorteado.

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QUINTA PARTE

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Tudo correu bem. O inqurito nem sequer apareceu nos placards dos jornais; ningum fez perguntas. O Rapaz voltou a p com Dallow: o seu sentimento devia ser de triunfo.
- Eu no teria confiana em Cubitt, se ele soubesse - disse a Dallow.
- Cubitt no saber de nada. Prewitt tem medo de falar... e tu sabes que eu no dou  lngua, Pinkie.
- Tenho a impresso de que estamos a ser seguidos, Dallow. 
O outro virou-se. 
- Ningum. Conheo todos os xuis de Brighton.
- Nenhuma mulher?
- No. Em que ests a pensar?
- No sei.
A charanga de cegos avanava pela beira da rua, roando as bordas dos sapatos no passeio a tactear o caminho no dia claro, suando um pouco. O Rapaz vinha pela beira 
da rua em sentido contrrio. A msica que tocavam era plangente e lamentosa, qualquer coisa que falava de aflies, tirada de um livro de hinos: era como uma voz 
a profetizar desgraa no momento da vitria. O Rapaz esbarrou no chefe da banda e afastou-o do caminho com um empurro, dirigindo-lhe uma imprecao em voz baixa; 
todos os demais, ouvindo o movimento do seu chefe, estenderam, inquietos, um p na direco do meio da rua e ficaram ali imobilizados at que o Rapaz passou, como 
barcos surpreendidos pela calmaria no meio de um atlntico imenso e sem terras. Voltaram ento aos seus lugares, procurando com o p a beira do passeio.
- Que bicho te mordeu, Pinkie? - perguntou Dallow. - Eles so cegos.
- Por que havia eu de me desviar do meu caminho para deixar passar um mendigo?
Mas no tinha percebido que eram cegos e sentiu-se chocado pelo seu prprio acto. Dir-se-ia que estava a ser arrastado

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longe de mais num caminho que s queria percorrer at certa distncia. Deteve-se e encostou-se no parapeito do passeio, enquanto passava a multido de dia de semana 
e o Sol severo descia no horizonte.
- Que andas tu a remoer, Pinkie?
- Estou a pensar em todas essas chatices por causa de Hale. Ele merecia o que lhe fizemos, mas, se eu soubesse o que vinha da, talvez o tivesse deixado viver. Talvez 
no valesse a pena mat-lo. Um jornalista de borra que andava metido com Colleoni e foi a causa de terem matado Kite... Por que ho-de preocupar-se com a morte dele? 
- Lanou repentinamente um olhar por cima do ombro. - Onde vi j esse tipo?
-  um forasteiro, nada mais.
- Pareceu-me que conhecia aquela gravata.
- H centenas delas nas lojas. Se tu bebesses, eu dizia que ests a precisar de uma pinga. Pois, se tudo vai s maravilhas, Pinkie! Ningum faz perguntas.
- S havia duas pessoas que nos podiam levar  forca: Spicer e a garota. Matei o Spicer e vou casar com a garota. Parece-me que estou a fazer tudo.
- Pois bem, agora estamos garantidos.
- Sim, vocs estaro garantidos. Sou eu que corro todos os riscos. Tu sabes que eu matei o Spicer. Prewitt tambm sabe. S falta Cubitt descobrir e eu terei de fazer 
um massacre para me livrar desta vez.
- No devias falar assim, Pinkie. Andas cheio de azedume desde que Kite morreu. Do que tu precisas  de divertir-te um pouco.
- Eu gostava de Kite - disse o Rapaz.
Alongou o olhar na direco da Frana, terra desconhecida. Atrs de si, alm do Cosmopolitan, do Old Steyne e da estrada de Lewes, estendiam-se os Downs, aldeias 
e gado em torno dos lagozinhos artificiais, outra terra desconhecida. Este era o seu territrio, a praia populosa, mil ou dois mil hectares de casas, uma estreita 
pennsula de linha frrea electrificada at Londres, duas ou trs estaes com os seus bufetes e os seus bolinhos. Aquele fora o territrio de Kite, que se dava 
por satisfeito com ele e, quando Kite morrera, na sala de espera em St. Pancras, fora como se um pai tivesse morrido, deixando-lhe um patrimnio que ele tinha o 
dever de no abandonar

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nunca por terras estranhas. Herdara dele at os maneirismos, o hbito de roer a unha do polegar, as bebidas sem lcool. O Sol deslizou para dentro do mar e, como 
uma siba, lanou para o cu um jacto de agonias e tormentos.
- Pensa noutra coisa, Pinkie. Sossega, procura distrair-te. Vem comigo e com Cubitt  Dama de Copas, para festejarmos.
- Sabes que eu no toco em lcool.
- Ters de beber no dia do teu casamento. Onde j se ouviu falar num casamento a seco?
Um velho andava muito devagar pela praia, curvado, virando as pedras, procurando pontas de cigarros e restos de alimento no meio das algas secas. As gaivotas, que 
se mantinham imveis como velas na areia, levantaram voo, aos gritos, sob o passeio. O velho encontrou uma bota e meteu-a no seu saco; uma gaivota largou do passeio 
e atravessou por baixo da nave de ferro do Molhe do Palcio, branca e resoluta na obscuridade: meio abutre e meio pomba. No final sempre se tem de aprender.
- Est bem, eu vou - disse o Rapaz.
-  a melhor estalagem para c de Londres - tornou Dallow, animando-o.
Dirigiram-se para o campo, no velho Morris.
- Gosto de uma farra no campo - disse Dallow.
Era entre a hora a que se acendem as luzes e a verdadeira escurido, quando os faris dos automveis ardem na visibilidade cinzenta, to plidos e inteis como uma 
lamparina num quarto de crianas. Os anncios sucediam-se ao longo da estrada: bungalows, uma granja falida, relva mirrada e barrenta no lugar em que um andaime 
tinha sido deitado abaixo, um moinho de vento a oferecer ch e limonada, com as velas arruinadas e cheias de brechas.
- O pobre Spicer  que havia de gostar deste passeio - disse Cubitt.
O Rapaz ia ao lado de Dallow, que guiava, e Cubitt sentado no banco de trs. Pinkie via-o pelo espelho, a pular suavemente sobre as molas defeituosas.
A Dama de Copas estava toda iluminada por trs das bombas de gasolina: um celeiro do tempo dos Tudors transformado, com um vestgio de quintal rstico no arranjo 
do

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restaurante e dos bares: uma piscina no lugar em que outrora existira a cerca dos cavalos.
- Devamos ter trazido umas pequenas connosco - disse Dallow. - No podemos arranj-las aqui.  uma casa muito fina.
- Vamos ao bar - lembrou Cubitt, tomando a dianteira. Deteve-se  entrada, cumprimentando com a cabea uma mulher que bebia sozinha diante do comprido balco de 
ao, sob as velhas vigas. -  melhor dizermos qualquer coisa, Pinkie. O costume... era um bom amigo, os nossos sentimentos...
- Que diabo ests tu para a a dizer?
- Aquela  a pequena do Spicer - explicou Cubitt.
O Rapaz deteve-se  porta, estudando-a com relutncia: cabelos cor de prata, fronte larga e vazia, ndegas pequenas e bem feitas, postas em relevo pelo tamborete 
alto, sozinha com o seu copo e sua mgoa.
- Como vo as coisas, Slvia? - perguntou Cubitt. 
- Mal.
- Horrvel, no  verdade? Era um bom camarada. Dos melhores.
- Voc estava l, no estava? - perguntou ela a Dallow. 
- Billy devia ter mandado consertar aquela escada - disse Dallow. - Quero apresentar-te Pinkie, Slvia, o melhor do nosso bando.
- O senhor tambm estava l?
- Ele no estava - disse Dallow.
- Outra bebida? - perguntou o Rapaz.
- Com prazer - Slvia esgotou o copo. - Um side-car.
- Dois whiskies, um side-car, um sumo de grape-fruit.
- Como - disse Slvia-, no bebe?
- No.
- Aposto que tambm no anda com mulheres.
- Que olho, Slvia! - disse Cubitt. - Acertaste  primeira.
- Admiro um homem assim. Acho maravilhoso ter essa fora de vontade. Spicer dizia sempre que o senhor havia de mudar, um dia... e ento... de que maneira! - Pousou 
o copo no balco, calculou mal e entornou o cocktail. - No estou bbeda - declarou. - Estou nervosa de pensar no pobre Spicer.

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- Anda, Pinkie, bebe uma pinga - aconselhou Dallow. - D-te uma alma nova. - E explicou a Slvia: - Ele est nervoso, tambm.
No salo de dana a orquestra tocava: "Ama-me esta noite e esquece  luz do dia a nossa exaltao..."
- Beba - disse Slvia. - Tive um desgosto horrvel. V-se que estive a chorar. Os meus olhos esto medonhos... Foi a muito custo que resolvi sair. Agora compreendo 
por que certas pessoas vo para o convento.
A msica afrouxava a resistncia do Rapaz: observava a pequena de Spicer com uma espcie de horror mesclado de curiosidade: ela conhecia a brincadeira. Sacudiu mudamente 
a cabea, no seu orgulho aterrado. Tinha conscincia das suas qualidades: era um ente superior; as suas ambies no tinham limites; nada devia exp-lo s zombarias 
de pessoas mais experientes. Ser comparado com Spicer e encontrado em falta... o seu olhar fugia de um lado para o outro, humilhado, e a msica chorava a sua nova 
- "esquece  luz do dia" - sobre a brincadeira que todos ali conheciam muito melhor do que ele.
- Spicer no acreditava que voc tivesse estado alguma vez com uma mulher - disse Slvia.
- H muita coisa que Spicer ignorava.
- Voc  muito novo para ser to famoso.
-  melhor cavarmos - segredou Cubitt a Dallow. - Parece que estamos a mais.. Vamos dar uma olhadela s sereias.
Os dois afastaram-se pesadamente.
- Dallie logo percebe quando eu gosto dum rapaz - disse Slvia.
- Quem  Dallie?
- O seu amigo Mister Dallow, tolinho. Voc dana?... Imaginem, nem sei qual  o seu primeiro nome! - Ele observava-a com um sentimento de luxria e terror: ela pertencera 
a Spicer; a sua voz tinha vibrado nos fios do telefone, marcando encontros; o morto recebera cartas em sobrescritos cor de malva, que lhe eram dirigidas; at Spicer 
tinha alguma coisa de que se orgulhar, alguma coisa para mostrar aos amigos: "a minha pequena". Lembrou-se de umas flores enviadas  casa de Frank, com um carto: 
"De um corao partido." A infelicidade da mulher fascinava-o. No pertencia a ningum, no era como um mesa ou uma cadeira. Disse devagar, passando-lhe

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o brao em volta para lhe tirar o copo da mo e apertando-lhe desajeitadamente o seio: - Vou-me casar dentro de um ou dois dias. - Era como se reclamasse a sua parte 
de infidelidade: no se deixaria derrotar pela experincia. Ergueu o copo dela e bebeu: a doura correu-lhe pela garganta abaixo, o seu primeiro gole de lcool feriu-lhe 
o paladar como um mau cheiro: era isso que os outros chamavam prazer - isso e a brincadeira. Pousou a mo na coxa de Slvia com uma espcie de horror. Rosa e ele, 
quarenta e oito horas depois de Prewitt ter arranjado as coisas, sozinhos sabe Deus em que quarto... e depois, e depois? Conhecia os gestos tradicionais como  possvel 
conhecer os princpios de balstica no quadro preto, mas, para passar desse conhecimento  aco,  aldeia destruda,  mulher desflorada, era preciso receber ajuda 
dos nervos. Os seus estavam gelados de repulsa: ser tocado, entregar-se, abandonar-se... tinha mantido a intimidade  distncia o mais que pudera, no fio de uma 
lmina de barbear.
- Vamos danar - convidou ele.
Circularam lentamente no salo de dana. Ser derrotado pela experincia j era bastante amargo, mas ser derrotado pela simplicidade e pela inocncia, por uma rapariga 
que transportava pratos no Snow, por uma cadelinha de dezasseis anos...
- Spicer era um grande admirador seu - disse Slvia.
- Vamos para os automveis - pediu ele.
- No  possvel. Spicer ainda morreu ontem... Pararam, bateram palmas e a msica recomeou a tocar.
Ouvia-se o rudo do misturador no bar e as folhas de uma rvore pequena comprimiam-se contra a vidraa, atrs do bombo e do saxofone.
- Gosto do campo. Torna-me romntica. Voc gosta?
- No.
- Isto aqui  campo a srio. H pouco vi uma galinha. Os ovos que eles usam nos gin slings so mesmo daqui.
- Vamos l para os automveis.
- Tambm me apetece. Que bom seria! Mas no posso, o pobre Spicie...
- Voc mandou flores, no mandou? Esteve a chorar...
- Os meus olhos esto medonhos.
- Que mais pode fazer?

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- Partiu-se-me o corao. O pobre Spicie desaparecer assim...
- Eu sei. Vi a sua coroa.
-  horrvel, no ? Eu aqui a danar consigo e o pobre
Spicie...
- Vamos para l.
- Pobre Spicie.
Mas foi na frente, e ele notou, perturbado, que ela atravessava a correr, literalmente a correr, o canto iluminado do antigo quintal da granja para o escuro parque 
de automveis e a brincadeira. "Dentro de trs minutos eu saberei", pensou, com uma sensao de nusea.
- Qual  o seu carro? - perguntou Slvia. 
- Aquele Morris.
- No nos serve. - Avanou rapidamente ao longo da fila de automveis. - Este Ford. - Abriu a porta, disse: - Ah! Perdo! - tornou a fech-la, subiu precipitadamente 
para o assento de trs do carro mais prximo e esperou-o. - Oh! Eu adoro os Lancias! - murmurou l de dentro a sua voz doce e apaixonada. Ele deteve-se  porta e 
a escurido que velava o rosto belo e vazio dissipou-se. Com a saia puxada para cima dos joelhos, ela esperava-o com voluptuosa docilidade.
Por um momento, o Rapaz teve conscincia da sua enorme ambio,  sombra do acto hediondo e vulgar: a suite do Cosmopolitan, o isqueiro de ouro, as poltronas com 
coroas bordadas para uma estrangeira que se chamava Eugenia. Hale desapareceu das vistas como uma pedra atirada por cima de um penhasco. Ele estava no comeo de 
uma longa galeria de parquet polido, entre bustos de grandes homens e sons de aplausos, Mr. Colleoni cumprimentava como um empregado de loja, recuando, com um exrcito 
de navalhas atrs de si: um conquistador. Um tropel de cascos na recta de chegada e um altifalante anunciando o nome do cavalo que ganhara: a msica tocava. Doa-lhe 
o peito sob o esforo de abarcar o mundo inteiro.
- Voc tem o que  preciso, no tem? - disse Slvia. 
Com medo e horror, ele pensou: "que  que eu fao agora?"
- Depressa - disse Slvia -, antes que nos encontrem aqui.

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O parquet enrolou-se como um tapete. O luar incidiu num anel Woolworth, num joelho rolio.
- Espere aqui. Vou-lhe mandar Cubitt - disse ele, com uma fria amarga e dolorosa; virou as costas ao Lancia e voltou para o bar. Uma risada vinda da piscina desviou-o 
da sua rota. Deteve-se  entrada, com o gosto de lcool na lngua, observando uma rapariga magra, com uma touca vermelha de borracha, que soltava pequenas risadinhas 
sob a iluminao resplandecente. O seu esprito dirigia-se para Slvia e voltava num vaivm inevitvel, como uma pequena locomotiva, accionada por electricidade. 
O medo e a curiosidade roam o soberbo futuro: sentiu uma nsia de vmito. "O casamento!", pensou. "No, com mil diabos; prefiro que me enforquem."
Um homem de calo de banho veio a correr pela prancha, saltou e deu uma cambalhota na luz brilhante e cor de prola, penetrou na gua escura. Os dois banhistas 
nadaram juntos, braada aps braada, para a parte baixa da piscina e deram a volta, lado a lado, deslizando suavemente e sem pressa, absortos no seu divertimento 
privado, felizes e  vontade.
O Rapaz observava-os, parado, e, quando comearam pela segunda vez a atravessar a piscina, ele viu na gua iluminada a sua prpria imagem tremer agitada por eles, 
os ombros estreitos e o peito cavado, e sentiu os seus sapatos castanhos e bicudos escorregar nos ladrilhos molhados e reluzentes.

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2

Cubitt e Dallow tagarelaram durante a viagem de regresso, um pouco brios; o Rapaz tinha os olhos fitos em frente, contemplando o ncleo luminoso da escurido. '!
- Riam  vontade - disse de repente, com fria.
- No te saste assim to mal - respondeu Cubitt.
- Riam  vontade. Vocs pensam que esto garantidos, mas eu estou farto de vocs todos. Estou a pensar em me pr a andar.
- Faz uma lua-de-mel bem comprida - disse Cubitt, arreganhando os dentes. E um mocho piou com fome, a voejar baixo sobre um posto de gasolina, atravessando a luz 
dos faris com um bater das asas peludas e predatrias.
- No me vou casar - disse o Rapaz.
- Conheci um sujeito - lembrou Cubitt - que teve tanto medo que se matou. Tiveram de devolver os presentes de casamento.
- No me vou casar.
- Isso acontece a muita gente.
- No h nada que me faa casar.
- Mas tu tens de casar - insistiu Dallow. Uma mulher olhava pela janela do Charlie's Caf,  espera de algum: expectante, no viu o carro que passava.
- Toma um gole - disse Cubitt. Estava mais bbedo que Dallow. - Eu trouxe uma garrafa. No venhas dizer agora que no bebes: ns dois vimos-te, eu e Dallow.
O Rapaz disse a este:
- No caso. Por que havia de casar?
- Foste tu mesmo que armaste tudo isso - retrucou Dallow.
- Que foi que ele armou? - perguntou Cubitt. Dallow no respondeu, pousando uma mo amiga e opressiva no joelho do Rapaz. Este olhou de esguelha o rosto estpido 
e dedicado, encolerizando-se ao pensar como a lealdade alheia podia enredar e compelir um homem. Dallow era a nica criatura em quem tinha confiana, e odiava-o 
como se fosse o seu mentor. Repetiu dbilmente:

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- No h nada que me faa casar - contemplando o longo desfile de cartazes na luz submarina: "Guiness faz bem  sua Sade", "Experimente um Worthington", "Conserve 
a sua Tez Juvenil"; uma longa srie de imposies, gente a indicar coisas: "Adquira a sua Casa Prpria", "Anis de Noivado? Visite a Casa Bennett".
Quando chegou a casa, disseram-lhe: "A sua pequena est a." Subiu a escada cheio de perplexa rebelio; ia entrar e dizer: "Mudei de ideias. No posso casar contigo." 
Ou talvez: "Os advogados dizem que  impossvel." O corrimo no fora consertado e ele olhou l de cima para o ponto em que tinha jazido o cadver de Spicer. Cubitt 
e Dallow detiveram-se no lugar exacto, rindo de qualquer coisa: a lasca aguada de um balastre quebrado arranhou-lhe a mo. Levou-a  boca e entrou. "Preciso agir 
com calma - pensava -, preciso de ter presena de esprito", mas sentia a integridade manchada pelo lcool do bar.  possvel perder o vcio to facilmente como 
se perde a virtude, em consequncia de um simples contacto.
Lanou um olhar a Rosa. Ela assustou-se quando o Rapaz perguntou brandamente:
- Que fazes aqui? - trazia o chapu que ele detestava e arrancou-o da cabea assim que ele olhou. - A esta hora da noite! - acrescentou o Rapaz em tom escandalizado, 
pensando que o melhor meio era armar uma discusso.
- Viste isto aqui? - implorou-lhe Rosa. Tinha na mo o jornal de Brighton; ele no se dera ao trabalho de l-lo, mas na primeira pgina vinha a fotografia de Spicer 
a caminhar aterrado sob a arcada de ferro. Tinham sido mais bem sucedidos do que ele no fotgrafo. - Diz aqui... que aconteceu...
- Na escada. Eu estava sempre a dizer ao Frank que mandasse consertar esse corrimo.
- Mas tu disseste que tinham dado cabo dele nas corridas. E esse homem foi o que...
Ele enfrentou-a com um ar de falsa firmeza:
- Que te deu o carto? J mo disseste. Talvez ele conhecesse Hale. Spicer tinha muitos amigos que eu no conhecia. E da? - Repetiu a pergunta cheio de segurana, 
diante do olhar mudo de Rosa: - E da? - Sabia que o seu esprito era capaz de conceber qualquer traio, mas ela era boa e por isso estava confinada pelas fronteiras 
da sua bondade; havia certas

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coisas que no podia imaginar, e pareceu-lhe naquele momento que via a imaginao dela murchar e encolher-se no vasto deserto do medo.
- Pensei... - disse ela -, pensei... - olhando, atrs dele, o corrimo em runas no patamar.
- Que foi que pensaste?
Os dedos do Rapaz crisparam-se com dio veemente em torno do frasquinho que trazia no bolso.
- No sei. No dormi a noite passada. Tive uns sonhos!
- Que sonhos?
Ela olhou-o com horror:
- Sonhei que tinhas morrido. 
O Rapaz riu-se:
- Sou novo e cheio de vida - pensando com repulsa no parque de automveis e no convite dentro do Lancia.
- Tu no vais ficar aqui?
- Porqu?
- Pensava... - disse ela, volvendo de novo o olhar para o corrimo. - Tenho medo.
- No h motivo para isso - respondeu ele, afagando o frasco de vitrolo.
- Tenho medo por tua causa. Bem sei que sou uma criatura insignificante. Sei que tu tens um advogado, um carro, amigos, mas esta casa... - Titubeava, impotente, 
no esforo de exteriorizar a sua impresso sobre o ambiente em que ele se movia: um territrio de acidentes e ocorrncias inexplicveis: o desconhecido com o carto, 
a luta no campo de corridas, a queda do alto da escada. O seu rosto reflectia uma espcie de ousadia e de arrojo, despertando nele um leve impulso de sensualidade: 
- Tens de sair daqui. Tens de casar comigo, como disseste.
- No se pode arranjar, afinal. Falei com o meu advogado. Somos novos de mais.
- Pouco me importo. De qualquer modo no era um casamento de verdade. O registo no quer dizer nada.
- Volta para o teu restaurante - proferiu ele com aspereza. - Minha tonta!
- No posso, puseram-me na rua.
- Porqu? - Era como se as algemas se fechassem. Desconfiou dela.

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- Tratei mal uma freguesa.
- Porqu? Que freguesa?
- No adivinhas? - perguntou ela, e prosseguiu com veemncia: - Quem  essa mulher, afinal? A intrometer-se... a importunar a gente... tu deves saber.
- Nunca a vi mais gorda - respondeu o Rapaz.
Rosa ps na pergunta toda a sua pseudo-experincia, adquirida em romances de cordel:
- Tem cimes?  algum que... sabes o que eu quero dizer? - O seu instinto de posse estava em guarda, mascarado atrs da pergunta ingnua como os canhes de um navio 
de guerra camuflado: ela era como uma mesa ou uma cadeira, mas uma mesa tambm nos possui - pelas impresses digitais.
Pinkie riu, perturbado:
- Quem, ela? Tem bastante idade para ser minha me.
- Ento, que  que ela quer? 
- Quem me dera saber!
- Achas que eu devia levar isto.....  Polcia? - perguntou ela, mostrando-lhe o jornal.
A ingenuidade (ou astcia) da pergunta chocou-o. Era possvel estar-se tranquilo com algum que no compreendia at que ponto se achava envolvida num caso como aquele?
- Cuida no que fazes - disse ele, e reflectiu com uma averso surda e cansada (passara um dia extenuante): "Parece que tenho mesmo de casar com ela." Forou um sorriso: 
aqueles msculos comeavam a trabalhar. - Escuta: no precisas de te preocupar com essas coisas. Vou casar contigo. H meios de rodear a lei.
- Para que nos havemos de importar com a lei?
- No quero ouvir esses disparates. S o casamento me serve - respondeu ele com simulada clera. - Temos de casar como deve ser.
- Isso  que no  possvel. O padre da Igreja de So Joo diz...
- No vs muito atrs do que dizem os padres. Eles no conhecem a vida como eu. As ideias mudam, o mundo anda para a frente... - As suas palavras titubearam diante 
da dedicao estampada no rosto dela. Aquele rosto dizia, to claramente como se falasse, que as ideias nunca mudam, que o mundo jamais se move: a est para sempre, 
territrio devastado e

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disputado entre as duas eternidades. Eles defrontavam-se como vindos de pases inimigos, mas confraternizavam como as tropas por ocasio do Natal. - Para ti  indiferente 
de um modo ou de outro - disse ele -, e eu quero ser casado... legalmente casado.
- Se tu queres... - tornou ela, fazendo um pequeno gesto de completo assentimento.
- Talvez pudssemos arranjar a coisa deste modo: se teu pai escrevesse uma carta...
- Ele no sabe escrever.
- Bem, ento, podia assinar de cruz se se lhe desse uma carta escrita... No sei como se fazem essas coisas. Talvez ele possa apresentar-se ao juiz. Mister Prewitt 
tratar disso.
- Mister Prewitt? - perguntou ela vivamente. - No  o homem que... o homem que estava aqui e que fez declaraes no inqurito?
- E que tem isso?
- Nada. Pensei que... - Mas ele podia ver os seus pensamentos em marcha, saindo do quarto para o patamar, o corrimo, a queda, orientando-se para outras ocasies 
anteriores... Algum ligou o rdio l em baixo: provavelmente uma brincadeira de Cubitt para sugerir o clima romntico apropriado. A msica lamentosa subiu pela 
escada e penetrou no quarto: uma orquestra qualquer num hotel qualquer, o ltimo programa do dia. A msica desviou os pensamentos de Rosa e ele perguntou de si para 
consigo por quanto tempo seria ainda necessrio despist-la com o gesto romntico ou o acto amoroso, quantas semanas, quantos meses?... O seu esprito no admitia 
a possibilidade de que aquilo durasse anos. Um dia tornaria a ser livre: estendeu as mos para Rosa como se ela fosse um detective com as algemas, e disse:
- Amanh vamos tratar disso. Falarei com teu pai. Afinal - os msculos da boca tremeram-lhe a esta lembrana -, dentro de dois dias podemos estar casados.

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3

Sentia medo ao dirigir-se sozinho para o territrio que havia deixado anos atrs. O mar plido coagulava-se no cascalho e a torre verde do Metrpole parecia uma 
moeda encontrada numa escavao, com o verdete dos sculos. As gaivotas disparavam em direco ao passeio, esganiando-se e torcendo de rumo  luz do Sol, e um conhecido 
escritor popular exibia o rosto ndio e famoso  janela do Royal Albion, contemplando o mar. O dia estava to claro, que se procurava a Frana com os olhos.
O Rapaz atravessou a rua em direco do Old Steyne, caminhando devagar. Alm do Steyne, as ruas estreitavam-se ao subir a colina: o lamentvel segredo por trs do 
corpete vistoso, o peito disforme. Cada passo era um recuo. Ele julgava ter escapado para sempre, pondo de permeio toda a extenso da avenida, mas a extrema pobreza 
tornava a reclam-lo para si: um cabeleireiro onde o corte  garonne custava dois xelins, no mesmo prdio que uma casa funerria que trabalhava em carvalho, olmo 
ou chumbo: na vitrina, nada mais que um atade de criana coberto de p e a lista dos preos do cabeleireiro. A cidadela do Exrcito de Salvao, com as suas ameias, 
assinalava as fronteiras do seu bairro. Comeou a recear que o reconhecessem e a sentir uma obscura vergonha, como se fosse ao bairro natal que competisse perdoar-lhe, 
e no a ele censurar-lhe o seu passado desolado e miservel. Depois de deixar para trs a Hospedaria Albert ("Boa Acomodao para Viajantes"), encontrou-se no topo 
da colina, no aceso do bombardeio - uma goteira pendente, vidraas quebradas, uma armao de cama de ferro abandonada num minsculo jardim. Metade de Paradise Piece 
fora destruda como por exploses de bombas; as crianas brincavam em volta de um ngreme monto de calia; os restos de uma lareira indicavam que outrora tinham 
existido ali casas; e um dito municipal anunciava casas novas, num poste cravado no asfalto arruinado, fazendo frente  pequena fileira de casas sujas e escalavradas, 
derradeiros restos de Paradise Piece. A sua casa desaparecera: uma nesga de cho plano no meio do entulho talvez assinalasse o lugar da lareira; o quarto da curva 
da escada, onde se realizava a ginstica das

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noites de sbado, transformara-se em simples ar. Ele perguntou a si prprio, com horror, se aquilo tudo teria de ser reconstrudo para ele; como ar ficava muito 
melhor.
Tinha mandado Rosa para casa na noite anterior e agora ia ter com ela, no seu passo arrastado. De nada servia revoltar-se: tinha de casar com ela, conquistar a segurana. 
Os garotos faziam exploraes entre os entulhos com pistolas de Woolworth; um grupo de raparigas observava-os com ar mal-humorado. Uma criana, a coxear, com a perna 
presa num gancho de ferro, esbarrou nele, s cegas; afastou-a com um empurro; uma voz esganiada disse: "Mos ao ar!" Faziam-no voltar em esprito ao passado e 
ele odiou-os por isso; era como a terrvel atraco da inocncia, apenas ali no havia inocncia; seria necessrio recuar muito mais para encontr-la; a inocncia 
era uma boca babujada, uma gengiva sem dentes, a sugar as tetas; talvez nem mesmo isso: a inocncia era o feio grito do infante que vem ao mundo.
Encontrou a casa de Nelson Place, mas, antes que tivesse tempo de bater, a porta abriu-se. Rosa espreitara-o pelo vidro quebrado da janela.
- Oh! Como estou contente! - exclamou ela. - Julguei que, talvez... - No horrendo corredorzinho que exalava um cheiro de latrina, ela prosseguiu com apaixonada vivacidade: 
- Ontem  noite foi um horror... Sabes, eu mandava-lhes dinheiro... No compreendem que qualquer um pode perder o emprego...
- Deixa que eu os acalmo - disse o Rapaz. - Onde esto?
-  preciso ter cuidado. Eles tm birras.
- Onde esto?
A direco, porm, era uma s: no havia ali mais que uma porta e uma escada forrada com jornais velhos. Nos degraus de baixo, entre as marcas de lama, aparecia 
o rosto trigueiro e infantil de Violet Crow, violada e sepultada sob o Molhe de Oeste em 1936. Ele abriu a porta: junto ao negro fogo de cozinha estavam sentados 
os pais, entre o carvo de madeira espalhado no cho. Estavam de birra: observaram-no com silenciosa e altaneira indiferena; a mulher, de meia-idade, estpida e 
rancorosa. Os pratos no tinham sido lavados e o fogo no fora aceso.

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- Esto de birra - explicou Rosa em voz alta. - No me deixaram fazer nada. Nem sequer acender o fogo. Gosto de trazer a casa limpa, podes crer. A nossa no ser 
assim.
- Escute Mister... - disse o rapaz.
- Wilson - acudiu Rosa.
- Wilson. Eu quero casar com a Rosa. Segundo parece, preciso da sua autorizao por causa da idade dela.
No lhe responderam. Entesouravam o seu mau humor como um objecto de porcelana rara que s eles possussem, como algo que podiam mostrar aos vizinhos e dizer: "Isto 
 meu."
- No vale a pena - proferiu Rosa. - Quando esto de birra...
Um gato observava-os do alto de um caixote.
- Sim ou no?
- No vale a pena - tornou Rosa. - Quando esto de birra no h nada a fazer.
- Responda  minha pergunta - insistiu o Rapaz. - Caso com Rosa ou no caso?
- Volta amanh. Estaro mais bem dispostos.
- No vou esperar que estejam dispostos. Deviam orgulhar-se.
O homem levantou-se de sbito e deu um pontap furioso num pedao de carvo.
- Suma-se daqui. No queremos conversas consigo. Nunca, nunca, nunca!
Por um instante, os olhos fundos e desnorteados assumiram uma expresso de fidelidade, que fez o Rapaz pensar em Rosa, com terror.
- Cala-te, pai - disse a mulher, entesourando a sua birra. - No fales com eles.
- Vim por um negcio - acrescentou o Rapaz. - Se no querem fazer negcio... - Abrangeu com um olhar a pobreza e o descalabro do compartimento. - Pensei que umas 
dez libras talvez lhes fizessem jeito.
viu surgir, por baixo do silncio cego e rancoroso a incredulidade, a avareza e a suspeita.
- No queremos... - comeou de novo o homem. E, de repente, cortou-se o fio do seu discurso, como num gramofone.

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Ps-se a pensar: era possvel ver surgir os pensamentos um aps outro.
- No queremos o seu dinheiro - disse a mulher. 
Cada um deles tinha a sua espcie de fidelidade.
Rosa interveio:
- Deixa-os dizer o que quiserem. Eu no fico aqui.
- Espere um momento, espere um momento - disse o homem. - Cala-te, me. - E ao Rapaz:
- No podemos entregar Rosa a um desconhecido, a troco de dez libras. No sabemos se o senhor a tratar bem.
- Dou-lhe doze - volveu o Rapaz.
- No  questo de dinheiro. Gosto da sua cara. No desejamos impedir que Rosa melhore a sua vida... mas o senhor  muito novo.
- Quinze  a minha ltima oferta - acentuou o Rapaz.
-  pegar ou largar.
- O senhor no pode fazer nada sem o nosso consentimento - teimou o homem.
O Rapaz afastou-se um pouco de Rosa.
- No fao assim tanta questo de casar.
- Quinze guinus.
- J lhe fiz a minha oferta. - Correu os olhos pelo quarto, com horror: ningum podia negar que ele fizera bem em fugir daquilo, em cometer qualquer crime... Quando 
o homem abria a boca, ele ouvia o seu pai a falar, a mulher sentada no canto era sua me: negociava a posse de sua irm e no sentia desejo algum... Voltou-se para 
Rosa: - Vou-me embora - e sentiu uma ligeira ponta de compaixo por aquela bondade que era incapaz de matar para libertar-se. Dizia-se que os santos possuam (como 
era?) "virtudes hericas", pacincia herica, resistncia herica, mas ele nada distinguia que se pudesse qualificar de herico naquele rosto ossudo, nos olhos perturbantes, 
na plida ansiedade enquanto os dois regateavam e a vida dela se enredava na transaco financeira. - Bem - disse -, at  vista - e tomou o caminho da porta. Ali 
chegado, virou-se para trs: dir-se-ia uma reunio de famlia. Com impacincia e desprezo, cedeu: - Est bem. Sejam quinze guinus. Vou mandar o meu advogado.
E, quando passou para o infecto corredor, Rosa seguiu-o, ofegante e reconhecida.

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Ele continuou o seu jogo at a ltima cartada, forando um sorriso e um cumprimento:
- Faria muito mais por ti.
- Foste formidvel! - murmurou ela, adorando-o entre os odores de latrina.
Mas esse elogio era veneno para ele: marcava o seu sentimento de posse; levava directamente ao que ela esperava dele, ao apavorante acto de um desejo que ele no 
sentia. Rosa seguiu-o para o ar puro de Nelson Place. As crianas brincavam entre as runas de Paradise Piece e uma brisa soprava do mar, atravessando o local da 
sua casa. Um vago desejo de aniquilao cresceu dentro dele: a imensa superioridade do vazio.
Ela disse, como j dissera uma vez:
- Sempre desejei saber como seria. - O seu esprito revolveu obscuramente as ocorrncias daquela tarde e voltou com uma descoberta inesperada: - Nunca vi uma birra 
passar-lhes to depressa. Devem ter simpatizado contigo.

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4

Ida Arnold mordeu um clair e o recheio esguichou por entre os seus grandes incisivos. Soltou uma risada levemente exagerada no boudoir Pompadour e disse:
- Nunca tive tanto dinheiro para gastar desde que me separei de Tom. - Deu outra mordidela e um pedao de creme assentou-lhe na lngua carnuda. - Graas a Fred. 
Se ele no me tivesse indicado Black Boy.
- Por que no largas tudo isso de mo e tratas de te divertir simplesmente? - perguntou Mr. Corkery. -  perigoso.
-  perigoso,  - reconheceu ela, mas nenhuma conscincia de perigo podia medrar atrs daqueles olhos grandes e vivos. Nada lhe faria jamais crer que tambm ela, 
um dia, como Fred, iria fazer companhia aos vermes... O seu esprito era incapaz de seguir aquele caminho; depois de percorrer uma pequena distncia, os ponteiros 
viravam automaticamente e repunham-na, vibrante, no trilho habitual: o trilho dos bilhetes de temporada, marcado por anncios de belas vivendas, programas de excurses 
martimas e pequenos bosques murados para o amor rural. - Eu nunca desisto - disse ela, considerando o bolo de creme. - Eles no imaginam em que enrascada se meteram.
- Deixa isso para a Polcia.
- Qual qu! Eu sei o que  justo. No me venhas ensinar. Quem te parece que seja aquele?
Um judeu de certa idade, com sapatos de verniz, fita branca no colete e pedra preciosa no alfinete de gravata, atravessava maciamente o boudoir.
- Distinto - disse Ida Arnold.
Uma secretria trotava a pequena distncia atrs dele, lendo uma lista: "Bananas, laranjas, uvas, pssegos, ..."
- De estufa?
- De estufa.
- Quem ser aquele? - repetiu Ida Arnold.
- Mais nada, Mister Colleoni? - perguntou a secretria.
- Quais so as flores? - volveu o outro. - Escute, no poderia conseguir uns pssegos carecas?

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- No, Mister Colleoni.
- A minha querida esposa... - comeou a dizer Mr. Colleoni, e a sua voz apagou-se na distncia.
S distinguiram a palavra "paixo". 
Ida Arnold correu os olhos pelo elegante mobilirio do boudoir Pompadour, apanhando, como um projector, uma almofada aqui, um div mais adiante e, por ltimo, a 
boca fina e burocrtica do homem sentado  sua frente.
- Estaramos muito bem aqui - considerou ela, observando essa boca.
- Muito caro - respondeu Mr. Corkery, nervoso, afagando as canelas finas com uma mo excessivamente delicada.
-  Black Boy que paga. Como sabes, no podemos divertir-nos no Belvedere. Muito puritano.
- Ests disposta a divertir-te aqui? - perguntou Mr. Corkery, piscando o olho.
Era impossvel saber, pela sua expresso, se ele desejava ou temia o consentimento de Ida.
- Por que no? No faz mal a ningum, que me conste.  humano. - Deu uma mordidela no bolo de creme e repetiu a senha familiar: - Afinal de contas, tudo  prazer. 
Prazer defender o justo e o direito, prazer ser humana... Vai buscar a minha mala enquanto eu marco um quarto. Afinal, devo-te alguma coisa... Trabalhaste...
Mr. Corkery corou de leve.
- A meias - disse.
Ida arreganhou os dentes para ele.
- Fica por conta de Black Boy. Pago sempre as minhas dvidas.
- Um homem sempre gosta... - objectou Mr. Corkery dbilmente.
- Eu sei de que um homem gosta.
O bolo de creme, o div profundo e a moblia vistosa eram como um afrodisaco no seu ch. Uma disposio bquica e dissoluta se apossou dela. Em cada palavra que 
qualquer deles pronunciava, ela percebia uma e a mesma significao. Mr. Corkery corou e mergulhou ainda mais fundo no seu embarao.
- Um homem no pode deixar de sentir...
E ficou abalado pelo imenso jbilo dela.

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- A quem o dizes! - exclamou Ida. - A quem o dizes! Enquanto Mr. Corkery saa, ela fez os seus preparativos para a saturnal, ainda com o gosto do creme na boca. 
A lembrana de Fred Hale recuou como um vulto numa plataforma, quando o comboio se ps em movimento: ele pertencia a qualquer coisa que ficava para trs; a mo que 
acena no faz seno contribuir para a emoo da nova aventura. Nova - e, contudo, incalculvelmente velha. Com olhos injectados e experientes ela considerou a vasta 
alcova, macia morada do prazer: o comprido espelho, o guarda-roupa e a enorme cama. Instalou-se francamente nesta, enquanto o empregado esperava. -  fofa! - disse. 
-  fofa!
E ficou longo tempo sentada ali depois que o homem se foi, traando o plano da campanha daquela tarde. Se algum lhe tivesse mencionado Fred Hale nesse momento ela 
mal teria reconhecido o nome: outro interesse a absorvia; abandonava-o por uma hora  Polcia.
Por fim, levantou-se vagarosamente e comeou a despir-se. Nunca fora de muita roupa: em dois tempos ficou nua diante do longo espelho: corpo grande e firme, um pedao 
de mulher. Estava sobre um tapete profundo e macio, cercado de molduras douradas, reposteiros de veludo vermelho, e uma dzia de expresses comuns e populares lhe 
desabrocharam no esprito: "Uma Noite de Amor", "S Temos uma Vida", e o resto, sugou os restos de chocolate que lhe tinham ficado presos entre os dentes e sorriu, 
com os dedos gorduchos dos ps a brincar no tapete, esperando Mr. Corkery - uma grande surpresa em flor. Pela janela via-se a mar baixar, rasando o cascalho, pondo 
a descoberto uma bota, um pedao de ferro enferrujado, e o velho curvado a catar entre as pedras. O Sol sumiu-se atrs das casas de Hove e o crepsculo chegou. A 
sombra de Mr. Corkery alongava-se, vindo lentamente dos lados do Belvedere, a carregar as malas para poupar o dinheiro do txi. Uma gaivota lanou-se aos gritos 
sobre um caranguejo morto, batido e quebrado de encontro aos alicerces de ferro do molhe. Era a hora da penumbra, da bruma vespertina da Mancha e do amor.

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5

O Rapaz fechou a porta e virou-se para enfrentar os rostos expectantes e divertidos.
- Ento - exclamou Cubitt -, est tudo arranjado?
- Claro! Quando eu quero uma coisa...
A sua voz vacilou e apagou-se, sem nenhum poder de convico. Em cima do seu toucador havia meia dzia de garrafas; o quarto cheirava a cerveja azeda.
- Queres uma coisa... - disse Cubitt. - Essa  boa. Abriu outra garrafa e, na atmosfera quente e abafada do quarto, a espuma subiu rpida, derramando-se no mrmore 
do toucador.
- Que diabo de histria  esta? - perguntou Pinkie.
- Estamos a festejar - respondeu Cubitt. - Tu s catlico, no s? Uma festa de esponsais, como dizem os catlicos.
O Rapaz observou-os: Cubitt um pouco bbedo, Dallow preocupado, duas caras magras e famintas que ele mal conhecia- satlites que rondavam a grande confraria, sorrindo 
quando os outros sorriam, franzindo o sobrolho quando os viam descontentes. Nesse momento sorriam, imitando Cubitt, e ele percebeu de repente quo longe estava daquela 
tarde, no molhe, em que preparara o libi, dera as ordens, fizera o que eles no tinham coragem de fazer por si.
Judy, a mulher de Frank, mostrou a cabea  porta. Vestia um roupo. Os seus cabelos louros  Ticiano eram castanhos na raiz.
- Felicidades, Pinkie - disse ela, batendo as plpebras pintadas. Estivera a lavar o soutien, o pedao de seda cor-de-rosa gotejava no oleado. Ningum lhe ofereceu 
de beber. - Trabalhar, trabalhar... Que vida! - exclamou, fazendo-lhes uma careta e saindo pelo corredor, rumo aos canos de gua quente.
Como estava longe... e, no entanto, no dera um s passo em falso: se no tivesse ido ao Snow e falado com a rapariga, todos estariam agora no banco dos rus. Se 
no tivesse matado Spicer... Nem um s passo em falso, mas todos condicionados

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por uma presso que ele no podia sequer localizar: uma mulher a fazer perguntas, telefonemas que assustavam Spicer. "Quando eu tiver casado, isto acabar? - pensou. 
- At onde poderei ser arrastado ainda?" E, torcendo os lbios, perguntou ainda de si para consigo: "Que poder acontecer de pior?"
- Quando  o ditoso dia? - perguntou Cubitt, e todos sorriam obedientemente, excepto Dallow.
O crebro do Rapaz ps-se a trabalhar de novo. Caminhou devagar para o toucador.
- Vocs no tm um copo para mim? Eu no festejo tambm?
Viu Dallow cheio de pasmo, Cubitt cado das nuvens, os satlites sem saber a quem seguir, e arreganhou os dentes para eles: o homem de crebro.
- Mas, Pinkie... - fez Cubitt.
- Eu no bebo nem sou homem para casar.  o que vocs pensam. Mas, como estou a gostar de uma coisa, por que no hei-de gostar da outra? Venha de l um copo.
- A gostar - disse Cubitt, com um sorriso contrafeito.
- Tu, a gostar...
- J viste a pequena? - perguntou o Rapaz.
- Eu e Dallow encontrmo-nos com ela na escada, mas estava muito escuro...
-  um mimo - sublinhou o Rapaz. - Seria uma pena met-la numa penso ordinria. E inteligente! No interpretem mal. Est claro que eu no via nenhuma razo para 
casar com ela, mas, bem vistas as coisas... - Algum lhe estendeu um copo: o lquido amargo e borbulhante repugnou-lhe (era daquilo que eles gostavam!). Crispou 
os msculos da boca para dissimular o seu nojo. - Bem vistas as coisas, caso-me com prazer - terminou, considerando com secreta revolta a polegada de lquido plido 
que restava no copo, antes de esvazi-lo.
Dallow observava-o em silncio e o Rapaz sentiu-se mais irado - contra o amigo que contra o inimigo: como Spicer, ele sabia de mais, mas o seu conhecimento era muito 
mais perigoso que o do outro. O que Spicer sabia eram apenas essas coisas que podem levar um homem ao banco dos rus, enquanto Dallow estava a par daquilo que s 
o nosso espelho e o nosso travesseiro conhecem: a humilhao e o temor secretos.

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- Que bicho te mordeu, Dallow? - perguntou, escondendo o seu furor.
A cara amolgada e estpida do outro assumiu uma expresso de perplexidade.
- Inveja? - comeou o Rapaz a gabar-se. - Ters motivo para isso quando tiveres visto a pequena. No  nenhuma dessas cadelinhas pintadas que vocs conhecem. Tem 
distino. Vou casar com ela por causa de vocs, mas vou dormir com ela por gosto. - Virou-se para Dallow, com um mpeto diablico.
- Que ests tu a pensar?
- Bem - disse o outro -,  aquela com quem te encontraste no molhe, no ? No me pareceu assim to boa.
- Tu no percebes nada. s um ignorante. No fazes a menor ideia do que seja distino.
- Uma duquesa - replicou Cubitt, rindo.
Uma extraordinria indignao apossou-se do Rapaz, contraindo-lhe o crebro e os dedos. Era quase como se tivessem insultado uma pessoa que ele amasse.
- Toma cuidado, Cubitt! - ameaou ele.
- No faas caso - acudiu Dallow. - Ns no sabamos que estavas pelo beicinho.
- Temos uns presentes para ti, Pinkie - disse Cubitt. - Mveis para o novo lar.
E indicou dois objectozinhos indecentes que estavam em cima do toucador, ao lado das garrafas de cerveja (as papelarias de Brighton andavam cheias dessas coisas): 
uma minscula cadeira-retrete de boneca, em forma de aparelho de rdio, com o rtulo "O melhor e mais pequeno receptor de duas vlvulas em todo o mundo", e um pote 
de mostarda que imitava um assento de retrete, com a legenda "Para mim e minha pequena". Foi como a volta de todos os horrores que j sentira, da horrvel solido 
da sua inocncia.
Atirou uma bofetada a Cubitt, que se furtou ao golpe, rindo. Os dois satlites safaram-se do quarto. No apreciavam sesses de pancadaria. O Rapaz ouviu-os rir na 
escada.
- Vais precisar deles em casa - gracejou Cubitt.. - A cama no  a nica moblia.
Mas, enquanto zombava, ia recuando.
- Por Deus, hei-de tratar-te como tratei o Spicer! - disse o Rapaz.

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Cubitt nunca apanhava imediatamente o significado duma frase. Houve um longo intervalo. Ps-se a rir, depois notou a expresso atemorizada de Dallow e ouviu.
- Como  isso? - perguntou Cubitt.
- Ele est doido - interveio Dallow.
- Tu pensas que s muito esperto - proferiu o Rapaz.
- Spicer pensava o mesmo.
- Foi o corrimo - atalhou Cubitt. - Tu no estavas aqui.
Que  que queres dizer?
- Claro que ele no estava aqui - acudiu Dallow.
- Pensas que sabes muita coisa. - Todo o dio e repulsa do Rapaz se concentravam nessa palavra "saber": ele sabia, como Prewitt tambm sabia, aps vinte e cinco 
anos de brincadeira. - No sabes de tudo.
Procurava armar-se de orgulho, mas os seus olhos no cessavam de voltar para aquela humilhao: "O melhor e mais pequeno..." Podia-se saber tudo quanto existe no 
mundo e, no entanto, se se ignorava aquela esgrima ignbil, era o mesmo que no saber nada.
- Que  que ele quer dizer? - perguntou Cubitt.
- No lhe ds ouvidos - replicou Dallow.
- Quero dizer o seguinte - volveu o Rapaz -: Spicer era medroso e eu sou o nico deste bando que sabe agir.
- Tu ages de mais - observou Cubitt. - Queres ento dizer... que no foi o corrimo?
A pergunta aterrou-o a ele prprio: no queria resposta. Encaminhou-se para a porta, perturbado, sem tirar os olhos do Rapaz.
- Est claro que foi o corrimo - afirmou Dallow. - Eu estava aqui, no estava?
- No sei, no sei... - fez o outro, alcanando a porta. - Brighton no  bastante grande para ele. No quero mais nada com vocs.
- Pois ento vai - disse o Rapaz -, pe-te a andar. Pe-te a andar e morre de fome.
- No hei-de morrer de fome. H mais gente nesta cidade...
Quando a porta se fechou, o Rapaz voltou-se para Dallow: 
- Vai, pe-te a andar tu tambm. Vocs pensam que podem passar sem mim, mas basta eu dar um assobio...

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- No precisas de falar assim comigo. No te vou deixar. No me tenta a ideia de fazer to cedo as pazes com Crab.
Mas o Rapaz no lhe prestou ateno:
- Basta eu dar um assobio... - vangloriou-se. - Eles vm aos pulos. - Dirigiu-se para a cama e deitou-se. Estava modo de cansao. - Telefona ao Prewitt. Diz que 
no h dificuldade da parte dela. Que arranje isso depressa.
- Depois de amanh, se ele puder? 
- Sim - disse o Rapaz.
Ouviu fechar-se a porta e ficou estendido, com aquele tique na face, a olhar para o tecto. "No tenho culpa de que eles me enraiveam e me levem a fazer certas coisas 
- pensou. - Se me deixassem em paz..." A sua imaginao estacou diante desta palavra. Tentou, sem muita convico, fazer uma ideia do que fosse a "paz". Os seus 
olhos fecharam-se e ele viu, por trs das plpebras, uma penumbra cinzenta que se alongava indefinidamente, um pas do qual nunca tinha visto sequer um postal, um 
lugar muito mais estranho do que o Grand Canyon ou o Taj Mahal. Tornou a abrir os olhos e imediatamente a razo voltou a circular nas suas veias: pois ali, sobre 
o toucador, estavam os presentes de Cubitt. Ele era como uma criana que sofre de hemofilia: qualquer contacto fazia brotar o sangue.

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6

Uma campainha abafada soou no corredor do Cosmopolitan: atravs da parede a que estava encostada a cabeceira da cama, Ida ouviu uma voz que falava sem cessar: algum 
a ler um relatrio, talvez em conferncia ou a ditar para um gravador. Phil dormia ao lado dela, em ceroulas, a boca entreaberta mostrando um dente amarelo com obturao 
de metal. "Brincadeira... natureza humana... no faz mal a ningum..." Com a regularidade de um mecanismo de relgio, essas justificaes apresentavam-se ao esprito 
atento, triste e insatisfeito: no havia nada que pudesse igualar a profunda excitao do desejo normal. Os homens desiludem sempre quando se chega ao acto. Podia 
antes ter ido ao cinema.
Mas aquilo no fazia mal a ningum, era natural e humano, ningum podia realmente acus-la: um pouco livre, talvez, um pouco bomia; no era como se tirasse algum 
proveito daquilo, como algumas que sugam um homem para depois o pr de lado, como coisa sem serventia, como uma luva velha. Ela sabia o que  justo e o que no . 
Deus no se opunha a que se desse largas, de vez em quando,  natureza; o que ele no admitia... e esqueceu Phil em ceroulas para pensar na sua misso de levar a 
cabo o que era justo, de fazer com que os maus sofressem...
Sentou-se na cama, cingiu com os braos os fortes joelhos nus e sentiu a excitao vibrar novamente no corpo desiludido. Pobre Fred! O seu nome j no lhe trazia 
nenhum sentimento de pesar ou drama. J no guardava quase recordaes dele, salvo um monculo, um colete amarelo, e estes pertenciam ao velho Charlie Moyne. A caada 
era o que importava. Era como o retorno da vida, aps uma enfermidade.
Phil abriu um olho, que o esforo sexual tornara amarelo, e observou-a apreensivo.
- Acordaste, Phil?
- Devem ser quase horas de jantar - disse ele. E, com um sorriso nervoso: - Em que estavas a pensar?
- Estava a pensar que do que ns precisamos  de travar relaes com um dos homens de Pinkie. Algum que esteja zangado

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ou assustado. Deve sentir medo, de vez em quando. Basta esperar. 
Levantou-se da cama, abriu a mala e comeou a tirar dali a roupa que lhe parecia mais apropriada para um jantar no Cosmopolitan. A luz rsea da lmpada de leitura 
e de amor, algumas lantejoulas claras puseram-se a cintilar. Ida espreguiou-se: j no sentia desejo nem desapontamento; tinha o crebro lcido. Era quase noite 
na praia; a beira-mar semelhava uma linha escrita numa parede caiada, em letras garrafais. quela distncia no se podia ler nada. Uma sombra curvou-se com infinita 
pacincia e desenterrou qualquer relquia de entre o cascalho. 

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SEXTA PARTE

1

Quando Cubitt saiu pela porta da frente, os satlites j haviam desaparecido. A rua estava deserta. De uma maneira surda, vaga e amarga, sentia-se como algum que 
destruiu o seu lar sem haver preparado um outro. A cerrao vinha do mar e ele no trouxera o sobretudo. Estava furioso como uma criana. No voltaria atrs para 
ir busc-lo: - seria o mesmo que dar o brao a torcer. O nico remdio era tomar um gole de whisky na Coroa.
Abriram-lhe caminho com respeito, quando ele entrou. Viu o seu reflexo no espelho com um anncio de Booth's Gin: os cabelos curtos e cor de fogo, a cara rude e franca, 
os ombros largos: contemplou-se como Narciso no seu lago e sentiu-se mais satisfeito consigo. No era homem para se dobrar; tinha o seu valor. "Vai um whisky?", 
ofereceu algum. Era o empregado da mercearia da esquina. Num gesto protector, Cubitt pousou-lhe no ombro a mo pesada, aceitando: o homem que correra um par de 
aventuras a fazer camaradagem com o obscuro e ignorante indivduo que, por trs do seu balco, sonhava com uma vida mscula. Tais relaes eram agradveis a Cubitt. 
Tomou mais dois whiskies por conta do merceeiro.
- Tem um palpite para mim, Mister Cubitt?
- Tenho outras coisas em que pensar - respondeu Cubitt misteriosamente, esguichando um dedo de soda no whisky.
- Estvamos aqui a discutir sobre Gay Parrot na corrida das duas e meia. Eu acho que...
Gay Parrot... O nome nada significava para Cubitt. A bebida aquecera-o, o nevoeiro penetrara-lhe no crebro; inclinou-se para o espelho e viu as palavras Booth's 
Gin a formarem um halo acima da sua cabea. Estava envolvido na alta poltica: havia homens mortos. Pobre Spicer! Os compromissos de lealdade deslocavam-se no seu 
crebro como os braos de uma pesada balana: sentia-se to importante como um primeiro-ministro a negociar tratados.

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- Antes que isto acabe h-de haver mais mortes - disse, misteriosamente. No perdera a presena de esprito nem estava a ser indiscreto: mas no havia mal algum 
em deixar que aquelas pobres criaturas vislumbrassem um pouco os segredos da vida. Empurrou o copo e pediu: - Uma rodada para todos. - Porm, quando olhou para os 
lados, os outros tinham desaparecido; um rosto ainda se virou para olhar atravs do vidro da porta e sumiu-se: no podiam suportar a companhia de um Homem. - No 
faz mal - disse ele -, no faz mal. - Acabou de beber o seu whisky e saiu. O que tinha de fazer agora, naturalmente, era ir falar com Colleoni. "Aqui estou, Mr. 
Colleoni. Rompi com o bando de Kite. No quero trabalhar sob as ordens de um garoto. D-me um servio de Homem que eu o farei." O nevoeiro penetrou-lhe nos ossos 
e ele estremeceu involuntariamente. Pensou: "Se Dallow tambm quisesse..." E, de repente, a solido roubou-lhe toda a confiana ntima: todo o calor da bebida o 
abandonou e o nevoeiro apossou-se dele como um bando de demnios. E se Colleoni no stivesse interessado? Cubitt desembocou na praia e avistou, atravs da bruma 
fina, as luzes do Cosmopolitan: era a hora do cocktail.
Sentou-se, tremendo de frio, debaixo de um abrigo de vidro e ficou a olhar para o mar. A mar estava baixa e o nevoeiro ocultava-a: no era mais que o rudo de qualquer 
coisa a deslizar e a sibilar. Cubitt acendeu um cigarro: o fsforo aqueceu por um instante as mos em concha. Ofereceu o mao de cigarros a um cavalheiro idoso, 
atabafado num grosso sobretudo, que compartilhava o abrigo com ele.
- No fumo - proferiu o velho acremente, e ps-se a tossir: um prolongado caf, caf, caf, na direco do mar invisvel - A noite est fria - disse Cubitt. O velho 
dirigiu os olhos para ele como um binculo de teatro e continuou a tossir: caf, caf, caf; tinha as cordas vocais secas como palha. Ouviram-se os sons de um violino 
no mar: dir-se-ia algum plangente animal marinho a suspirar pela terra. Cubitt pensou em Spicer, que gostava de msica. Pobre Spicer! O nevoeiro avanava, soprando 
do largo em massas compactas e pesadas como ectoplasma. Cubitt assistira certa vez a uma sesso de espiritismo em Brighton: desejava entrar em comunicao com sua 
me, morta vinte anos atrs. A ideia viera-lhe de repente: a velhota podia ter alguma coisa para lhe dizer. E tinha, com efeito: estava

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no stimo plano, onde tudo era maravilhoso: a sua voz parecia um pouco alcoolizada, mas isso era at muito natural. A malta havia troado dele por causa disso, especialmente 
o velho Spicer. Pois bem, Spicer no riria agora. Ele prprio podia ser chamado a qualquer hora para tocar uma sineta ou sacudir uma pandeireta. Por sorte, gostava 
de msica.
Cubitt levantou-se e foi andando devagar para a cancela do Molhe de Oeste. O molhe mergulhava na bruma, desaparecendo na direco de onde vinham os sons do violino. 
Foi at o Salo de Concertos, sem encontrar ningum. No era uma noite que convidasse os namorados a passear. No molhe s havia aqueles que estavam reunidos no interior 
do salo. Cubitt deu-lhe volta por fora, olhando para o interior: um homem de casaca a tocar rabeca para algumas fileiras de pessoas de sobretudo, uma ilha a cinquenta 
metros mar adentro, no meio da cerrao. Algures, na Mancha, ouviu-se a sereia de um navio; uma outra respondeu, e outra ainda, como ces que se despertam  noite.
Procurar Colleoni e dizer-lhe... era bem fcil; o judeu devia at ficar reconhecido... Cubitt volveu os olhos na direco da praia e viu, acima do nevoeiro, as luzes 
elevadas do Cosmopolitan, que o intimidaram. No estava acostumado quele ambiente. Desceu a escada de ferro, coberta por uma meia-laranja, que levava ao toilette 
dos homens, esvaziou o whisky que tinha bebido na gua em movimento sob os pilares e tornou a subir para o convs, sentindo-se mais s do que nunca. Tirou um penny 
do bolso e introduziu-o na fenda de uma automtica: uma cara de autmato atrs da qual girava uma lmpada elctrica, mos de ferro para Cubitt agarrar. Um cartozinho 
azul saltou: "O seu carcter delineado." Cubitt leu: "Voc  influenciado sobretudo pelo ambiente e inclinado aos caprichos e  inconstncia. As suas afeies so 
intensas mas de pouca durao. Tem um temperamento alegre e despreocupado.  bem sucedido em tudo que empreende. Sempre poder ter o seu quinho nas coisas boas 
da vida. A sua falta de iniciativa  contrabalanada pelo seu bom senso e voc alcanar o xito onde os outros falham."
Avanou a passos vagarosos e arrastados diante das mquinas automticas, retardando o momento em que no teria outro remdio seno ir ao Cosmopolitan. A sua falta 
de iniciativa.....

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Dois onzes de futebol, com jogadores de chumbo que um penny punha em aco; uma velha feiticeira, com o recheio de palha a escapar-lhe da garra, oferecia-se para 
lhe dizer a sua sorte. Deteve-se diante de Uma carta de amor. As tbuas estavam hmidas da cerrao, o longo convs continuava deserto, o violino no parava de gemer. 
Ele sentiu a necessidade de uma afeio profunda e sentimental, flores de laranjeira, abraos a um canto. A sua manzorra ansiava por prender outra mo. Algum que 
no se ofendesse com as suas brincadeiras, que risse com ele do aparelho de duas vlvulas. No tivera inteno de ofender; o frio chegou-lhe ao estmago e um pouco 
de whisky azedo subiu-lhe  garganta. Estava quase disposto a voltar para o Frank. Mas lembrou-se de Spicer: o rapaz estava louco, a sua loucura assassina era perigosa. 
A solido arrastou-o. Tirou do bolso a sua ltima moeda de cobre e meteu-a na fenda. Surgiu um cartozinho cor-de-rosa com um selo impresso: uma cabea de jovem, 
cabelos compridos, e a legenda. "Amor Sincero." Estava endereado " Querida do Meu Corao, Rua dos Carinhos, ao cuidado de Cupido", e tinha uma vinheta: um rapaz 
de casaca, ajoelhado no cho, a beijar a mo de uma jovem envolta numa grande capa de peles. A um canto, dois coraes trespassados por uma seta, logo acima de "Reg. 
n 745 812". " engenhoso", pensou Cubitt. " barato por um penny." Olhou vivamente por cima do ombro - ningum  vista - e virou o carto para ler. A carta provinha 
das Asas de Cupido, Travessa da Adorao: "Minha querida:  ento verdade que me desprezaste pelo filho do morgado! No imaginas at que ponto arruinaste a minha 
vida quando faltaste  palavra dada: esmagaste-me a prpria alma como uma borboleta sob a sola do teu sapato; mas no importa, eu s desejo a tua felicidade."
Cubitt arreganhou os dentes, perturbado. A sua emoo era profunda. A estava o que acontecia sempre que um homem se metia com uma pequena de boa famlia: levava 
com a tampa. Grandes Renncias, Tragdias, Poesia e Beleza se agitavam no crebro de Cubitt. Se se tratasse de qualquer marafona, naturalmente, a gente pegava uma 
navalha e cortava-lhe a cara; mas o amor descrito naquele carto era do fino. Continuou a ler: era literatura; assim  que ele desejaria escrever. "Afinal, quando 
penso na tua beleza maravilhosa e sem par, na tua

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cultura, compreendo que fui muito tolo em julgar que pudesses amar-me realmente." Humildade. A emoo dava-lhe picadas nas plpebras e ele tremia arrepiado pelo 
frio e pelo sentimento da beleza. "Mas nunca esqueas, luz da minha alma, que eu te amo e, se um dia necessitares de um amigo, devolve a pequena prenda de amor que 
te dei, e serei teu servo e teu escravo. Daquele a quem partiste o corao, John." Era o nome dele: um augrio.
Tornou a passar diante do salo de concertos e pelo convs deserto. Amor perdido. Angstias trgicas ardiam-lhe sob os cabelos cor de cenoura. Que outro remdio 
tem um homem seno beber? Tomou outro whisky num bar em frente ao molhe e seguiu caminho, plantando os ps no cho com excessiva firmeza, rumo ao Cosmopolitan: planque, 
planque, planque pela calada, como se tivesse solas de chumbo nos sapatos, como poderia caminhar uma esttua, meia pedra e meia carne. - Quero falar com Mister 
Colleoni. - Falou em tom de desafio. Os mveis forrados de veludo e os dourados minavam-lhe a confiana ntima. Esperou inquieto, junto  recepo, enquanto um groom 
ia procurar Mr. Colleoni pelas salas e boudoirs. O empregado da recepo virou as pginas de um grande livro, depois consultou um Who's Who. O groom voltou, caminhando 
no profundo tapete, seguido de Crab, gil e triunfante com o seu cabelo preto que cheirava a brilhantina.
- Eu pedi Mister Colleoni - disse Cubitt ao empregado, mas este no lhe deu ateno, molhando o dedo e folheando o
Who's Who.
- O senhor queria falar com Mister Colleoni? - perguntou
Crab.
- Isso mesmo.
- No  possvel. Est muito ocupado.
- Ocupado - retorquiu Cubitt. - Bonita palavra.
Ocupado.
- Olha quem ele , o Cubitt! - exclamou Crab. - Sem dvida, voc quer um emprego. - Olhou em redor de si com ar preocupado e perguntou ao empregado do hotel: - No 
 Lord Feversham que est ali?
- Sim, senhor.
- Tenho-o visto muitas vezes em Doncaster - disse Crab, considerando atentamente uma unha da mo esquerda. Virou-se

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para Cubitt. - Siga-me, meu rapaz. No podemos conversar aqui. - E, antes que Cubitt tivesse tempo de responder, ele avanou com agilidade e rapidez por entre as 
poltronas douradas.
-  o seguinte - explicou Cubitt -: Pinkie...
Crab parou ao meio do salo e, curvando-se e seguindo o seu caminho, tomou de sbito um tom confidencial:
- Uma bela mulher. - Os seus movimentos eram saltitantes como os de um filme primitivo. Entre Doncaster e Londres, tinha assimilado uma centena de atitudes diferentes: 
viajando em primeira classe, aps um encontro coroado de xito, aprendera com Lord Feversham a dirigir-se a um carregador; tinha visto o velho Digby analisar uma 
mulher.
- Quem  ela? - indagou Cubitt. Mas Crab no fez caso da pergunta.
- Aqui podemos conversar. - Estavam no boudoir Pompadour. Atravs da porta dourada, com caixilhos de vidro, e alm das mesas de boule, avistavam-se pequenas tabuletas 
indicadoras a apontar no meio de um labirinto de corredores - graciosas tabuletas de arte chinesa, com um ar de Palcio das Tulherias: "Senhoras", "Cavalheiros", 
"Cabeleireiro de Senhoras", "Barbearia".
-  com Mister Colleoni que eu quero falar - insistiu Cubitt. Bafejava de whisky os mveis de madeira embutida, mas estava intimidado e cheio de desespero. Resistia 
com dificuldade  tentao de dizer sir a Crab. Este subira tanto, desde o tempo em que fazia parte do bando de Kite, que estava quase irreconhecvel. Pertencia 
agora  grande organizao, com Lord Feversham e a bela mulher. Tinha crescido.
- Mister Colleoni no tem tempo para receber toda a gente.  um homem muito ocupado. - Crab tirou do bolso um dos charutos de Mr. Colleoni e p-lo na boca. No ofereceu 
nenhum a Cubitt, que lhe estendeu um fsforo com a mo vacilante. - Deixe l, deixe l - disse Crab, procurando nos bolsos do colete assertoado. Tirou um isqueiro 
de ouro e floreou-o diante do charuto. - Que  que voc quer, Cubitt?
- Pensei que talvez... - balbuciou Cubitt, mas as suas palavras murchavam entre as poltronas douradas. - Voc sabe como estas coisas so... - acrescentou, olhando 
desesperado em volta de si. - E se tomssemos qualquer coisa?

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Crab atalhou vivamente:
- Aceito, em lembrana dos velhos tempos. - Tocou uma campainha, chamando o criado.
- Os velhos tempos... - murmurou Cubitt.
- Sente-se. - Crab indicou as cadeiras douradas com mo de proprietrio. 
Cubitt sentou-se delicadamente. As cadeiras eram pequenas e duras. Viu um criado a observ-los e corou. - Que  que voc vai tomar?
- Um sherry - disse Crab. - Seco.
- Scotch com soda para mim - pediu Cubitt. Sentou-se  espera da bebida, com as mos entre os joelhos, silencioso, a cabea baixa. Lanava olhares furtivos. Era 
ali que Pinkie tinha vindo falar com Colleoni: no havia dvida de que tinha coragem.
- O servio aqui  bastante bom - afirmou Crab. - Mister Colleoni, naturalmente, quer tudo do melhor. - Pegou no seu clice e observou Cubitt enquanto este pagava. 
- Gosta de coisas boas. O homem pesa cinquenta mil libras, pelo menos. Se voc quer a minha opinio - acrescentou, recostando-se, puxando o fumo do charuto, observando 
Cubitt com um olhar distante e superior -, ele ainda acaba por entrar na poltica. Os Conservadores tm-no em grande conta... Mister Colleoni tem contactos com o 
partido.
- Pinkie... - comeou Cubitt, e o outro riu-se. - Oua o meu conselho, Cubitt: ponha-se a andar desse bando, enquanto  tempo. Voc no tem futuro... - Dirigiu um 
olhar obliquo por cima da cabea de Cubitt e disse: - Est a ver aquele homem que vai ao toilette? Esse  Mais, o fabricante de cerveja. Pesa cem mil libras.
- Eu estava a perguntar a mim mesmo se Mister Colleoni...
- No h hiptese - tornou Crab. - Ora, veja bem: que utilidade poderia voc ter para Mister Colleoni?
A humildade de Cubitt cedeu lugar a uma clera surda.
- Eu tinha bastante utilidade para Kite.
Crab riu-se.
- Perdo, mas Kite... - Sacudiu a cinza do charuto no tapete e prosseguiu: - Oua o meu conselho. Ponha-se a andar. Mister Colleoni vai fazer uma limpeza neste campo. 
Gosta que tudo seja bem feito. Nada de violncias. A Polcia tem muita confiana em Mister Colleoni. - Consultou o seu relgio. -

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Bem, bem, preciso de sair. Tenho um encontro no hipdromo. - Pousou a mo com ares protectores no brao de Cubitt. - Est bem, vou dizer uma palavra em seu favor... 
em lembrana dos velhos tempos. No adianta nada, mas fique certo de que o farei. D lembranas a Pinkie e  malta.
Passou, por entre um bafo de brilhantina e de havano, curvando-se de leve para uma senhora que estava  porta e um velho com um monculo pendente de uma fita preta.
- Quem diabo ser?... - disse o velho.
Cubitt esvaziou o seu copo e seguiu-o. Uma enorme tristeza vergava-lhe a cabea cor de cenoura, uma sensao de ter sido maltratado agitava-se entre os vapores de 
whisky - precisava de desforrar-se de alguma coisa em algum. Tudo quanto via alimentava essa chama. Entrou no salo: um groom, com uma bandeja, enfureceu-o. Toda 
a gente o observava, esperando que ele se retirasse, mas tinha tanto direito a estar ali como Crab. Correu os olhos em redor e, sentada a uma mesinha, com um clice 
de vinho do Porto, viu a conhecida de Crab. Contemplou-a com inveja e cobia, e ela sorriu para ele... "Quando penso na tua beleza maravilhosa e sem par, na tua 
cultura." O sentimento da incomensurvel tristeza da injustia tomou o lugar da clera. Queria fazer confidncias, aliviar-se de amarguras... Deixou escapar um arroto. 
"Serei o teu servo dedicado." O corpanzil girou como uma porta, os pesados ps mudaram de direco e caminharam para a mesa diante da qual Ida Arnold estava sentada.
- Ouvi-o sem querer - disse Ida -, quando o senhor passou h pouco, falar em Pinkie.
Ao ouvi-la, Cubitt percebeu com imenso prazer que ela no era da alta. Era como o encontro de dois compatriotas longe da terra natal.
-  amiga de Pinkie? - perguntou, sentindo o whisky nas pernas. - D licena que me sente?
- Cansado?
-  isso, cansado. - Sentou-se, com os olhos no vasto peito amigo. Lembrou-se da descrio do seu carcter: "Voc tem um temperamento alegre e despreocupado." Caramba, 
era verdade! Bastava que o tratassem bem.
- Toma qualquer coisa?

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- No, no - agradeceu ele com pastosa galantaria -, quem paga sou eu. - Mas, quando serviram a bebida, ele lembrou-se de que estava sem dinheiro. Tencionava pedir 
emprestado a um dos rapazes, mas dera-se aquela briga... Viu Ida Arnold pagar com uma nota de cinco libras.
- Conhece Mister Colleoni? - perguntou.
- Conhecer... no conheo.
- Crab disse que a senhora  uma bela mulher. Tinha razo.
- Ah! Crab... - fez ela vagamente, como se no reconhecesse o nome.
- Em todo o caso,  bom que se conserve  distncia. No convm envolver-se em certas coisas. -Olhava para o interior do seu copo como se ali reinasse uma treva 
profunda: do lado de fora, a inocncia, beleza sem par, cultura - o humilde adorador. Uma lgrima formou-se atrs do olho injectado.
-  amigo de Pinkie? - perguntou Ida Arnold.
- Santo Deus, no! - respondeu Cubitt, tomando mais um gole de whisky.
Uma vaga recordao da Bblia, guardada no armrio ao p da prancheta, da novela de Warwick Deeping e de Os Bons Companheiros, despertou na memria de Ida Arnold.
- Eu vi-o em companhia dele - mentiu: um ptio, uma rapariga a costurar diante do fogo, o galo cantando.
- No sou amigo de Pinkie.
-  perigoso ser amigo dele. - Cubitt olhava para dentro do seu copo como um adivinho que perscruta a prpria alma, lendo o destino funesto de um estranho. - Fred 
era amigo de Pinkie - acentuou ela.
- Que sabe de Fred?
- Fala-se para a. A humanidade est sempre a falar.
- Tem razo - disse Cubitt. Os olhos turvos alaram-se, contemplaram o conforto, a compreenso. Colleoni no o queria; tinha discutido com Pinkie; atrs da cabea 
dela, alm da janela do salo, as trevas e a mar em retirada: alm de um arco arruinado de bilhete-postal, a desolao. - Santo Deus, a senhora tem razo. - Tinha 
uma necessidade veemente de confessar, mas os factos estavam confusos. S sabia que nestas ocasies um homem necessita da compreenso de uma mulher.

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- Nunca concordei com isso - acrescentou. - Cortar  outra coisa.
- Claro, cortar  outra coisa - concordou Ida Arnold, com suavidade e destreza.
- Quanto a Kite... foi um acidente. S queriam cort-lo. Colleoni no  louco. Algum errou o alvo. No havia motivos para ressentimentos.
- Outra bebida?
- Eu  que devia pagar - lastimou-se Cubitt. - Mas estou sem vintm. At me encontrar com a malta.
- Foi um bonito gesto o seu de romper assim com Pinkie.  preciso ter coragem para fazer isso depois do que aconteceu a Fred.
- Oh!, a mim ele no mete medo. Nenhum corrimo quebrado...
- Que quer dizer com isso? Corrimo quebrado?
- Eu s queria brincar - disse Cubitt. - Brincadeira e brincadeira. Quando um homem se casa, no se deve zangar com as piadas.
- Casar? Quem se casa?
- Pinkie, naturalmente.
- No me diga que  com a pequena do Snow!
- Claro que sim!
- Que idiota! - exclamou Ida Arnold, num mpeto de clera. - Mas que idiota!
- Ele no  nenhum idiota. Sabe o que lhe convm. Se ela quisesse dar  lngua...
- Quer dizer, se dissesse que no foi Fred quem deixou o carto?
- Pobre Spicer! - fez Cubitt, olhando as bolhas que subiam no whisky. Veio-lhe  mente uma pergunta: - Como  que a senhora?... - mas no se completou no crebro 
enevoado. - Preciso de ar, est abafado aqui dentro. E se ns dois?...
- Fique mais um pouco - disse Ida Arnold. - Estou  espera de um amigo. Quero que se conheam.
- Este aquecimento central no faz bem  sade. A gente sai, apanha uma constipao e, quando d por isso...
- Quando  o casamento?
- Que casamento?

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- O de Pnkie.
- No sou amigo de Pinkie.
- No concordou com a morte de Fred, no  verdade? - insistiu Ida Arnold suavemente.
- A senhora sabe compreender um homem.
- Cortar seria outra coisa.
Cubirt explodiu de repente, com fria:
- No posso ver o rochedo de Brighton sem... - Arrotou e proferiu, com lgrimas na voz: - Cortar  outra coisa.
- Os mdicos disseram que tinha sido morte natural. Ele sofria do corao.
- Vamos at l fora - insistiu Cubitt. - Preciso de tomar um pouco de ar.
- Espere um pouquinho. Rochedo de Brighton? Que quer dizer com isso?
Cubitt fixou nela os olhos inertes.
- Preciso de tomar um pouco de ar. Nem que eu morra. Este aquecimento central... - queixou-se. - Sou muito sujeito a constipaes.
- Espere s dois minutos. - Ida ps-lhe a mo no brao, presa de intensa excitao: estava  beira da descoberta; e sentiu tambm, pela primeira vez, o ar quente 
e sufocante a rode-los, vindo dos respiradouros invisveis, empurrando-os para a rua.
- Vou sair consigo.  Vamos dar um passeio... - Ele observava-a sacudindo a cabea, com uma vasta indiferena; perdera a direco dos seus pensamentos, como um homem 
que perde a trela de um co e este desaparece sabe Deus em que mato, to longe que no  possvel segui-lo... Encheu-se de pasmo ao ouvi-la prometer: - Vou dar-lhe... 
vinte libras. - Que teria ele dito que valesse tanto dinheiro? Ela dirigiu-lhe um sorriso sedutor: - S um instantinho, enquanto me lavo e ponho um pouco de p. 
- Cubitt no respondeu: estava amedrontado, mas Ida no podia esperar pela resposta. Subiu a escada a correr: no tinha tempo para tomar o elevador.  Lavar-se: era 
o que tinha dito a Fred quando o deixara. Enquanto ela subia, outros desciam para o jantar, depois de ter mudado de fato. Bateu  porta do seu quarto e Phil Corkery 
veio abrir.
- Depressa, preciso de uma testemunha!
Felizmente ele j estava vestido. F-lo descer atropeladamente, mas, nem tinha ainda chegado ao hall, percebeu que

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Cubitt se fora embora. Correu  porta, mas o homem evaporara-se.
- E agora? - perguntou Mr. Corkery.
- Foi-se. No faz mal, agora sei com certeza. No foi suicdio. Eles mataram-no.
Repetiu devagar, de si para si: "Rochedo de Brighton..." A indicao teria parecido vaga de mais  maioria das mulheres, mas Ida Arnold estava treinada pela prancheta. 
Coisas mais esquisitas que isso haviam surgido sob os seus dedos e os do velho Crowe: o seu crebro ps-se a trabalhar com toda a segurana.
O ar da noite agitava os cabelos raros e amarelos de Mr. Corkery. Talvez lhe ocorresse que numa noite como aquela, depois dos actos de amor, toda a mulher devia 
sentir necessidade de um pouco de romantismo. Tocou-lhe timidamente no cotovelo:
- Que noite! Nunca imaginei... que noite! - Mas emudeceu assim que ela voltou para ele os grandes olhos pensativos, que no compreendiam, cheios de outros pensamentos. 
Ida disse devagar: - Aquela parva... Casar com ele... Sabe l o que vai fazer! - Uma espcie de alegria justiceira levou-a a acrescentar, toda vibrante: - Temos 
de salv-la, Phil!

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O Rapaz esperava ao p da escada. O enorme edifcio municipal dominava-o como uma sombra: registos de nascimentos e bitos, licenas de automveis, impostos e taxas, 
e algures, nalgum comprido corredor, a sala dos casamentos. Consultou o seu relgio e disse a Prewitt:
- Raios a partam, est atrasada!
-  o privilgio das noivas - tornou Mr. Prewitt. Noiva e noivo: a gua e o garanho que a serve: como uma lima no metal ou o contacto do veludo numa mo dorida.
- Eu e Dallow vamos ao encontro dela. 
Mr. Prewitt gritou-lhe:
- E se ela vem por outro caminho? E se vocs no a encontram? Eu espero aqui.
Dobraram uma esquina, para a esquerda.
- No  este o caminho - observou Dallow.
- No temos obrigao de a esperar.
- Agora j no podes fugir.
- Quem falou em fugir? Ento eu no posso fazer um pouco de exerccio? - Parou e olhou a vitrina de uma pequena loja de jornais e revistas: rdios de duas vlvulas, 
a mesma torpeza por toda a parte. - Viste Cubitt? - perguntou ele, continuando a olhar para a vitrina. 
- No. Nenhum dos outros tambm o viu.
Os jornais dirios e as folhas locais, um cartaz repleto de notcias: conflito na sesso do Conselho. Mulher afogada em Black Rock. Choque em Clarence Street. Uma 
revista de histrias do Far-West, um exemplar do Film Fun; atrs dos tinteiros, das canetas de tinta permanente, dos pratos de papel para piquenique e dos pequenos 
brinquedos indecentes, as obras de autores famosos sobre assuntos sexuais. O Rapaz contemplava fixamente aquilo tudo.
- Compreendo o que sentes - disse Dallow. - Tambm me casei uma ocasio. D uma espcie de frio no estmago. Nervos... Cheguei at a comprar um desses livros, mas 
no me ensinou nada que eu j no soubesse. A no ser sobre as flores. Os pistilos das flores. No fazes ideia das coisas giras que acontecem s flores.

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O Rapaz virou-se e abriu a boca para falar, mas os seus dentes tornaram a cerrar-se com fora. Contemplava Dallow, com ar splice e horrorizado. Se Kite estivesse 
ali, pensava, ele poderia falar... "mas se Kite estivesse aqui eu no precisaria de falar... nunca me teria envolvido em semelhante coisa".
- As abelhas... - comeou Dallow a explicar, mas calou-se de repente. - Que tens, Pinkie? No ests com muito boa cara.
- Eu conheo perfeitamente as regras - disse o Rapaz.
- Que regras?
- Tu no me podes ensinar as regras - continuou ele, com uma clera impetuosa. - No os via eu todos os sbados  noite? Aos arrancos e aos pinotes. - Os seus olhos 
esquivaram-se como se estivesse a presenciar alguma coisa horrvel. Acrescentou em voz baixa: - Quando eu era mido, jurei que havia de ser padre.
- Padre? Tu, padre? Essa  boa!
Dallow riu sem convico, moveu inquieto o p e pisou excremento de cachorro.
- Que mal h em ser padre? Eles sabem onde tm o nariz. Afastam-se... - o seu queixo caiu molemente: dir-se-ia que ia chorar; bracejou num gesto desvairado para 
a vitrina (Mulher afogada, duas vlvulas, Os Segredos do Matrimnio, o horror) - disto tudo.
- Que mal h em gozar um pouco? - retrucou Dallow, esfregando o sapato na beira do passeio.
A palavra "gozar" abalou o Rapaz como um ataque de malria.
- Com certeza no conheceste Annie Collins? - perguntou ele.
- Nunca ouvi falar.
- Andava na mesma escola que eu. - O Rapaz lanou um olhar ao longo da rua cinzenta e o vidro que cobria Os Segredos do Matrimnio tornou a reflectir o seu rosto 
jovem e desesperado. - Meteu a cabea debaixo do comboio, perto de Hassocks. Teve de esperar dez minutos pelo das sete e cinco. Vinha atrasado de Londres por causa 
do nevoeiro. Cortou-lhe a cabea. Tinha quinze anos. Ia ter um filho e j sabia o que isso era. Tinha tido outro dois anos antes e o pai podia ser qualquer um dentre 
doze rapazes.

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- Essas coisas acontecem. So os azares do jogo - disse
Dallow.
- Tenho lido histrias de amor - contou o Rapaz. Nunca estivera to loquaz, fitando os pratos de papel com as bordas pregueadas e o rdio de duas vlvulas: a elegncia 
ao p da indecncia. - A mulher de Frank l esses livros. Conheces o gnero: Lady Angeline volveu os olhos rutilantes para Sir Mark. Fazem-me nojo. Mais do que os 
outros - Dallow presenciava com assombro esse repentino acesso de eloquncia horrorizada -, aqueles que a gente compra s escondidas. Spicer aparecia com um de vez 
em quando. Sobre raparigas enganadas. Cheia de pejo por se expor assim diante dos rapazes, ela abaixou-se...  tudo a mesma coisa - considerou ele, afastando da 
vitrina o olhar envenenado e fixando-o ora num ponto, ora noutro da longa e mesquinha rua: cheiro de peixe, o cho coberto de serradura. -  o amor - disse ele, 
arreganhando os dentes para Dallow, com tristeza. - Isso  gozar.  a brincadeira.
- O mundo tem de ir para diante - objectou Dallow, perturbado.
- Porqu?
- No me venhas perguntar a mim. Tu sabes isso melhor do que eu. s catlico, no s? Deves acreditar...
- Credo in unum Satanum - replicou o Rapaz.
- No sei latim. S sei que...
- Venha de l. Vamos ver. O credo de Dallow.
- O mundo  muito bom, se a gente no se excede.
- S isso?
- So horas de estar no Registo. Ouve o relgio. Est a dar as duas.
Um carrilho de sinos rachados parou e seguiram-se uma, duas badaladas.
O queixo do Rapaz tornou a cair; ps a mo no brao de
Dallow.
- s um bom tipo, Dallow. Sabes muita coisa. Diz-me...
- Mas a mo largou o brao do outro. Olhou a rua atrs de Dallow e disse, desalentado: - A vem ela. Que estar a fazer nesta rua?
- E no vem com muita pressa - comentou Dallow, vendo aproximar-se devagar a esguia figura. quela distncia ela parecia

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ainda mais criana do que realmente era. - Pensando bem Prewitt foi esperto em conseguir essa licena.
- Consentimento dos pais - tornou o Rapaz friamente - Convenincia da moral. - Observava a rapariga como se ela fosse uma estranha a quem devesse ser apresentado. 
- Alm disso tivemos sorte, sabes? Eu no estava registado. No encontraram nos livros. Aumentaram um ano ou dois. Nem pais nem tutor. O velho Prewitt inventou uma 
histria comovente'
Rosa havia-se aprontado para o casamento, desfazendo-se do chapu que ele detestava: um impermevel novo, uns toques de ps-de-arroz e de bton ordinrio. Parecia 
uma das imagens vistosas e baratas de uma igreja pobre: uma coroa de papel ou um corao pintado no pareciam deslocados nela; podia-se rezar a essa imagem, mas 
no se podia ter esperana de ser atendido.
- Onde estiveste? No sabes que ests atrasada?
As mos de ambos no se tocaram. Um horrvel tom de formalidade se estabelecera entre eles.
- Desculpa, Pinkie.  que... - Anunciou o facto com vergonha, como se confessasse um entendimento com um inimigo dele. -  que fui  igreja.
- Para qu?
- No sei, Pinkie. Estava com as ideias embrulhadas. Pensei em me confessar.
O Rapaz arreganhou os dentes para ela.
- Confessar-te? Essa  de primeira!
- Compreendes, eu queria... eu pensei...
- O qu, pelo amor de Deus?
- Queria casar contigo em estado de graa.
No prestava a menor ateno a Dallow. A expresso teolgica parecia estranha e pedantesca nos seus lbios. Eram dois catlicos a conversar na rua cinzenta. Compreendiam-se. 
Ela usava termos comuns ao Cu e ao Inferno.
- E confessaste-te? - perguntou o Rapaz.
- No. Toquei a campainha e perguntei pelo padre James -, mas depois lembrei-me. No adiantava nada em me confessar. Vim-me embora. - E acrescentou, com uma mescla 
de medo e de orgulho: - Vamos cometer um pecado mortal.
- No vale de nada voltares  confisso... enquanto ns dois estivermos vivos - disse ele com um prazer amargo

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e torturado. Tinha-se diplomado na dor, deixando para trs primeiro o compasso, depois a navalha. Tinha a impresso, agora, de que os assassnios de Hale e de Spicer 
no passavam de actos triviais, de brincadeiras de rapaz, e ele deixara de ser criana. O homicdio s havia resultado naquilo: naquela corrupo. -  melhor irmos 
andando - lembrou, tocando-lhe no brao quase com ternura.
Como j lhe acontecera uma vez, sentiu que tinha necessidade dela.
Mr. Prewitt acolheu-os com uma jovialidade oficial. Todos os seus gracejos pareciam pronunciados no tribunal, com uma inteno ulterior, para serem ouvidos pelo 
juiz. Havia um cheiro de desinfectante no grande vestbulo burocrtico, com os seus corredores por onde circulavam a morte e o nascimento. As paredes eram ladrilhadas 
como as de uma sentina pblica. Algum deixara cair uma rosa. Mr. Prewitt citou logo, incorrectamente: "Rosas, rosas por todo o caminho, e nem um raminho de teixo!" 
A mo suave e cncava guiou o Rapaz pelo cotovelo:
- No, no, por a no. A so os impostos. Isso vir depois. - Conduziu-os por uma grande escada de pedra. Um funcionrio passou por eles, levando impressos. - 
Em que est a pensar a noivinha? - disse Mr. Prewitt. 
Ela no respondeu.
S os noivos podiam subir os degraus do santurio, ajoelhar-se dentro do santurio, com o sacerdote e a hstia.
- Os pais no vm? - perguntou Mr. Prewitt. Ela sacudiu a cabea negativamente. - O principal  que leva pouco tempo. Basta assinar o nome na linha pontuada. Sentem-se 
aqui. Temos de esperar a nossa vez, como sabem.
Sentaram-se. Uma vassoura estava encostada a um canto, contra a parede de azulejo. Os passos de um funcionrio rangeram no pavimento gelado de um outro corredor. 
Momentos depois abria-se uma grande porta: viram l dentro uma fileira de escriturrios que no levantaram os olhos; um casal saiu para o corredor, seguido de uma 
mulher que pegou na vassoura. O homem, de idade madura, disse "Obrigado" e deu-lhe seis pence, acrescentando: "Ainda apanhamos o comboio das trs e quinze." O rosto 
da recm-casada tinha uma expresso de leve assombro e perplexidade, nada de to definido como a

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decepo. Usava um chapu de palha castanho e levava uma pasta. Era tambm, de meia-idade. Talvez estivesse a pensar: "Ento  s isto... depois de tantos anos?" 
Desceram a vasta escada, um tanto afastados, como estranhos numa grande loja.
-  a nossa vez - disse Mr. Prewitt, erguendo-se vivamente.
Conduziu-os atravs da sala em que trabalhavam os escriturrios. Ningum se deu ao trabalho de levantar os olhos. Penas traavam algarismos rpidos e continuavam 
a correr. Numa salinha interna, com as paredes pintadas de verde como uma clnica, o funcionrio do registo estava  espera: uma mesa, trs ou quatro cadeiras junto 
 parede. No era assim que ela imaginava um casamento: por um instante, intimidou-se ante a fria pobreza da cerimnia oficial.
- Bom dia - disse o funcionrio. - As testemunhas faam o favor de sentar-se... o senhor e a senhora...
Chamando-os com um aceno e encarando-os com importncia atravs dos culos de aros de ouro, era como se se considerasse quase um sacerdote. O corao do Rapaz bateu 
com fora: sentia nuseas ante a realidade do momento. Tinha um ar mal-humorado e estpido.
- So muito novos, os dois - observou o funcionrio.
- Isso j est arranjado - tornou o Rapaz. - No se incomode. Est tudo arranjado.
O homem deitou-lhe um olhar de intensa antipatia.
- Repita as minhas palavras - disse ele, continuando com excessiva rapidez: - Declaro solenemente que no conheo nenhum impedimento legal... - O Rapaz no pde 
acompanh-lo. O funcionrio volveu em tom spero: -  muito simples. Basta repetir as minhas palavras...
- V mais devagar - rogou o Rapaz.
Tinha vontade de pr um ponto naquilo, mas em vo: numa questo de segundos estava a repetir a outra frmula: "... minha esposa legtima". Procurava assumir um ar 
indiferente, evitando olhar para Rosa, mas as palavras saam-lhe carregadas de vergonha.
- No tem anel? - perguntou o funcionrio em voz dura.

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- No precisamos de anel. Isto no  nenhuma igreja - disse o Rapaz, sentindo que nunca mais conseguiria varrer da memria a fria sala verde e os culos de ouro.
Ouviu Rosa repetir a seu lado: "Invoco o testemunho das pessoas presentes..." e a palavra "marido". Olhou vivamente para ela. Se o seu rosto tivesse uma expresso 
satisfeita, t-la-ia esbofeteado. Mas s notou surpresa, como se estivesse a ler um livro e tivesse chegado depressa de mais  ltima pgina.
- Assinem aqui - disse o funcionrio. - So sete xelins e seis pence.
Tomou um ar de despreocupao oficial enquanto Mr. Prewitt procurava nos bolsos.
- As pessoas presentes - disse o Rapaz, com um riso entrecortado. - Isso  com vocs, Prewitt e Dallow.
Pegou na pena e o aparo do governo arranhou a pgina, juntando lanugem; nos tempos antigos, lembrou-se ele, os pactos como aqueles eram assinados com o prprio sangue. 
Recuou um passo e observou Rosa enquanto ela assinava desajeitadamente: a sua segurana temporal em troca de duas eternidades de tormentos. No tinha a menor dvida 
de que aquilo era um pecado mortal, e sentia uma espcie de hilaridade e orgulho sinistro. Via-se agora como um homem adulto por quem os anjos choram.
- As pessoas presentes - repetiu, sem fazer o menor caso do funcionrio. - Vamos beber qualquer coisa.
- Como! - exclamou Mr. Prewitt. - Isso  uma surpresa, vindo da sua parte.
- Oh!, o Dallow que lhe conte. J bebo tambm. - Relanceou os olhos para Rosa. - No h nada que eu no faa agora. - Tomou-a pelo cotovelo e conduziu-a para o corredor 
ladrilhado: a vassoura tinha desaparecido e algum apanhara a flor. Um casal levantou-se ao v-los sair: o mercado continuava firme. - Isto  o que se chama um casamento. 
J viste coisa parecida? Ns somos... - queria dizer "marido e mulher", mas o seu esprito recuou diante da expresso definidora. - Precisamos de festejar - disse 
ele; e, como um velho parente que nunca deixa de meter a sua palavra a despropsito, o seu crebro replicou: "Festejar o qu?" Pensou na mulher escarrapachada no 
assento do Lancia e na longa noite que se aproximava.

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Dirigiram-se para o bar da esquina. Estava quase na hora de fechar; ele pagou cerveja aos outros e Rosa tomou um clice de vinho do Porto. No voltara a falar, desde 
que o funcionrio lhe tinha dado a frmula para repetir. Mr. Prewitt lanou um rpido olhar em volta e descansou a pasta numa cadeira. Com as suas calas escuras 
e listradas, era como se estivesse de facto num casamento.
-  sade da noiva - brindou ele com uma jocosidade que logo se apagou discretamente; era como se tivesse tentado gracejar com um magistrado e pressentisse uma resposta 
spera: o seu velho rosto recomps-se depressa, dentro de um esprito de seriedade. Disse em tom reverente: - Bebo  sua felicidade.
Ela no respondeu; estava a olhar para o seu prprio rosto num espelho com a inscrio "Cerveja extra": naquele novo ambiente, com as canecas de cerveja no primeiro 
plano, era um rosto estranho. Parecia arcar com um enorme fardo de responsabilidade.
- Por que est to pensativa? - perguntou-lhe Dallow. O Rapaz levou  boca o copo de cerveja e provou a bebida pela segunda vez: a nusea do prazer alheio comprimia-lhe 
a garganta. Observou-a com expresso azeda enquanto ela olhava silenciosamente para os seus companheiros; e mais uma vez sentiu at que ponto ela o completava. Ele 
 que conhecia os seus pensamentos, pois pulsavam, desdenhados, nos seus prprios nervos. Disse com malevolncia triunfante:
- Eu posso dizer o que ela estava a pensar. Est a pensar: "Que diabo de casamento este? No era o que eu esperava." Acertei, hem?
Rosa fez que sim com a cabea, segurando o clice de vinho do Porto como se ainda no tivesse aprendido a beber.
- Com o meu corpo eu te adoro - citou o Rapaz, dirigindo-se a ela - com todos os meus bens terrenos... e depois - acrescentou, voltando para Mr. Prewitt - dou-lhe 
uma moeda de ouro.
- Est na hora, senhores - disse o barman, mergulhando na selha vazia os copos servidos, que no tinham sido esvaziados de todo, e limpando o balco com um esfrego 
impregnado de cerveja.
- Ns estamos diante do altar, compreende, com o Padre...

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- Acabem de beber, meus senhores. Mr. Prewitt disse, perturbado:
- Todos os casamentos se equivalem aos olhos da lei. - Sacudiu a cabea tranquilizadoramente para a rapariga, que os observava a todos com os seus olhos inexperientes 
e sfregos. - Esto casados de facto. Creia no que lhe digo.
- Casados? - exclamou o Rapaz. - Chama a isto estar casados? - Juntou sobre a lngua a saliva com gosto a cerveja.
- Calma - disse Dallow. - No aborreas a pequena. No te excedas.
- Vamos, senhores, esvaziem os seus copos.
- Casados! - repetiu o Rapaz. - Perguntem-lhe a ela. Os dois homens terminaram as cervejas com ar chocado e furtivo, e Mr. Prewitt disse:
- Bem, eu vou indo.
O Rapaz olhou-os com desprezo: no compreendiam nada; e mais uma vez lhe veio um sentimento quase imperceptvel de comunho entre ele e Rosa: ela tambm sabia que 
aquela noite no significava absolutamente nada e que na realidade no houvera casamento. Disse num tom de rude amabilidade:
- Bem, vamo-nos embora - e levantou a mo para lhe pegar no brao. Viu ento a dupla imagem no espelho (Cerveja extra) e deixou cair a mo: "marido e mulher", dizia-lhe 
a imagem.
- Para onde? - perguntou Rosa.
Para onde? No tinha pensado nisso. Era preciso lev-la a qualquer parte: a lua-de-mel, o fim-de-semana  beira-mar, o presente adquirido em Margate, que sua me 
conservava na consola do fogo de sala; de um mar a outro, nada mais que uma mudana de praias.
- At logo - disse Dallow. Parou um instante  porta, viu o olhar do Rapaz, a pergunta, o apelo. No compreendeu nada e retirou-se prazenteiramente, abanando a mo 
para Mr. Prewitt, deixando-os ss.
Era como se nunca tivessem estado ss at ento, a despeito do barman que enxugava os copos: no tinham estado realmente ss no quarto das traseiras do restaurante 
nem no penhasco sobre o mar, em Peacehaven - no to ss como agora.
-  melhor irmos andando - lembrou Rosa.
Detiveram-se na rua e ouviram fechar-se atrs de si a porta da Coroa: um ferrolho correu. Tiveram a impresso de estar a ser expulsos de um paraso de ignorncia. 
C fora no lhes restava seno a experincia.
- Vamos para o Frank? - perguntou a rapariga.
Era um desses momentos de silncio repentino que acontecem nas tardes mais movimentadas: nem uma campainha de carro elctrico, nem um s apito de comboio na estao; 
uma revoada de aves subiu no ar, por cima do Old Steyne, e ficou a planar ali como se um crime tivesse sido cometido c em baixo. Ele pensou com saudades no seu 
quarto: sabia exactamente onde pr a mo para alcanar o dinheiro na saboneteira; tudo era familiar; nada de estranho ali; o aposento compartilhava a sua amarga 
virgindade.
- No - respondeu; e, como recomeassem o rudo e a balbrdia da tarde, repetiu: - No.
- Para onde, ento?
Ele sorriu com intil malcia: aonde se costumava levar uma loura elegante seno ao Cosmopolitan, chegando de Pullman no sbado ou atravessando a duna num roadster 
vermelho? Perfumes e peles caras, entrando no restaurante como uma escuna recm-pintada penetra num porto, algo de que um homem podia gabar-se em troca do acto nocturno. 
Abrangeu num longo olhar a pelintrice de Rosa, como uma penitncia.
- Vamos tomar uma suite no Cosmopolitan.
- No, mas sem brincadeira: aonde vamos?
- J te disse: para o Cosmopolitan. - E, irritando-se: - Achas que no tenho categoria para isso?
- Tu tens - disse ela -, mas eu no.
- Pois vamos para l. Eu posso pagar.  o lugar que nos convm. Havia uma mulher chamada... Eugenia, que costumava hospedar-se l.  por isso que eles tm coroas 
nas cadeiras.
- Quem era ela?
- Uma estrangeira.
- J estiveste l, ento?
- Naturalmente.
De repente ela juntou as mos, num gesto emocionado. - Eu sonhei... - Mas olhou-o vivamente, para ver se ele no estava apenas a troar, no fim de contas. O Rapaz 
disse com um ar distante:

197

- O automvel est a consertar. Vamos a p, depois mando buscar a minha mala. Onde est a tua?
- A minha qu?
- A tua mala.
- Estava to velha, to suja...
- No faz mal - disse ele com desesperada basfia -, compramos outra. Onde esto as tuas coisas?
- Coisas...
- Santo Deus, como s pateta! Quero dizer... - Mas o pensamento da noite que o esperava imobilizou-lhe a lngua. Continuou a andar pela rua, com o rosto iluminado 
pela tarde em declnio.
- Eu no tinha nada... - confessou ela. - Nada seno isto para casar contigo. Pedi um pouco de dinheiro aos velhotes, mas no mo quiseram dar. Esto no seu direito. 
O dinheiro  deles.
Iam pelo meio da rua, separados por um p de distncia. As palavras dela arranhavam a barreira, a querer entrar, como as unhas de um pssaro numa janela: ele sentia 
continuamente esse esforo de intimidade; a prpria humildade de Rosa lhe parecia uma armadilha. A rpida e tosca cerimnia dera-lhe um direito sobre ele. Rosa no 
sabia a razo; julgava (Deus o livrasse) que ele a desejava. Disse em tom rude:
- No penses que vamos ter uma lua-de-mel. Esse disparate! Estou ocupado. Tenho que fazer. Vou ter... - Parou e virou-se para ela, com uma espcie de apelo atemorizado 
(no levasse aquilo a mal): - Vou ter de me ausentar muitas vezes.
- Esperarei - disse Rosa.
Ele j entrevia a pacincia dos pobres e dos casados h muito a actuar nela como uma segunda personalidade, figura modesta e sem pejo por trs de um transparente.
Desembocaram na praia e a tarde recuou um passo, o mar ofuscava os olhos: ela contemplou-o com prazer, como se fosse um mar diferente.
- Que foi que teu pai disse hoje? - perguntou o Rapaz.
- No disse nada. Estava de birra.
- E a velha?
- Estava de birra tambm.
- Nem por isso deixaram de aceitar o dinheiro.

198

Detiveram-se no passeio em frente do Cosmopolitan e, sob a massa enorme do edifcio, aproximaram-se um pouco mais um do outro. Ele lembrou-se do groom a gritar um 
nome e da cigarreira de ouro de Colleoni... Disse devagar, com cuidado, fechando a porta  inquietao:
- Bem, aqui devemos ficar bem. - Levou a mo  gravata amarrotada, endireitou o casaco e aprumou os ombros estreitos, com um ar de deciso pouco convincente. - Vamos. 
- Ela seguiu-o a um passo de distncia, atravessando a rua e subindo os largos degraus. Duas velhas senhoras estavam sentadas no terrao, ao sol, em cadeiras de 
vime, todas envoltas em vus: tinham um ar de absoluta segurana; quando falavam, no olhavam uma para a outra, limitando-se a deixar cair tranquilamente as suas 
observaes no ar compreensivo. "Acontece que Willie...", "Sempre gostei de Willie". O Rapaz fez um rudo desnecessrio ao subir a escada.
Atravessou o tapete macio, dirigindo-se para a recepo, seguido de Rosa. No havia ningum ali. Esperou, furioso: aquilo era uma ofensa pessoal. Um groom chamou: 
"Mister Pinecoffin, Mister Pinecoffin", de um lado ao outro do hall. O Rapaz esperava. Ouviu-se a campainha de um telefone. Quando a porta de entrada tornou a abrir-se, 
ele distinguiu a voz de uma das velhas senhoras que dizia: "Foi um grande golpe para o Baslio." Surgiu ento um homem de casaco preto:
- Em que posso servi-lo?
O Rapaz comeou com raiva:
- Estou aqui  espera...
- Podia ter tocado a campainha - respondeu o empregado com frieza, e abriu um vasto livro de registo.
- Quero um quarto, um quarto de casal.
O empregado encarou Rosa, atrs dele, e virou uma folha. - No temos quarto livre.
- O preo no importa - disse o Rapaz. - Fico com uma suite.
- No h nada vago - tornou o empregado, sem levantar os olhos.
O groom, que voltava com uma bandeja, parou para observ-los. O Rapaz murmurou em voz baixa e furiosa:
- No me podem negar entrada aqui. O meu dinheiro  to bom como o dos outros...

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- Sem dvida, mas acontece que no h quarto livre.
- O empregado virou-lhe as costas e pegou num frasco de goma-arbica.
- Vem - disse o Rapaz a Rosa -, esta pocilga cheira mal.
- Saiu com grandes passadas e desceu a escada, tornando a passar pelas duas velhas; lgrimas de humilhao picavam-lhe as plpebras. Tinha um mpeto doido de gritar 
quela gente que no podiam trat-lo assim, que era um assassino, que sabia matar sem ser descoberto. Queria vangloriar-se. Podia dar-se o luxo de se hospedar naquele 
hotel como qualquer outro: tinha automvel, advogado, duzentas libras no banco...
- Se eu tivesse um anel... - disse Rosa. Ele retrucou, furioso:
- Um anel... que anel? Ns no estamos casados. No te esqueas disso. No estamos casados. - Mas, uma vez na rua, dominou-se com grande dificuldade e lembrou-se 
amargamente de que tinha ainda um papel a desempenhar: no podiam obrigar uma mulher a depor contra o marido, mas nada podia impedir que ela o fizesse, excepto... 
o amor, a luxria, pensou ele com horror e azedume. E, virando-se para ela, desculpou-se em tom pouco convincente: - Irritaram-me. Depois de ter-te prometido...
- Que importa! - disse Rosa. E, de repente, com os olhos grandes e pasmados, fez a temerria afirmao: - No h nada que possa estragar este dia.
- Temos de encontrar um lugar.
- Qualquer um me serve... O Frank?
- Esta noite, no - recusou ele. - No quero nenhum dos rapazes perto de ns esta noite.
- Havemos de descobrir um lugar. Ainda no  noite. - Aquela (quando no havia corridas e no tinha negcios a tratar com ningum) era a hora que ele costumava passar 
estendido na cama, em casa de Frank. Comia uma barra de chocolate ou um cachorro quente, vendo o Sol descair atrs das chamins, adormecia, acordava, comia mais 
um pouco e tornava a dormir enquanto a noite entrava pela janela. Depois os rapazes apareciam com os jornais vespertinos e a vida recomeava. Agora, estava desorientado: 
no sabia como passar tanto tempo, quando no estava s.

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- Vamos um dia ao campo - props ela -, como fizemos aquela vez... - Fazia planos de futuro, com os olhos no mar... Ele via os anos avanar diante desses olhos, 
como a linha da mar.
- Tudo o que quiseres - disse.
- Vamos at ao molhe. No vou l desde aquela noite... Lembras-te?
- Nem eu - mentiu ele rapidamente e com facilidade, pensando em Spicer, na escurido e nos relmpagos sobre o mar; o incio de alguma coisa que parecia no mais 
ter fim. Passaram pela cancela: havia muita gente no molhe; uma fileira de pescadores vigiava as suas bias na espessa gua verde; a gua agitava-se sob os seus 
ps.
- Conheces aquela rapariga? - perguntou Rosa. O Rapaz virou a cabea, aptico.
- Onde? No conheo nenhuma rapariga aqui.
- Ali. Aposto que estava a falar a teu respeito.
A cara gorda, estpida e coberta de marcas voltou-lhe  memria, encostou o focinho ao vidro como algum peixe monstruoso no aqurio - um peixe perigoso, alguma raia 
elctrica de outros mares. Fred estava com essa rapariga e ele dirigira-se-lhes na avenida: ela tinha feito um depoimento... No se lembrava do que dissera: nada 
de importante. "Meu Deus! - pensou. - Terei de massacrar o mundo inteiro?"
- Ela conhece-te - disse Rosa.
- Nunca vi aquela cara - mentiu ele, continuando a caminhar.
-  maravilhoso andar contigo. Todos te conhecem. Nunca sonhei que havia de casar com um homem to importante.
"Quem mais? - pensou ele -, quem mais?" Um pescador recuou, atravessando-se-lhes no caminho, para atirar a linha, agitando-a no ar; atirou-a longe, mas a bia prendeu-se 
na crista de uma onda e foi arrastada na direco da praia. Estava frio no lado do molhe que ficava na sombra: de um lado da divisria de vidro era dia; do outro, 
a noite ia avanando.
- Vamos atravessar - disse ele. Ps-se a pensar de novo na pequena de Spicer: porque a deixara no automvel? Com os diabos, afinal de contas ela conhecia a brincadeira!
Rosa deteve-o:

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- Olha, no queres dar-me um? Como recordao. No so caros, s seis pence. - Era uma caixa de vidro semelhante a uma cabina telefnica. "Grave a sua voz aqui", 
dizia o letreiro.
- Vamos - repetiu ele. - No sejas tola. Para que queres isso?
Pela segunda vez, esbarrou no ressentimento sbito e imprevisto de Rosa. Era submissa, tola, sentimental e, quando menos se esperava, tornava-se perigosa. Por causa 
de um chapu, de um disco de gramofone.
- Est bem - disse ela -, ento vai-te! Nunca me deste nada. Nem sequer hoje. Se no me queres, por que no te vais embora? Por que no me deixas em paz? - Gente 
virava-se para olh-los: a cara cida e raivosa de um, o desamparado ressentimento do outro. - Para que me queres ento? - gritou-lhe Rosa.
- Pelo amor de Deus...
- Prefiro afogar-me... - comeou ela, mas o Rapaz interrompeu-a:
- Vou dar-te o disco. - Sorriu nervosamente. - Achei apenas que era uma loucura. Para que precisas de ouvir a minha voz num disco? No me vais ouvir todos os dias? 
- Apertou-lhe o brao. - s uma boa rapariga. No te nego nada. Dou-te tudo o que me pedires. - "Faz de mim o que quer... - pensava. - Por quanto tempo?" - Tu no 
estavas a falar a srio, hem? - disse, adulando-a. O rosto enrugou-se-lhe como o de um velho, no esforo de ser amvel.
- Foi uma coisa que me deu - explicou Rosa, evitando os olhos dele com uma expresso que o Rapaz no conseguiu decifrar, obscura e desesperada.
Sentiu-se aliviado, mas relutante. No lhe agradava a ideia de gravar qualquer coisa num disco: fazia-lhe lembrar as impresses digitais.
- Queres, ento, que eu te d uma coisa dessas? Afinal, no temos gramofone. No poders ouvir o disco. Que adianta t-lo?
- No preciso de gramofone - disse ela. - S queria ter o disco em casa. Pode ser que um dia tu vs para longe e, ento, eu podia pedir um gramofone emprestado e 
tu falavas - proferiu, com uma sbita intensidade que o amedrontou.
- Que queres que eu diga?

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- Qualquer coisa. Fala para mim. Diz Rosa e... mais qualquer coisa.
Ele entrou na cabina e fechou a porta. Havia uma fenda para introduzir a moeda de seis pence, um bocal e as instrues: "Fale com clareza e bem junto ao aparelho." 
A aparelhagem cientfica punha-o nervoso. Olhou por cima do ombro: l estava ela a observ-lo, sem um sorriso. Viu-a nesse momento como uma estranha, uma criana 
pobretona de Nelson Place, e um terrvel rancor se apoderou dele. Introduziu a moeda e, falando em voz baixa pelo receio de ser ouvido do lado de fora, gravou a 
sua mensagem em vulcanite: "Raios te partam, minha cadela, por que no vais para casa de uma vez para sempre e no me deixas em paz?" Ouviu a agulha a arranhar e 
o disco zunir; por fim, um estalido e o silncio.
Voltou para junto dela com o disco negro.
- Toma. Pus a qualquer coisa... palavras de amor.
Ela pegou cuidadosamente no disco e levou-o como um objecto precioso, que precisava de defender contra a multido. No prprio lado do sol comeava a esfriar. E o 
frio caiu entre eles como um argumento irrespondvel: era melhor ir para casa. Ele tinha a impresso de estar a fazer gazeta: devia estar na escola, mas no tinha 
aprendido a lio. Saram pela cancela e o Rapaz observou-a pelo canto do olho, para ver o que ela esperava agora: se Rosa tivesse mostrado qualquer excitao, t-la-ia 
esbofeteado. Ela, porm, apertava o disco contra o peito, to arrepiada de frio como ele.
- Bem, para alguma parte temos de ir - disse.
Ela indicou a escada que descia para o passeio coberto, sob o molhe.
- Vamos para ali, que  mais abrigado.
O Rapaz deitou-lhe um olhar vivo; era como se ela lhe oferecesse deliberadamente uma provao. Hesitou um momento, depois arreganhou os dentes. - Est bem, vamos 
para l. - Vibrava com uma espcie de sensualidade: o acasalamento do bem e do mal.
As luzes fericas acenderam-se de repente nas rvores do Old Steyne. Era muito cedo, porm: as suas cores plidas no ressaltavam na agonia da tarde. O longo tnel 
sob a avenida formava a seco mais ruidosa, mais vulgar e mais barata das diverses de Brighton: crianas passavam por eles a correr, com

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gorros de marinheiro, de papel, com a inscrio "No sou nenhum anjo"; um comboio fantasma rolou com estrondo, conduzindo casais de namorados para dentro de uma 
escurido povoada de berros e guinchos. Ao longo do tnel, do lado da terra, ficavam as diverses; do outro lado, pequenas lojas: Sorvetes, Caramujos, Balana Registadora, 
Caramelos de Brighton. As prateleiras subiam at o tecto: pequenas portas davam passagem para a escurido que ficava atrs, e do lado do mar no havia portas nem 
janelas; nada mais que prateleiras sobre prateleiras, do cascalho at o tecto - um molhe de caramelo de Brighton fazendo face s ondas. As luzes estavam sempre acesas 
no tnel: o ar era morno, espesso e envenenado de hlitos humanos.
- Ento, que  que tu escolhes? - perguntou o Rapaz. - Conchas ou caramelos? - Observou-a como se da sua resposta dependesse qualquer coisa importante.
- Quero um caramelo - respondeu ela.
Ele tornou a arreganhar os dentes: s o Diabo lhe podia ter inspirado aquela resposta. Rosa era boa, mas ele trazia-a como se traz Deus na Eucaristia: dentro das 
entranhas. Deus no podia escapar  boca corrupta que decidisse absorver a sua prpria perdio. Dirigiu-se com passos macios para uma portinha e olhou para dentro.
- Menina! Menina! Dois paus de caramelo. - Correu os olhos pela pequena cela cor-de-rosa como se ela lhe pertencesse: a sua memria possua-a, estava marcada com 
pegadas, um pedao especial do soalho tinha eterna importncia, se tivessem mudado a posio da caixa registadora, ele not-lo-ia. - Que  isso? - perguntou, indicando 
com a cabea uma caixa, nico objecto que no conhecia ali.
- So caramelos quebrados, que eu vendo mais baratos.
- Vm da fbrica assim?
- No. Quebraram-se. Algum idiota desastrado... - queixou-se. - Ah! Se eu soubesse quem foi...
Ele pegou nos dois caramelos e virou-se; sabia o que ia ver: nada; o passeio ficava oculto atrs das prateleiras de caramelos. Teve um sentimento momentneo da sua 
imensa esperteza.
- Boa noite - disse. Baixou-se um pouco na porta minscula e saiu. Se, ao menos, uma pessoa pudesse gabar-se da sua esperteza, aliviar a enorme presso do orgulho...

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Ficaram um ao lado do outro, a chupar os seus paus de caramelo; uma mulher empurrou-os ao passar: "Saiam do caminho, meninos." Eles entreolharam-se: marido e mulher.
- Aonde vamos agora? - perguntou o Rapaz, perturbado.
- Temos de procurar... algum stio - No h assim tanta pressa. - A ansiedade embargava-lhe um pouco a voz. - Ainda  cedo. Vamos ver uma fita? - Tornou a adul-la: 
- Nunca te levei ao cinema.
Mas o sentimento de fora abandonou-o. Mais uma vez, a apaixonada aquiescncia dela "s to bom para mm!" encheu-o de repulsa.
Carrancudo, afundado na poltrona de trs xelins e meio, na semiobscuridade, perguntava a si mesmo, crua e amargamente, do que ela estaria  espera: ao lado da tela, 
um relgio iluminado marcava as horas. Era um filme romntico: cenrios magnificentes, coxas fotografadas com minucioso cuidado, camas esotricas com a forma de 
um bote com asas. Mataram um homem, mas isso no tinha importncia; o que importava era a brincadeira. As duas personagens principais seguiam o seu curso majestoso, 
com a cama por meta: "Amo-te desde aquele primeiro dia em Santa Mnica..." Uma cano sob a janela, uma rapariga em camisa de dormir e os ponteiros do relgio a 
girar ao lado da tela.
- Como gatos! - murmurou ele de sbito para Rosa, com furor.
Era a coisa mais banal da terra: para qu assustar-se com aquilo que os ces faziam na rua? A msica gemia: "O corao diz-me que s divina." Ele cochichou:
- Afinal, talvez seja melhor irmos para o Frank - pensando: "no estaremos sozinhos l; pode ser que acontea alguma coisa; pode ser que a malta esteja a beber; 
talvez queiras festejar; no haver cama para ningum esta noite". O actor, com uma mecha de cabelo preto no meio do rosto branco e vazio, disse: "s minha, toda 
minha." Tornou a cantar sob as estrelas inquietas, num dilvio de luar incrvel e, de sbito, inexplicavelmente, o Rapaz ps-se a chorar. Fechou os olhos para conter 
as lgrimas, mas a msica continuava. Era como uma viso de liberdade para um prisioneiro. Sentia o enclausuramento e via, inteiramente inatingvel, uma liberdade 
sem limites, o fim do medo, do dio e da inveja. Era como se

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estivesse morto e comeasse a lembrar-se dos efeitos de uma boa confisso, das palavras de absolvio: estando morto, porm, aquilo no passava de uma lembrana, 
no podia sentir contrio; as suas costelas eram como vigas de ao que o mantinham preso na eterna impenitncia. - Vamos - exclamou, por fim. -  melhor irmo-nos 
embora.
Fazia noite cerrada: as luzes coloridas estavam acesas ao longo de toda a praia de Hove. Passaram devagar pelo Snow, pelo Cosmopolitan. Um aeroplano voava baixo, 
mar fora, com a luzimha vermelha a sumir-se. Debaixo de um dos abrigos de vidro, um velho riscou um fsforo para acender o cachimbo, alumiando um homem e uma rapariga 
agarrados a um canto. Uma msica soluante vinha dos lados do mar. Atravessaram Norfolk Square, em direco a Montpellier Road: uma loura com faces de Greta Garbo 
deteve-se nos degraus do Norfolk Bar para empoar-se. Um sino dobrava algures pela morte de algum e um gramofone tocava um hino numa cave.
- Talvez amanh encontremos um stio onde morar - disse o Rapaz.
Tinha consigo a chave, mas tocou a campainha. Queria companhia, conversar... mas ningum veio abrir. Tocou de novo. Era uma dessas campainhas antigas, com um cordo 
para puxar, tilintando l dentro: essas espcie de campainhas que sabem, pela longa experincia do p, das aranhas e dos quartos sem inquilinos, fazer compreender 
que uma casa est vazia. - No  possvel que todos tenham sado - proferiu ele, introduzindo a chave.
Uma lmpada ficara acesa no vestbulo. Avistou logo o bilhete preso sob o telefone: "Dois  bom ...", reconheceu a letra tosca e esgarranchada da mulher de Frank. 
"Samos para festejar as bodas. Fechem a porta  chave. Sejam felizes." Amarrotou o papel e deixou-o cair no oleado.
- Vamos para cima - disse. No alto da escada, tocou nos balastres novos do corrimo: - Ests a ver? J mandmos consertar. - Reinava no escuro corredor um cheiro 
de couve, de cozinha e de pano queimado. Ele fez um gesto com a cabea: - Esse era o quarto do velho Spicer. Acreditas em fantasmas?
- No sei...

206

O Rapaz abriu a porta do seu quarto com um empurro e acendeu a lmpada nua e cheia de p.
- A est:  pegar ou largar.
E arredou-se para que ela pudesse ver bem a grande cama de lato, o toucador com o jarro esbeiado, o guarda-roupa envernizado, o espelho barato.
-  melhor do que um hotel - disse ela -, tem mais jeito de casa.
Os dois pararam no meio do quarto como se no soubessem que fazer.
- Amanh dou uma pequena arrumao - prometeu Rosa. O Rapaz fechou a porta com estrondo.
- No tocas em nada. Isto  a minha casa, ests a ouvir? No quero que venhas aqui mudar as coisas... - Observou-a com medo: entrar no seu prprio quarto, na sua 
toca, e encontrar uma coisa estranha... - Porque no tiras o chapu? Vieste para ficar, no? - Ela tirou o chapu, o impermevel: era o rito do pecado mortal; "Era 
assim - pensou ele -, que as pessoas se votavam  perdio..." A campainha da porta tocou. Ele no fez caso. - Hoje  noite de sbado - disse, com um gosto amargo 
na boca -, so horas de deitar.
- Quem ? - perguntou ela, e a campainha tocou de novo: a inconfundvel mensagem, a quem quer que fosse, de que a casa no estava vazia. Atravessou o quarto em direco 
a ele, muito plida. - Ser a Polcia?
- Por que havia de ser a Polcia? Algum amigo de Frank. - Mas a ideia perturbou-o. Ficou  espera de que a campainha tocasse outra vez. No tocou, porm. - Bem, 
no podemos ficar parados aqui toda a noite.  melhor deitarmo-nos. - Sentia um vazio horrvel, como se tivesse passado vrios dias sem comer. Procurou fingir, tirando 
o casaco e pendurando-o nas costas de uma cadeira, que tudo era como de costume. Ao voltar-se, notou que ela no se movera: criana magrinha e meia adulta, a tremer 
entre o toucador e a cama. - Qu! - zombou ele com a boca seca. - Ests com medo...
Era como se tivesse recuado quatro anos e estivesse a provocar um camarada de escola.
- E tu, no ests? - perguntou Rosa.
- Eu? - riu para ela, com um ar pouco convincente, e adiantou-se. Um embrio de sensualidade; a lembrana de um

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vestido, de umas costas escarnecia dele: "Amo-te desde aquele primeiro dia, em Santa Mnica..." Tomado por uma espcie de fria, agarrou-a pelos ombros. Era para 
aquilo que tinha fugido de Nelson Place. Empurrou-a para a cama. -  um pecado mortal - disse, extraindo da inocncia todo o sabor que podia, procurando sentir o 
gosto de Deus na boca: uma maaneta da cama de lato, os olhos dela, mudos, assustados e aquiescentes. Ele apagou tudo isso num abrao triste, brutal e resoluto: 
um grito de dor, e o badalar da campainha que recomeava. - Com os diabos, porque no me deixam em paz?
Abriu os olhos no quarto cinzento para ver o que fizera: aquilo tinha, para ele, mais aparncia de morte do que quando Hale e Spicer haviam morrido.
- No vs, Pinkie, no vs - pediu Rosa. Ele tinha uma estranha sensao de triunfo: diplomara-se na derradeira vergonha humana. Afinal de contas, no era assim 
to difcil. Tinha-se exposto e ningum rira. No precisava de Mr. Prewitt nem de Spicer, apenas... - um leve sentimento de ternura despertou nele para com a sua 
companheira no acto. Estendeu uma das mos e beliscou-lhe o lobo da orelha. A campainha vibrou no vestbulo deserto. Parecia ter-se livrado de um enorme peso. Agora 
podia enfrentar qualquer um.
-  melhor ir ver o que esse quer.
- No vs. Tenho medo, Pinkie.
Mas ele tinha a impresso de que nunca mais sentiria medo: ao fugir do campo de corridas, tivera medo, medo da morte e mais ainda da condenao eterna - da morte 
sbita e sem confisso. Agora, era como se j estivesse condenado e no houvesse que recear, nunca mais. A abominvel campainha sacudia o longo fio de arame que 
zumbia no vestbulo, e a lmpada nua ardia sobre a cama: a rapariga, o toucador, a janela suja, a forma nua de uma chamin, uma voz cochichando "Amo-te, Pinkie". 
Aquilo era o Inferno, pois; no havia motivo para se inquietar: era o seu velho e conhecido quarto.
- Volto j. No te preocupes. Volto j.
No alto da escada, apoiou-se na madeira sem pintura do novo corrimo. Empurrou-o de leve e viu que estava bem firme. Queria cantar vitria, celebrando a sua prpria 
astcia. A campainha soou mais uma vez. Olhou para baixo: era uma queda considervel, mas no se podia ter a certeza de que um homem

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morreria caindo daquela altura. Era a primeira vez que lhe ocorria tal ideia: alguns viviam horas com a espinha quebrada e ele conhecia um velho que ainda andava 
por a, com o crnio fracturado que dava estalidos no tempo frio, quando ele espirrava. Tinha a impresso de estar a ser protegido. A campainha badalava: sabia que 
ele estava em casa. Desceu a escada, metendo as pontas dos ps nos buracos do oleado gasto: aquela casa no lhe servia. Sentia uma energia invencvel: no perdera 
vitalidade l em cima, adquirira-a, pelo contrrio. O que perdera fora o medo. No fazia a menor ideia de quem podia  estar atrs da porta, mas foi tomado de uma 
sensao de perveso jbilo. Ps a mo na velha sineta fazendo-a calar: sentia os puxes do arame. Uma estranha luta de traco se travou com o desconhecido, l fora, 
e o Rapaz ganhou. Os puxes cessaram e o outro ps-se a bater. O Rapaz soltou a sineta e dirigiu-se mansamente para a porta, mas logo a sineta recomeou a badalar, 
rachada, surda e premente. Uma bola de papel ("Fechem a porta  chave. Sejam felizes") roou-lhe no p. Abriu a porta com um movimento largo e atrevido. Era Cubitt, 
lastimavelmente bbedo. Algum lhe pusera um olho negro e tinha o hlito aZedo: a bebida Perturbava-lhe sempre  a digesto.
O  sentimento de triunfo aumentou no Rapaz; era uma vitria incomparvel.
- Que queres?
- Tenho aqui as minhas coisas - disse Cubitt. - Quero levar as minhas coisas.
- Entra e leva, ento. 
Cubitt entrou, de lado.
- No julguei que te ia encontrar...
- Anda, pega as tuas coisas e some-te.
- Onde est o Dallow? 
O Rapaz no respondeu.
- O Frank? - Cubitt pigarreou: o seu hlito azedo alcanou o Rapaz.  -Ouve, Pinkie: tu e eu... porque no continuamos amigos? Como sempre fomos...
- Ns nunca fomos amigos.
Cubitt no fez caso da resposta. Encostou-se ao telefone e observou o Rapaz com os olhos bbedos e cautelosos.

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- Tu e eu - disse ele, com o muco azedo a subir-lhe na garganta e empastando cada uma das suas palavras -, tu e eu no podemos viver separados. Olha que ns somos 
como irmos! Estamos amarrados um ao outro.
O Rapaz observava-o, parado junto  parede oposta.
- Tu e eu...  como digo. No podemos viver separados - repetiu Cubitt.
- Com certeza que Colleoni no quis saber de ti... Mas eu no aceito os restos dele, Cubitt.
Cubitt comeou a chorar um pouco. Era uma fase a que sempre chegava. O Rapaz podia medir pelas lgrimas o nmero de copos que ele tomara: elas brotaram relutantemente, 
duas lgrimas como gotas de aguardente destiladas pelos globos amarelos dos olhos.
- Tu no tens motivos para me guardar rancor, Pinkie.
-  melhor que vs buscar as tuas coisas.
- Onde est o Dallow?
- Saiu. Todos saram. - O esprito de travessura cruel tornou a nascer nele. - Estamos completamente ss, Cubitt.
Olhou para o remendo novo de oleado no lugar onde Spicer tinha cado. Mas a sua malcia no produziu efeito: a fase das lgrimas foi transitria, seguindo-se uma 
clera soturna...
- No admito que me trates como um co - bradou Cubitt.
- Foi assim que Colleoni te tratou?
- Eu vim aqui para fazer as pazes. No te podes dar ao luxo de brigar comigo.
- Posso dar-me a muito mais luxos do que tu pensas - replicou o Rapaz.
Cubitt interrompeu vivamente:
- Empresta-me cinco libras.
O Rapaz abanou a cabea. Foi tomado de uma sbita e orgulhosa impacincia: sentia-se rebaixado por aquela discusso em cima do oleado gasto, debaixo da lmpada nua 
e poeirenta, com... Cubitt.
- Por favor, pega nas tuas coisas e vai-te embora.
- Sei coisas que posso dizer a teu respeito...
- Nada.
- Fred...
- Tu irias para a forca - ameaou o Rapaz, arreganhando os dentes -, mas eu no. Sou menor.

210

- H tambm o Spicer.
- O Spicer caiu dali.
- Eu ouvi-te dizer...
- Ouviste-me dizer? Quem  que vai acreditar nisso?
- Dallow tambm ouviu.
- Dallow  um tipo s direitas. Posso confiar nele. Olha, Cubitt - continuou ele sossegadamente -, se tu fosses perigoso, eu tratava de ti. Mas d graas  tua boa 
estrela por no seres perigoso.
Voltou-lhe as costas e subiu a escada. Ouviu Cubitt arquejar atrs dele: tinha o flego curto.
- No vim aqui para discutir. Empresta-me duas libras, Pinkie. Estou liso.
O Rapaz no respondeu - "em lembrana dos velhos tempos" -, e no alto da escada voltou para a porta do seu quarto.
- Espera um bocado para eu te dizer umas coisas, meu safardana! Conheo algum que est disposto a dar-me dinheiro: vinte libras. Tu... tu ... vou dizer-te o que 
tu s.
O Rapaz parou diante da porta.
- V, diz.
Cubitt exprimia-se com dificuldade: no encontrava as palavras apropriadas. Atirou-lhe em rosto a sua raiva e o seu ressentimento em frases leves como papel:
- s mesquinho e covarde. s to covarde, que matavas o teu melhor amigo para salvares a pele. At tens medo de uma mulher! - acrescentou com um riso espesso. - 
A Slvia contou-me.
Mas esta acusao chegava um pouco tarde. Ele j se diplomara no conhecimento da ltima fraqueza humana. Ouvia-o divertido, com uma espcie de orgulho infernal. 
O retrato que Cubitt traava no tinha nada que ver com ele: era como os retratos que os homens traam de Cristo, imagens do seu prprio sentimentalismo. Cubitt 
no podia saber. Era como um professor que descreve a um desconhecido um pas cuja descrio leu nos livros: estatsticas de importao e exportao, tonelagens, 
recursos minerais, oramentos; sem saber que o outro conhece o pas Por ter sofrido sede no deserto e o assalto de bandos armados nas montanhas. Mesquinho... covarde... 
medroso: riu suavemente, zombeteiramente; era como se se tivesse elevado acima

211

de todas as trevas que Cubitt pudesse conceber. Abriu a porta do seu quarto, entrou e fechou-a  chave.
Rosa estava sentada na cama, balanando a perna como uma criana na aula,  espera do professor para dizer a lio. L fora, Cubitt praguejou, deu pontaps na porta, 
sacudiu o trinco e afastou-se. Ela disse com imenso alvio (estava acostumada com bbedos):
- Ah! Ento no era a Polcia!
- Por que havia de ser a Polcia?
- No sei. Pensei que...
- Pensaste o qu?
Mal pde distinguir a resposta:
- Kolley Kibber.
Por um momento, ficou pasmado. Depois riu baixinho, com infinito desprezo e superioridade perante um mundo que empregava palavras como inocncia.
- Esta  de primeira! Ento sabias desde comeo... Adivinhaste. E eu julgava-te to criana que ainda no tinhas sado da casca! E tu, a saberes - viu-a, com os 
olhos do esprito, naquele dia em Peacehaven e entre garrafas de vinho, no Snow -, a saberes tudo.
Ela no negou: sentada com as mos presas entre os joelhos, aceitava tudo.
- Esta  de primeira - disse ele. - Pois olha, pensando bem... s to m como eu. - Chegou-se para ela e acrescentou com uma espcie de respeito: - Entre ns dois 
no h que escolher.
Rosa levantou os olhos infantis e dedicados, jurando solenemente :
- No h que escolher.
Ele sentiu renascer o desejo, como uma nusea no ventre.
- Que noite de casamento! Tu imaginavas que uma noite de casamento pudesse ser assim?...
A moeda de ouro na palma da mo, o ajoelhar no santurio, a bno,...
Ouviram-se passos no corredor, Cubitt esmurrou a porta, esmurrou-a e afastou-se a cambalear. Os degraus da escada rangeram, uma porta bateu. Ela tornou a jurar, 
apertando-o nos braos, na atitude do pecado mortal:
- No h que escolher.

212

O Rapaz estava deitado de costas - em mangas de camisa - e sonhava. Achava-se num ptio de recreio, pavimentado de asfalto, com um pltano mirrado; uma sineta rachada 
badalou e as crianas saram, correndo na sua direco. Era novato, no conhecia ningum e estava lvido de medo: os outros vinham para ele com um propsito determinado. 
Sentiu, ento, na sua manga uma mo cautelosa e, num espelho pendurado na rvore, viu o seu reflexo e o de Kite, artrs dele: de meia-idade, jovial, sangrando pela 
boca.
- Esses midos! - disse Kite, pondo-lhe na mo uma navalha.
Ele compreendeu, ento, o que era preciso fazer: bastava ensinar-lhe uma vez s que ele no se deteria diante de nada, que no respeitava nenhuma regra.
Atirou o brao num gesto de ataque, fez uma observao incompreensvel e virou-se de lado. Uma ponta do lenol caiu-lhe sobre a boca e ele comeou a respirar com 
dificuldade. Estava no molhe e via os pilares quebrarem-se: uma nuvem negra avanou na Mancha, impetuosamente, e o mar encapelou-se: o molhe inteiro vacilou e afundou-se. 
Tentou gritar: no havia morte pior do que o afogamento. O pavimento do molhe inclinara-se fortemente, como um paquete prestes a dar o mergulho mortal: ele procurou 
galgar o declive polido e tornou a escorregar... at que se encontrou na sua cama, em Nelson Place. Ficou muito quieto, a pensar: "Que sonho!" E, de repente, comeou 
a ouvir os movimentos furtivos de seus pais na outra cama. Era noite de sbado. Seu pai resfolgava como um corredor prestes a alcanar a meta e sua me emitia um 
som apavorante de dor voluptuosa. Ele sentiu-se invadido pelo dio, pela repugnncia e pelo sentimento de solido: estava completamente abandonado e alheio ao pensamento 
deles. Pelo espao de alguns minutos, era como se estivesse morto, como se fosse uma alma no purgatrio, a observar a aco vergonhosa de uma pessoa amada.
Repentinamente, abriu os olhos: dir-se-ia que o pesadelo no podia ir mais longe; era noite profunda, no via nada e, Por alguns instantes, julgou ter voltado a 
Nelson Place. Ento, um relgio deu trs horas, batendo bem perto, como a tampa de uma lata de lixo no quintal, e ele lembrou-se, com imenso alvio, de que estava 
s. Levantou-se da cama, meio adormecido

213

(sentia um gosto desagradvel na boca seca), e procurou o toucador s apalpadelas. Apanhou o jarro, ps gua no copo dos dentes e ouviu uma voz chamar:
- Pinkie! Que , Pinkie?
Deixou cair o copo e, quando a gua se lhe entornou aos ps, ele lembrou-se com amargura.
Respondeu cautelosamente, no escuro:
- No  nada. Dorme.
J no tinha aquela sensao de triunfo ou de superioridade. Considerou o que se passara algumas horas antes como se estivesse bbedo ou sonhasse ento: a novidade 
da experincia comunicara-lhe uma exaltao momentnea. De ora em diante, no haveria mais nada de novo. Acordara. Era preciso considerar essas coisas com bom senso: 
Rosa sabia. A escurido dissipou-se um pouco diante dos seus olhos despertos e calculadores; pde distinguir os contornos das maanetas da cama e de uma cadeira. 
Ganhara e perdera terreno ao mesmo tempo: no podiam obrig-la a depor, mas ela sabia... Ela amava-o, fosse qual fosse o significado desta palavra, mas o amor no 
era coisa eterna como o dio e a repugnncia. Elas viam uma cara mais simptica, um fato mais elegante... Compreendeu, cheio de horror, que tinha de manter o amor 
dela durante a vida inteira; jamais poderia desfazer-se dela; se subisse, teria de levar consigo Nelson Place como uma cicatriz visvel; as npcias no registo eram 
to irrevogveis como um sacramento. S a morte poderia libert-lo.
Sentindo uma ansiosa necessidade de ar, dirigiu-se de mansinho para a porta. No corredor no se via nada: ouvia-se apenas um leve respirar, proveniente do seu quarto 
e do quarto de Dallow. Sentia-se como um cego observado por pessoas a quem no pode ver. Dirigiu-se s apalpadelas para o alto da escada e desceu passo a passo, 
fazendo estalar os degraus. Estendeu a mo, tocou no telefone e, com o brao sempre estendido, tomou o caminho da porta. As luzes estavam apagadas na rua, mas a 
escurido, j no encerrada entre quatro paredes, parecia dissipar-se por cima da vasta cidade. Podia distinguir os respiradouros das casas, um gato a caminhar e, 
reflectido no cu escuro, o claro florescente do mar. Era um mundo estranho, em que nunca se tinha visto sozinho. Teve uma impresso ilusria de liberdade, enquanto 
se dirigia sem rudo para o mar.

214

Em Montpellier Road, as luzes estavam acesas: ningum, e uma garrafa de leite vazia diante da porta de uma loja de gramofones; ao longe, a torre do relgio iluminada 
e as instalaes sanitrias; o ar estava fresco como o ar do campo. Podia imaginar que tinha fugido. Meteu as mos nos bolsos das calas, para as aquecer, e sentiu 
um papel estranho. Tirou-o para fora: um pedao de papel arrancado de um caderno de notas, uma letra enorme, informe e desconhecida. Ergueu-o na luz cinzenta e leu, 
com dificuldade: "Amo-te, Pinkie. No me importa o que fazes. Amo-te para sempre. Foste bom para mim. Para onde quer que vs, eu irei contigo." Devia ter escrito 
aquilo enquanto ele falava com Cubitt, pondo-o no seu bolso enquanto ele dormia. Amarrotou o papel na mo, olhando para uma lata de lixo, diante de uma casa de peixe, 
mas conteve o seu gesto. Uma intuio obscura lhe disse: quem sabe? Talvez viesse a precisar daquilo um dia.
Ouviu um murmrio, virou-se vivamente e tornou a meter o papel no bolso. Numa viela, entre duas casas de comrcio, uma velha estava sentada no cho; pde distinguir 
o rosto descorado e em decomposio; era como uma viso do Inferno. Ento ouviu o murmrio: "Bendita sois vs entre as mulheres", viu os dedos cinzentos a mover 
as contas. No era uma alma condenada; observou-a com horrorizada fascinao: era uma das que se salvariam.

215

STIMA PARTE

1

Rosa no se admirou absolutamente nada por se encontrar s ao acordar: era uma estranha no pas do pecado mortal e presumia que tudo era habitual. Sem dvida, ele 
fora tratar da vida. Nenhum despertador a obrigou a levantar-se; foi a luz matutina que a acordou, penetrando pela vidraa sem cortinas. Em dado momento ouviu passos 
no corredor e uma voz chamou "Judy", imperiosamente. Continuou deitada, perguntando a si mesma quais seriam os deveres de uma esposa - ou melhor, de uma amante.
No se deixou ficar, porm, muito tempo na cama; aquela passividade desacostumada parecia-lhe assustadora. No ter nada que fazer era o mesmo que estar morta. E 
se pensassem que ela j sabia: onde acender o fogo, onde pr a mesa, o lixo a pr l fora? Um relgio bateu as sete horas: era um relgio estranho (ela passara 
toda a sua vida, at ento, a ouvir o mesmo) e as pancadas pareciam cair mais lentas e mais suaves no ar do comeo do Vero do que as que ouvira at esse dia. Sentiu-se 
feliz e atemorizada: sete horas era horrivelmente tarde! Levantou-se precipitadamente e ia comear a murmurar os seus rpidos padre-nossos e ave-marias, ao mesmo 
tempo que se vestia, quando tornou a recordar-se... De que servia rezar agora? Tudo aquilo tinha acabado; tomara o seu partido: se o condenassem, teriam de conden-la 
a ela tambm.
No jarro no havia mais do que uma polegada de gua, com uma superfcie escura e densa e, ao erguer a tampa da saboneteira, encontrou trs notas de libra enroladas 
em volta de duas meias coroas. Tornou a pr a tampa: aquilo era mais um hbito a que tinha de afazer-se. Deu um olhar ao quarto, abriu o guarda-roupa e encontrou 
uma lata de biscoitos e um par de botas: os seus ps, ao caminhar, esmagavam migalhas de po. O disco de gramofone atraiu-lhe o olhar, na cadeira onde o tinha deixado: 
guardou-o no roupeiro, para maior segurana. Abriu ento a porta: nem um som, nem um sinal de vida.

216

Debruou-se no corrimo para olhar, fazendo ranger a madeira nova. L em baixo devia ficar a cozinha, a sala de estar, os lugares onde ela teria de trabalhar. Desceu 
cautelosamente (sete horas; que caras furiosas...) e, no vestbulo, uma bola de papel roou-lhe nos ps. Alisou-o e leu um bilhete escrito a lpis: "Fechem a porta 
 chave. Sejam felizes." No compreendeu, era como se fosse um cdigo; tinha, provavelmente, qualquer coisa que ver com esse mundo estranho onde se pecava numa cama, 
pessoas perdiam a vida de repente e desconhecidos vinham dar pontaps nas portas, amaldioando os moradores a meio da noite.
Descobriu a escada da cave: estava escura, mas Rosa no sabia onde encontrar o comutador da luz. Em dado momento quase pisou em falso e segurou-se  parede, com 
o corao a pulsar forte, lembrando-se dos depoimentos, no inqurito, sobre a maneira como Spicer tinha cado. A morte de Spicer dava  casa um ar de importncia: 
ela nunca estivera no local de uma morte recente. No fundo da escada abriu a primeira porta que encontrou, cautelosamente, esperando ouvir uma praga: era a cozinha, 
com efeito, mas estava vazia. No se assemelhava a nenhuma das cozinhas que Rosa conhecia: a do Snow, limpa, polida, movimentada; a de sua casa, que era o mesmo 
compartimento onde se ficava sentado, onde as pessoas cozinhavam, comiam, tinham birras, se aqueciam nas noites geladas e dormitavam nas cadeiras. Aquela parecia 
a cozinha de uma casa que estivesse para vender: o fogo estava cheio de carvo apagado; no peitoril da janela, viam-se duas latas vazias de sardinhas; um pires 
sujo jazia debaixo da mesa,  espera de um gato que no estava ali; um armrio achava-se aberto, cheio de coisas vazias.
Foi juntar os carves mortos; o fogo estava completamente frio: havia horas ou dias inteiros que no se acendia o lume nele. Ocorreu-lhe a ideia de que a tivessem 
abandonado: era, talvez, o que aconteceria naquele mundo, a fuga sbita com o abandono de tudo, das garrafas vazias junto com a mulher, deixando uma mensagem em 
cdigo num farrapo de papel. Quando a porta se abriu, ela esperou dar com os olhos num polcia.
Era Dallow, vestido com umas calas de pijama. Olhou para dentro, e disse:

217

- Onde est Judy? - Depois pareceu reparar nela. - Voc levantou-se cedo!
- Cedo?
Rosa no percebeu o que ele queria dizer.
- Pensei que fosse Judy que por a andasse. Lembra-se de mim? Sou Dallow.
- Pensei que era melhor acender o fogo.
- Para qu?
- Para preparar o pequeno almoo.
- Se essa gaja se esqueceu... - disse ele, dirigindo-se para um aparador e abrindo uma gaveta. - Mas que bicho lhe mordeu? No precisa do fogo. H aqui muitas coisas.
Dentro da gaveta, montes de latas: sardinhas, arenques...
- Mas o ch? - perguntou ela.
Dallow olhou-a com uma expresso estranha.
- At parece que voc quer trabalhar. Ningum aqui toma ch. Para que se dar a esse incmodo? No armrio h cerveja, e Pinkie toma o leite da garrafa. - Dallow voltou 
para a porta, pisando sem rudo com os ps descalos. - Se est com fome, v-se servindo. O Pinkie precisa de alguma coisa?
- Ele saiu.
- Santo Deus, que foi que aconteceu nesta casa? Parou  porta e lanou mais um olhar a Rosa, imvel, com as mos inteis diante do fogo apagado.
- Mas quer trabalhar?
- No - respondeu Rosa, incerta. 
Dallow estava intrigado.
-- Eu no tenciono impedi-la de fazer seja o que for. Voc  a pequena de Pinkie. Se quiser, pode acender o fogo. Eu fao calar a boca a Judy se ela resmungar, 
mas s o diabo sabe onde est o carvo. Desde Maro que no se acende o lume nesta casa.
- Eu no quero incomodar ningum - asseverou Rosa. - Desci, porque pensava que tinha de acender o fogo.
- Voc no precisa mexer nem um dedo. Oua o que lhe digo: isto  o Palcio da Liberdade. - Depois perguntou: - No viu uma tipa de cabelo vermelho por aqui?
- No vi ningum.
- Bem - disse Dallow -, at logo.

218

Ela tornou a ficar s na cozinha fria. No  preciso mexer nem um dedo... o Palcio da Liberdade... Encostou-se  parede caiada e viu uma velha folha de papel apanha-moscas 
que pendia por cima do aparador; algum, muito tempo atrs, instalara uma ratoeira junto dum buraco, mas a isca tinha sido roubada e a ratoeira fechara-se sem apanhar 
nada. Mentiam aqueles que diziam que dormir com um homem no alterava coisa alguma: passava-se, atravs da dor, para esse reino da liberdade, da ociosidade e da 
estranheza. Uma espcie de jbilo contido agitou-lhe o peito, uma espcie de orgulho. Abriu ousadamente a porta da cozinha e viu, no alto da escada, Dallow com a 
tipa de cabelo vermelho, a mulher a quem ele chamara Judy. Estavam com os lbios colados, numa atitude de paixo raivosa: dir-se-ia que infligiam um ao outro a maior 
injria de que eram capazes. A mulher vestia um roupo cor de malva, com um ramo poeirento de papoilas de papel, relquia de algum velho Novembro. Enquanto eles 
lutavam, boca contra boca, o relgio de timbre suave bateu meia hora. Rosa observava-os do fundo da escada. Tinha vivido anos no espao de uma noite. Sabia agora 
aquilo tudo.
A mulher viu-a e despegou os lbios dos de Dallow.
- Quem est a?
-  a pequena de Pinkie - disse Dallow.
- Levantou-se cedo. Tem fome?
- No. Pensei que... talvez tivesse de acender o fogo.
- Quase no usamos esse fogo. A vida  muito curta - comentou a mulher. Tinha pequenas espinhas em redor da boca e um ar de ardente sociabilidade. Alisou os cabelos 
cor de cenoura e, descendo a escada ao encontro de Rosa, colou-lhe  face uma boca hmida, de ventosa, como uma anmona no mar. Exalava um cheiro leve e ranoso 
de Californian Poppy. - Bem, querida, agora s da casa - e pareceu apresentar a Rosa, num gesto generoso, o homem seminu, a escada escura e sem passadeira, a cozinha 
deserta. Cochichou baixinho, a fim de no ser ouvida por Dallow: - No diga a ningum que nos viu, no? Frank fica danado e isto no tem nenhuma importncia, nenhuma 
mesmo.
Rosa abanou a cabea, sem dizer nada: este pas estranho absorvia-a com demasiada rapidez; mal se passava a fronteira

219

logo nos ensinavam os papis de naturalizao, nos mobilizavam...
- Isso  que  ser fixe! - disse a mulher. - Os amigos de Pinkie so nossos amigos. Voc no tardar a conhecer os rapazes.
- Duvido - falou Dallow do alto da escada.
- Queres dizer que...
- Temos de falar a srio com o Pinkie.
- O Cubitt esteve c ontem  noite? - perguntou a mulher.
- No sei - respondeu Rosa. - No conheo ningum. Houve um homem que tocou a campainha, rogou uma poro de pragas e deu pontaps na porta.
-  o Cubitt - explicou suavemente a mulher.
- Precisamos de falar a srio com o Pinkie.  perigoso - sublinhou Dallow.
- Bem, tenho de ir ter com o Frank. - Deteve-se um degrau acima de Rosa. - Se quiser mandar limpar um vestido, minha querida, ningum faz esse servio melhor que 
o Frank, ainda que no me fique bem diz-lo. No h ningum como Frank para tirar ndoas de gordura. E leva uma ninharia aos inquilinos. - Curvou-se e pousou um 
dedo sardento no ombro de Rosa. - Por sinal, esse vestido est a precisar de uma esponja.
- Mas eu no tenho outro para vestir...
- Bem, querida, nesse caso... - Curvou-se mais uma vez, e cochichou em ar de confidncia: - Pede ao teu maridinho que te compre outro - e, arrepanhando o desbotado 
roupo, galgou os degraus com longas e elsticas passadas. Rosa viu-lhe a perna de um branco morto, como uma criatura que vive num subterrneo, coberta de plos 
ruivos, um chinelo a bater com o salto frouxo. Tinha a impresso de que todos ali eram muito simpticos; parecia haver certa camaradagem no pecado mortal.
Foi com o peito inchado de orgulho que ela subiu a escada da cave. Aceitavam-na. Tinha, agora, tanta experincia como as outras mulheres. De volta ao quarto, sentou-se 
na cama e esperou. Ouviu o relgio dar as oito: no tinha fome. Sentia uma imensa liberdade: nenhum horrio a observar, nenhum trabalho a fazer. Experimentava-se 
uma pequena dor para depois gozar essa estupenda liberdade. S desejava uma coisa: exibir a sua felicidade s outras. Podia entrar agora no Snow, como qualquer

220

fregus, bater na mesa com uma colher e exigir que a atendessem. Podia gabar-se... Era uma simples fantasia, mas, com o passar dos minutos, converteu-se numa ideia, 
em qualquer coisa de realizvel. Dentro de meia hora, se tanto, abririam o restaurante para o caf. Se ela tivesse dinheiro... Ps-se a cismar, com os olhos na saboneteira: 
"Afinal de contas, estamos casados... por assim dizer, ele no me deu nada seno aquele disco; no havia de me regatear... meia coroa." Levantou-se e ficou  escuta, 
depois dirigiu-se de mansinho para o toucador. Esperou, com os dedos na tampa da saboneteira: algum vinha pelo corredor. No era Judy nem Dallow: talvez fosse o 
homem chamado Frank. Os passos seguiram para diante; ela ergueu a tampa, desenrolou as notas e tirou meia coroa. J tinha furtado biscoitos, mas nunca furtara dinheiro. 
Julgava que ia sentir vergonha, mas, em lugar desta, voltou-lhe aquele estranho sentimento de orgulho. Era como uma criana que entra para uma nova escola e entende 
imediatamente, por instinto, todos os jogos secretos e as senhas do ptio de recreio.
L fora, era domingo. Ela tinha-o esquecido, mas os sinos das igrejas reavivavam-lhe a lembrana, tangendo sobre Brighton. Novamente a liberdade ao sol matutino, 
liberdade das preces silenciosas ante o altar, das terrveis imposies feitas junto  grade do santurio. Havia passado definitivamente para o outro lado. A meia 
coroa era como uma medalha por servios prestados. Gente com roupas escuras voltava da missa das sete e meia; ela observava-a como uma espia. No os invejava nem 
os desprezava: eles tinham a sua salvao e ela tinha Pinkie e a condenao eterna.
No Snow comeavam a levantar os estores: uma rapariga que ela conhecia, chamada Maisie, punha algumas mesas para o caf. Era a nica das criadas a quem se afeioara, 
uma empregada nova como ela, e pouco mais velha. Observou-a da rua, enquanto Doris, a chefe de mesa, com o seu sorriso escarninho habitual, nada fazia seno passar 
um espanador pelos lugares onde Maisie j tinha passado. Rosa apertou a meia coroa na palma da mo: bastava-lhe entrar, sentar-se, dizer a Doris que lhe trouxesse 
uma xcara de caf e um croissant, dar-lhe dois pence de gorjeta - podia trat-las a todas com superioridade. Estava casada. Era uma mulher feliz. Que sentiriam 
elas quando a vissem entrar pela porta da frente?

221

E no entrou. A  que estava o mal: e se Doris se pusesse a chorar? Que papel faria ela ento, alardeando a sua superioridade? O seu olhar encontrou-se com o de 
Maisie atravs do vidro: a outra estava imvel, fitando-a com um espanador na mo ossuda, ainda criana, como a sua prpria imagem num espelho. E era ela, agora, 
que fazia as vezes de Pinkie, parada na rua, a olhar para dentro. Era como fazer uma coisa que j se fizera anteriormente.
A porta abriu-se.
- Rosa, que foi que aconteceu? - perguntou Maisie. Ela devia ter chagas para mostrar; sentia-se vexada por s ter felicidade.
- Quis ver-te, mais nada. Estou casada.
- Casada?
- Mais ou menos.
- Oh! Rosa, diz-me como !
- Uma maravilha.
- Tens casa?
- Tenho.
- Que  que fazes todo o dia?
- Absolutamente nada.  s ficar deitada na cama.
O rosto infantil que tinha diante de si enrugou-se de pesar. 
- Tens sorte, Rosa! Onde foi que o conheceste?
- Aqui.
Uma mo ainda mais ossuda que a sua agarrou-lhe o pulso:
- Oh! Rosinha, ele no tem um amigo? 
Rosa respondeu logo:
- Ele no tem amigos.
- Maisie! - chamou uma voz estridente de dentro do caf. - Maisie!
As lgrimas estavam prestes a correr - dos olhos de Maisie, no dos de Rosa: ela no pretendera magoar a amiga. Um impulso de compaixo levou-a a dizer:
- No  assim to bom, Maisie. - Procurou desfazer a aparncia da sua prpria felicidade. - s vezes ele  bruto comigo. Nem tudo so rosas.
"Mas, se nem tudo so rosas, que , ento?", e, maquinalmente, enquanto regressava para a casa do Frank sem o seu caf, comeou a pensar: "que fiz eu para merecer 
tanta felicidade?". Cometera um pecado, eis a resposta: estava gozando a

222

ventura neste mundo e no no outro, e pouco se inquietava com isso. Estava ligada a ele, como a voz dele estava gravada no disco.
Algumas portas antes da casa de Frank, numa loja onde se vendiam os jornais de domingo, Dallow chamou-a:
- Eh! Pequena! - Rosa parou. - Tem uma visita  sua espera.
- Quem?
- Sua me.
Teve um sentimento de gratido e de piedade: sua me no fora to feliz como ela.
- D-me um News of the World. A minha me gosta de ler os jornais de domingo. - Na salinha das traseiras estavam a tocar um gramofone. Rosa pediu ao dono da loja: 
- Um dia, o senhor deixa-me vir c tocar um disco que eu tenho?
- Claro que deixa - disse Dallow.
Atravessou a rua e tocou a campainha de Frank. Foi Judy quem veio abrir: estava ainda de roupo, mas tinha posto o espartilho por baixo.
- Est c uma visita. 
- J sei.
Rosa subiu a escada a correr. Era o maior triunfo que se podia ambicionar: receber sua prpria me em casa, pela primeira vez, oferecer-lhe uma cadeira, olharem 
uma para a outra com a mesma experincia. Sua me j no conhecia nada a respeito dos homens que ela no conhecesse tambm: tal era a recompensa do doloroso ritual 
da cama. Empurrou alegremente a porta e deu de cara com a mulher.
- Que  que a senhora?... - comeou ela; e acrescentou: - Disseram-me que era a minha me.
- Tinha de lhes dizer alguma coisa - explicou suavemente a mulher. - Entre, minha querida, e feche a porta - pediu ela, como se o quarto fosse seu.
- Vou chamar o Pinkie.
- Gostaria de trocar duas palavras com o seu Pinkie. 
No era possvel contorn-la: estava ali como o muro ao fundo de um beco, coberto pelas mensagens obscenas de um inimigo, rabiscadas a giz. Ela era a explicao, 
pareceu a Rosa, das brutalidades repentinas, das unhas cravadas no seu pulso.

223

- No h-de falar com o Pinkie - retorquiu ela. - No quero que ningum o arrelie.
- Ele ter muito com que se aborrecer, dentro em breve.
- Quem  a senhora? - implorou Rosa. - Por que se mete na nossa vida? A senhora no  da Polcia.
- Sou uma pessoa como as outras. Quero justia - disse alegremente a mulher, como se estivesse a pedir uma libra de ch. A sua grande cara sensual e prspera cobriu-se 
de sorrisos. - Quero afast-la do perigo.
- No preciso que me ajudem - disse Rosa.
- Voc devia voltar para casa.
Rosa cerrou os punhos, em defesa da cama de lato, do jarro de gua poeirenta:
- A minha casa  esta.
- No vale a pena zangar-se, minha querida - continuou a mulher. - No tornarei a perder a pacincia consigo. A culpa no  sua. Voc no sabe como so as coisas. 
Tenho pena de si, coitadinha! - murmurou ela, avanando sobre o oleado como se pretendesse tomar Rosa nos braos.
Rosa recuou, encostando-se  cama.
- No se chegue.
- Ora, no se enerve, minha querida.  intil. Como v, eu estou decidida.
- No sei o que quer dizer. Porque no fala franco?
- H certas coisas que eu tenho de lhe fazer compreender... com jeito.
- No se chegue, ou eu grito. 
A mulher deteve-se.
- Sejamos sensatas, minha querida. Eu estou aqui para o seu bem.  preciso salv-la. No v, ento... - por um momento pareceu no encontrar a palavra, depois disse, 
em voz abafada - que a sua vida est em perigo?
- Se  s isso, pode ir-se embora...
- S isso! - exclamou a mulher, chocada. - Como, s isso? - Mas refez-se e riu resolutamente: - Ora, minha querida, voc chegou a atrapalhar-me. S isso,  boa! 
J  bastante, no acha? Agora no estou a brincar. Se voc no sabe,  preciso que eu lhe diga. Ele no se deter diante de nada.
- E da? - perguntou Rosa, sem se trair.

224

A mulher murmurou baixinho, atravs da distncia que as separava:
- Ele  um assassino.
- Pensa que eu no sei isso? - exclamou Rosa.
- Santo Deus! Ento voc...
- A senhora no pode dizer-me nada que eu no saiba.
- Sua tola! Casar com ele, sabendo isso!... At tenho vontade de abandon-la  sua sorte.
- No me queixarei - disse Rosa.
A mulher pendurou outro sorriso no rosto, como quem pendura uma grinalda de flores.
- No conseguir fazer-me perder a pacincia. Se eu a abandonasse  sua sorte, nunca mais poderia dormir sossegada. No seria justo. Escute, talvez voc no saiba 
o que aconteceu. J consegui fazer uma ideia de como tudo se passou. Eles levaram Fred para debaixo da avenida, para uma daquelas lojinhas, e estrangularam-no... 
pelo menos quiseram estrangul-lo, mas o corao no resistiu e ele morreu primeiro. - Acrescentou numa voz apavorada: - Estrangularam um morto! - e logo, asperamente: 
- No est a ouvir-me?
- Eu sei tudo isso - mentiu Rosa. Estava a pensar com afinco, a lembrar-se da advertncia de Pinkie: "No te comprometas." Reflectia vaga e desordenadamente: "Ele 
fez o que pde por mim, agora tenho de ajud-lo." Observava com ateno a mulher: jamais esqueceria aquele rosto ndio e bem humorado, que comeava a envelhecer, 
encarando-a como o rosto de um idiota entre as runas de uma casa bombardeada. - Bem, se acha que foi assim, por que no vai  Polcia?
- Isso sim,  que  falar! Eu quero que tudo fique esclarecido. D-se o seguinte: h uma certa pessoa a quem eu paguei que me revelou certas coisas. Mas essa pessoa... 
esse homem no quer depor. L tem as suas razes. Ora, ns precisamos de provas, provas em quantidade, j que os mdicos afirmam que ele morreu de morte natural. 
Pois bem, se voc...
- Por que no desiste? - disse Rosa. - Isso so guas passadas. Por que no nos deixa a todos em paz?
- No seria justo. Alm disso... ele  perigoso. Olhe o que aconteceu aqui no outro dia. No venha dizer-me a mim que foi um acidente.

225

- A senhora no pensou no motivo por que ele fez isso? No se mata um homem sem razo.
- E por que foi?
- No sei.
- Pergunte-lhe.
- No preciso de saber.
- Voc pensa que ele lhe tem amor, mas engana-se - asseverou a mulher.
- Ele casou comigo.
- E porqu? Porque no se pode obrigar uma mulher a depor contra o marido. Voc  uma testemunha como esse homem tambm era. Minha querida - volveu, tentando novamente 
transpor o abismo que as separava -, eu s quero salv-la. Ele matava-a sem hesitar, se pensasse que estava em perigo.
Encostada  cama, Rosa viu-a aproximar-se. Deixou que ela lhe poisasse nos ombros as suas mos grandes e frescas, mos de doceira.
- As pessoas mudam - disse ela.
- Qual! No mudam, no! Olhe para mim. Eu nunca mudei.  como esses paus de caramelo: por mais que se morda, l-se sempre a palavra Brighton. Assim  a natureza 
humana. - Bafejava melancolicamente o rosto de Rosa com o seu hlito suave e avinhado.
- A confisso... o arrependimento... - murmurou Rosa.
- Isso no  mais do que religio. Creia no que lhe digo: ns temos de lidar com o mundo. - Deu umas pancadinhas no ombro de Rosa, enquanto o flego lhe silvava 
na garganta. - Faa a sua mala e venha comigo. Eu olharei por si. No tem nada a recear.
- Pinkie...
- Deixe Pinkie por minha conta. 
Rosa disse:
- Eu farei tudo... tudo que quiser...
- Isso  que  falar, minha querida!
- ... se a senhora nos deixar em paz.
A mulher recuou. Uma expresso momentnea de fria apareceu, discordante, entre as grinaldas.
- Teimosa! Se eu fosse sua me... dava-lhe uma boa sova... - o rosto ossudo enfrentava-a, resoluto; o esprito combativo

226

do mundo inteiro estava concentrado nele - couraados aprestavam-se para a aco e esquadrilhas de bombardeio descolavam entre os olhos firmes e a boca teimosa. 
Dir-se-ia o mapa de uma campanha, marcado com bandeirinhas.
- H mais uma coisa - mentiu a mulher: - Podem met-la na cadeia. Porque voc sabe. Acaba de mo dizer. Uma cmplice,  o que voc .
- Se prendessem Pinkie, pensa que eu me importaria? - perguntou ela, admirada.
- Mas, Deus louvado, no v que eu vim aqui apenas no seu interesse? No me daria ao trabalho de falar primeiro consigo, mas  que no quero fazer sofrer os inocentes. 
- O aforismo saiu-lhe da boca como o carto de uma automtica. - Ento no quer mover nem um dedo para impedir que ele a mate?
- Ele no me far mal.
- Voc  muito nova. No conhece a vida como eu. 
- H certas coisas que a senhora no sabe. 
Absorveu-se numa meditao sombria, enquanto a mulher continuava a argumentar: um Deus chorava num jardim e clamava numa cruz; Molly Carthew mergulhava nas chamas 
eternas.
- Sei uma coisa que voc no sabe. Sei a diferena entre o justo e o injusto. Isso no lhe foi ensinado na escola.
Rosa no respondeu; era a pura verdade: as duas palavras no tinham nenhum significado para ela. O seu sabor era suplantado por outros alimentos mais fortes: o bem 
e o mal. A respeito destes a mulher no lhe podia ensinar nada de novo. Ela sabia, por provas claras e matemticas, que Pinkie era mau: em face disto, que importava 
que ele fosse justo ou injusto?
- Voc est doida. Creio que no oporia a menor resistncia, se ele estivesse a mat-la...
Rosa voltou lentamente ao mundo exterior: "Nenhum homem tem maior amor do que este."
- Talvez no - disse ela. - No sei. Mas talvez...
- Se eu no fosse uma mulher de bom corao, abandonava-a. Mas tenho a noo das responsabilidades. - A sua grinalda de sorrisos no estava muito segura quando ela 
se deteve junto  porta. - Pode avisar o seu marido de que estou a preparar-me para o desmascarar. Tenho os meus planos.

227

- Saiu, fechou a porta e tornou a abri-la com fora, para lanar um ltimo ataque: - Tome muito cuidado, minha querida. Voc no h-de querer ter um filho de um 
assassino - e arreganhou os dentes inexoravelmente. -  bom tomar as suas precaues.
Precaues... Rosa continuava de p, aos ps da cama, apertando a mo contra o corpo, como se, por meio dessa presso pudesse descobrir... Aquilo nunca lhe havia 
passado pelo esprito; e o pensamento da conjuntura a que se expunha, desabrochou nela como uma sensao de glria. Um filho... Era como recrutar um exrcito de 
amigos em defesa de Pinkie. Se os condenassem a ambos, a ela e a Pinkie, teriam de haver-se com eles, tambm. O que haviam feito a noite passada na cama tinha consequncias 
infinitas: era um acto eterno.

228

2

O Rapaz recuou para o interior da loja de jornais e viu sair Ida Arnold. Ela tinha um ar arrebatado e altivo ao caminhar pela rua; parou e deu um penny a um garoto. 
O pequeno ficou to surpreendido, que deixou cair a moeda, embasbacado para a mulher que se afastava com passos pesados e cuidadosos.
O Rapaz soltou, de sbito, uma risada enferrujada e tbia. "Est bbeda", pensou.
- Por pouco no deste de cara com ela - disse Dallow.
- Com quem?
- Com a tua sogra.
- Aquela?... Como sabes?
- Ela perguntou pela Rosa.
O Rapaz largou em cima do balco o News of the World. Um ttulo de coluna chamava a ateno: "JOVEM COLEGIAL VIOLENTADA EM EPPING FOREST." Atravessou a rua em direco 
 casa de Frank, reflectindo profundamente, e subiu a escada. No meio dos degraus, parou: ela deixara cair uma violeta artificial dum ramalhete. Apanhou-a: cheirava 
a Californian Poppy. Entrou, escondendo a flor na palma da mo, e Rosa veio abra-lo. O Rapaz evitou-lhe os lbios.
- Ento? - disse ele, tentando assumir uma expresso de rude e afectuosa jovialidade. - Soube que a tua me veio visitar-te.
E aguardou ansiosamente a resposta de Rosa.
-  verdade - respondeu a rapariga com voz hesitante -, ela esteve aqui.
- No estava nos seus dias de mau humor?
- No.
O Rapaz amassou a violeta na palma da mo, com fria.
- Ento, ela achou que a vida de casada te convinha?
- Sim, creio que sim... Falou muito pouco.
O Rapaz dirigiu-se ao leito, pegou no casaco e vestiu-o.
- Tambm saste, segundo me disseram?...
- Lembrei-me de ir ver as amigas.
- Que amigas?
- Ora, as do Snow.

229

- Chamas-lhes amigas? - perguntou ele com desprezo. - E ento, falaste com elas?
- No cheguei a falar. S com uma, Maisie... por um instante.
- Depois regressaste aqui a tempo de apanhares a tua me. No queres saber o que andei a fazer?
Ela encarou-o com uma expresso estpida: o tom de voz do Rapaz assustava-a. - Se quiseres contar-me...
- Como, se eu quiser? No s assim to tola. - O esqueleto de arame da flor picou-lhe a palma da mo. - Preciso de falar com Dallow. Espera aqui.
Saiu. Chamou Dallow, que se encontrava do outro lado da rua e, quando o outro veio ter com ele, perguntou:
- Onde est Judy?
- L em cima.
- O Frank est a trabalhar?
- Est.
- Ento, vamos para a cozinha. - Seguiu  frente; na penumbra da cave, os seus ps esmagavam partculas de carvo. Sentou-se na beira da mesa da cozinha e disse: 
- Bebe qualquer coisa.
-  muito cedo - respondeu Dallow.
- Escuta. - O rosto do Rapaz tomou uma expresso dolorosa, como se ele se preparasse para fazer uma confisso apavorante. - Tenho confiana em ti.
- E esta! Que bicho te mordeu?
- As coisas no vo muito bem. Esta gente anda muito sabida. Caramba, matei Spicer e casei com a pequena! Terei ainda de fazer outro massacre?
- Cubitt esteve c ontem  noite?
- Esteve e eu mandei-o embora. Veio chorar, queria cinco libras.
- Deste-lhas?
- Claro que no. Pensas que vou deixar que um tipo desses me arranque dinheiro?
- Devias ter-lhe dado alguma coisa.
- No  ele que me preocupa.
- Pois devia ser.
- Cala-te, por favor - ganiu o Rapaz com voz estridente. Indicou o tecto da casa com o polegar. -  ela quem me

230

preocupa. - Abriu a mo e disse: - Com os diabos, deixei cair a flor.
- A flor?...
- Cala-te, por favor, e ouve - disse o Rapaz em voz baixa e furiosa. - No foi a me dela que esteve c. 
- Quem foi, ento?
- A tal sujeita que anda a fazer perguntas... a que andava de txi com o Fred, no dia... - Segurou um instante a cabea com as mos, numa atitude de aflio e desespero, 
mas no era nem uma nem outra destas coisas; era o tropel das recordaes. - Di-me a cabea. Preciso de reflectir com clareza. A Rosa disse-me que era a me dela. 
Que  que ela pretende?
- Acreditas que a Rosa tenha falado? - perguntou Dallow.
- Tenho de descobrir isso.
- Eu teria confiana na rapariga. Inteira confiana.
- Pois eu no tenho confiana em ningum at esse ponto. Nem mesmo em ti, Dallow.
- Mas, se ela anda a dar  lngua, por que o faz para essa mulher e no para a Polcia?
- Por que  que nenhuma delas vai  Polcia? - Fixou um olhar perturbado no fogo apagado. A sua ignorncia atormentava-o. - No sei o que querem. - Os sentimentos 
alheios perfuravam-lhe o crebro: at ento, nunca havia sentido esse desejo de compreender. - Tenho vontade de cortar toda essa maldita cambada - exclamou com veemncia.
- Afinal de contas - volveu Dallow -, a rapariga no sabe muita coisa. S sabe que no foi Fred quem deixou o carto. Se queres saber o que penso, ela  uma burrinha. 
Dedicada, sim, mas burra.
- Tu  que s burro, Dallow. Ela j descobriu uma poro de coisas. Sabe que eu matei Fred.
- Tens a certeza?
- Foi ela mesmo quem mo disse.
- E casou contigo? Diabos me levem se entendo o que elas querem.
- Se no tomarmos providncias sem demora, est a parecer-me que toda Brighton acabar por saber que matmos o Fred. Toda a Inglaterra. Todo o mundo, com os diabos!
- Que poderemos fazer?

231

O Rapaz foi at a janela da cave, esmagando carvo com os ps; um pequenino ptio asfaltado, com uma velha lata de lixo que no era utilizada h semanas, uma grade 
obstruda e um cheiro a bafio.
- Agora no podemos parar - disse ele. - Temos de ir para a frente. - Passava gente na calada, invisvel da cintura para cima: um par de sapatos velhos arrastou-se 
pelo cho, com as biqueiras gastas; uma cara barbuda surgiu de repente,  procura de uma ponta de cigarro. O Rapaz disse devagar: - Deve ser fcil livrarmo-nos dela. 
Livrmo-nos de Fred e de Spicer, e ela  apenas uma garota...
- Deixa-te de loucuras! No podes continuar assim.
- Talvez seja forado a isso. E se no tiver outro remdio? Talvez seja sempre assim: a gente comea e depois tem de continuar para a frente.
- Ests a cometer um erro - atalhou Dallow. - Sou capaz de apostar uma nota de cinco em como a rapariga  fixe. Tu mesmo me disseste que ela est apaixonada por 
ti!
- Por que  que ela me disse ento que aquela mulher que veio c era a me dela?
Viu passar uma mulher: nova, pelo menos at as coxas; acima destas no se podia ver. Foi sacudido por um espasmo de nojo: tinha cedido at o ponto de orgulhar-se 
daquilo, do que podia ter feito com Slvia, a pequena de Spicer, dentro de um Lancia. Oh! Supunha que no havia mal nenhum em provar uma vez de cada bebida... contanto 
que se pudesse ficar por a, dizendo "nunca mais", e no continuar...
- Eu prprio vejo - disse Dallow. - No h nada mais claro. Ela est apaixonada por ti, de verdade.
Apaixonada: saltos altos e cambados, pernas nuas que se afastavam.
- Se ela est apaixonada, a coisa torna-se ainda mais fcil... far o que eu disser.
Um pedao de jornal corria ao longo da rua: o vento vinha do mar.
- Pinkie, eu no me meto em mais mortes.
O Rapaz virou as costas para a janela e a sua boca fez um mau arremedo de jovialidade:
- Mas se ela se matasse?

232

Um orgulho insano cresceu-lhe no peito. Sentia-se inspirado: era como o amor  vida voltando ao corao vazio; a casa desocupada, depois os sete demnios piores 
do que o primeiro...
- Pelo amor de Deus, Pinkie, ests a imaginar coisas!
- Em breve veremos - respondeu ele.
Subiu a escada da cave, procurando com os olhos a flor perfumada de arame e pano. No a encontrou. A voz de Rosa chamou-o por cima do corrimo novo. Ela esperava-o 
ansiosamente no patamar.
- Pinkie, preciso de te dizer uma coisa. No queria que te aborrecesses, mas tem de haver ao menos uma pessoa a quem eu no minta. No foi a minha me quem esteve 
aqui, Pinkie.
Ele subiu devagar, observando-a com ateno.
- Quem era?
- Aquela mulher, a que ia fazer perguntas ao Snow.
- Que queria ela?
- Queria que eu me fosse embora de c.
- Porqu?
- Pinkie, ela sabe.
- Por que disseste que era a tua me?
- J te expliquei: no queria que te preocupasses.
O Rapaz estava ao lado dela, observando-a: Rosa encarava-o com uma candura inquieta e ele sentiu que acreditava nela tanto quanto podia acreditar em algum. O seu 
orgulho susceptvel e desassossegado acalmou-se; teve uma estranha sensao de paz, como se, por algum tempo, ao menos, estivesse dispensado de urdir planos.
- Mas depois - prosseguiu Rosa, cheia de ansiedade - pensei... que talvez fosse bom que te preocupasses.
- Est bem - retorquiu ele, afagando-lhe o ombro num abrao desajeitado.
- Ela falou em ter dado dinheiro a algum. Disse que estava a preparar-se para te desmascarar.
- Isso no me preocupa - afirmou ele, apertando-a contra si.
De repente o seu abrao afrouxou e ele olhou por cima do ombro de Rosa. L estava a flor, na soleira da porta. Tinha-a deixado cair e depois... Ps-se imediatamente 
a calcular: "ela seguiu-me, naturalmente viu a flor, percebeu que eu sabia. Isso explica tudo, a confisso..." Enquanto ele estava na cave a conversar

233

com Dallow, ela perguntava a si prpria o que deveria fazer para reparar o seu erro. Abrir-se... a expresso provocou-lhe o riso: abrir-se como uma rameira se abria, 
como Slvia se abrira no automvel. Tornou a rir: o horror do mundo era como uma infeco na sua garganta.
- Que foi, Pinkie?
- Aquela flor.
- Que flor?
- A que ela trouxe. 
-Qual?... Onde?...
Talvez, ento, no a tivesse visto... Talvez fosse, de facto, honesta... quem sabe? Quem, perguntou a si prprio, quem saber jamais? E, com uma espcie de emoo 
triste: afinal de contas, que importa? Fora um tolo em pensar que isso fizesse alguma diferena: no podia arriscar-se de modo nenhum. Se ela era honesta e o amava, 
a coisa seria muito mais fcil, simplesmente.
- No me preocupo com isso - repetiu. - No preciso de me preocupar. Mesmo que ela venha a descobrir tudo, eu sei o que devo fazer. - Observou-a com um olhar astuto; 
cingiu-a com o brao e apertou-lhe o seio. - No vai doer - disse ele.
- Que  que no vai doer, Pinkie?
- O modo como resolverei as coisas... - respondeu, disfarando habilmente a sua insinuao tenebrosa. - Tu no me queres deixar, pois no?
- Nunca - exclamou Rosa.
- Era isso que eu queria dizer. Tu escreveste-o, no foi? Fica certa de que eu acharei uma soluo, em ltimo caso... uma soluo que no seja dolorosa para nenhum 
de ns. Podes confiar em mim - prosseguiu com rapidez e suavidade, enquanto ela o contemplava com a expresso lograda e aturdida de algum que se atreveu a prometer 
demasiado. - Eu sabia que o teu sentimento seria esse. Aquilo que tu escreveste: que nunca nos separaramos.
Ela cochichou, aterrada:
-  um pecado mor...
- S mais um - murmurou ele - que diferena faz? No podemos ser condenados duas vezes e j estamos condenados, segundo dizem. Em todo o caso, ser s se acontecer 
o pior... se ela descobrir o que houve com Spicer.

234 

- Spicer? - gemeu Rosa. - Queres dizer que o Spicer tambm...
- Se ela descobrir que eu estava aqui,  o que eu quero dizer. Aqui em casa... Mas no temos de nos preocupar enquanto isso no acontecer.
- Mas Spicer... - tornou Rosa.
- Eu estava aqui quando ele caiu, mais nada. Nem sequer o vi cair, mas o meu advogado...
- Ele estava aqui tambm?
- Estava.
- Agora me lembro - considerou Rosa. - Li o jornal, naturalmente. No iam certamente acreditar que ele fosse encobrir um crime, pois no? Um advogado!
- O velho Prewitt - completou o Rapaz. - Ora ... - O riso enferrujado entrou novamente em aco - ele  a honradez em pessoa! - Tornou a apertar-lhe o seio e proferiu 
as habituais palavras tranquilizadoras: - Oh! No h motivo para preocupaes, enquanto ela no descobrir. Mesmo ento, teremos essa soluo que tu sabes. Mas talvez 
ela nunca venha a descobrir. E, se no descobrir, ora... - Os seus dedos tocavam-na com secreta repugnncia. - Ns continuaremos como estamos.
E tentou dar  monstruosidade uma aparncia de amor.

235

3

Era, no entanto, "a honradez em pessoa" que realmente o inquietava. Se Cubitt tivesse despertado na mulher a ideia de que havia qualquer coisa de suspeito tambm 
na morte de Spicer, a quem se dirigiria ela, seno a Mr. Prewitt? No faria nenhuma tentativa junto de Dallow; mas um homem de leis, quando era to sagaz como Prewitt, 
tinha sempre medo da lei. Prewitt era como um homem que tivesse em casa um leozinho domesticado: jamais teria a certeza de que o animal a que ensinara tantas habilidades, 
a pr-se de p nas patas traseiras e a comer da sua mo, no se voltaria um dia contra ele ao tornar-se adulto. Bem podia ser que desse um corte na face, ao barbear-se, 
e a lei, farejando sangue...
Depois do meio-dia, o Rapaz comeou a sentir-se sobre brasas; saiu e tomou o rumo da casa de Prewitt, no sem recomendar a Dallow que no perdesse a rapariga de 
vista. Tinha, mais do que nunca, a impresso de ser compelido a avanar, a mergulhar mais fundo do que pretendia. Advinha-lhe disso um prazer estranho e cruel: afinal, 
que importava? A situao estava a resolver-se por si e bastava que ele se deixasse levar. Sabia qual podia ser o fim e este no o horrorizava: era mais fcil do 
que viver.
A casa de Mr. Prewitt ficava para alm da estao, numa rua paralela ao caminho de ferro: era sacudida pelas locomotivas em manobra; o p de carvo acumulava-se 
continuamente nos vidros, nas janelas e na placa de lato. Da janela da casa, uma mulher desgrenhada ergueu os olhos, fitando-o com ar desconfiado. Aquele rosto 
duro e amargo estava sempre ali a vigiar os visitantes; o advogado nunca explicara quem era aquela mulher e o Rapaz pensava que fosse a cozinheira. Desta vez, porm, 
compreendeu que era a "esposa" - vinte e cinco anos de brincadeira. A porta foi aberta por uma rapariga de pele cinzenta, terrosa, um rosto desconhecido.
- Onde est a Tillie? - perguntou o Rapaz.
- Foi-se embora.
- Diga a Prewitt que est aqui o Pinkie.
- Ele no recebe ningum - respondeu a rapariga. - Hoje  domingo, no ?

236

- A mim recebe-me. - O Rapaz entrou no vestbulo, abriu uma porta e sentou-se num aposento cujas paredes estavam forradas de arquivos: conhecia o caminho. - V avis-lo. 
Bem sei que ele est a dormir. Acorde-o.
- O senhor parece ser da casa - observou a rapariga.
- E sou.
Ele sabia o que continham as caixas de arquivo com as etiquetas "Rex contra Innew", "Rex contra T. Collins": continham apenas ar e nada mais. Um comboio entrou no 
desvio e as caixas vazias tremeram nas prateleiras; apenas uma frincha da janela estava aberta, mas ouvia-se o rdio do vizinho: "Rdio Luxemburgo."
- Feche a janela - ordenou ele. A criada obedeceu, mal- humorada. Era intil: as paredes eram to delgadas que se percebiam os movimentos do vizinho atrs das prateleiras, 
como os de um rato. - Essa msica nunca deixa de tocar? - perguntou o Rapaz.
- S quando comeam a falar.
- Por que espera? V acord-lo.
- Ele disse-me que no o acordasse. Est com indigesto.
A salinha tremeu de novo e a msica continuou a gemer atravs da parede.
- Ele tem sempre indigesto depois do almoo. V acord-lo.
- Hoje  domingo!
-  melhor ir de uma vez.
Diante da obscura ameaa do visitante, ela saiu batendo com a porta e fazendo cair um pedao de calia do tecto.
Debaixo dos ps de Pinkie algum arrastava os mveis: "a esposa", pensou ele. Um comboio apitou e uma nuvem de fumo encheu a rua. Mr. Prewitt ps-se a falar l em 
cima: nada havia ali que abafasse os sons. Seguiram-se passos no soalho e na escada.
Mr. Prewitt arvorou o seu sorriso ao abrir a porta.
- Que traz por c o nosso jovem amigo?
- Queria apenas falar consigo, saber como passa. - Um espasmo de dor fez desaparecer o sorriso do rosto de Mr. Prewitt. - O senhor devia ter mais cuidado com o que 
come - aconselhou o Rapaz.

237

- No h nada que no me faa mal.
- O senhor bebe de mais.
"Come e bebe, que amanh..."
Mr. Prewitt torceu-se, com a mo na boca do estmago.
- Tem alguma lcera? - perguntou o Rapaz.
- No, nada disso.
- Devia tirar uma radiografia.
- No acredito na faca - disse Mr. Prewitt com vivacidade e nervosismo, como se aquele conselho fosse uma insinuao constante para a qual tinha de ter uma resposta 
sempre pronta na ponta da lngua.
- Esta msica nunca pra?
- Quando estou farto, bato na parede.
Pegou num pesa-papis de cima da escrivaninha e deu duas pancadas na delgada parede de tijolo. A msica subiu de volume, oscilou e cessou. Ouviram o vizinho mover-se, 
furioso, atrs das prateleiras.
"- Que temos agora? Um rato?" - citou Mr. Prewitt. A casa tremeu, abalada por uma pesada locomotiva que se punha em movimento. - Polnio - explicou Mr. Prewitt.
- "Polony?" (1). De que mulher est a falar?

Nota 1: O Rapaz confundiu Polonius, personagem do Hamlet, com polony, mulher, em calo.

- No, no; refiro-me ao tolo rematado e intrometido: no Hamlet.
- Escute - disse o Rapaz com impacincia -, no esteve aqui uma mulher a fazer perguntas?
- Que espcie de perguntas?
- Sobre Spicer.
Mr. Prewitt indagou com um desespero doentio:
- J andam a fazer perguntas? - Sentou-se vivamente e dobrou-se em dois, torturado pela indigesto. -  o que eu esperava.
- No  preciso assustar-se. Eles no podem provar nada. No se desvie nem uma letra do que disse. - Sentou-se diante de Mr. Prewitt e considerou-o com um desdm 
carrancudo. - No h-de querer arruinar a sua vida.

238

Mr. Prewitt levantou vivamente os olhos:
- Arruinar? J estou arruinado. - Vibrou na sua cadeira, sacudido pelas locomotivas, e qualquer coisa na casa bateu soalho sob os ps de ambos. - Ol, velha toupeira! 
- exclamou Mr. Prewitt. - A esposa... voc nunca foi apresentado  esposa.
- J a vi - disse o Rapaz.
- Vinte e cinco anos e agora isto. - A fumarada desceu atrs da janela como um estore. - Nunca lhe ocorreu que voc  um homem de sorte? O pior que lhe pode acontecer 
 ir para a forca. Mas eu posso apodrecer...
- Que  que o preocupa? - perguntou o Rapaz.
Estava confuso como se um homem fraco lhe tivesse retribudo um golpe. No estava acostumado quilo, quelas irrupes de vidas alheias na sua. A confisso era uma 
coisa que as pessoas faziam (ou deixavam de fazer) a si prprias.
- Quando me encarreguei dos seus negcios - explicou Mr. Prewitt - perdi o nico cliente que tinha alm de voc: o Bakeley Trust. E agora perco-o tambm a si.
- O senhor continua com todo o meu servio.
- Dentro em breve no haver mais nada. Colleoni vai tomar o seu lugar e ele tem advogado em Londres, um barra.
- Ainda no me dei por vencido. - Farejou o ar corrompido pelos gasmetros prximos e disse: - J sei o que o senhor tem: est bbedo.
- Borgonha Imprio - esclareceu Mr. Prewitt. - Quero contar-lhe certas coisas. Pinkie, tenho necessidade de desabafar.
- No quero ouvir nada. Os seus aborrecimentos no me interessam.
- Fiz um casamento desigual. Esse foi o meu erro trgico. Era muito novo... um caso de paixo indomvel. Eu era um homem apaixonado - continuou, estorcendo-se de 
indigesto. - Voc viu o que ela  agora. Deus meu! - Inclinou-se para a frente e sussurrou: - Vejo as pequenas dactilgrafas passarem na rua com as suas mquinas 
portteis. Sou completamente inofensivo. No  proibido olhar. Que asseio, que garbo! - Interrompeu-se, com a mo a vibrar no brao da cadeira. - Oua a velha toupeira 
l em baixo. Ela foi a minha runa. - O seu velho rosto enrugado fizera umas frias: frias da bonomia, da astcia, das piadas forenses. Era domingo e ele

239

no usava mscara. - Voc sabe o que o Mefistfeles disse ao Fausto, quando este lhe perguntou onde ficava o Inferno? "Ora, o Inferno  isto aqui e ns estamos dentro 
dele." 
O Rapaz observava-o com temor e fascinao.
- Ela est a limpar a cozinha - informou Mr. Prewitt -, mas no demora muito a subir. Voc devia conhec-la, seria um prazer. Velha megera! Que boa pilhria seria 
contar-lhe, hem? Contar tudo: que estou comprometido num caso de homicdio, que j andam a perguntar coisas por a. Deitar abaixo toda esta maldita caranguejola, 
como Sanso. - Estirou amplamente os braos e contraiu-os, na dor da indigesto. - Voc acertou, eu tenho uma lcera. Mas no quero ir  faca. Prefiro morrer. Tambm 
estou bbedo de borgonha Imprio. V aquela fotografia ali, ao lado da porta? Um grupo de estudantes do Lancaster College. No ser, talvez, uma das escolas mais 
famosas, mas mesmo assim vem no Anurio. Ali estou eu com as pernas cruzadas, na fila de baixo. Com um chapu de palha - acrescentou em voz branda: - Tnhamos competies 
desportivas com Harrow. Um diabo de uma equipa, aquela. Nenhum esprit de corps.
O Rapaz nem sequer voltou a cabea para olhar. Nunca tinha visto Prewitt assim: era um espectculo assustador e empolgante. Um homem assumia vida ante os seus olhos: 
ele via os nervos em aco na carne martirizada, o pensamento desabrochar no crebro transparente.
- Quem diria - acrescentou Mr. Prewitt - que um antigo aluno de Lancaster ia casar com aquela toupeira e teria como nico cliente... - deu aos lbios uma expresso 
de desdenhosa repugnncia - a voc! Que pensaria disto o velho Manders? Uma grande cabea!
Tinha tomado o freio nos dentes: era como um homem resolvido a viver antes que a morte viesse busc-lo. Todos os insultos que recebera das testemunhas da Polcia, 
as crticas dos magistrados, lhe regurgitavam do estmago atormentado. No havia nada que ele no estivesse pronto a revelar ao primeiro que lhe surgisse pela frente. 
Um enorme sentimento de importncia brotava da sua humilhao: a esposa, o borgonha Imprio, os arquivos vazios e a vibrao das locomotivas nas linhas constituam 
o importante cenrio do seu grande drama.
- O senhor tem a lngua muito solta - censurou o Rapaz.

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- A lngua? Eu poderia contar coisas que abalariam o mundo. Que me levem ao banco dos rus, se lhes apraz. Farei grandes revelaes. Desci tanto, que levo comigo... 
- um amor-prprio enorme apossou-se dele; escapou-lhe um soluo, depois outro... - os segredos da sarjeta.
- Se eu soubesse que o senhor bebia, no queria nada consigo.
- Eu bebo aos domingos.  o dia de descanso. - Bateu de repente com o p no soalho e gritou, furioso: - Silncio a em baixo!
- Est a precisar de umas frias - observou o Rapaz.
- Passo os dias sentado aqui... A campainha toca mas so apenas os caixeiros da mercearia... Salmo em lata, ela tem a paixo do salmo em lata. Quando eu toco a 
campainha,  essa cara de estpida que entra. Olho para as dactilgrafas que passam... Seria capaz de beijar aquelas mquinas portteis!
- O senhor sentir-se-ia muito melhor - disse o Rapaz, nervoso e abalado pela conscincia de uma vida alheia a crescer no seu crebro - se fizesse umas frias.
- s vezes - afirmou Mr. Prewitt - tenho mpetos de me exibir vergonhosamente num parque.
- Eu dou-lhe o dinheiro.
- No h dinheiro que possa curar um esprito doente. Isto  o Inferno e ns estamos dentro dele. De quanto pode voc dispor?
- Vinte libras.
- No dava para muito.
- Bolonha... Por que no h-de dar um pulo ao outro lado da Mancha? - aconselhou o Rapaz com horror e nojo, observando aquelas unhas sujas e rodas, as mos trmulas, 
que eram instrumentos de prazer.
- Voc estaria em condies de sacrificar essa pequena quantia, meu rapaz? No quero roub-lo. Se bem que, naturalmente, "eu tenho prestado algum servio ao Estado".
- Posso dar-lhe isso amanh... sob certas condies. O senhor partir no vapor da manh e ficar por l todo o tempo que puder. Pode ser que eu lhe mande mais. - 
Aquilo era como pr uma sanguessuga na prpria carne: sentia fraqueza e asco. - Avise quando o dinheiro se acabar e eu verei.

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- Eu vou, Pinkie... quando voc quiser. E no diz nada a minha mulher?
- Eu sei dominar a lngua.
- Claro! Confio em voc, Pinkie, e voc pode confiar em mim. Refeito por essas frias, regressarei...
- Que elas sejam bem compridas.
- Os mata-mouros da Polcia ho-de sentir a minha astcia revigorada. Em defesa dos oprimidos.
- Vou mandar-lhe j o dinheiro. At l, no receba ningum. V para a cama. O seu ataque de indigesto  muito forte, percebeu? Se vier algum, o senhor no est.
- Voc manda, Pinkie, voc manda.
Era o melhor que podia fazer. Retirou-se e, na rua, olhando para baixo, viu os olhos duros e desconfiados da Sr.a Prewitt: tinha na mo um espanador e vigiava-o 
como a um inimigo figadal, da sua caverna subterrnea. Pinkie atravessou a rua e lanou mais um olhar  casa: numa janela de cima, meio oculto pelas cortinas, estava 
Mr. Prewitt. No o espreitava, estava apenas a olhar para a rua, sem esperana. Era domingo e no passavam dactilgrafas.

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4

-  preciso vigiar a casa - disse o Rapaz a Dallow. - No confio nada nele. Estou a v-lo daqui, a olhar para a rua,  espera de alguma coisa e dando com os olhos 
nela...
- Ele no seria to tolo.
- Est bbedo. Diz que est no Inferno. 
Dallow riu:
- No Inferno, essa  boa!
- s uma besta, Dallow.
- No acredito naquilo que os meus olhos no vem.
- Ento s curto de vista - replicou o Rapaz. Separou-se de Dallow e subiu a escada. Ah! Se aquilo era o Inferno, pensava, no era assim to mau: o telefone antiquado, 
os degraus estreitos, a penumbra poeirenta e confortvel... Aquilo no se parecia com a casa de Prewitt, sem conforto, sacudida pelos comboios, com a velha megera 
na cave. Abriu a porta do seu quarto: ali, pensou, estava a sua inimiga. Olhou em torno de si com um desapontamento raivoso ante a transformao do seu quarto: a 
posio de todas as coisas levemente alterada, tudo varrido e arrumadinho. Censurou-a asperamente: - Eu disse-te que no fizesses isto!
- Eu s arrumei o quarto, Pinkie.
Agora era o quarto dela, no dele; o guarda-fato e o toucador tinham mudado de lugar; e a cama... naturalmente, Rosa no se esquecera da cama. Era o Inferno dela, 
agora: Pinkie renegava-o. Sentia-se enxotado de casa; qualquer mudana s podia ser para pior. Espreitava-a como a um inimigo, disfarando o seu dio, procurando 
entrever a velhice nas feies da rapariga, como ela seria um dia quando olhasse da cave para os visitantes. Regressara envolto no destino de um outro: uma dupla 
treva.
- No gostas, Pinkie?
Ele no era Prewitt; tinha fibra, no fora ainda derrotado.
- Ah! Isto? Est muito bem. Somente eu no esperava... 
Ela interpretou mal o seu ar de reserva:
- Ms notcias?
- Por enquanto, no. Temos de estar preparados,  claro. Eu estou. - Dirigiu-se  janela, olhou o cu sereno e nublado

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de domingo atravs de uma floresta de antenas de rdio e tornou a voltar-se para o quarto transformado. Era o aspecto que teria se ele se tivesse mudado e outros 
inquilinos... Espiou-lhe as feies enquanto fazia o seu passe de prestidigitao, impingindo a sua ideia como se fosse dela: - Tenho o carro pronto. Podamos ir 
para o campo, onde ningum ouvisse... -Mediu cuidadosamente o terror de Rosa e, antes que ela tivesse tempo de lhe devolver a carta, mudou de tom. - Mas isso, s 
se acontecesse o pior... - A frase intrigou-o: o pior era a mulherona com os seus olhos vtreos, justos, a subir a rua fumarenta, e Mr. Prewitt bbedo, arruinado, 
a espreitar por detrs das cortinas a passagem de uma dactilgrafa. - No h-de acontecer - disse animadoramente.
- No - exclamou a rapariga com veemncia. - No acontecer, no pode acontecer!
A sua enorme certeza teve um curioso efeito sobre ele: era como se aquele seu plano estivesse tambm arrumado, mudado de posio, varrido at se tornar irreconhecvel 
para o prprio autor. Teve vontade de contestar que aquilo bem podia acontecer; descobriu em si uma estranha nostalgia do mais sinistro de todos os actos.
- Sou to feliz! - murmurou ela. - No pode ser assim to mau, no fim de contas.
- Que queres dizer? No  mau?  um pecado mortal!
- relanceou os olhos com raiva e repugnncia para a cama arrumada, como se meditasse uma repetio do acto naquele mesmo instante, a fim de lhe incutir melhor a 
lio.
- Eu sei - concordou ela. - Eu sei, mas...
- S h uma coisa pior - tornou o Rapaz. Era como se ela estivesse a escapar-lhe: j comeava a domesticar a tenebrosa aliana de ambos.
- Sou feliz - argumentou Rosa, aturdida. - Tu s bom para mim.
- Isso no quer dizer nada.
- Escuta: o que ser aquilo? - Um tnue lamento penetrava pela janela.
- O mido aqui do lado. 
- Por que no o aquietam?
-  domingo. Talvez tenham sado. Queres ir a alguma parte? Ao cinema?

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A rapariga no ouviu. O choro lamentoso e contnuo absorvia-lhe a ateno. Ela mostrava um ar de maturidade e de responsabilidade.
- Algum devia olhar por aquela criana - afirmou.
- Est com fome ou coisa que o valha.
- Talvez esteja doente. - Rosa escutava com uma espcie de agonia, por induo. - s vezes acontece uma coisa de repente a uma criana. Quem sabe o que ser?
- Ela no  tua.
Rosa voltou para ele o olhar perplexo.
- No, mas eu estava a pensar... que podia ser - acrescentou arrebatadamente. - Eu no deixaria uma criana sozinha uma tarde inteira.
Ele respondeu, perturbado:
- Eles tambm no. - A criana deixou de chorar. - Que foi que eu te disse?
Mas as palavras de Rosa tinham-lhe ficado gravadas no crebro: "Podia ser." Nunca pensara nisso: observou-a com terror e asco, como se estivesse presenciando o prprio 
fenmeno do nascimento, o elo de uma nova vida a prend-lo. Ela continuava imvel,  escuta, com alvio e pacincia como se j tivesse vivido anos dessa ansiedade 
e soubesse que o sossego durava pouco e a ansiedade no deixava nunca de voltar.

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5

Nove horas da manh. Ele saiu furioso para o corredor. O sol matinal filtrava-se pela bandeira da porta de entrada, tingindo o telefone.
- Dallow! Dallow! - chamou.
Dallow veio vagarosamente da cave, em mangas de camisa.
- Ol, Pinkie. Tens cara de quem no dormiu.
- Andas fugido de mim?
- Claro que no, Pinkie. Como agora ests casado... pensei que quisesses estar s.
- Chamas a isto estar s? - retorquiu o Rapaz.
Desceu a escada, levando na mo o sobrescrito cor de malva, perfumado, que Judy introduzira por debaixo da porta. No o abrira. Tinha os olhos injectados. Apresentava 
os sintomas de febre: o pulso agitado, a testa ardente, o crebro inquieto.
- O Johnnie telefonou-me cedo - participou Dallow. - Desde ontem que est de sentinela. Ningum foi ver o Prewitt. Afinal, assustmo-nos por nada.
O Rapaz no lhe deu ateno.
- Quero estar s, Dallow. Completamente s.
- Ests a exceder-te para a tua idade - disse Dallow, pondo-se a rir. - Duas noites...
Pinkie respondeu:
- Ela tem de se ir embora antes que...
No podia exprimir a ningum a magnitude, ou sequer a natureza do seu temor: era como um segredo abominvel.
- Discutir  perigoso - observou Dallow, prudentemente.
- No, nunca mais estaremos livres de perigo. Sei isso bem. O divrcio  impossvel. S resta morrer. De qualquer forma, tenho um plano, como te disse.
- Isso seria loucura. Por que havia essa pobre rapariga de querer morrer?
O Rapaz respondeu com amargura:
- Ela ama-me. Diz que quer estar sempre comigo. E se eu no quiser viver...
- Daily! - chamou uma voz. - Daily! - O Rapaz olhou vivamente para trs, com expresso culpada: no tinha ouvido

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Judy chegar silenciosamente ao patamar, de espartilho e ps descalos. Estava absorto, procurando traar o plano com clareza no seu crebro confuso e ardente, enredando-se 
nas suas complexidades, incerto sobre quem devia morrer: se ele, ela ou ambos...
- Que  que tu queres, Judy? - perguntou Dallow.
- O Frank j passou o teu casaco.
- Deixa l, vou busc-lo daqui a bocado.
Ela atirou-lhe um beijo avaro e insatisfeito e voltou para o seu quarto.
- No h dvida de que meti em boa--disse Dallow. - s vezes sinto-me arrependido. No quero encrencas com o pobre Frank e ela  to imprudente!
O Rapaz olhou, meditativo, como se talvez ele soubesse, pela longa prtica, o que era necessrio fazer.
- E se tivesse um filho? - observou.
- Oh! Isso fica por conta dela. O azar  dela. - E olhando para a mo do Rapaz: - Tens a uma carta do Colleoni?
- Mas o que  que ela faz?
- O que as mulheres costumam fazer, creio eu.
- E se ela no o fizer? - insistiu o Rapaz. - E se ela ficar de barriga?
- H para a umas plulas...
- Nem sempre fazem efeito, no ? - inquiriu o Rapaz. 
Pensava ter aprendido tudo, mas voltara ao seu estado de ignorncia apavorada.
- Nunca fazem efeito, se queres que te diga a verdade - respondeu Dallow. - O Colleoni escreveu?
- Se Prewitt desse  lngua, no haveria nenhuma esperana para ns, hem? - cismou o Rapaz em voz alta.
- Ele no fala. Em todo o caso, esta noite estar em Bolonha.
- Mas se por acaso ele falasse... ou se eu pensasse que ele tinha falado... no me restaria outro remdio, seno matar-me. E ela... ela no quereria viver sem mim. 
Se ela pensasse... E, no fim, talvez fosse um engano. Chamam a isso um pacto de sacrifcio, no ? - Que  que tens metido na cabea, Pinkie? Ests a ir-te abaixo!
- Talvez eu no morresse!

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- Isso tambm  crime de morte.
- Mas no enforcam a gente.
- Ests doido, Pinkie! Eu no me metia numa coisa dessas! - Deu ao Rapaz um pequeno soco amistoso. - Ests a brincar, Pinkie. A pobre rapariga no fez mal nenhum... 
a no ser gostar de ti. - O Rapaz no respondeu nada: mostrava o ar de estar a recolher os prprios pensamentos como pesados fardos, empilhando-os no armazm e fechando-os 
 chave para os esconder do mundo inteiro. - Precisas de ir para a cama descansar - disse Dallow inquieto.
- Quero deitar-me s.
O Rapaz subiu lentamente a escada; quando abriu a porta, sabia o que os seus olhos iam encontrar; desviou-os como para afastar a tentao do crebro asctico e envenenado. 
Ouviu-a dizer:
- Eu ia dar uma voltinha, Pinkie. Se h qualquer coisa em que te possa ajudar...
Qualquer coisa... O crebro dele vacilou sob a imensidade das suas prprias exigncias. Respondeu:
- Nada - e forando a voz a ser suave: - No te demores muito. Temos de conversar.
- Ests preocupado?
- Preocupado, no. Tenho tudo bem arrumado - apontou para a testa com sinistra jocosidade - aqui na caixa.
Sentiu o medo e a tenso de Rosa: a respirao arfante, o silncio, depois a voz metlica do desespero:
- No recebeste ms notcias, Pinkie? 
Ele exasperou-se:
- Pelo amor de Deus, vai-te!
Ouviu-a voltar, aproximar-se, mas conservou os olhos baixos, teimosamente: aquele era o seu quarto, a sua vida; se lhe dessem tempo para se concentrar, seria possvel 
apagar todos os vestgios dela... Tudo voltaria a ser como dantes... antes dele ter entrado no Snow a procurar debaixo da toalha um carto que no estava l e dando 
incio quele embuste e quela vergonha. A prpria origem da situao se perdera: mal se recordava de Hale, como pessoa, ou da sua morte como um crime: tudo agora 
se resumia nela e nele.

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- Se aconteceu alguma coisa, podes dizer-me... eu no tenho medo. Deve haver algum meio, Pinkie, se no... - E implorou-lhe: - Vamos conversar sobre isso, primeiro.
- Ests a fazer barulho por nada. Eu quero que tu vs... podes ir para... - prosseguiu arrebatadamente mas deteve-se a tempo e armou um sorriso. - Vai distrair-te.
- Volto j, Pinkie.
Ele ouviu a porta fechar-se, mas percebeu que Rosa se demorava no corredor; toda a casa lhe pertencia agora. Meteu a mo no bolso e tirou o papel: "No me importa 
o que tu fazes... aonde quer que tu vs, eu irei contigo." Parecia uma carta lida no tribunal e publicada nos jornais. Ouviu-a descer a escada.
Dallow mostrou a cabea  porta e disse:
- Prewitt deve estar em marcha. S me sentirei tranquilo quando souber que ele embarcou. Achas possvel que ela tenha avisado a Polcia para que o prendam?
- Ela no tem provas. No corrers perigo quando ele estiver longe daqui.
O Rapaz falava numa voz apagada como se tivesse perdido todo o interesse na viagem de Prewitt: era uma coisa que dizia respeito aos outros. Quanto a ele, deixava 
essa preocupao de lado.
- Tu tambm estars seguro - afirmou Dallow. 
O Rapaz no respondeu.
- Eu disse ao Johnnie que o seguisse at ao barco e depois nos telefonasse. Com certeza no demora. Devamos festejar isto, Pinkie. Caramba, com que cara ela no 
vai ficar, quando for l e descobrir que o homem levou sumio! - Foi at a janela e olhou para fora. - Pode ser que tenhamos um pouco de sossego, depois. Teremos 
escapado de boa! Quando se pensa nisso... Hale e o pobre Spicer... Onde estar ele agora? - Lanou um olhar vago e sentimental ao tnue fumo das chamins e s antenas 
de rdio. - Que tal, se ns dois (e a garota, est claro) nos mudssemos para outra cidade? Isto aqui no vai ficar muito agradvel, agora que Colleoni se meteu 
no negcio. - Virou-se para dentro do quarto. - E essa carta?... - O telefone ps-se a tocar. - Deve ser o Johnnie - disse ele; e desceu a correr.

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Ocorreu ao Rapaz que no era o som de passos na escada que ele reconhecia, mas o som dos prprios degraus. Podia identific-los mesmo sob o peso de um desconhecido; 
o terceiro e o stimo, a partir de cima, rangiam sempre. Fora para aquela casa que ele viera, quando Kite o recolhera: estava a tossir no Molhe do Palcio, sob o 
frio intenso, escutando o violino que gemia atravs do vidro. Kite dera-lhe uma xcara de caf quente e trouxera-o para ali, sabe Deus porqu: talvez porque ele 
no se dava por vencido, apesar de no ter onde cair morto, talvez porque Kite necessitava de um pouco de sentimento, como uma prostituta que tem um pequins em 
casa. Kite abrira a porta do nmero 63 e a primeira coisa que o Rapaz tinha visto fora Dallow e Judy abraados na escada, e o primeiro cheiro que sentira fora o 
do ferro de engomar de Frank, na cave. Tudo continuara como dantes; nada mudara realmente: Kite morrera, mas ele prolongara a sua existncia no tocando em lcool, 
roendo as unhas como o outro fazia... at que ela tinha vindo alterar tudo.
A voz de Dallow soou l em baixo:
- Ah! No sei... Mande umas salsichas de porco ou feijo em lata. - Pouco depois, tornava a entrar no quarto. - No era o Johnnie, era do Internacional. J eram 
horas de ele telefonar... - Sentou-se na cama, ansioso. - E essa carta do Colleoni? Que diz ele?
O Rapaz atirou-lhe o sobrescrito.
- Como? No a abriste ainda? - Dallow leu a carta. - Bem, est claro que no  l muito agradvel. Era o que eu esperava. Mas, no fim de contas, no  to mau como 
isso. Pensando bem, no  to mau... - Com a carta cor de malva na mo, olhou cautelosamente para o Rapaz que estava sentado junto do toucador a reflectir. - No 
temos nenhum futuro aqui,  a concluso que se tira. Ele ficou com a maior parte dos nossos homens e com todos os agentes de apostas. Mas no quer brigas.  um homem 
de negcios... diz que uma briga como a que tiveste no outro dia lana... descrdito sobre um hipdromo. Descrdito - repetiu Dallow, pensativamente.
- Quer dizer que isso afugenta os trouxas.
- Bem, nesse ponto, ele tem razo. Diz que est disposto a pagar-te trezentas libras pela boa vontade. Boa vontade?

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-  para ns deixarmos de nos meter com os tipos dele.
-  uma boa oferta. Justamente o que eu estava a dizer h pouco: ns podamos pirar-nos hoje mesmo desta maldita cidade, do raio dessa tipa que anda por a a bisbilhotar 
e comear de novo um negcio seguro ou, quem sabe, deixar esta vida e comprar um bar para ns dois... e a rapariga, naturalmente. Quando ser que o Johnnie telefona? 
Isto pe-me nervoso...
O Rapaz manteve-se calado alguns instantes, olhando para as suas unhas rodas. Por fim, falou:
- J sei que tu conheces o mundo, Dallow. Tens viajado.
- No h muitas terras que eu no conhea, entre Brighton e Leicester - tornou Dallow.
- Eu nasci aqui. Conheo Goodwood e Hurst Park. Estive em New Market. Mas fora daqui tenho a impresso de estar no estrangeiro. Creio que tenho Brighton no sangue 
- proferiu ele com desolado orgulho, como se no seu corao estivessem contidas todas as diverses baratas, as carruagens Pullman, as aventuras de fim-de-semana, 
sem amor, nos hotis pomposos, a tristeza que sucede ao coito.
Uma campainha retiniu.
- Escuta - disse Dallow. - Ser o Johnnie?
Mas era apenas a campainha da porta. Dallow olhou para o relgio.
- No compreendo esta demora. O Prewitt j devia estar a bordo.
- Bem - falou o Rapaz em tom sombrio -, a gente muda, no  verdade?  como tu dizes. Temos de ver o mundo... Afinal de contas, eu acostumei-me a beber, hem? Posso 
acostumar-me a outras coisas.
- E tens uma pequena - acudiu Dallow, com falsa jovialidade. - Ests a crescer, Pinkie... como o teu pai.
"Como meu pai..." O Rapaz foi novamente sacudido pelo seu asco das noites de sbado. J no podia culpar o velho... Todos acabavam assim: um homem metia-se com uma 
mulher e depois, sem dvida, contraa o hbito... acabava por se entregar, sem vontade. Nem sequer se podia culpar a pequena. Era a vida a dominar a gente... havia 
aqueles segundos de cegueira em que a coisa parecia maravilhosa.
- Estaramos mais seguros sem ela - disse, apalpando a mensagem de amor dentro do bolso das calas.

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- Ela no  perigosa. Est doida por ti.
- O teu mal - atalhou o Rapaz -  no pensar no futuro. Sero anos e anos... E um dia ou outro ela pode engraar com uma cara nova, aborrecer-se de mim ou coisa 
parecida... Se no a trago na palma da mo, no h segurana...
A porta abriu-se: era ela que voltava; o Rapaz cortou cerce o fio das suas palavras e acolheu-a com um sorriso postio. No era difcil: Rosa aceitava o logro com 
tal avidez, que ele sentia uma espcie de ternura pela sua estupidez e uma companhia na sua bondade. Ambos estavam condenados, cada um a seu modo. Tornou a sentir 
a impresso de que ela o completava.
- No tinha chave - explicou Rosa. - Foi preciso tocar a campainha. Logo que sa, tive medo de que sucedesse alguma coisa. Queria estar aqui, Pinkie.
- No houve nada - afirmou ele. O telefone ps-se a tocar. - Olha, ests a ouvir?  o Johnnie. - E a Dallow, sem alegria: - a tens o que querias.
Ouviram a voz dele ao telefone, aguda de emoo:
-  voc, Johnnie? Sim? Como? No me diga... Sim, depois falaremos. Claro que vamos pagar. - Tornou a subir e os degraus rangeram, cada um por sua vez. A sua carantonha 
brutal e inocente anunciava a boa nova como um focinho de javali num festim. - ptimo! - anunciou ele. - ptimo! No me importo de te dizer que comeava a estar 
preocupado. Mas ele est a bordo e o navio largou h dez minutos. Precisamos de festejar isto. s um s, Pinkie! No te esqueces de nada.

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6

Ida Arnold estava um pouco toldada. Cantarolava baixinho diante do seu copo de cerveja: "Uma noite, na rua, Lord Rothschild disse-me..." O pesado arfar das ondas 
sob o molhe era como o som da gua na banheira; estimulava-a. Estava sozinha, maciamente sentada, cheia de boa vontade para com todo o mundo - excepto uma pessoa. 
O mundo era muito bom para quem no fraquejava; ela era como o carro da vitria num desfile triunfal, seguido pelos grandes batalhes - o direito  o direito, olho 
por olho, quem quer vai, quem no quer manda. Phil Corkery veio ter com ela por entre as mesas; atrs dele, atravs das altas janelas do salo de ch, avistavam-se 
as luzes de Hove; os zimbrios de cobre esverdeado do Metrpole flutuavam na ltima camada de luz, sob as pesadas nuvens nocturnas que se abatiam sobre Brighton. 
A espuma do mar borrifava as janelas como borrifos de chuva. Ida Arnold parou de cantar e disse:
- Ests a ver o que eu vejo?
Phil Corkery sentou-se. A temperatura naquele molhe envidraado no parecia de Vero: ele tinha um ar friorento nas suas calas de flanela cinzenta e blazer com 
o velho distintivo sobre o bolso: um pouco arrepiado, j sem uma sombra do seu ardor de alguns dias atrs.
- So eles - disse em tom cansado. - Como soubeste que vinham c?
- No sabia,  o destino.
- Estou farto da cara dessa gente.
- Mas olha que eles tambm devem estar mais do que fartos - respondeu Ida, deleitada. Olhavam na direco de Frana, atravs do deserto de mesas vazias, para o Rapaz 
e Rosa, acompanhados de um homem e de uma mulher que eles no reconheceram. Se o grupo fora ali festejar alguma coisa, ela estragara-lhes a festa. A cerveja subiu-lhe, 
tpida, na garganta; tinha uma enorme sensao de bem-estar; arrotou e disse: - Perdo - levando  boca a mo enluvada de preto. - Com certeza ele tambm foi embora?
- Foi.

253

- No temos sorte com as nossas testemunhas. Primeiro Spicer, depois a pequena, depois Prewitt e agora Cubitt.
- Embarcou no primeiro comboio da manh, com o teu dinheiro.
- No faz mal - retorquiu Ida. - Eles esto vivos. Ho-de voltar. E eu posso esperar... graas a Black Boy.
Phil Corkery olhou-a de soslaio: era espantoso que ele tivesse tido a audcia de enviar postais de praias quele monstro de energia e resoluo: de Hastings, um 
caranguejo de cujo ventre saa uma srie de vistas; de Eastbourne, um beb sentado num rochedo que se podia levantar, mostrando a Rua Central, com a Biblioteca Boots 
e uma casa de fetos; de Bournemouth (ou seria de outro lugar?), uma garrafa que continha fotografias da avenida, do jardim das rochas, da piscina nova... Era o mesmo 
que oferecer um bolinho a um elefante, em frica. Ela dava-lhe uma impresso de fora colossal. Quando queria divertir-se, no havia nada que a detivesse; e quando 
queria fazer justia...
- No achas, Ida, que j fizemos o suficiente? - perguntou, nervoso.
- Ainda no terminei - respondeu Ida, com os olhos no grupinho condenado. - Nunca se sabe. Eles pensam que esto a salvo, agora; ho-de fazer alguma loucura.
O Rapaz estava calado ao lado de Rosa: tinha um copo diante de si, mas no lhe tocara; s o homem e a mulher falavam disto e daquilo.
- Ns fizemos o possvel. Agora o caso  com a Polcia ou com mais ningum - disse Phil.
- Ouviste o que eles nos responderam daquela vez. - E Ida recomeou a cantar: - "Certa noite, na rua..."
- No temos mais nada a ver com isso, - "Lord Rothschild disse-me..." - Ida interrompeu-se para emend-lo suavemente. No se podia permitir que um amigo alimentasse 
ideias erradas: - Qualquer pessoa que saiba distinguir entre o justo e o injusto tem a ver com isso.
- Mas tu convences-te de uma maneira, Ida! Investes sem olhar a nada... Bem sei que a inteno  boa, mas ns no sabemos que motivos ele pode ter tido... E, alm 
disso - acusou-a -, s fazes essas coisas porque te do prazer. Fred no era pessoa tua amiga.

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Ida volveu para ele os olhos grandes e alegres.
- Bem, eu no digo que no tenha sido... emocionante.
- Lamentava que a coisa houvesse terminado to cedo.
- Que mal h nisso? Eu gosto de fazer o que  justo, mais nada.
A rebelio levantou a cabea, a medo.
- E o que no , tambm.
Ela sorriu-lhe com uma enorme e remota ternura:
- Ah!, isso... No h mal nenhum nisso. No prejudica ningum. No  o mesmo que matar.
- Os padres dizem que .
- Os padres! - exclamou Ida com desprezo. - Ora, se nem os catlicos acreditam nisso! De contrrio, essa pequena no estaria a viver com ele. Podes confiar em mim 
- acrescentou. - Eu tenho visto muita coisa. Conheo a humanidade. - E, voltando pesadamente a ateno para Rosa: - Querias que eu deixasse uma pequena assim entregue 
quele tipo? Ela  irritante, sem dvida,  estpida, mas no merece tal sorte.
- Como sabes que ela no quer ficar com ele?
- No vais dizer-me que ela quer morrer? Ningum quer isso. No, no desisto enquanto no a salvar. Manda vir outra cerveja.
Muito alm do Molhe de Oeste avistavam-se as luzes de Worthing - um aviso de mau tempo - e as ondas rebentavam regularmente, gigantesco salpico de espuma branca 
na escurido, contra os molhes mais prximos da praia. Era possvel ouvi-las bater nos pilares, como os punhos de um boxeur numa bola de treino, preparando-se para 
a mandbula humana, e Ida Arnold comeou a lembrar-se docemente, um pouco bbeda, das pessoas que havia salvo: um homem que tirara uma vez do mar, quando era rapariga, 
o dinheiro dado a um mendigo cego e a oportuna palavra de conforto  colegial desesperada, no Strand.

255

7

- O pobre Spicer tambm tinha a mesma ideia - dizia Dallow. - Pensava em abrir um dia um bar, no sei onde. - Deu uma palmada na coxa de Judy: - Que tal, se ns 
dois fizssemos sociedade com o casalinho? Estou a ver a casa: no meio do campo,  beira de uma dessas estradas principais, com os carros parados  frente; na Grande 
Estrada do Norte: "Pare aqui o seu carro." No me admiraria que no fim fosse mais rendoso... - Interrompeu-se e disse ao Rapaz: - Que aconteceu? Toma uma bebida. 
J no h motivos para nos preocuparmos.
O Rapaz olhou para a mulher atravs da sala de ch e das mesas vazias. No o largava de mo! Era como um furo que ele tinha visto certa vez nos subrbios, entre 
as tocas na greda, com os dentes cravados no pescoo de uma lebre. Em todo o caso, aquela lebre conseguira livrar-se. J no tinha razo para a recear. Murmurou 
em voz surda:
- O campo ... No percebo muito do camp.
-  saudvel - disse Dallow. - Olha, chegarias aos oitenta com a tua patroa.
- Sessenta e tantos anos - retorquiu o Rapaz -  muito tempo...
Atrs da cabea da mulher, as luzes de Brighton estendiam-se como um rosrio na direco de Worthing. A ltima claridade do poente minguava no cu e as pesadas nuvens 
cor de anil baixavam sobre o Grand Hotel, o Metrpole, o Cosmopolitan, sobre as torres e zimbrios. Sessenta anos: dir-se-ia uma profecia, um futuro certo - um horror 
sem fim.
- Que tm vocs dois? - perguntou Dallow.
Aquela era a sala de ch para onde eles tinham vindo depois da morte de Fred - Spicer, Dallow e Cubitt. Dallow tinha razo,  claro: j no corriam perigo. Spicer 
estava morto, Prewitt em Frana e Cubitt sabe Deus onde. (Jamais conseguiriam arrast-lo a um banco de testemunhas; ele sabia muito bem que iria para a forca: o 
seu papel tinha sido demasiado importante e, alm disso, tinha contra si uma priso em 1923.) E Rosa estava casada com ele. Mais seguros no podiam estar.

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Tinham vencido... afinal. Ele tinha (Dallow mais uma vez tinha razo) sessenta anos  sua frente. Os seus pensamentos fizeram-se em pedaos: as noites de sbado; 
depois, o nascimento, o filho, o hbito e o dio. Olhou para o outro lado da sala: o riso da mulher era como uma derrota.
- Est muito abafado aqui dentro - disse. - Preciso de um pouco de ar. - Virou-se devagar para Rosa: - Vamos dar uma volta. - Entre a mesa e a porta escolheu, dos 
seus pensamentos, o pedao que servia e, quando saram para o lado ventoso do molhe, gritou-lhe: - Preciso sair daqui. - Ps-lhe a mo no brao e guiou-a com terrvel 
ternura para o lado abrigado. As ondas vinham de Frana, quebrando-se, martelando os pilares sob os ps de ambos. Um esprito de temeridade apossou-se dele: era 
como no momento em que tinha visto Spicer curvado sobre a mala ou Cubitt a implorar dinheiro no corredor. Atravs dos vidros, via Dallow e Judy sentados em frente 
dos seus copos: era como a primeira semana dos sessenta anos - o contacto, o tremor sensual, o sono corrompido e no acordar sozinho; na escurido bravia e ruidosa, 
ele tinha o futuro inteiro dentro do crebro. Era como uma automtica: a gente pe uma moeda e as luzes acendem-se, as portas abrem-se e os bonecos movem-se. - Foi 
aqui que nos encontrmos naquela noite. Lembras-te? - perguntou ele, passando agilmente  ternura.
- Lembro - respondeu Rosa, observando-o com temor.
- No precisamos deles. Vamos entrar no carro e dar um passeio... - observou-a com ateno - ao campo.
- Est frio. 
- Dentro do carro, no. - Soltou-lhe o brao e disse: - Naturalmente... se no queres ir... eu vou sozinho. 
- Mas onde? 
Ele respondeu com estudada despreocupao: 
- J te disse. Ao campo. - Tirou um penny do bolso e introduziu-o na automtica mais prxima. Puxou uma manivela, sem olhar para o que fazia, e os pacotinhos de 
Chiclets caram com rudo. Um prmio: limo, grape-fruit e tutti-frutti. - Tenho a mo feliz - murmurou. 
- Que tens? - perguntou Rosa. 
- Tu viste-a, no viste? Podes ter a certeza: nunca mais nos largar. Uma vez vi um furo, perto do campo de corridas.

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- Ao virar-se, uma das luzes do molhe feriu-lhe a vista: o claro, um regozijo ntimo. - Vou dar uma volta no carro. Se quiseres, fica a.
- Eu vou - disse ela. 
- No precisas de vir.
- Vou.
Deteve-se numa barraca de tiro. Uma espcie de alegria doida se apossou dele.
- Tem horas? - perguntou ao homem.
- Voc sabe muito bem que horas so. J lhe disse uma vez que eu no sirvo...
- No precisa de se zangar - retorquiu o Rapaz. - Venha de l uma arma.
Mirou com firmeza ao centro do alvo, depois desviou a mo de propsito e atirou. "Alguma coisa o deixara nervoso, disse a testemunha."
- Que  que voc tem hoje? - exclamou o homem. - Acertou no crculo de fora! Ele deps a arma.
- Estamos a precisar de ar fresco. Vamos dar um passeio ao campo. Boa noite. - Plantou a informao meticulosamente, com tanto cuidado como da outra vez, ao recomendar 
aos outros que distribussem os cartes de Fred ao longo do caminho, a fim de utiliz-la mais tarde. Ainda se virou para trs para dizer: - Vamos para os lados de 
Hastings. 
- No lhe perguntei aonde vo - respondeu o homem.
Tinham deixado o velho Morris perto do molhe. O arranque automtico no funcionou e ele teve de dar  manivela. Ficou um instante a olhar para o carro velho com 
uma expresso aborrecida: como se fosse tudo quanto o negcio rendera...
- Vamos pelo mesmo caminho que naquele dia. Lembras-te? No autocarro... - De novo forneceu uma informao, para que o empregado ouvisse: - Peacehaven. Vamos tomar 
qualquer coisa.
Deram a volta diante do Aqurio e galgaram a colina em segunda. Ele tinha uma das mos no bolso, procurando o pedao de papel em que Rosa escrevera a sua mensagem. 
A capota batia e o vidro manchado do pra-brisas limitava o seu campo de viso.
- Daqui a pouco vem um aguaceiro - disse ele.

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- Essa capota no deixar entrar a chuva?
- No faz mal - respondeu o Rapaz, olhando em frente -, no h perigo de nos molharmos.
Ela no ousou perguntar-lhe o que queria dizer com aquilo: no tinha a certeza e, enquanto no a tivesse, podia convencer-se de que ambos eram felizes, de que eram 
amantes a dar um passeio nocturno, livres j de toda a preocupao. Pousou a mo nele e sentiu o seu recuo instintivo; por um momento, foi sacudida por uma horrvel 
dvida: se aquele fosse o mais negro de todos os pesadelos, se ele no a amasse, como dizia a mulher... O vento hmido fustigou-lhe a face atravs do buraco da capota. 
Afinal, no importava: ela amava-o, tinha a sua responsabilidade. Autocarros passavam por eles, descendo para a cidade: pequenas e claras gaiolas domsticas onde 
as pessoas iam sentadas com cestos e livros. Uma criana encostou o rosto ao vidro e, durante um momento,  luz de um sinal do trfego, ficaram to prximas, que 
ela pde imaginar a criana com o rosto encostado ao seu peito.
- Em que ests a pensar? - perguntou o Rapaz e apanhou-a desprevenida: - A vida no  assim to m. No acredites - tornou. - Vou-te dizer o que  a vida.  uma 
priso. Nunca se sabe onde se vai arranjar dinheiro. Vermes, catarata, cancro. A gemte as ouve gritar das janelas de cima: crianas que nascem...  morrer aos poucos.
O momento aproximava-se - ela sabia-o. A luz do tablier iluminava os dedos ossudos e decididos: o rosto estava no escuro, mas Rosa imaginava a excitao jubilosa 
e amarga, a anarquia do olhar. Um sumptuoso carro particular (Daimler ou Bentley, ela no conhecia as marcas) passou por eles maciamente.
- Para que  tanta pressa? - disse o Rapaz. Tirou a mo do bolso e estendeu sobre o joelho um papel que ela reconheceu. - Ests disposta a cumprir a tua palavra, 
no ests? - Teve de repetir a pergunta: - No ests?
Ela teve a impresso de renunciar no s  vida, mas a coisas ainda maiores: ao Cu (fosse l o que fosse),  criana do autocarro, ao beb que chorava em casa dos 
vizinhos.
- Estou - respondeu.
- Vamos beber qualquer coisa, e depois... vers. Tenho tudo arranjado. - Acrescentou com terrvel tranquilidade: - No demora nem um minuto. - Passou-lhe o brao 
em volta

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da cintura e chegou o rosto ao dela: Rosa via-o agora, a reflectir, a reflectir; a sua pele cheirava a gasolina, tudo cheirava a gasolina no velho carro, cujos tubos 
vertiam.
- Tens a certeza... de que no podemos esperar... um dia?
- Para que serve? Tu viste a mulher ainda h pouco. No nos larga. Um dia consegue as provas. Para que serve?
- Por que no deixamos para ento?
- Podia ser tarde, ento. - Proferiu algumas palavras desconexas, por entre o tape-tape da capota : -Uma pancada na porta e, quando a gente d por isso... as algemas... 
tarde de mais... No estaramos juntos, ento - acrescentou com astcia.
Carregou no acelerador e o ponteiro subiu para trinta e cinco: o velho carro no ia alm das quarenta milhas, mas dava uma imensa impresso de velocidade louca: 
o vento fustigava o vidro e irrompia pelo rasgo da capota. Ele ps-se a entoar baixinho: Dona nobis pacem.
- Isso  que no.
- Como?
- Ele no nos dar paz.
O Rapaz pensava: "Em sessenta anos, terei tempo suficiente para me arrepender disto." Iria a um padre, diria: "Padre, matei dois homens. Houve tambm uma rapariga 
que se matou." Ainda que a morte chegasse de repente, ao voltar essa noite para casa, se o carro chocasse contra o poste de iluminao... sempre restava "entre o 
estribo e o cho". De um dos lados da estrada as casas cessaram abruptamente e o mar tornou a fazer sentir a sua presena, rebentando l em baixo, no fundo da falsia, 
o marulho profundo nas trevas. Na realidade ele no se iludia: aprender, no outro dia, que, quando o tempo  escasso, havia outras coisas em que pensar, alm da 
contrio. Que importava, afinal?... Ele no era feito para a paz, no podia crer nela. O Cu era uma simples palavra; o Inferno, uma coisa em que podia acreditar. 
Um crebro s  capaz daquilo que pode conceber, e no pode conceber aquilo que nunca experimentou: as suas clulas eram formadas pelo ptio de recreio cimentado 
da escola, pelo fogo apagado e o homem a agonizar na sala de espera de St. Pancras, pela sua cama no Frank e pela cama paterna. Um terrvel sentimento se agitava 
no seu ntimo: por que no tivera ele a sua oportunidade como os

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outros, por que no lhe fora dado vislumbrar o Cu, ainda que fosse apenas uma nesga entre as paredes de Brighton?... Virou-se, enquanto desciam para Rottingdean, 
e lanou a Rosa um olhar prolongado, como se ela pudesse ser uma nesga de Cu - mas o crebro era incapaz de conceber: viu uma boca que ansiava pelo amplexo sexual, 
o contorno dos seios que reclamavam um filho. Oh!, ela era boa, com efeito, mas no o era suficientemente: ele tinha-a arrastado consigo para baixo.
Acima de Rottingdean comeavam os novos bungalows: arquitectura de sonho de pio; no alto da colina, o obscuro esqueleto de uma casa de sade, alada como um aeroplano.
- No campo ningum nos ouve - disse. Na estrada de Peacehaven no havia luzes: a greda de um corte recente alvejou diante dos faris como um lenol branco; carros 
vindos da direco oposta avanavam sobre eles, cegando-os. - A bateria est em baixo - indicou o Rapaz.
Rosa tinha a impresso de que ele estava a mil lguas dali: os seus pensamentos haviam deixado para trs o acto que ambos iam praticar e seguido viagem... para onde? 
Ele tinha cabea; estava a prever, parecia-lhe, coisas que ela no podia conceber: o castigo eterno, as chamas... Sentiu-se tomada de terror, a ideia da dor atormentava-a, 
a resoluo de ambos rompia por entre a chuva espasmdica que fustigava o velho pra-brisas manchado. A estrada no levava a nenhuma outra parte. Diziam que aquele 
era o pior de todos os actos, o acto do desespero, o pecado sem perdo; sentada no carro, entre o cheiro de gasolina, ela tentava conceber o desespero, o pecado 
mortal, mas no podia; no era realmente desespero o que sentia. Pinkie ia arrostar a condenao, porm ela havia de mostrar que no podiam conden-lo sem condenar 
a ela igualmente. Pinkie no podia fazer nada que ela no fizesse tambm: sentia-se capaz de tomar parte em qualquer assassnio. Uma luz iluminou o rosto dele por 
um instante: o cenho franzido, a reflexo, os traos infantis; Rosa sentiu a responsabilidade agitar-se no seu seio. no deixaria que ele mergulhasse sozinho nas 
trevas.
Comearam a aparecer as ruas de Peacehaven, estendendo-se para os penhascos e as colinas; arbustos espinhosos cresciam em redor das tabuletas com anncios de casas 
para alugar; as ruas terminavam na escurido, numa poa de gua ou em grama impregnada de sal. Dir-se-ia o derradeiro esforo de

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pioneiros desesperados para desbravar uma terra nova: a terra levara a melhor. Ele disse:
- Vamos tomar uma bebida ao hotel e depois... eu conheo o lugar que nos convm.
A chuva caa, indecisa, batendo nas portas escarlates e desbotadas do Lureland, no cartaz que anunciava o torneio de whist da semana passada, no que anunciava o 
baile da prxima semana. Correram para a porta do hotel: no hall no havia ningum - estatuetas de mrmore branco e, na barra verde ao alto das paredes forradas 
de lambrins, rosas e lrios em estilo Tudor, ressaltando em ouro. Sobre os tampos azuis das mesas viam-se sifes e, nas janelas de vidros coloridos, naus medievais 
danavam num mar frio e crespo. Algum tinha quebrado as mos de uma das estatuetas - ou talvez fosse assim mesmo, uma dessas esculturas clssicas de tnica branca, 
um smbolo da vitria ou do desespero. O Rapaz tocou uma campainha e outro rapaz da sua idade surgiu, vindo do bar: pareciam-se singularmente e, no entanto, havia 
entre eles uma diferena significativa: ombros estreitos, rosto magro, ambos se eriaram como ces ao enxergar-se.
- Piker - disse o Rapaz.
- Que foi?
- Vem atender-nos. - Deu um passo em frente, o outro recuou e Pinkie arreganhou os dentes para ele. - Traz dois conhaques duplos; e depressa. - E, adoando a voz: 
- Quem diria que eu ia encontrar o Piker aqui? - Ela contemplou-o com assombro, diante da facilidade com que ele se distraa do seu propsito: ouvia o vento gemer 
nas janelas l de cima; na curva da escada, outra estatueta tumular erguia os braos mutilados. - Fomos camaradas de escola - disse Pinkie. - Ele via o diabo comigo, 
no recreio.
O outro voltou com os conhaques e trouxe consigo, esquivo, amedrontado e cauteloso, toda uma obscura infncia. Ela sentiu-se picada pelo cime: nessa noite, Pinkie 
teria acabado para ela.
- s criado aqui? - perguntou o Rapaz.
- No sou criado, sou empregado.
- Queres que eu te deixe uma gorjeta?
- No preciso das tuas gorjetas.

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O Rapaz pegou no clice de conhaque e bebeu-o at a ltima gota. Tossiu quando o lcool lhe rasgou a garganta: era como absorver a contaminao do mundo.
- Para ganhar coragem - explicou ele; e dirigindo-se a Piker: - Que horas so?
- Podes ver no relgio, se  que sabes ler.
- Vocs no tm msica aqui? Com os diabos, ns queremos festejar!
- H o piano. E o rdio.
- Liga-o.
O rdio estava oculto atrs de uma planta num vaso: um violino gemeu, com as notas sacudidas pelos parasitas.
- Ele tem-me raiva - disse o Rapaz -, tem raiva da minha genica. - E virou-se para zombar de Piker, mas o outro tinha-se retirado. -  melhor tomares esse conhaque 
- pediu ele a Rosa.
- No preciso disso.
- Como quiseres.
Ele estava ao p do rdio e ela diante da lareira apagada; entre ambos, trs mesas, trs sifes e um candeeiro de estilo Tudor, mourisco ou sabe Deus o qu. Uma 
terrvel sensao de irrealidade se apossou deles, a necessidade de conversar, de dizer: "Que noite!" ou "Est muito frio para esta poca do ano".
- Ento ele esteve na escola contigo? - perguntou Rosa.
-  verdade. - Ambos olharam para o relgio: eram quase nove horas e, atrs do violino, a chuva batia nas janelas voltadas para o mar. - No devemos demorar-nos 
muito - disse ele, com ar desajeitado.
Rosa comeou a rezar mentalmente: "Santa Maria, Me de Deus...", mas logo se deteve: estava em pecado mortal, era intil rezar. As suas preces no tinham asas, ficavam 
c em baixo, com os sifes e as estatuetas. Esperava diante do fogo, com uma pacincia aterrada. O Rapaz disse, inquieto:
- Devamos escrever"... qualquer coisa, para que ficassem a saber.
- Mas isso no tem importncia, ou tem?
- Tem, sim, tem! - respondeu ele vivamente. - Temos de fazer as coisas bem feitas. Isto  um pacto. J tens lido isso nos jornais.

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- Muita gente faz isso?
- Acontece todos os dias.
Um vazio e terrvel sentimento de confiana apossou-se momentaneamente dele: os sons do violino apagaram-se e o sinal horrio fez-se ouvir atravs da chuva. Uma 
voz, atrs da folhagem, leu o boletim meteorolgico: tormentas que se aproximavam, vindas do continente, uma depresso no Atlntico, a previso para o dia seguinte. 
Ela ps-se a escutar, mas de repente lembrou-se: que importava o tempo que faria amanh?
- Queres tomar outra coisa? - perguntou ele. Correu os olhos em redor,  procura de um sinal indicador do toilette dos homens: - Preciso de ir... lavar as mos. 
- Ela notou o volume no bolso dele: ia, ento, ser daquele modo... - Acrescenta alguma coisa a esse bilhete enquanto eu vou l dentro - recomendou ele. - Aqui est 
um lpis. Diz que no podias viver sem mim, ou coisa parecida. Isto tem de ser bem feito, como se costuma fazer.
Foi ao corredor, chamou Piker, informou-se e subiu a escada. Junto  estatueta, virou-se e olhou para o hall l em baixo. Era um desses momentos que a gente guarda 
na memria: o vento na extremidade do molhe, os homens a cantar no Sherry, a luz da lmpada nas garrafas de borgonha, o ponto culminante da excitao enquanto Cubitt 
batia furioso na porta. Descobriu que podia recordar-se de tudo sem repulsa; tinha a impresso de que algures, como um mendigo diante de uma casa fechada, a ternura 
batia  porta, mas ele estava couraado pelo hbito do dio. Voltou as costas e subiu a escada. Disse consigo que ia reconquistar a liberdade. Leriam o bilhete: 
ele diria no saber que a separao fosse to dolorosa para ela; devia ter encontrado o revlver no quarto de Dallow, trazendo-o consigo. Naturalmente procurariam 
impresses digitais na arma, e ento... Olhou para fora, atravs da janela do lavatrio: vagalhes invisveis rebentavam ao p do penhasco. A vida continuaria. Terminariam 
os contactos humanos, o assdio do seu crebro pelas emoes alheias: estaria livre novamente: nada em que pensar seno nele prprio. Eu prprio: a palavra ecoou 
higienicamente no meio da loua sanitria, das torneiras, tampes e canos de escoamento. Tirou o revlver do bolso e carregou-o: dois cartuchos. Podia ver no espelho, 
por cima do lavatrio, a sua mo a mover-se em torno do metal mortfero,

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ajustando a alavanca de segurana. L em baixo, o noticirio havia terminado e a msica recomeara, uivando como um co sobre uma sepultura, e a noite enorme comprimia 
a boca hmida contra os vidros da janela. Tornou a pr o revlver no bolso e saiu para o corredor. Era o passo seguinte. Outra estatueta sugeria uma obscura moralidade 
com mos de cemitrio e uma grinalda de flores de mrmore; ele tornou a sentir a presena da piedade a rond-lo.

265

7

- J saram h muito - observou Dallow. - Que andaro a fazer?
- Que te importa? - respondeu Judy. - Querem estar ss. - Comprimiu os lbios carnudos contra a face de Dallow e o seu cabelo vermelho prendeu-se-lhe na boca: um 
gosto azedo. - Sabes o que  o amor - disse ela.
- Mas ele no sabe. - Dallow estava inquieto: certas conversas vinham-lhe  memria. - Tem-lhe raiva.
Passou o brao em volta de Judy, sem muita vontade: no convinha estragar a festa, mas ele daria alguma coisa para saber quais eram as intenes de Pinkie. Tomou 
um grande gole do copo de Judy e algures, para os lados de Worthing, ouviu-se o uivo de uma sereia. Pela janela, ele via um casalinho em idlio no molhe, e um velho 
recebeu da feiticeira envidraada o carto que predizia a sua sorte.
- Por que  que ele no a larga, ento? - perguntou Judy. A sua boca procurava a boca dele ao longo da linha do queixo. De repente, aprumou-se, indignada: - Quem 
 aquela mulher ali? Por que  que no tira os olhos de ns? Isto  um pas livre!
Dallow virou-se e olhou. O seu crebro funcionava muito devagar: primeiro, a afirmao:
- Nunca a vi mais gorda - depois a lembrana. - Como!  aquela maldita tipa que anda a chatear o Pinkie! - levantou-se com dificuldade e cambaleou um pouco entre 
as mesas.
- Quem  a senhora? - perguntou. - Quem  a senhora?
- Ida Arnold, se deseja saber. Os meus amigos chamam-me Ida.
- No sou seu amigo.
- Melhor seria que fosse - respondeu ela com brandura.
- Tome qualquer coisa. Onde foi o Pinkie... e a Rosa? Devia t-los trazido consigo. Este  o Phil. Apresente a sua amiga.
- E continuou no mesmo tom de suavidade: - J era tempo de entrarmos em relaes. Como  o seu nome?
- No sabe o que acontece s pessoas que metem o nariz?...

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- Sei muito bem. Sei perfeitamente. Eu estava com Fred no dia em que os senhores o liquidaram.
- Fale de modo que se entenda - disse Dallow. - Quem diabo  a senhora?
- Deviam saber. Vocs seguiram-nos por toda a avenida naquele velho Morris. - Sorria amavelmente para ele: no era em Dallow que estava interessada. - Parece que 
foi h um sculo, no  verdade?
E era verdade: aquilo parecia ter sido h um sculo.
- Tome uma bebida - ofereceu Ida -, j que est aqui. Onde foi o Pinkie? Parece no ter gostado de me ver aqui hoje. Que  que estavam a festejar? Sem dvida no 
 o que aconteceu a Mister Prewitt. Ainda no podem saber.
- Que quer dizer com isso? - perguntou Dallow. 
O vento batia nas janelas, as criadas bocejavam.
- Amanh lero nos jornais. No lhes quero estragar a festa. E, se ele falar, ainda sabero mais cedo.
- Ele embarcou para o estrangeiro.
- Est na esquadra neste momento - afirmou ela com inteira segurana. - Foram busc-lo - continuou com um modo estudado. - Deviam escolher melhor os seus advogados, 
homens que possam dar-se ao luxo de gozar frias. Foi preso no cais, por vigarice.
Ele observava-a, inquieto. No acreditava nela, mas, em todo o caso...
- A senhora sabe muita coisa. No dorme de noite?
- E o senhor?
A cara amachucada tinha um certo ar de inocncia.
- Eu? Eu no sei nada...
- Foi um desperdcio dar-lhe tanto dinheiro. Teria fugido de qualquer modo, e isso parece suspeito. Quando apanhei o Johnnie, no cais...
Ele encarou-a com indizvel assombro.
- Apanhou o Johnnie? Como diabo?... 
Ela respondeu simplesmente.
- Muita gente simpatiza comigo. - Tomou um gole e acrescentou: - A me dele tratou-o indecentemente quando era garoto.
- A me de quem?
- De Johnnie.

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Dallow estava impaciente, perplexo, amedrontado.
- Que diabo sabe a senhora sobre a me de Johnnie?
- O que ele me disse - respondeu ela. Estava completamente  vontade, os vastos seios prontos para acolher quaisquer segredos. Usava o seu ar de compaixo e de compreenso 
como um perfume forte e barato. - No tenho nada contra si - disse suavemente. - Gosto de estar em boas relaes com todos. Traga a sua amiga para aqui.
Dallow olhou vivamente por cima do ombro e tornou a virar-se para ela.
-  melhor no. - A sua voz baixou de tom e, maquinalmente, ele ps-se tambm a fazer confidncias: - Para falar a verdade,  uma cadela ciumenta.
- No me diga! E o marido...
- Oh! O marido  fixe. O que os olhos no vem o corao no sente. - E, baixando ainda mais a voz: - Frank no pode ver muita coisa, porque  cego.
- Eu no sabia disso.
- Nem podia saber. Quem v o trabalho dele no o diz.  um s com o ferro de engomar. - Interrompeu-se subitamente: - Que diabo quer dizer? No sabia disso? Que 
 que sabia, ento?
- No h muita coisa que eu no tenha apanhado aqui e ali. A vizinhana sempre fala - Ida estava inada de conceitos da sabedoria popular.
- Quem  que fala? - Era Judy que vinha tomar parte na conversa. - E que  que eles tm para falar? Olhe, se eu quisesse contar certas coisinhas deles... Mas isso 
no me agrada - asseverou Judy. - Isso no me agrada. - Olhou vagamente em redor de si. - Que ter acontecido queles dois?
- Talvez eu os tenha assustado - disse Ida Arnold.
- A senhora, assust-los? - fez Dallow. - Essa  de primeira! O Pinkie no se assusta to facilmente.
- O que eu quero saber - atalhou Judy -  quais so os vizinhos que andam a falar, e de qu.
Algum estava a atirar ao alvo, quando a porta se abriu para dar entrada a um casal, eles ouviram os tiros: um, dois, trs.
- Deve ser o Pinkie - calculou Dallow. - Sempre foi bom atirador.

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-  melhor ir ver - observou Ida suavemente. - Ele pode fazer alguma loucura com a sua arma, quando souber.
- A senhora est a deitar-se a adivinhar - disse Dallow. - Ns no temos motivos, para recear Mister Prewitt.
- Por alguma coisa lhe deram dinheiro, suponho eu.
- Ora, o Johnnie esteve a brincar consigo.
- O seu amigo Cubitt parecia pensar...
- O Cubitt no sabe nada.
- Sim - admitiu Ida -, ele no estava l, no  verdade? Refiro-me quela vez. Mas o senhor... No gostaria de ganhar vinte libras? Afinal, no h-de querer comprometer-se... 
Deixe que Pinkie pague os seus crimes.
- Ora, no me mace! A senhora pensa que sabe muito e no sabe nada. - Dallow virou-se para Judy: - Vou  casa de banho. Cuidado com a lngua, seno essa mulher...
Fez um gesto impotente, incapaz de exprimir que coisas ela podia levantar sobre uma pessoa. Saiu, cheio de inquietao, e o vento colheu-o de surpresa, obrigando-o 
a segurar com fora o velho chapu sebento. Descer a escada do toilette dos homens era como descer  casa das mquinas de um navio, durante uma tempestade. Tudo 
tremia sob os seus ps, ao embate das vagas que sacudiam os pilares e seguiam adiante para ir rebentar na praia. "Eu devia prevenir o Pinkie, se essa histria sobre 
o Prewitt  verdade...", pensou. Prewitt estava informado de muitas coisas, alm do caso do velho Spicer. Tornou a subir a escada e lanou um olhar ao longo do molhe: 
Pinkie no se achava  vista. Dirigiu-se para a sada, entre os cinetoscpios: nada. Era outro homem que estava a atirar ao alvo.
- No viu o Pinkie? - perguntou ao proprietrio da barraca.
- Que est voc a armar? - respondeu o outro. - Bem sabe que o vi. Tambm sei que foi dar um passeio de carro ao campo, com a pequena, para os lados de Hastings. 
Disse que queria tomar ar. Tambm quer saber as horas? Pois fique sabendo que eu no juro nada. Se querem uma testemunha, para os vossos libis falsos, vo procurar 
outro.
- Voc no regula - disse Dallow, afastando-se. Atravs do mar que bramia, as igrejas de Brighton puseram-se a dar horas. Ele contou uma, duas, trs, quatro e parou.

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Estava com medo: e se aquilo fosse verdade? E se Pinkie soubesse, e era aquele plano maluco que ele... Quem diabo ia levar algum a passear para o campo quela hora, 
a no ser que fosse para uma estalagem? E Pinkie no frequentava estalagens. "No tolero uma coisa dessas", disse ele baixinho, de si para si. Estava confuso e arrependido 
de ter tomado tanta cerveja; ela era uma boa pequena. Lembrava-se de Rosa na cozinha, a querer acender o fogo. "E por que no havia de o acender?", pensou, olhando 
melancolicamente para o mar; teve um sbito desejo sentimental que Judy no podia satisfazer: o desejo de um jornal com o pequeno almoo, ao p do lume. Ps-se a 
caminhar rapidamente na direco das cancelas. Havia certas coisas que ele no tolerava.
J sabia que o Morris no estaria no parque de estacionamento; no obstante, era preciso ir ver com os seus prprios olhos. A ausncia do carro era como uma voz 
a falar-lhe bem claro ao ouvido: "E se ela se matar... um pacto pode ser o mesmo que um crime, mas no leva a gente  forca." Deteve-se ali, sem saber que fazer. 
A cerveja anuviava-lhe o crebro; passou pelo rosto uma mo torturada.
- Viu sair aquele Morris? - perguntou ao encarregado.
- O seu amigo saiu nele com a pequena - respondeu o homem, coxeando entre um Talbot e um Anstin. Tinha uma perna postia, que movia por meio de um mecanismo accionado 
do bolso, curvando-se com um ar de esforo enorme para meter no bolso uma moeda de seis pence e dizer: "Est uma linda noite." Tinha um ar extenuado pelo vasto dispndio 
de energia que esse acto trivial requeria. - Foram tomar uma bebida a Peacehaven. No me pergunte porqu. - Com a mo no bolso, puxou o fio invisvel e dirigiu-se 
para um Ford, com os seus passos diagonais e pouco firmes. - A chuva no tarda a - disse a sua voz de longe, e: - Obrigado, patro. - Novo esforo tremendo, enquanto 
um Morris Oxford entrava em marcha atrs, novo puxo no fio.
Dallow estava confuso, sem saber que fazer. Havia os autocarros, era verdade... mas tudo estaria terminado antes que um autocarro chegasse l. Era melhor dar o caso 
por perdido... Afinal de contas, ele no tinha a certeza; dentro de meia hora, era bem possvel que o carro aparecesse  esquina do Aqurio, com o Rapaz ao volante 
e a pequena ao lado; no seu ntimo,

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porm, sabia que tal coisa jamais aconteceria com aqueles dois. O Rapaz deixara atrs de si uma profuso de rastos: o recado na barraca de tiro, no parque de automveis; 
queria ser seguido no devido tempo, no momento que lhe convinha, de acordo com a sua verso do facto. O homem voltou, coxeando.
- O seu amigo pareceu-me esquisito, hoje. Um pouco agitado... Era como se estivesse falando no banco das testemunhas, a prestar o depoimento que se pretendia.
Dallow afastou-se, desanimado... Ir buscar Judy, voltar para casa e esperar... Mas deu com os olhos na mulher, a poucos passos dele. Tinha-o seguido e ouvira tudo.
- Com mil diabos, isto  obra sua - disse ele. - Forou o rapaz a casar com ela, arrastou-o a fazer...
- Arranje um carro, depressa!
- No tenho dinheiro para pagar um carro.
- Eu tenho. Vamos, no demore!
- No h motivo para tanta pressa - volveu ele, sem nimo. - Foram apenas tomar uma bebida.
- Voc sabe o que eles foram fazer, eu no sei. Mas, se no quer ficar comprometido, despache-se com esse carro.
A primeira btega de chuva comeou a bater na avenida, soprada pelo vento, enquanto ele argumentava frouxamente:
- Eu no sei nada...
- Est bem - respondeu Ida. - Voc vai s levar-me a dar um passeio de automvel. - De sbito, porm, disparou contra ele: - No seja cretino!  melhor ter-me como 
amiga... Voc est a ver o que aconteceu ao Pinkie.
Apesar disso, ele no se apressou. Que adiantava? Pinkie deixara a sua pista. Pinkie pensava em tudo, queria que eles o seguissem no devido tempo, e encontrassem... 
Dallow no tinha imaginao suficiente para fazer ideia do que iriam encontrar.

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9

O Rapaz parou no alto da escada e olhou para baixo. Dois homens tinham entrado no hall; joviais e molhados, com os seus sobretudos de plo de camelo, sacudiram-se 
como ces para largar a gua da chuva, pediram as suas bebidas, em altas vozes:
- Duas cervejas em caneca - e calaram-se de sbito, notando a presena de uma rapariga no hall. Eram da alta, tinham aprendido a beber cerveja em canecas nos hotis 
de luxo: ele observava-lhes as artimanhas da escada, com dio. Qualquer fmea lhes servia, mesmo Rosa; mas o Rapaz sentia-lhes o pouco interesse. Ela no valia mais 
do que umas gabarolices atiradas de esguelha. - Acho que fizemos oitenta.
- Fiz oitenta e duas.
-  um bom carro.
- Quanto te arrancaram por ele?
- Duzentas libras. Saiu barato.
Ambos tornaram a calar-se e deitaram um olhar arrogante  rapariga ao p da estatueta. No valia a pena, mas, se ela cedesse sem fazer dificuldades... Um deles disse 
qualquer coisa em voz baixa e o outro riu. Tomaram grandes sorvos de cerveja das canecas.
A ternura mostrou o rosto  janela. Que direito tinham aqueles tipos de se gabar diante dela, de rir... Para ele, ela servia perfeitamente. Desceu para o hall: os 
dois homens levantaram os olhos e entreolharam-se com uma careta, como quem dizia: "Bem, afinal no valia a pena..."
- Acaba de beber - proferiu um deles. - Vamos para diante. Achas que a Zo ter sado?
- No! Eu disse que talvez aparecesse por l.
- Que tal  a amiga dela?
- Estupenda.
- Ento, vamos.
Esvaziaram as canecas e encaminharam-se para a porta com ar arrogante, relanceando Rosa ao passar. O Rapaz ouviu-os rir l fora. Estavam a rir-se dele. Deu alguns 
passos no hall. Mais uma vez, ficaram como que paralisados por um glido constrangimento.

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Ele teve uma tentao sbita de abandonar o seu plano, subir com ela para o carro, seguir para casa e deix-la viver. Foi menos uma inspirao de piedade que de 
cansao: tinha tanto que fazer, tanta coisa em que pensar, seria preciso responder a tantas perguntas! Mal podia crer na libertao final e, mesmo assim, essa libertao 
realizar-se-ia num lugar estranho.
- A chuva apertou - disse ele.
Rosa esperava, incapaz de responder: a sua respirao era arquejante como se ela houvesse corrido muito. Parecia envelhecida. Tinha dezasseis anos, mas tal seria 
a sua aparncia aps anos de vida matrimonial, gasta pelos filhos e pelas disputas dirias: estavam diante da morte e esta produzia1 neles o efeito da velhice.
- Escrevi o que tu querias - declarou Rosa.
Esperou que ele apanhasse o pedao de papel e escrevesse tambm a sua mensagem ao juiz de instruo, aos leitores do Daily Express, quilo que se chamava o mundo. 
O outro rapaz entrou cautelosamente no hall e disse:
- Voc ainda no pagou.
Enquanto Pinkie procurava o dinheiro nos bolsos, ela foi tomada por um sentimento de rebeldia quase irresistvel: bastava ir-se embora, deix-lo, recusar-se a levar 
aquilo avante. Ele no podia obrig-la a matar-se: a vida no era assim to m. Esta ideia veio-lhe como uma revelao, como se algum lhe tivesse segredado que 
ela era algum, uma criatura  parte, e no apenas a mesma carne com ele. Sempre poderia escapar... se ele no mudasse de propsito. No havia nada resolvido. Podiam 
entrar no carro, ir aonde ele quisesse, ela podia receber o revlver da mo dele e, mesmo assim, no derradeiro momento, negar-se a disparar. Nada estava decidido, 
havia sempre uma esperana.
- Essa  a tua gorjeta - disse o Rapaz. - Dou sempre gorjeta aos criados. - Voltou-lhe o sentimento de dio: - s um bom catlico, Piker? Vais  missa aos domingos, 
como eles mandam?
Piker respondeu com um dbil ar de desafio:
- Por que no hei-de ir, Pinkie?
- Tens medo. Tens medo de ir para o Inferno.

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- Quem no tem?
- Eu no tenho. - Lanou ao passado um olhar cheio de averso (a sineta rachada a badalar, a criana a chorar sob as vergastadas do mestre) e repetiu: - Eu no tenho 
medo.
- Vamos andando - disse Rosa.
Aproximou-se dela, experimentando-a, encostou-lhe na face a borda da unha (meio carcia, meio ameaa) e disse:
- Tu amar-me-s sempre, no  verdade?
- Sempre.
Ele deu-lhe mais uma oportunidade:
- Nunca me deixarias? - e, como Rosa sacudisse a cabea negativamente, deu incio, com ar cansado,  execuo do plano que um dia lhe restituiria a liberdade.
L fora, na chuva, o motor de arranque negou-se mais uma vez a funcionar: ele levantou a gola do casaco e deu  manivela. Rosa quis dizer-lhe que no devia apanhar 
chuva, pois ela havia mudado de ideias: iam viver, custasse o que custasse. No ousou, porm. Tornou a protelar a esperana, at o derradeiro momento. Quando o automvel 
arrancou, ela perguntou:
- A noite passada... e a outra noite... tu no me odiaste, no  verdade, pelo que ns fizemos?
- No, no te odiei.
- Embora fosse um pecado mortal...
Era verdade: ele no a odiara; nem sequer detestara o acto. Encontrara neste uma espcie de prazer, uma espcie de orgulho, uma espcie de... qualquer outra coisa. 
O carro voltou em marcha atrs para a estrada principal, com a frente para o lado de Brighton. Uma enorme emoo pulsava no peito de Piokie: era como qualquer coisa 
que tentasse entrar, a presso de asas gigantescas contra o vidro. "Dona nobis pacem ..." Ele resistiu, com a fora desesperada que lhe vinha do banco de escola, 
do ptio de recreio, da sala de espera de St. Pancras, da luxria secreta de Dallow e Judy e daquele momento de adversidade no frio cruel do molhe. Se o vidro se 
quebrasse, se o animal desconhecido entrasse, sabe Deus o que ele no faria! Pinkie tinha uma impresso de imensa runa - a confisso, a penitncia e o sacramento 
- e, terrivelmente perturbado, guiava s cegas debaixo da chuva. O pra-brisas manchado no lhe permitia ver coisa alguma. Um autocarro veio

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na direco deles e estacou justamente a tempo de evitar um choque: o Rapaz ia fora da mo. Disse de repente, sem pensar:
- Vamos para aqui.
Uma rua mal acabada estendia-se para o lado do penhasco: bungalows de todas as espcies e feitios, um terreno baldio coberto de grama salgada e espinheiros anes 
que pareciam frangos encharcados. No havia luz, a no ser em trs janelas. Um rdio tocava e, numa garagem, algum fazia funcionar o motor duma motocicleta, que 
rugia e crepitava na escurido. Ele avanou alguns metros rua adentro, apagou os faris e desligou o motor. A chuva penetrava ruidosamente pela fenda da capota e 
eles podiam ouvir o rebentar das ondas no penhasco.
- Olha bem - disse o Rapaz. - A est o mundo. Outra luz acendeu-se atrs dos vidros coloridos duma porta (o risonho Cavaleiro entre rosas Tudor) e, olhando em redor, 
como se fosse ele quem devia despedir-se da motocicleta, dos bungalows e da rua batida pela chuva, o Rapaz pensou nas palavras da missa: "Ele veio ao mundo, que 
era Sua obra, e o mundo no O conheceu."
No era possvel adiar mais a esperana. Rosa tinha de dizer agora ou nunca: "No quero. Nunca tive realmente a inteno de fazer isso." Era como alguma aventura 
romntica: a gente faz o plano de ir lutar em Espanha e, quando d pela coisa, algum lhe traz os bilhetes, mete-lhe na mo as cartas de recomendao, acompanha-o 
ao cais para lhe assistir  partida: tudo  concreto, real. Ele meteu a mo no bolso e mostrou o revlver.
- Tirei-o do quarto de Dallow. - Rosa queria dizer que no sabia fazer uso da arma, alegar qualquer desculpa, mas ele parecia ter pensado em tudo. Explicou: - Est 
destravado, basta puxar aqui. No  preciso fazer fora. Mete o cano no ouvido para ficar mais firme. - O verdor dos seus anos transparecia na crueza das instrues; 
era como um garoto a brincar num monte de entulho. - Anda, pega - ordenou ele.
Era pasmoso que a esperana pudesse ir to longe. "No preciso falar ainda", pensava ela. "Posso pegar no revlver e depois... atir-lo fora, fugir, fazer qualquer 
coisa para impedir isto." No cessava, entretanto, de sentir a presso da vontade de Pinkie. Ele estava resolvido. Pegou no revlver: era como uma traio. "Que 
far ele - pensou - se eu no disparar?"

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Matar-se-ia sozinho, sem ela? Nesse caso, estaria perdido e ela no teria a possibilidade de perder-se com Pinkie, de lhes mostrar que no podiam escolher entre 
os dois. Continuar a viver anos e anos... era impossvel prever at que ponto a vida podia tornar uma pessoa humilde, boa, arrependida. Para ela, a f tinha a claridade 
luminosa das imagens, dos prespios de Natal: aqui terminava a bondade, com a vaca e as ovelhas, e ali comeava a maldade - Herodes, no alto da sua torre, buscando 
com os olhos o stio em que nascera o Menino. Rosa queria estar com Herodes - se ele estivesse l: era possvel bandear-se repentinamente para o lado do mal, num 
momento de paixo ou desespero, mas, atravs de uma longa existncia, o anjo-da-guarda arrastava-nos inexoravelmente para o prespio, a "morte bem-aventurada".
- No precisamos de esperar mais. Queres que eu seja o primeiro?
- No, no!
- Muito bem. Tu vais dar uma volta... ou, melhor ainda, eu dou uma volta e tu ficas aqui. Quando acabares, eu venho aqui e fao a mesma coisa. - Mais uma vez, ele 
dava a impresso de que era um menino entretido num brinquedo, um brinquedo em que se fala friamente, com todas as mincias, em barrigas perfuradas por baionetas 
ou couros cabeludos arrancados, e depois vai tranquilamente tomar ch em casa. - Est to escuro, que no vejo quase nada - disse ele.
Abriu a porta do automvel. Rosa ficou imvel, com o revlver no regao. L atrs, na estrada principal, um carro passou devagar na direco de Peacehaven.
- Sabes como deves fazer? - perguntou desajeitadamente. Pareceu pensar que ela esperava algum gesto de ternura da sua parte. Inclinou-se e beijou-a na face; tinha 
medo da boca: os pensamentos comunicam-se com tanta facilidade de um lado a outro! - No faz doer - assegurou ele, e deu alguns passos na direco da estrada principal.
O rdio tinha parado; a motocicleta explodiu uma ou duas vezes na garagem, ps moveram-se no cascalho e, na estrada principal, ela ouviu um automvel fazer marcha 
atrs.
Se era um anjo-da-guarda que lhe falava nesse momento, dir-se-ia um demnio; tentava-a ao cometimento de uma boa aco como se fosse um pecado. Deitar fora o revlver 
seria

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uma traio, um acto de covardia: significaria que ela preferia nunca mais tornar a v-lo. Mximas morais revestidas de um tom sacerdotal e pedantesco, lembranas 
de velhas prdicas, confisses, doutrinas ("poders rogar por ele junto ao trono da graa") vieram-lhe ao esprito como insinuaes pouco convincentes. A m aco 
era a aco honesta, corajosa e leal: parecia-lhe que era a falta de coragem que falava com esse ar de virtude. Levou o revlver ao ouvido e tornou a baix-lo, com 
uma sensao de nusea. Que amor era esse que tinha medo da morte? Ela no receara cometer o pecado mortal: era a morte, e no a condenao, que a aterrorizava. 
Pinkie dissera que aquilo no doa. Rosa sentiu a vontade dele impulsionar-lhe a mo: podia confiar em Pinkie. Tornou a erguer o revlver.
Uma voz gritou com fora: "Pinkie!" e ela ouviu algum patinhar nas poas de gua. Ps corriam: ela no saberia dizer de onde, nem para onde. Pareceu-lhe que devia 
haver alguma novidade, que aquilo devia modificar a situao. No podia matar-se agora: talvez fossem boas novas. Dir-se-ia que algures, na escurido, a vontade 
que a governava tinha afrouxado, e todas as foras hediondas da autoconservao tornaram a apossar-se dela. Parecia um sonho, e no a realidade, que ela tivesse 
tido a inteno de apertar o gatilho. "Pinkie!", tornou a gritar a voz, e os passos na gua aproximaram-se. Ela abriu violentamente a porta do carro e atirou para 
longe o revlver, na direco dos arbustos encharcados.
 luz que se coava pelo vidro colorido da porta, ela avistou Dallow e a mulher - e, com eles, um polcia de ar confuso, como se no compreendesse bem o que estava 
a acontecer. Algum deu a volta ao carro sem rudo, por trs dela, e perguntou:
- Onde est esse revlver? Por que no disparas? D-mo.
- Deitei-o fora - respondeu ela.
Os outros aproximaram-se cautelosamente, com uma deputao. Pinkie gritou de sbito, numa voz infantil e dissonante:
- Ah! Dallow, traidor do inferno!
- Pinkie - exclamou Dallow -, est tudo perdido: eles prenderam Prewitt.
O polcia parecia pouco  vontade, como um estranho numa festa.

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- Onde est esse revlver? - tornou a dizer Pinkie. E gritou numa voz aguda, cheia de dio e de medo: - Meu Deus, terei de fazer um massacre.
- Deitei-o fora - repetiu Rosa.
Viu-lhe indistintamente o rosto, inclinado sobre a luzinha do tablier. Era como o rosto de uma criana atormentada, confusa, trada: os anos de embuste haviam desaparecido 
e ele voltara ao ptio de recreio da sua meninice infeliz.
- Minha... - comeou a dizer, mas no terminou: a deputao aproximava-se e ele afastou-se de Rosa, metendo a mo no bolso. - Salta para c, Dallow, traidor do inferno!
Ergueu a mo. Ela no compreendeu o que se passou em seguida: um vidro quebrou-se, ele soltou um grito agudo e Rosa viu-lhe o rosto... fumegante. Ele gritava, gritava 
sem cessar, com as mos nos olhos; virou-se e largou a correr; Rosa viu um cassetete da Polcia aos ps dele, e cacos de vidro. Pinkie parecia reduzido a metade 
do seu tamanho, dobrado em dois por uma tortura indizvel: era como se as chamas se estivessem apossando literalmente dele e o seu corpo se contrasse, voltando 
ao tamanho de um garoto a fugir, dominado pela dor e pelo terror pnico, saltando uma cerca, correndo sempre.
- Agarrem-no! - gritou Dallow.
Mas era intil: ele j tinha chegado  beira e cara no vcuo; nem sequer o ouviram cair na gua. Era como se uma mo o tivesse subitamente arrancado  existncia, 
passada ou presente, reduzindo-o a zero.

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10 

- Isto mostra - disse Ida Arnold - que basta ser persistente.
Tomou o resto da cerveja e pousou o copo em cima do barril virado do bar de Hennekey.
- E Prewitt? - perguntou Clarence.
- Como s bronco, velho fantasma! Isso foi pura inveno minha. No podia andar atrs dele por toda a Frana, e a Polcia... tu sabes como  a Polcia... Quer sempre 
provas.
- Prenderam o Cubitt?
- O Cubitt, no seu juzo perfeito, no falava. E ningum conseguiria embebed-lo o bastante para falar  Polcia. Olha, o que eu estive a dizer-te  a calnia... 
ou, pelo menos, seria calnia se ele estivesse vivo.
- A conscincia no te acusar, Ida?
- Algum teria morrido, se ns no fssemos l.
- Era ela mesma que queria.
Mas Ida Arnold tinha resposta para tudo:
- Ela no compreendia. Era apenas uma garota. Julgava que ele a amasse.
- E que  que ela pensa agora?
- No me venhas perguntar a mim. Eu fiz tudo o que pude. Levei-a para casa. O que uma rapariga precisa, numa ocasio dessas,  do pai e da me. Em todo o caso, deve 
agradecer a mim o estar viva.
- Como foi que conseguiram levar o guarda?
- Dissemos que eles tinham roubado o carro. O pobre homem no sabia a quantas andava, mas agiu com rapidez, quando Pinkie puxou do frasco de vitrolo.
- E Phil Corkery?
- Anda a falar em Hastings, no ano que vem, mas eu tenho um palpite que, depois disto, no tornarei a receber bilhetes-postais.
- s uma mulher terrvel, Ida - disse Clarence. Soltou um fundo suspiro e olhou para dentro do seu copo. - Vai outro?
- No, Clarence, obrigada. Preciso de ir para casa.

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- s uma mulher terrvel - repetiu ele; estava um pouco embriagado -, mas tenho de reconhecer que procedes na melhor das intenes.
- Em todo o caso, a conscincia no me acusa.
- Como dizes, tinha de ser ele ou ela.
- No havia outra alternativa - retorquiu Ida Arnold. 
Levantou-se; dir-se-ia uma figura de proa, representativa da vitria. Fez um aceno de cabea a Harry, no balco.
- Esteve fora, Ida?
- S uma semana ou duas.
- Nem parece tanto - disse Harry.
- Bem, boa noite a todos.
- Boa noite. Boa noite.
Ela tomou o metropolitano para Russel Square e seguiu a p, carregando a mala. Abriu a porta e procurou a correspondncia no vestbulo. Havia apenas uma carta, de 
Tom. Ela j sabia qual seria o contedo; o seu grande e generoso corao einterneceu-se, enquanto ela pensava: "Afinal de contas, reflectindo bem, Tom e eu sabemos 
o que  o amor." Abriu a porta que dava para a escada da casa e chamou:
- Crowe! Velho Crowe!
-  voc, Ida?
- Venha dar dois dedos de cavaco c acima, e vamos experimentar a prancheta.
As cortinas estavam corridas como Ida as deixara; ningum tocara nas louas da chamin, mas a novela de Warwick Deeping no se achava na prateleira e Os Bons Companheiros 
estavam deitados. Percebeu que a mulher a dias estivera ali, levara livros de emprstimo. Tirou uma lata de bolachas de chocolate para o velho Crowe: a tampa no 
fora bem ajustada e as bolachas estavam um pouco moles e velhas. Ergueu ento a prancheta, com cuidado, tirou as coisas da mesa e colocou-a no centro. SUIKILLEYE, 
pensou ela. Agora sei o que isso significa. A prancheta previra tudo: Sui era a palavra com que procurara exprimir o grito, a agonia, o salto no vcuo. Ps-se a 
cismar docemente, com os dedos na prancheta. Pensando bem, era esta que tinha salvo Rosa. Uma multido de ditados populares comeou a desfilar-lhe pela cabea. Como 
no momento em que as agulhas mudam de posio, o sinal baixa, a luz vermelha passa para verde e a grande locomotiva envereda

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pelos trilhos habituais. Estranho mundo este, h mais coisas no cu e na terra...
O velho Crowe mostrou a cabea  porta.
- Que h-de ser desta vez, Ida?
- Quero pedir um conselho - respondeu Ida. - Quero perguntar se no  melhor que eu volte para junto de Tom.

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11

Rosa via apenas a velha cabea curvada para a grade do confessionrio. O padre tinha um silvo na garganta. Escutava com pacincia, silvando, enquanto ela expunha, 
dolorosamente, toda a sua agonia. Ouvia as mulheres, exasperadas, remexerem-se nos bancos que rangiam,  espera da confisso.
-  disto que eu me arrependo - confessou ela -, de no ter ido com ele.
Tinha um ar de rebeldia, os olhos secos no ar abafado do confessionrio; o velho padre estava constipado e cheirava a eucalipto.
- Continue, minha filha - disse na sua voz branda e nasal.
- Antes eu me matasse. Devia ter-me matado. - O velho ps-se a dizer qualquer coisa, mas a pequena interrompeu-o. - No estou a pedir a absolvio. No quero a absolvio. 
Quero ser como ele... condenada.
A garganta do velho silvou, tomando flego. Ela tinha a certeza de que ele no entendia nada. Repetiu monotonamente: - Antes eu me matasse... - Apertava as mos 
contra o peito, na exasperao da sua dor: no tinha vindo confessar-se, tinha vindo para reflectir. No podia reflectir em casa, onde o fogo no fora aceso, seu 
pai estava de birra e a me (ela percebia-o pelas suas perguntas indirectas) desejava saber quanto dinheiro Pinkie... Teria encontrado coragem para matar-se agora, 
se no receasse que, nesse escuro pas da morte, pudesse desencontrar-se dele - a misericrdia, por algum motivo, acolhendo um e rejeitando o outro. Disse em voz 
entrecortada: - Aquela mulher... Ela  que devia ser condenada. Dizer que ele queria desfazer-se de mim... Ela no sabe o que  o amor.
- Talvez ela tivesse razo - murmurou o velho sacerdote.
- E o senhor tambm, no? - disse ela, furiosa, comprimindo o rosto infantil contra a grade.
O padre comeou subitamente a falar, sibilando de tempos a tempos e bafejando eucalipto atravs da grade:
- Havia um homem, um francs (no pode ter ouvido falar dele, minha filha), que tinha essa mesma ideia. Era

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um homem, bom, um homem santo, e viveu toda a vida em pecado, porque no podia admitir que houvesse uma s alma que merecesse ser condenada. - Ela escutava cheia 
de assombro. - Esse homem chegou  concluso de que, se alguma alma fosse condenada, ele deveria s-lo tambm. Nunca recebeu os sacramentos e no quis casar na Igreja. 
Eu no sei, minha filha, mas h quem o julgue... bem, um santo. Creio que ele morreu naquilo que dizem ser pecado mortal. No tenho a certeza: foi na guerra; talvez... 
- suspirou e silvou, curvando a cabea branca. - No pode conceber, minha filha, nem eu, nem ningum pode, o... espantoso mistrio da misericrdia divina.
Do lado de fora, os bancos no cessavam de ranger: pessoas impacientes por se libertarem do rito semanal do arrependimento, da absolvio, da penitncia. O padre 
tornou a falar:
-  o caso de se dizer: nenhum homem teve maior amor do que este, que deu a alma pelo seu amigo. - Teve um arrepio e espirrou. - Devemos esperar e rezar sempre; 
esperar e rezar. A Igreja no exige que acreditemos que qualquer alma  excluda da misericrdia divina.
Rosa respondeu, cheia de triste convico:
- Ele est condenado. Sabia o que fazia. Era catlico, tambm.
- Corruptio optimi est pessima - pronunciou ele, com brandura.
- Como, padre?
- Quero dizer: um catlico  mais capaz do mal que um outro qualquer.  possvel que, por acreditarmos Nele, estejamos em contacto mais ntimo com o Diabo do que 
as outras pessoas. Mas devemos esperar - acrescentou maquinalmente -, esperar e rezar.
- Eu queria ter esperana, mas no sei como.
- Se ele a amava, isso certamente mostra que havia algo de bom...
- Mesmo um amor assim?
- Mesmo esse amor.
Ela ps-se a meditar sobre essa ideia no pequeno cubculo escuro. O padre disse:

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- E no tarde a voltar... no lhe posso dar a absolvio agora... mas volte amanh.
Rosa respondeu dbilmente:
- Sim, padre... E se houver um filho...
- Com a sua simplicidade e a fora dele... Faa dele um santo... para rezar pelo pai.
Um sbito sentimento de gratido imensa rompeu por entre a dor: era como se lhe tivessem deixado entrever, ao longe, a renovao da vida.
- Reze por mim, minha filha - rogou ele.
- Rezo, sim!
Levantou-se e olhou o nome sobre a porta do confessionrio: no se lembrava de t-lo visto alguma vez. Um padre vem, outro vai...
Saiu para a rua. A dor no a deixara: no se podia afugent-la com uma palavra; mas o maior dos horrores havia passado, pensava ela: o horror de ter completado o 
ciclo; a volta para casa, a volta para o Snow (aceit-la-iam l novamente), como se o Rapaz nunca tivesse existido. Ele existira e existiria sempre. Rosa teve uma 
convico sbita de que levava uma nova vida dentro de si, e pensou com orgulho: "Vamos ver se eles tambm acabam com isto..." Desembocou na praia, em frente ao 
Molhe do Palcio, e avanou firmemente para os lados da penso de Frank, na direco contrria  da sua casa. Havia qualquer coisa a recuperar l, naquele quarto, 
outra coisa com que eles tambm no poderiam acabar: a voz de Pinkie a dirigir-lhe uma mensagem e, se houvesse um filho, falando a esse filho. "Se ele a amava", 
dissera o padre, "isso certamente mostra ..." Rosa caminhava rapidamente, no leve sol de Junho, para o pior de todos os horrores.

284

Fim
